Ariel - Capítulo I

Tinha bebido imenso, bagaço, vinho tinto, aguardente velha, eu sei lá! Sentia-me perdido, sim, um tanto ou quanto fora de mim, confesso; contudo, sabia que a noite não iria morrer assim, não, hoje não, muito obrigado. Tinha encontrado uma mulher que me agradava: ruiva, alta, esguia, uns perfurantes e felinos olhos verdes capazes de me atravessar o corpo e desvendar as torpes e abjectas intenções que se me aconchegavam no espírito. Isso excitava-me. Sem sombra de dúvida, excitava-me. Não só me excitava, como me incitava a pôr freio à bebedeira e me obrigava a manter a consciência intacta, muito embora sentisse que o meu crânio era feito de porcelana, pronto a estilhaçar-se ao primeiro impacto.

O passar do tempo tornava cada vez mais doloroso manter os olhos abertos. Hm… permiti aos músculos descontraírem sobre o assento esponjoso e rasgado da velha carcaça do Hel. C'os diabos! Que fazia eu na carripana do Hel?, sem direcção assistida, estofos rasgados, cheio de fuligem, ar condicionado inexistente, libertando uma chiadeira horripilante sempre que encostava o pé ao travão? Liguei o rádio - na esperança de apanhar uma velha toada que assaltara a rádio nos anos 70 e que ainda hoje perdurava. Como era mesmo? «It’s gonna be a bright, bright sunshiny day»? Uma merda do género. Por alguma razão ao qual era alheio, agradava-me - e, como é óbvio, o menino Hel não cuidara de manter o correcto funcionamento do seu rádio (pelo menos isso, Hel, porra!). Pois, o traste conduzia o meu carro, o meu R6, novo, cheiroso, apetrechado dos mais brilhantes botões e obscuras funções, que eu seguia, de momento. E, no banco de trás, ia a ruiva, beijando-lhe o pescoço, despindo-se para gáudio do espelho retrovisor, acariciando-o. «Hel, meu sacana, és mais esperto do que pareces!» Estranhamente, no lugar da recordação em que decidíramos, pelos vistos, trocar de carro, numa troca em que saíra claramente a perder, encontrava-se o vácuo.

Recapitulei então os eventos dessa noite: o bar, a loira, o Hel, a ruiva, tudo acontecimentos que não eram de somenos importância e todos eles intercalados pela bebida adequada. A minha mente assemelhava-se a um novelo enrodilhado e sentia que só agora começava a desfazer os nós. Ainda assim, havia ainda muitos por desfazer. Que se seguira?, hm… pois… o Hel desaparecera, no bar, deixara-me a sós com a miúda, a ruiva, com os seus lábios vermelhos e apetecíveis, que apetecia ter beijado logo ali, assim mesmo, de chofre, no momento, e as pernas cruzadas, as coxas roçando uma na outra, num convite quase insidioso; saí com ela do bar, em direcção ao R6, o Hel lá apareceu, com o R7 e, com ela, partimos para a casa do meu amigo, perdida num matagal verdejante mesmo na intersecção que dá para a serra de Sintra e agora ali estava eu, numa cama que desconhecia, lençóis de flanela, em casa do Hel, à espera talvez duma sua prima afastada, retida quando a noite não passava duma ilusão feita de sombras estranhas que me enevoavam a razão e ao mesmo tempo me faziam sentir no íntimo que aquela era uma noite de resoluções de vida e de morte, até para prima ausente - à medida que fazia o R7 do Hel galgar quilómetros a fio na auto-estrada de Lisboa para Cascais.

Ariel - Capítulo II

Estacionei o R6 no 24 horas de serviço, puxei o travão de mão, suave, silencioso, e passei os olhos pelo espelho retrovisor como quem não quer a coisa, de forma casual. O meu olhar não se cruzou com o dela. Apanhei-a com os dedos longos a cobrir os lábios, contendo um discreto bocejo. Desviei o olhar ao ouvir a chiadeira típica dos travões do meu R7; às quatro da manhã, na auto-estrada vazia, o som ecoou como unhas a arranhar um quadro numa sala vazia. Lúcio estacionou a meu lado, o escape alucinado de fumo e cheiro a óleo queimado. Saiu do carro e, numa passada larga e confiante, dirigiu-se à estação. Segui-o com o olhar. Ao voltar, assomou à janela do pendura e, tirando o cigarro dos lábios, repreendeu-me, ríspido, mas condescendente, por entre uma nuvem de fumo, com um sorriso trocista nos lábios finos (sabia bem que eu era um teso), que devia tratar melhor o meu carro, que devia «tratá-lo como a uma mulher bonita». Rimos os dois e Lúcio virou o pescoço da janela para o banco de trás, querendo certificar-se do estado de espírito da nossa convidada. Parecia pensativo enquanto a observava. Decidi interromper as suas cogitações perguntando-lhe o que tinha vindo fazer aqui. Refrescos, disse-me, tínhamos de comprar refrescos. Abriu a porta do R6 e sentou-se a meu lado. «Esqueci-me do teu iced tea. Queres que te traga um?», perguntou, mordaz, rindo, desenfreado, e arrastando-me para o seu frenesi de gargalhadas. Às tantas, até a ruiva fora contagiada pelo nosso humor, o seu riso entrelaçando-se com o nosso.

Entre as ilusões e as certezas de que abarrotava o suposto diálogo que com ele mantinha, ao mesmo tempo que o meu pé descansava no acelerador como se a minha existência disso dependesse, entre duas passas num cigarro artesanal enrolado por mim e meia dúzia de conselhos fraternais dele, a conversa, a animação e a camaradagem jorravam como se do R7 imanasse um afluente no rio da nossa parvoíce imberbe mas sincera, como se a rapariga que ele insistira em trazer connosco fizesse também parte de um papel maior no desígnio máximo das coisas; e foi assim que me pisou o pé, abruptamente, fazendo com que o ruído do motor acelerasse toda a estação de serviço até os três de nós nos rirmos como crianças à solta na vida que era aquela estrada até minha casa, onde eu tinha os meus próprios planos para a miúda que se espraiava em tons de preguiça indulgente no banco de trás do R6.

Mal sabia eu que a noite ainda reservava surpresas, sobretudo a maior de todas e não a que apenas acabava de me confrontar com os seus sequiosos lábios vermelhos e os seus grandes olhos verdes, tentadores, brilhando por entre a melena de fogo que lhe afagava o rosto de seda, enquanto o meu grande amigo, na sua demência alcoólica, ainda discursava, crente em fidelidades igrejas e códigos de honra ultrapassados, mas não para todos, talvez.

Quem sabe se não seria a última vez que me encontrava com ele, mas, fosse como fosse, valia a pena. Era ela. Sim, era ela. A ruiva que nos acompanhava. A mulher com quem iria ser feliz. Sim, era com ela. Só tinha de encontrar maneira de me livrar do Lúcio.

Ariel - Capítulo III

Abandonei o devaneio de morte e felicidade em que me lançara na estação de serviço e, arrancado de volta à realidade, com uma mão no estômago e com a outra sobre a boca, soltei um sonoro arroto. Após um silêncio de espanto face à minha repulsiva manifestação estomacal os meus dois companheiros riram-se de novo, ruidosamente, talvez que ruidosamente a mais.
No banco de trás, na minha nuca, a pensar, sabia-o, encontravam-se aqueles dois olhos verdes, despertos e húmidos, acompanhados dum riso subitamente quase que infantil em demasia. Sentia isso perfeitamente. Ria-me também mas algo mudara. Fora como se se tivesse criado, a dado passo da nossa jornada desde Lisboa, um clima diferente, um pouco como se estivéssemos a fingir o nosso real estado de embriaguez, embora eu continuasse bêbado dos pés à cabeça e assim desejasse permanecer, sentia que algo mudara. Fora a miúda da bomba. O café e também o “refrigerante”, com uma acidez um pouco acima de 40 graus, fora isso.
Aquela história começava a assustar-me. Estava muito bêbado e algo não batia certo, a começar na porcaria de chaço que tivera o desprazer de conduzir nos últimos quarenta quilómetros e a terminar naquele parceira bizarra de olhos verdes e cabelo ruivo no banco de trás do meu carro. No banco de trás do meu R6, da minha viatura confortável, segura e imbuída do glamour necessário à prossecução das minhas capacidades no que respeitava ao burocraticamente burlesco das actividades que desempenhava, zelosamente, no Ministério; havia algo naquela rapariga que não batia certo.
O que era? Já sabia. O meu pai não aprovaria. Não falo da bebedeira. Nem sequer da troca do carro. Oferecera-me o carro e jamais admitiria questionar o destino que pudesse dar aos seus presentes. O meu pai era e é assim. Mas não aprovaria. Uma puta estava no meu carro, à frente da bagageira, fria, na minha nuca, à frente dos documentos, não se assumindo como o que era. Sim, de todo o velhote aprovaria. Quanto mais não fosse… Ali havia gata. Dei mais um longo gole na garrafita de que me munira com a menina do balcão, já essa era mais gatinha, a miúda, bem bonita por sinal, mulata, da minha altura, peso aproximado, e fitei o Hel, perpendiculando-me provocatoriamente em relação à ruiva, enquanto aproveitava para lhe cravar lume, arrogante, em tudo displicente no meu gesto silencioso com que o cigarro cortava a atmosfera embaciada do R6 e o chaço do Hel mesmo atrás a fazer sombra. Ela nem tugiu nem mugiu, surripiou um isqueiro de grife da sua maleta, só agora reparava que trazia uma maleta, grená, e sorriu, cúmplice, à medida que me acendia o cigarro. Que linda que era. Linda.
Hmm, reflecti. Dei outro gole ainda mais longo e disse, finalmente, para quebrar o gelo que sentia num outro rosto que se perpendiculava um tudo ou nada torpe, um tudo ou nada resistente, mesmo à minha frente: Bom, menino, acorda rapaz, vamos trocar de carro como deve ser e é de direito?.. O Hel não gostou da sugestão, vi logo que não lhe agradava e, glauco, sem lhe permitir hesitações, passei-lhe a garrafa para as unhas. Tirou-lhe a rolha, bebeu, generoso, sem medo e o acelerador voltou a soar, desta feita um tudo ou nada amantigado, essa era a palavra, sibilando por entre os corredores das bombas de gasolina da estação de serviço até se lhe esmoerem os arroubos de gasolina ao encontro ao vidro da menina do balcão, mulata.
Eu sorri, feliz, arranquei-lhe a garrafa e passeia-a à ruiva, só para ver melhor o filme dela; daquela falsa puta ruiva. Que cabra. Bebe, disse-lhe. Crivou-me os olhos entre o nariz, furiosa, por certo, desarrolhou e enfiou o gargalo na boca, até o Hel ficou tonto, até a garrafa ter sido despejada.
Topei o Securitas ao canto da estação a franzir o sobrolho e gostei ainda menos da maneira como as coisas se estavam a desenrolar. Era o momento de fazer alguma coisa e dei mais um gole: “Mexe-te, anda, vamos trocar de carro, ias batendo lá atrás, lamento, volta para a tua chocolateira."
Então, com um sorrisinho escarninho, entre dentes, acrescentei: “Podes levá-la, isso, leva-a, leva-a contigo, otário!..” confiante de que, pelo menos por enquanto, restabelecera a minha supremacia sobre o esquema geral dos coisas e sobre a minha amizade com o Hel em particular. Afinal de contas, eu e ele éramos amigos, long time, e ser amigo também é não abusar. É como esboçar um não o faças e isso juntava-se à equação do meu novo veículo que o meu pai me oferecera e… Compreendem. Coisas de documentos. Os documentos eram importantes. “Lúcio, porque é que não te calas?” falou a puta.
Miravam-me e ao meu companheiro, promissores e convidativos, os seus olhos verdes, e os seus lábios de púrpura seda sanguinolenta desenhavam-se num sorriso de parvoíce completa, relaxada... Que puta tão bela, estaria embriagada? Talvez não passasse de um desejo inflamado pelo álcool, pelo meu álcool, comprado com o meu dinheiro, nos meus bancos do meu R6 de cabedal; “Dá-me lume amor, dá-me lume”, replicou, no gozo, a gozar o prato como se fosse a primeira vez.
Sim, dou-te. Sim, dás-mo, ele ri-se de ti e do teu carro. Sim, tu ainda te ris mais de nós os três. És um tonto, Lúcio. Sou? Tu é que és uma tonta, uma desvairada, Ariel, cuspi para o Hel, recordando-me do seu nome.
Parecíamos três fedelhos, quando bati com a porta do meu carro e me encaminhei decidido para a deprimente chocolateira dele (céus, como era capaz de conduzir tal desastre), mas eu, pelo menos, desejava algo mais naquela noite, noite de estrelas e de medo, inexoravelmente, involuntariamente, eu queria mais, mais. Queria mais. Queria a mulher, ponto e dei a chave e o motor pegou. Rouco a princípio. Regular, depois. O Hel deu à chave no R6. A ruiva, a tesão rubra que ela me havia provocado, deitou-se fora da visão no banco de trás. E, se bem conhecia o meu caro Hel, não estava sozinho na minha ânsia. Fosse como fosse, decidira que a noite não seria de partilhas, de algum modo, era matar ou morrer, ou melhor, conduzir até à quinta dele.

Ariel - Capítulo IV

Lúcio bateu com a porta do R6, quiçá mudando de ideias quanto a voltar para o seu carro, e, decidido, encaminhou-se para o meu bólide, pesado e roufenho. Deu à chave e o velho R7 reagiu, rouco, a princípio, regular, depois. Fiquei a observá-lo, por instantes, distraído, constatando que o bate boca entre a miúda e o Lúcio parecera ter ultrapassado a sadia troca de galhardetes e se transformara numa rivalidade acirrada pela susceptibilidade que o álcool instala nos espíritos dos homens. Hm, reflecti. Azar. Conhecia bem o Lúcio e, apesar desta sua tirada com a ruiva, - com Ariel, como fizera questão de frisar, com os olhos faiscando no meio da esclerótica vermelha, - apesar disso, conhecia o meu amigo e sabia que não estava verdadeiramente zangado, não a sério, nem comigo, nem com ela, embora percebesse que uma qualquer dúvida ou frustração se lhe anichara no cérebro, provavelmente, instilada pelo álcool e ainda a fermentar. Tal agressividade denotava uma clara insegurança em relação a esta situação. Seguramente, não lhe agradava o facto de eu, apesar de ser seu amigo de longa data, ter assumido os comandos do R6, considerando que não estava menos bêbedo do que ele. Um longo buzinão despertou-me das minhas reflexões. Que raio!, passara o dia, desde que chegara ao bar, em cogitações supérfluas e de todo desinteressantes. Estava na hora de agir, sim, de agir!

Pelo retrovisor, vi o Lúcio gesticulando com uma das mãos, fazendo-me sinal para arrancar à sua frente. Acenei, dando a entender que percebera, dei à chave e… reparei que Lúcio esquecera a garrafinha do “iced tea” no banco do pendura. Sedento, antes de arrancar, estendi o braço e fechei os dedos sôfregos sobre o vidro frio. Levei a garrafa à boca, mas somente umas míseras gotas esquecidas no fundo saudaram a minha garganta. Desgostoso, engatei a primeira com suavidade e deixei o pé cair, delicado, sobre o acelerador. O carro ronronou de satisfação e deslizou, ligeiro e ágil, sobre o asfalto bruto.

A viagem continuou em silêncio. A ruiva não dava o ar da sua graça e pensei, por fugazes instantes, que tivesse amuado com qualquer coisa. Cedo a sua inércia, no banco de trás do carro, me revelou que fechara os olhos por breves instantes e que caíra num profundo sono passageiro, talvez sem sonhos ou ânsias de nada. O sono escondera o verde frio dos olhos da nossa companheira e o seu cabelo espraiava-se em madeixas de fogo encaracoladas sobre o seu rosto, pintando o banco do R6 em matizes de vermelho, o peito trabalhando lentamente, subindo e descendo, à medida que o ar lhe invadia os pulmões e se escapulia pelos lábios vermelhos. Não estava surpreso; afinal, depois de quase ter despejado a garrafa de um só gole… Melhor assim. Dava-me tempo de pôr a cabeça em ordem. Aquela última aguardente deixara-me de rastos. A última, é sempre a última antes da próxima. Agora, estava na hora de apelar a um último sopro de organização mental, sim, tinha de envidar todos os esforços nesse sentido. Afinal, a minha casa ainda ficava a uns bons quilómetros e a auto-estrada desenrolava-se como uma infindável passadeira negra que me conduzia a um fim indeterminado, engolido pela noite que nos envolvia. Na minha esteira, os faróis do R7 mantinham o seu olhar amarelado em cima de mim, implacável, inalterável, sempre na minha esteira. Liguei o pisca para sair da auto-estrada e espreitei o Lúcio. Apercebi-me de que não seguia o meu exemplo e veio-me à memória, de forma quase involuntária, que tinha um dos piscas avariados, possivelmente aquele contra o qual o Lúcio praguejava neste preciso instante.

O carro galopou os últimos quilómetros num piscar de olhos e cedo me familiarizei com os meus arredores, agora condunzindo quase em piloto automático. Avistei a entrada. Por um momento, julguei que o Lúcio não conseguiria, mas não há mais rijo do que ele e não há aguardente que o derrube. Afinal, parece que o R6, com a sua direcção assistida, travões ABS, GPS e sei lá mais que siglas ocultas, ainda não tinha amolecido o meu amigo, que ainda há poucos anos me levava por essa noite lisboeta, numa carripana em tão mau estado como a minha, a beber copos e a conhecer miúdas. Nostálgico, constatei que a nossa rotina não mudara assim tanto. Hm… talvez não em tão mau estado.

Galguei a pequena estrada de terra que dava para a minha quinta e estacionei, longe de possíveis olhares indiscretos. Virei-me para trás. Ariel dormia profundamente, mas sentia que, ao mínimo encorajamento, o seu cabelo de fogo estaria pronto para dançar para nós… para mim. Até dava pena acordá-la… «Ó, Hel, estás a dormir de olhos abertos, meu? ‘Tás bem?» Lúcio estacionara a meu lado e o barulho que fez ao quase arrancar o travão de mão sobressaltou-me e afastou o meu olhar basbaque do calor que o corpo no banco de trás emanava, numa calma pronta a explodir. «Eu... não, estou bem, é aqui, chegámos. Temos de a acordar.» «Ya… pois tens. Eu tenho de ir ali num instantinho». Mirei o rosto de Lúcio com perplexidade, tentando descortinar na sua expressão o seu verdadeiro intento, sem sucesso, no entanto, já que no meio daquela treva todos os rostos estavam vazios, dando rédea solta aos espíritos para tecerem os mais tenebrosos desígnios, livres de qualquer escrutínio. Ainda bem que o Lúcio era um amigo de longa data. Confiava nos seus desígnios, mesmo nos mais tenebrosos, especialmente nesses. Sem argumentar, e encobrindo um fugaz esgar de satisfação que permiti ao meu rosto assumir, deixei-o afastar-se, a pé, em direcção sabe-se lá de onde e para fazer sabe-se lá o quê, e voltei a concentrar todas as minhas atenções na mulher.

Saí do carro e abri a porta de trás, com o intuito de a acordar. Debrucei-me para a despertar e estaquei, com o rosto quase roçando o dela. Um perfume doce, inexplicavelmente aliciante, insinuou-se pelas narinas e, impossível de reprimir, o meu dedo tocou ao de leve na sua fronte, começando a descer lentamente pela linha do rosto, sedoso, que traçava um pescoço esguio e delineado na perfeição, até desembocar nos ombros despidos. Ajeitei-lhe a alça do vestido e acordou, de repente, assustada, assanhando-se, recuando para o banco mais afastado, o verde gélido perfurando-me inquisitivo e confuso, por momentos sem saber bem onde e com quem estava. Ao olhar para mim, avivou-se-lhe a memória e os seus lábios transfiguraram-se no trejeito de ironia malevolente a que me tinha habituado no decorrer da noite. «Sabes, também cobro quem quer ficar apenas a ver. Tenho a certeza de que o teu amigo não se importa». Deixei que um sorriso plácido se me desenhasse no rosto, o que apenas a provocou, e foi com um certo gáudio que vi os olhos verdes incendiaram-se ainda mais, até ficarem da cor do cabelo. «O que foi?» «Hm… nada, nada». Soergui-me e escancarei a porta do carro, fazendo um gesto redondo com o braço, encorajando-a a sair da toca. Acreditava que já se sentiria picada o suficiente para sair. De um salto, saiu do carro e um observador menos atento nunca diria que aqueles pequenos pés que saltitavam em direcção à minha casa ainda agora enfeitavam, inertes, o banco de trás do R6. Juntei-me a ela para a guiar pelo caminho tortuoso, penetrando no breu, quando o ouvi, trocista, um eco na penumbra, aproximando-se numa marcha rápida: «Hel, onde pensas tu que vais sem mim?»

Ariel - Capítulo V

Nada funcionava direito na porcaria do R7. Que merda de carro tinha o Hel, chiava que nem um porco em dia de matança, guinava perigosamente nas curvas e, qual cereja no topo do bolo, os piscas não funcionavam. A minha sorte é que de carros de merda percebia eu, nem sempre conduzira o maravilhoso do R6, que agora galgava quilómetro atrás de quilómetro à minha frente. Porque carga de água trocara eu de carro com ele? Fora para me armar, fora para me armar a ele e, sobretudo, a ela. Sempre gostara de mulheres ruivas, desde que me lembrava, mas nunca comera uma, nunca. Agora, lá ia ela, no meu carro, ao lado do sacana do Hel. Caralho, estava com dificuldade em manter os olhos abertos, era o que era, pesavam-me as pálpebras, todo eu era cansaço e sono. Seria a isto que chamam velhice precoce?

Precisava dum gole de álcool, mas sentia instintivamente que não era altura de beber mais nada. Tentei concentrar-me nas luzes traseiras do R6 que me precedia. Raios, o que estava eu a fazer? Se o Hel me fodesse o carro, tinha eu sarilhos à grande.

Teria? Ora, deixá-lo, reflecti, tentando pensar noutras coisas. No trabalho. Nos documentos. No meu pai. Caramba, lindo serviço o meu, Lúcio Ferro, 33 anos, agrónomo da treta colocado no Ministério dos Estrangeiros (?!?) por especial cunha parental. Putanheiro, bêbado, cínico, divorciado. Amigos? Talvez, o Hel, sim, o Hel era um amigo. Aliás, se não fosse o Hel, a sua juventude contagiante, a sua ética imparcial, completamente destituída de falsos pruridos ou das hipocrisias mais ou menos moralizantes que por aí abundam, se não fosse ele, tinha a impressão que há muito teria dado um tiro nos miolos e mandado tudo o resto à puta que pariu. Sim, o Hel era um amigo, como só um verdadeiro amigo pode ser: compreensivo quando é justo sê-lo e implacável quando não há outra possibilidade.

Liguei o rádio, milagre, funcionava! Oceano Pacífico, Oceano Pacífico. Ah, sim, o oceano pacífico, estávamos en route para Cascais, assim é que era, tínhamos deixado o 23 para trás, belo tasco, a vida era bela, a gaja que ia ao lado dele no meu carro também, eu não era novo mas podia ainda vencer; ainda podia vencer na vida. Refeito com este pensamento confortador, desci o vidro, escarrei para o asfalto e acelerei, para não deixar escapar da vista a traseira do R6.

Nisto, quase que perdia a saída da auto-estrada e praguejei ao constatar, mais uma vez, que os piscas do R7 não funcionavam. Fui encadeado pelos máximos dum carro atrás de nós, meti pelo desvio, reduzi e um carro atrás de mim quase que me batia. Marimbei-me no caso, curioso, desta feita nem luzes me haviam dado, como um peixe abri e fechei os olhos, várias vezes, e, com a boca aberta, de língua de fora, fiz brâbrâbrâbrâ múltiplas vezes, a ver se despertava. Funcionou. Ao menos eu funcionava.

Seguíamos para a quinta do Hel. Que bonita procissão. O Hel e a Ariel, aquela ruiva puta ou puta ruiva, no meu carro novinho em folha; eu, no chaço do Hel e, lá mais atrás um carro branco, curioso de novo, aquele porco deveria ir para o mesmo sítio que nós, talvez para Sintra, estranho caminho o dele, era o gajo que não me dera luzes; experimentei uma vaga sensação de perigo, mas até que nem íamos muito depressa e conclui que devia ser ainda a bebedeira, de certeza, tinha de me concentrar no que estava a fazer.

Passámos por Birre a abrir, na rotunda o Hel meteu demasiado depressa em direcção à Ericeira e ao fazê-lo as rodas traseiras do R6 resvalaram perigosamente e ele foi forçado a contra-guinar, quase saindo da estrada; mas o gajo estava doido ou quê? Tive que travar a pé fundo para não lhe bater e por meu turno quase que era abalroado pelo carro branco atrás de nós.

Em fila indiana, seguimos, agora mais devagar, parecia que o pulha do Hel estava a tentar localizar-se (nunca lhe deveria ter oferecido aquela última aguardente). E a Ariel, em que pensaria? Aquela miúda era realmente fora de série. Caramba, pensando melhor nisso, era uma miúda acima até da minha Liga, já não falando da do Hel. Bizarro, este filme todo era bizarro e mais bizarro era não saber qual seria a continuação. Fodê-la-ia eu, ou ele? Faríamos uma menage? Ficaríamos ambos a chuchar no dedo? Hum, muito estranho tudo isto, mas enfim, logo se tirava a prova dos nove.

O pobre do Hel devia estar mesmo mal. Quase que falhava a entrada da quinta e mais uma vez tive de desacelerar bruscamente para não bater na traseira do R6. Mas lá consegui e segui-o. No meu espelho retrovisor, o carro branco passou por nós, devagar, estranhamente devagar. O R6 estacionou um pouco mais à frente. Parei também, voltei o pescoço e olhei para trás. Raios. O camarada do carro branco, aquele carro que topara pela primeira vez à saída da auto-estrada, tinha-se imobilizado uns 50 metros à frente da entrada para a quinta. Estava parado, via-lhe as luzes por entre os pinheiros e, de repente, apagaram-se. Estranho, porra, muito estranho. E a merda dos documentos na bagageira do R6. Estaria eu a ficar paranóico? Hmm.

Voltei a custo a ligar o motor do chaço, avancei e estacionei, mesmo rés-vés, ao lado do R6. Desliguei o rádio. Oceano Pacífico, Oceano Pacífico. Pela janela aberta gritei para o Hel: «Ó, Hel, estás a dormir de olhos abertos, meu? ‘Tás bem?» O Hel não estava bem. Nada bem. Que filha da puta de sorte não me ter fodido o R6 todo. Balbuciou não sei o quê acerca da Ariel. Dormia, a puta, os seus longos cabelos alaranjados espraiavam-se pelo assento de cabedal, uma visão de anjo e ao mesmo tempo de pecado capaz de pôr o membro dum morto de pé. No entanto, havia no ar um perfume a aguardente e a esturro que não me agradou. Seria um incêndio? Não há incêndios no Inverno. E depois havia uma outra coisa. Aquele carro branco que, tinha a certeza, não se fora embora ainda. O Hel continuava meio bêbado, meio menino, a dizer não sei o quê de acordar a ruiva. Mais valia que a violasse assim, enquanto a puta dormia, tonta. Pobre Hel, às vezes era completamente inocente e tentei fazer-lhe ver isso mesmo: «Acorda-a tu, eu tenho de ir ali num instantinho». E tinha, de facto. Antes de tudo, tinha de certificar-me duma coisa
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Pus-me a mexer sem lhe dar tempo para réplicas. Mexia-me agora velozmente, silencioso, na diagonal, até o sítio onde sabia existir um buraco na vedação da quinta, lembrava-me bem, no Verão anterior numa patuscada comentara com o Hel que era uma pena, que por ali «podiam entrar malfeitores». Na altura ríramos ambos, mas agora não era ocasião para graças. Eu ia com um objectivo; podia até ser que me enganasse, mas podia ser que não, e é pela dúvida que morre o burro, como é costume dizer-se. Lá estava o buraco na vedação, eheheh, nem o Hel nem os seus velhos avós, (O Hel é órfão de mãe e pai, talvez por isso a nossa amizade, eu também era órfão, isto se não contasse com o meu velhote) haviam mandado consertá-lo.

Esgueirei-me como um gato e zás, em três minutos ali estava eu, agachado, mesmo na traseira do carro branco. Sempre tivera razão, alguém nos seguira, a mim, a ele, a ambos, ou, hum, ou se calhar a ela, a Ariel… Porque razão nos haviam seguido? Lentamente, fui torneando a traseira do carro para o lado do condutor. Uma mão pendia da janela. Uma mão feminina, e dos seus dedos um cigarro com sabor a mentol. Com sabor a mentol… Hum… Sabia, ou julgava saber, quem nos tinha seguido. Contudo, só havia uma maneira de descobrir… Se estivesse enganado…

Ergui-me lesto e em dois passos estava junto à janela do condutor. Não me enganara. Trocista, escarninho, berrei-lhe aos ouvidos: «Que fazes aqui? É um bocadinho tarde para andares à caça dos patos gambozinos, não achas Telma?» Ela foi percorrida por um calafrio, dos bicos das unhas dos pés até à ponta dos seus cabelos loiros encaracolados e acho mesmo que se tivesse tomates estes lhe teriam caído ao chão; como não os tinha, foi só o cigarro. Antes mesmo deste chegar ao solo já eu dava uma longa passa e a inquiria, desta feita suavemente, quase melífluo, para ganhar balanço: «Então, amor, que fazes aqui?»

Respondeu da última forma para a qual estaria preparado. Torceu a boca, os olhos brilharam-lhe dementes e desatou num pranto tão inusitado quanto inquestionável, aqui e ali pontuado por desabafos e acusações: «Sim, segui-te, sim, sou uma puta, uma puta sim, mas segui-te porque te amo, até uma puta pode amar, porque te odeio, porque não suporto que tenhas saído com essa ruiva infernal que teu a volta à cabeça!»

Aquilo não estava a convencer-me de todo, já se sabe, de puta loira nem bom casamento nem boa foda mas, entretanto, o choro dela estava a dar-me tesão, senti o pau crescer-me nas boxers e resolvi que por agora acreditaria naquela tolice dela: «Gostas de mim, como assim, como é que podes gostar de mim?» E ela que gostava, que me desejava desde o primeiro momento em que eu entrara no 23, há uns bons seis meses atrás, que ficava fula cada vez que me vira sair com outra, que não percebia porque nunca solicitara os seus serviços… Pois, pois sim, eu sabia, era a tal história de putas loiras e de casamento, ó se sabia.

Finalmente relaxou. Lembrei-me do Hel e da Ariel. Que berbicacho este e agora, que podia eu fazer? Apetecia-me foder esta gaja que lacrimejante me confessa a extensão do seu amor, mas não sabia bem como. Então, lembrei-me da chave do anexo, afastado da casa principal da quinta uns bons 100 metros e que o Hel guardava debaixo do tapete da porta, «para quando chego bêbado e não quero armar estrilho Lúcio, ahahah! Quando quiseres vir cá abancar, ‘tás à vontade, só quando venho muito bêbado é que aqui entro, ahahah!»

O diabo é que naquele preciso momento o Hel estava bêbado, podia muito bem dar-lhe para lá se ir enfiar com a puta da Ariel e depois era uma chatice. E daí, até não; em sendo esse o caso, faríamos um foursome. Contudo, mais uma vez, merecia a pena confirmar as intenções dele, nessa noite não estava numa de partilhas.

A minha mente fervilhava num misto de excitação e de ressaca, Telma soluçava, boa como o milho, bela, vaca, puta, em todo o seu esplendor. Preguei-lhe um magnífico linguado, longo, e saquei-lhe as lágrimas do rosto com a língua. Pareceu animar-se. Tossiquei intencionalmente e disse-lhe, pausado: «Escuta, vês ali a casa?» E ela que sim, acenando. «Bem, daqui a vinte minutos, vês ali aquele anexo?» E ela, outra vez que sim, a fazer beicinho. «Bem, daqui a vinte minutos, vais lá ter comigo, mas não faças barulho, não faças barulho algum senão ‘tás fodida comigo, compreendido?» Acenou outra vez, ainda de beicinho, quase linda, depositei-lhe novo beijo e afastei-me pelo caminho por onde viera.

Ao chegar perto da casa o cenário havia-se transformado substancialmente. O Hel e a ruiva, em amena cavaqueira, que amigos que eles estavam, subiam o carreiro sinuoso. Decidi divertir-me um pouco, saltando-lhes ao caminho, estaquei sardónico e invectivei-os: «Hel, onde pensas tu que vais sem mim?»


Ariel - Capítulo VI

Fechei a porta do carro e ao sentar-me o meu velho e fiel companheiro R7 gemeu num lamento em todas as suas articulações. Dei à chave, pegou, comecei a rodar o volante, preparava-me para arrancar, quando tocou o telefone, raios. «Olá, querida…! Pois, não, não vai dar, é que hoje combinei com o Lúcio de ir beber um copo… Sim, eu sei que ontem também não podia… Bem sei que combinámos hoje de…» E ela desligou. Suspirei, engatei a primeira e, numa tosse roufenha, o R7 lançou-se, já veloz e robusto, para o meio das confusas ruas de Lisboa, espremendo-se por entre os carros, faixa atrás de faixa. Chuviscava. Esta porcaria de atitudes e de discussões por parte dela não vinham melhorar o meu dia. A última coisa de que precisava era de cenas de ciúmes, sobretudo por causa de amigos; se ainda fosse por causa de outra gaja, se, pelo menos, se pelo menos fosse realmente outra gaja! Ora, mulheres.

Já o doutoramento também não me corria de feição. Acabara de receber a notícia, por intermédio da delicodoce voz da minha orientadora, de que me iam «cortar a bolsa, que o projecto deixara de ser viável, que uma praga de Ceratitis capitata devastara os pomares, que a universidade e o departamento começavam a duvidar do meu empenho e interesse em levar o doutoramento a bom porto». Respondi que não, que fazia os possíveis, que já instalara as armadilhas Tephri, que tratara pessoalmente com os fornecedores acerca da compra de FFA, FFP e FFT, que os pomares seriam salvos, que era do meu maior interesse empenhar-me na conclusão do doutoramento. Enfim, a ladainha do costume, verdadeira, desta vez, mas ela não parecia muito convencida, acenando que sim com pequenos movimentos de cabeça, um sorriso amarelo decorando-lhe o rosto enrugado, interrompendo-me a meio para rematar com um céptico «pois, não pense mais nisso, Hel. Desfrute das suas férias e Boas Festas. Envio-lhe um e-mail para nos encontrarmos em Janeiro». Tornara-se dolorosamente óbvio que ia ficar sem bolsa a partir de Janeiro. Que bela maneira de começar 2009.

Pelo menos, tinha combinado este encontro com o Lúcio. Havia muito que não nos víamos. Ele andava ocupado com o seu novo cargo no ministério e eu ainda estava para perceber em que é que as suas funções consistiam exactamente. Na verdade, apesar do fiasco que se revelava, o doutoramento absorvia-me grande parte do meu tempo livre. Tínhamos agora esta pequena nesga de tempo, esta janela de oportunidade, quatro dias antes do Natal, para nos encontrarmos, pensar o futuro, rir do passado e, porque não?, do presente, sobretudo quando se houvesse motivo para brincadeira. O certo é que sempre conseguíamos encontrar motivo para rir, até nas situações mais improváveis.

Enfim, sentidos de humor muito peculiares. Sorri ao recordar-me da sua chamada, umas horas antes: «Vamos ao 23, Hel? Vamos, vamos até lá, bebemos uns copos, conhecemos umas miúdas vá, vá, percebo pela tom do teu silêncio que é isso mesmo de que estás a precisar». Talvez fosse mesmo… daí tivesse encolhido os ombros, esquecido as amarguras e os problemas e me concentrasse em olhar em frente; era preciso, estava um trânsito terrível.

Chegado às imediações do 23 não me poupei a levar o R7 numa passeata à volta dos quarteirões circundantes, desgastando as suspensões sobre os buracos da Baixa, à caça dum lugar, duma nesga de espaço nesta cidade cada vez mais atravancada. Finalmente, depois de quase três quartos de hora a tentar encontrar um pequeno nicho para o mastodôntico R7, lá consegui estacionar. Tirei a carteira do porta-luvas, abri a porta e reflecti, enquanto vestia o casaco, a noite soprava um vento gelado e a chuva caía, miudinha, que um cartão ministeriável devia resolver quase todos os meus problemas automobilísticos quando saía à noite. Pois devia, mas eu não tinha benesses dessas. Enfim, em passo estugado, percorri a calçada, sempre longe da estrada e atento, não fosse alguma besta decidir que precisava de um banho de meia-noite. Avistei a porta do 23. Era muito provável que fosse encontrar o Lúcio fulo da vida, farto de esperar por mim. Parei à porta do bar e o imenso monstro que estava feito cão de guarda à entrada, de cima dos seus quase dois metros, mirou-me de alto a baixo. Por detrás das suas lentes negras e impenetráveis, aparentemente satisfeito com a avaliação que fizera, deu um passo ao lado e deixou-me passar. Desejei as boas noites, fez gala em ignorar-me, e regressou ao seu posto, hirto, colossal. Entrei e avaliei o 23: à minha esquerda, encontrava-se o longo balcão em madeira escura e no lado direito viam-se algumas mesas, as cadeiras estavam ocupadas por pessoas a conversar e a beber. Perscrutei os recantos em busca de Lúcio, lancei o olho aos reservados, locais por natureza inconspícuos, ideais para se beber uns copos e pôr a conversa em dia. Depois de inspirar os cheiros e atmosfera do ambiente, detectei-o ao balcão, para surpresa minha, já acompanhado, tão cedo, de uma loira espampanante. Ela trazia um vestido curto, preto, sapatos de saltos altos e um cabelo loiro, encaracolado, dançando-lhe no rosto e hipnotizando o meu amigo. Desci calmamente o lanço de dois degraus, evitei algumas pessoas que dançavam ao som da música, tirei o casaco e, ao mesmo tempo que me sentava ao balcão, três ou quatro bancos afastado do Lúcio, longe de mim querer invadir o espaço dele, nesse momento, cruzei o meu com o seu olhar, deixei escapar um sorriso discreto, virei-me para o bartender e pedi uma imperial. Pela carantonha, deduzi ele estava interessado em tudo menos no meu pedido, mas ainda assim lá pegou num copo e começou a tirar a bebida.

Nisto, chegou-me ao canto do olho a mão sinuosa da loira, a cair, discreta, na perna de Lúcio, subindo, e este, todo entretido, todo mãos pelo corpo dela, os dois rostos colados, ele só sorrisos e ela a sussurrar, enrolando o cabelo com o indicador. Decidi esperar tranquilamente, degustando o líquido fresco e espumante que me refrescava a garganta. Curiosamente, o bartender parecia, por sua vez, interessado no flirt que se lhe desenrolava à frente, lançando olhares fugazes aos dois, por entre as diligências do balcão. De súbito, Lúcio olhou para mim, disse qualquer coisa à loira que ela pareceu não gostar e veio ao meu encontro, com um andar seguro e exibindo um sorriso visivelmente triunfante, ajeitando o colarinho da camisa. Estendeu-me a mão. Apertei-a, absorto, e disse-lhe, desprendido e seco, mas sem esconder o tom cúmplice: «Sim, maravilha, óptimo Lúcio, old fellow, vejo que te corre bem a vida…» Resmungou não sei o quê, com um gesto largo depreciativo indicou que aquilo, e aquilo era a boazona que ele despachara, não era «nada», «nada» e, sorrindo de novo, pediu também ele uma bebida.

De repente, chegou ao balcão uma mulher desleixada, quase a tropeçar nos próprios pés, de copo na mão, velha. Sentou-se no banco ao meu lado, o corpo apoiado no balcão para não cair, perscrutou-me com olhos ávidos e vidrados, arrotando, de um só jorro, um inusitado convite: «Vamos foder?». Lúcio conteve a muito custo um súbito ataque de riso. Na verdade, e para meu infortúnio, à minha frente encontrava-se, sem sombra de dúvida, a mulher mais desprezível de todo o bar, pelo que, em tom educado, recusei e retomei a minha aprazível tarefa de levar a imperial aos lábios. Ficou absorta por um instante, levantou-se mecanicamente, Lúcio ia gozando o prato com um sorriso escarninho nos lábios; ela ainda esteve para se bater a ele mas, talvez desancorajada por algo nos olhos do meu amigo, de copo vazio na mão, pelos vistos já mais interessada num sujeito que bebia sozinho, numa mesa protegida pela penumbra, afastou-se em sua direcção, cambaleante. Estávamos no 23, seguramente, estávamos no 23 - sem margem para dúvidas.

Ariel - Capítulo VII

A 20 de Dezembro, quatro dias para o Natal, foram-me concedidas as férias pelas quais há muito insistia, o meu chefe apertara-me a mão e dissera-me, roufenho, seco: «Lúcio, faz seis meses que está na casa, não se esqueça do que lhe digo, escute que talvez lhe venha a ser útil, na nossa profissão há muito mais a esconder do que a plantar. Muito menos couves, repolhos, tomates ou pepinos, não se esqueça disso, meu caro engenheiro Ferro, aprecie as suas férias».

Embora não fosse a primeira vez que o chefe me falava não gostei lá muito do que dissera, havia demasiados assuntos particulares em jogo; não me podia dar ao luxo de perder aquele posto e sobretudo não queria arranjar sarilhos com o meu velhote nem, muito menos, colocar em causa o seu próprio prestígio individual junto das altas esferas, pelo que optei por replicar: «Que achou da reunião, senhor director, esta história - dos aviões e das armas - pareceu-lhe a sério?..»

Acusou, como estava certo de que o faria, a estocada, e reiterou-me, como também sabia que o faria, que não era da minha conta, apenas estava ali para informar o «assessor do ministro dos internos». Claro, assenti, não éramos tolos, não fora por acaso que o meu velhote me financiara férias profissionais pagas em Inglaterra (belo do velhote), em parte a suas próprias expensas, ou favores; fora para me treinar para aquele tipo de momento, ou assim o desejava pensar. De vez em quando dava-me para isso. Fora, sim, fora.

Entretanto, a entrevista esmorecera ao ponto da trivialidade de sala. Percebendo-o, perfilei-me, apresentei as minhas saídas e educadamente virei as costas ao chefe. No seu canto, o colega da secretaria de Estado, todo ufanado da burocracia política que o levara ao poder, com um gesto simpático, deu oficialmente por finda a «reunião», também me desejou «uma boa quadra» e conduziu-me à porta. Lisonjeado pela sua deferência rasteira, saudei-o de maneira cortês - à inglesa –, e saí. No fim de contas, já tinha entrado de férias, tinha uma semana só para mim. Evitei o elevador, fui descendo as escadas, ponderando as opções: talvez uma estirada a Castelo de Bode, talvez um bom banho de imersão, talvez outra coisa. Depois logo decidia.

Quando abandonei o edifício da Cidade Judiciária e me encaminhei para o R6 percebi que chuviscava no parque exterior onde estacionara a viatura, uma chuva miúda, chuva molha tolos, o que até me convinha, não tinha pressa alguma e o meu propósito não favorecia testemunhas, inocentes ou não. Contente pela chuva, pela noite, pela semana de férias, abri a bagageira e levantei o tapete. No espaço entre a roda sobresselente e a caixa de transmissão do R6, como quem não quer a coisa, a fazer que olhava para os lados, depositei os documentos, o telemóvel, tendo o cuidado de o desligar. Hesitei, mas acabei também por guardar ali a pistola, esta carregada e no respectivo coldre. Cobri tudo com o tapete, alisei-o, com o comando tranquei a mala. Sentindo as gotas da chuva engrossarem de intensidade apressei-me a entrar no R6; a apreciar plenamente a sensação de conforto e de segurança que o seu habitat proporcionava.

Satisfeito com a minha situação na ordem natural das coisas, encapsulei-me, liguei a aparelhagem, sintonizei Tom Waits e arranquei suavemente da sede do serviço até Lisboa, em ritmo de cruzeiro, bordejando o rio, aqui e ali evitando os escolhos do trânsito. Ia ter com o Hel ao meu bar de eleição, a meio caminho entre a minha casa e o rio, o que me convinha; por outro lado, ia ter com o Hel mas também ia à procura de fêmeas, nem todos os dias é Natal.

Ao entrar na Baixa conduzia ligeiro por entre os buracos que, constava, remontavam à época pombalina. O trânsito intensificara-se, a chuva também. Ainda na noite anterior tinha estacionado o R6 em contra-mão, nas traseiras do ministério, só porque me apetecera e porque ninguém me chateava, pelo menos não chateavam funcionários com cartão ministeriável. Podia usá-lo nesta situação outra vez. Podia, ainda melhor, estacionar na garagem e refazer parte do trajecto a pé; apenas não podia dar nas vistas, o que resumia tudo.

Encontrei um lugar exactamente no sítio que me convinha, parara de chover. Despi a gabardine, saí do carro, tranquei a porta e quedei-me a apreciar o perfume do sucesso novinho em folha, o aço, a borracha molhada do belíssimo R6. Sorri. Tinha sido um presente do meu pai pelo meu último êxito reportado junto dos Estrangeiros (tudo mentira, embora bem orquestrada). Sucedera com a ajuda dum putativo candidato a Presidente da República, deputado, barbudo, conhecido do meu velhote dos anos de luta em Coimbra, enfim, um contacto, um dos notáveis que ele conhecia e que estivera presente na reunião em que se falara da revolta dos professores, outro tema quente do dia. Esbocei um trejeito ao recordar a expressão do primeiro-ministro quando o meu secretário de Estado mencionara “tráfico de armas”, “implicações políticas”, insinuando nas entrelinhas que possuía “inteligência” de que o golpe se efectuava com a colaboração de elementos “doutra nacionalidade”, nomeadamente um tal de Pedro, Pacheco, e ainda Pimentel, ligado aos americanos e do qual eu fingira nada saber, embora isso não viesse para o caso.

«Quanto menos souberes, melhor para ti», esse era o meu mote e raramente dele me desviava, a não ser à noite. A bem dizer, nada do que respeitava ao ministério me dizia um “ui”; estava perto dum clube que me seduzia pelas mulheres e que me agradava pelo companheirismo. E depois, o R6 estava suficientemente longe para não ter de me preocupar com isso, muito menos com os documentos na bagageira.

O que queria mesmo era divertir-me, desligar-me, despossuir-me, esquecer o ministério duma vez. Decidi compartimentar a mente, evitar de todo as intrigas, os jogos, as manhas, os méritos e desméritos do ministério. Em menos de nada, a passo estugado, dera comigo à porta do clube. Tinha chegado, estava no 23.

Ariel - Capítulo VIII

O céu cobrira-se de nuvens espessas e pesadas, ocultando as estrelas, deixando escapar alguns dedos de uma pálida luz lunar. Parecia que ia chover outra vez, desta vez a sério. À minha frente, envolvido pela sombra húmida, o carreiro pela quinta do Hel até sua casa tornava-se cada vez mais íngreme. Sem falar que a obscuridade não me permitia ver um palmo à frente dos olhos. Distinguia vagamente a silhueta alta e magra do meu amigo, caminhando uns passos à frente, liderando o caminho por entre a treva, em piloto automático, como se os pés conhecessem o caminho por instinto. Apercebi-me, então, de que ele, apesar de bêbado, nem devia estar a usar os olhos. Afinal, sempre vivera ali. Já eu, desprovido do mesmo sentido de orientação, incauto e sofrendo ainda de uma ligeira embriaguez, esmaguei a ponta do pé contra um calhau saliente, soltei um uivo de dor, que se repercutiu no vazio, tropecei e a minha mão, num voo instintivo, levou comigo a ruiva pelo ombro, que caminhava alguns centímetros diante de mim, também com dificuldades em evitar as armadilhas do percurso acidentado. Os passos incessantes do Hel estacaram, o seu corpo virou-se (ou pelo menos, julguei que sim) e perguntou-nos se estávamos bem. «Já falta pouco», acrescentou, exortando-nos a ter cuidado, sobretudo à noite. Grunhi um agradecimento entre alguns impropérios, enquanto esfregava o pé que latejava de dor. Aceitei a ajuda da ruiva, que se levantara, leve e ágil, e me estendera a mão muda. Olhei para cima, para o rosto dela, mas se mal via a mão à minha frente, muito menos lhe veria a cara. «O caminho é perigoso; há montes de calhaus e raízes salientes. Não te lembras, Lúcio?», lembrou, expedito e diligente, mas, de mim, não conseguia esconder a leve ironia subjacente que anos de amizade detectavam com facilidade. Sentia-o rir-se da minha figura. «Vá, menino, vá, à minha frente e vê se avisas acerca de perigos iminentes», respondi, seco. Depois de me ajudar a levantar, a ruiva puxou o vestido para baixo, tirou os saltos, adiantou-se uns passos e chegou-se ao Hel, talvez receosa de cair na mesma cilada que eu. Parecia estar a perguntar-lhe se faltava muito. Comecei a sentir alguns chuviscos bater-me na cara e instiguei os meus companheiros a apressar a marcha.

Na verdade, ao contrário do que o comentário do Hel sugeria, tinha boas memórias daquele lugar. No Verão, o meu amigo convidara-me para almoçar, «uns grelhados, uns vinhos, o que dizes?». Aceitei, claro. Nessa altura, além do buraco na vedação refundido por alguma vegetação, reparara que se tratava de uma quinta modesta, mas, ainda assim, com alguns anexos, uma pequena plantação de vegetais e uma videira frondosa que emanava um odor adocicado e encobria o soalheiro pátio de entrada, onde, nesse dia, preparáramos uma bela refeição, regada do bom vinho a que a amizade e a camaradagem instam. Apercebera-me, também na altura, de que alguns dos anexos tinham um ar abandonado, exibiam até uma extensa camada de musgo. Todavia, no meio daquele breu e névoa, todo o espaço se me apresentava ao olhar indecifrável e impenetrável. Lembrei-me também de me ter contado que o avô fora, há algumas décadas, alguém – se bem que não a nadar nele – com papel, desafogado e com negócios próprios. Torrara tudo em bebida e putas. Agora, sobrava-lhes a quinta e só porque a avó conseguira salvar o suficiente para saldar as dívidas e subsistir.

Como sabia que o Hel fazia o que podia para ajudar a manter o sítio, foi com surpresa que constatei, depois de um caminho sem mais incidentes de maior e de atravessar a pesada porta de madeira que dava para o interior do anexo em que vivia, que o traste se munira de um computador topo de gama, uma boa aparelhagem e, imagine-se, um plasma, o que parecia no mínimo suspeito para alguém que alegava ver televisão «apenas quando passam as notícias». Virei a cara com um esgar trocista e comentei que ele nunca me chegara a dizer quanto recebia de bolsa do doutoramento. «Ó, sabes, dá para viver», retorquiu, alheio, como se não fosse nada com ele. Não admira que estivesse tão fulo por lhe irem tirar a bolsa. Pensei como é fácil habituar-nos às benesses que recebemos, já o contrário… Também eu já passara pela minha quota-parte de dificuldades.

«Hel? Vou pôr as chaves da tua lata ao pé do computador. Põe também as minhas aí, que não as quero perdidas, ouviste?» Anuiu com um movimento de cabeça, atirou-me as chaves do R6, que coloquei junto das dele, e regressou à tarefa de desocupar o sofá de algumas roupas, no qual me acomodou e à ruiva; e eu, sentindo-me mais confortável e repousado o suficiente da caminhada, decidi deixar os assuntos seculares de lado e, esfregando as mãos, dedicar-me a assuntos mais, er, espirituais. Lembrei-me da ruiva, que acendia um cigarro, recostada no sofá, e do que nos levara até tão longe, até à casa do Hel, perdida no matagal que atravessáramos. «Meu caro, recorda-me, onde sonegas as bebidas?», perguntei, ávido e impaciente. Nos últimos tempos, Hel vinha-me tantalizando com a sua recém adquirida colecção de bebidas espirituosas. «Ora, ora, e eu lá sou homem de sonegar bebidas aos amigos!», declarou, jovial e prazenteiro, «vem comigo». Deixámos a ruiva estendida no sofá, gozando o seu cigarro, que levava à boca em gestos lentos e pensativos. Não exibia a mínima vontade de nos acompanhar. Era óbvio que precisava de uma bebida para reacender a faísca que, no 23, estivera muito mais fulgurante. Chegados à cozinha, Hel conduziu-me ao seu bar improvisado, abri a porta do armário rasteiro, estiquei o braço e tacteei o vidro frio. Hm, várias garrafas, ainda pesadas. Inclinei a cabeça e espreitei. Soltei uma exclamação de aprovação, satisfeito por perceber que conseguira ensinar ao Hel alguma coisa sobre bebidas de qualidade: gin, whisky, água ardente, alguns licores, muitas destas garrafas ainda por abrir, o que era uma pena. Hel olhava para mim, de pé, com um trejeito de satisfação óbvio. Pedi-lhe copos e servi um Porto, brindámos à noite e degustámos lentamente, em amena cumplicidade silenciosa, a bebida que nos aconchegava num calor que se propagava, primeiro pelo estômago, depois pelo peito e só então cobrindo o corpo. Depois, saquei do whisky e despejei duas doses generosas, passei-lhas para as mãos e disse-lhe que levasse a outra à ruiva. «Eu já vou ter convosco. Antes, quero estudar melhor a tua colecção de garrafas». Afastou-se com os copos, não sem antes me dizer que me sentisse tão à vontade em sua casa quanto ele se sentia na minha. Fiz questão de frisar que assim faria e arranquei-lhe um sorriso rasgado. Instei-o com um gesto de mão a ir e a deixar-me a sós.

Servi-me de uma porção de gin com água tónica, peguei numa garrafa de whisky e saí pela porta das traseiras, que dava da cozinha para um pequeno espaço, que continha apenas um estendal de roupa, duas cadeiras e uma mesa, resguardada por um toldo. Sentei-me numa das cadeiras de plástico, ouvindo a chuva cair, sem vento, mas com uma atmosfera de humidade que começava a enregelar os ossos. Acendi um cigarro. Enquanto bebia, pensava na Telma; já estaria à minha espera no anexo, loira, chorosa e receptiva? O gin evaporara-se num ápice, o que me causou uma sensação de estranheza, já que não estava calor suficiente para que se desse um fenómeno dessa natureza. Decidi servir-me de uma boa medida de whisky (Chivas, muito bem, Hel!). Lembrei-me também da ruiva, deitada no sofá do Hel, com este certamente empregando todas as artimanhas do seu parco conhecimento para lhe saltar em cima. Que pensamento feio, Lúcio, que feio!, e ri em voz alta. Não obstante, devia voltar para junto deles sem perder muito mais tempo. Apesar de tudo, o Hel não era parvo. Temia que se escapulisse com a ruiva para o tal anexo e me deixasse à míngua. Pior, podia dar de caras com a Telma. E daí, talvez não fosse assim tão mau… A noite arrefecia a pique e o ambiente em casa augurava muito mais calor. Levei o copo aos lábios e deixei escorrer as últimas gotas. Hm, o whisky desaparecera misteriosamente. Poderia o copo ter alguma fuga…? Pendurando o cigarro nos lábios, voltei a servir-me do whisky (um último copo antes de regressar) e dei um longo trago. Caiu-me como napalm no estômago, incinerando todos os recantos das minhas vísceras. Soltei um arroto acre, os olhos abriram as torneiras e as minhas papilas torceram-se de indignação com o gosto a vomitado. Veio-me à memória que não tinha comido muito nesse dia, apenas uma sopa ao almoço, uma sandes à tarde e saltara o jantar, desejoso de chegar ao 23 e me encontrar com o Hel. Tentei levantar-me, mas a cabeça pesava-me e uma tontura atirou-me com violência para trás, contra o espaldar da cadeira. Parecia que todas as bebidas que ingerira ao longo dessa noite haviam tomado de assalto a minha cabeça para passar o serão

Regressei à cozinha, com a mão no estômago, olhei pelo corredor que dava para o quarto do Hel e pareceu-me mais longo e sinuoso do que antes, a imagem inclinava-se, desfocada e turva, tentei pousar a garrafa no balcão, mas falhei e foi estilhaçar-se aos meus pés, vidros por todo o lado e o odor do malte a insinuar-se pela casa. Do quarto do Hel, as vozes e risos abafados cessaram ao chinfrim abrupto do Chivas a embater no solo, um silêncio sepulcral e lívido abateu-se sobre a casa quebrado apenas pela voz do meu amigo, que ouvia chamar timidamente o meu nome, ao longe. Tentei encaminhar-me para o quarto, mas o corredor serpenteava e passava de turvo a branco, de branco a turvo, de turvo a branco… e, de repente, num esforço hercúleo, foquei os olhos e vi o Hel estacado à minha frente, também ele turvo, «estás bem?», ouvia a voz distante e envolta num estranho eco enevoado. Segurou-me pelo braço e guiou-me pelo interminável corredor, passo a passo a passo a passo, à medida que ouvia a minha voz trepar-me pela garganta, tropeçando a meio caminho na língua seca e brotando dos lábios como se outro falasse por mim, «eu… não, meu, deixa, deixa… chtou bem, foi zó… hm…uma indispoxição». Entrámos no quarto e a ruiva dardejou-me com o seu desprezo verde. Levantou-se para que o Hel depositasse o meu corpo no sofá, mas este fez-lhe sinal para que se deixasse estar, «na cama tem mais espaço», ouviu-o dizer. «Tu é que sabes», e voltou a sentar-se, levando o whisky aos lábios vermelhos.

Pesado como uma pedra, afundei-me na cama, quente, macia, que me abraçava com o carinho e o desejo que imaginava nos braços da ruiva. Estranha mulher. Conhecera-a hoje, naquele bar, com o Hel, e que incrível atracção exercia sobre mim. Sentiria Hel o mesmo? Aproximara-se de nós, nós dela, como se uma força nos atraísse, um misterioso desígnio e, copo atrás de copo, a conversa prolongara-se até quase ao fecho do bar. Já estava deitado, esparramado na cama. Pensamentos desconexos furavam e corriam os túneis da minha mente unindo-se a sonhos de cabelos de fogo e pele de seda. Seda a arder. Hehe… Ela ajeitou-se no sofá, cruzou as pernas e colocou uma mão sobre o joelho. À sua frente, de pé, Hel servia-lhe outra bebida. Conversavam. O seu riso entrecortado por sussurros cúmplices martelava-me incessante na cabeça. Virei-me de barriga para cima, depois para a esquerda, para a direita, de barriga para baixo, tentando fazer com que o quarto parasse de girar. Os meus olhos voltaram a tentar fixar os dois. Via o Hel, de costas, já sentado ao lado dela. Virou o rosto para trás e disse-me algo: «devias …scansar… um… pou… aposto que n… …este… o dia to…». Voltou a virar-se para a ruiva, num movimento lento e arrastado de cabeça. Ou talvez fosse eu. Vi que ela insinuava a mão branca pela perna do Hel e parecia aproximar o rosto do dele. «Ya, ya…» Pisquei os olhos, uma, duas vezes, tentando focar, lutando contra a torpeza, «talvez devesse…» contra as pálpebras que teimavam em fechar-se a ferros «descansar…». Semicerrei os olhos, por um momento, «só um bocadinho»… as vozes confundiam-se, abafadas por um trovão que ribombava lá ao longe… voltei a abri-los num esforço supremo… mas era demasiado.

Ariel - Capítulo IX

«Lúcio, meu, não bebo mais, combinei amanhã de manhã com a Teresa, não posso aparecer todo fodido!», insisti, antecipando como acabaria a nossa incursão no bar, pois já sabia que quando não aguentava a bebida na cabeça, também não a aguentava no estômago, e que a minha noite ficaria arruinada. «Calma, meu, tem calma, deixa lá ‘tar a pequena (pesquei o piscar de olho que Lúcio lançou para a puta ruiva sentada entre nós os dois), bebe mais uma aguardente e repara como é belo o mundo», proferiu, pausado e marcando bem as sílabas, com um largo gesto de mão, abarcando o ambiente em nosso redor.

A ruiva, sem aviso, espetou-me a língua quente no ouvido, apresentando argumentos irrefutáveis a que ficasse sentado no lugar, e uma forte reacção por trás do fecho das calças não se fez esperar, uma saudação à língua dela no meu ouvido, movendo-se em lentos círculos. No entanto, e por muito empenhado que estivesse em continuar fixado no assento, com o corpo quente dela a roçar-se no meu e na companhia da aguardente do Lúcio, saltei da cadeira, «vou à casa de banho, tenho de ir à casa de banho!», amparei-me na mesa com uma das mãos, apoiei o corpo, ainda num equilíbrio hesitante, e, incerto de para onde me devia dirigir, onde raio é a casa de banho!?, pensei, em desespero face à perspectiva de me humilhar no 23, numa passada larga, agarrado ao estômago, lá a encontrei, por trás de uma porta de madeira, pintada de branco, mas já amarelada pelo tempo e pelo tabaco, uma casa de banho suja, porca, a tresandar a mijo e a vómito. Eu seria apenas mais um. Sem cerimónias, ajoelhei-me, prendi as mãos ao mármore e enfiei a cabeça na retrete. Levantei-me lentamente, já mais lúcido, se bem que ainda bêbedo, naquele estado de semi-lucidez ébria (ou semi-loucura sóbria, conforme se seja do tipo meio copo vazio, meio copo cheio), limpei a boca às costas da mão, avancei para o lavatório, abri a torneira, que chiou e se engasgou com o ar, e levei uma concha de água à cara, outra, e ainda mais outra, esfreguei os olhos e mirei-me no espelho. O reflexo retorquia-me os meus olhos raiados de sangue e os meus lábios secos. Apercebi-me de que estava cheio de sede, voltei a abrir a torneira e bebi até o gosto a serradura desaparecer da boca. Já me sentia bem melhor. Não me devia meter nestas merdas, pensei, enquanto observava o espelho manchado e partido num dos cantos. Com um pai ceifado por cirrose e um avô com problemas de úlcera, talvez fosse boa ideia dar um descanso ao meu fígado amargurado.

A propósito, estariam o Lúcio e a ruiva à minha espera, na mesa do bar? O mais provável é que se tivesse escapulido com a miúda. «Nããã», afastei esse pensamento da cabeça, «ele é meu amigo, não me abandonaria à minha sorte num bar mau reputado e num ambiente hostil como este». Ri-me dos meus próprios pensamentos… ambiente hostil… E a ruiva? Teria engraçado com o Lúcio, ou comigo? «Ora, esquece isso rapaz, repara mas é bem naquele traço!», segui a voz do Lúcio em direcção à entrada e, parando o copo a meio, voltei a pousá-lo, mirando-a de alto a baixo, à medida que se aproximava da nossa mesa com passos fulgurantes, emanando sensualidade à sua passagem, capturando olhares e obrigando pescoços a torcerem-se em posições pouco naturais, com os caracóis vermelhos esbatendo qualquer cor que pudesse existir na sala. Vinha com um cigarro comprido no canto dos lábios, parou junto à nossa mesa e, com uma voz suave e hipnotizante, perguntou-nos se tínhamos lume. Olhei em redor, com a claustrofóbica sensação de que todo o bar nos observava, expectante, como a família que se reúne no sofá para ver o desfecho da telenovela da noite. Lúcio e eu ficámos mudos por instantes, respondemos que sim, claro, mas, mais ágil do que ele, lancei a mão ao isqueiro do meu amigo, em cima da mesa, e acendi-o. Inclinou-se e aproximou o rosto do meu; colocou uma mão quente sobre a minha. Levantou os olhos para os meus e vi que eram verdes, intensos, mas estranhamente frios, em contraste com a ponta do cigarro, que via incendiar, por entre a chama do isqueiro, num fulgor vermelho e incandescente. Voltou a erguer-se e libertou o fumo, expirando lenta e longamente, como se entediada. Por baixo da mesa, um peso abateu-se em cheio no meu pé, quase arrancando-me um grito silencioso, quando ouvi o Lúcio, que retirava o sapato pesado de cima do meu, e me instigava, sibilante, «oferece-lhe uma bebida, infeliz!», tossicando, em seguida. Assim fiz, ela aceitou, sentou-se à nossa mesa e o resto decorreu naturalmente: continuámos a beber e observava o meu amigo enquanto delineava os planos para a madrugada que começava a romper. Deixei-o fazer o que sabia fazer melhor, sempre participando deste diálogo a três, nunca me deixando apagar, claro, o Lúcio era um gula, e até suavizando algumas indelicadezas que lhe saiam pela boca, muitas pensadas, outras nem tanto, mas sem atrapalhar o jogo dele, que, no final de contas, acabaria por me beneficiar. A ruiva fora à bola comigo, isso parecera-me óbvio, pelo menos pela forma como roçava o corpo no meu e passeava a mão na minha perna, por debaixo da mesa. Tudo augurava um desfecho favorável para os meus lados, até fraquejar e correr para a casa de banho, merda de estômago doente e fraco! Mas, era estranho, uma miúda tão bonita… bonita de mais para levar a vida que levava. Tinha um magnetismo que não se encontrava por aí em qualquer canto na rua. Aos poucos, monopolizara o espaço e o assunto, e isso não se devera somente ao par de longas pernas esculturais, busto convidativo, cabelo de fogo e lábios vermelhos e insinuantes. Sim, nada de ingenuidades românticas, eram, de facto, atributos que só favoreciam esse magnetismo; porém, havia mais alguma coisa, escondida, como se ela apenas nos tivesse apresentado uma fachada, uma máscara, algo nos seus olhos verdes que absorvera toda a minha atenção, esgotando-me a mente. Já visitara o 23 noutras ocasiões com o Lúcio e, para puta, havia algo que a denunciava na forma de se comportar e falar como pertencendo a uma outra esfera social de putas, daquelas às quais nenhum meco sentado numa cadeira dum bar tem os meios para aceder, mesmo na companhia de um amigo com cartão ministeriável.

A porta batia ruidosamente e parecia querer ceder nas dobradiças. Acordei, abanei a cabeça, voltando a agarrar-me à realidade. Já me sentia melhor. «Ó da casa, ainda demoras muito?» Ouvia os urros de um tipo, pelos vistos em pior estado do que eu. Abri a porta e, sem me dar tempo de sair, abalroou-me, quase tropeçando, e colocou-se na mesma posição e no local exacto que eu ocupara não fazia ainda dez minutos. Saí e fechei a porta, deixando o homem gozar a sua privacidade e entregue aos seus pensamentos, fossem eles quais fossem. Num ápice, de olhos bem arregalados, corri as mesas em busca da ruiva e do Lúcio. Nada. Nem sinal dos dois. «Não é que o sacana me deixou mesmo sozinho?, aqui, a ver navios». Enquanto passava as mesas a pente fino, dei com o tal homem que ocupava a mesa do canto, envolto em penumbra, o tal com quem a velha catatua fora ter depois de tentar a sua sorte comigo. Desta vez, estava acompanhado por outra mulher, bem mais apetecível e agradável aos sentidos, uma loira, a loira. Estava com o rosto quase colado ao do homem e conversavam em sussurros exaltados, cheios de secretismo e suspeitas, ele segurando-a pelo pulso com firmeza. Ela libertou-se com um puxão e o homem pareceu conter um gesto mais violento. A loira recostou-se na cadeira, cruzou a perna coberta pelas meias negras, terminou a bebida e levantou-se. Ia em direcção à saída, aparentemente insatisfeita com alguma coisa, e os seus olhos escondiam uma estranha desilusão. Algo me disse que não seria boa ideia ser apanhado a observar estes dois; dando um passo atrás, recolhi-me na sombra, esperando discretamente que a loira desfilasse por mim. Saí para a luz e tirei o telemóvel do bolso. Tinha de encontrar o Lúcio. «O seu saldo não lhe permite efectuar esta chamada, bla, bla, bla». Não tinha saldo no telemóvel. E agora? «Ó, jovem! Jovem!» Fui acordado pela voz cavernosa do bartender, que acenava e chamava por alguém, um pretenso jovem, que, supostamente, se encontrava na mesma direcção que eu. Era a segunda vez que me acordavam naquele bar. Olhei em volta e como se não descortinasse ninguém tão jovem quanto eu nas imediações, com um ar inquisitivo, virei um dedo para mim próprio. «Sim, sim, você! Venha cá!» Curioso por saber o que quereria o tipo, dirigi-me ao balcão. Teria o Lúcio bazado sem pagar?, ocorreu-me, assim, inesperado e alheio à minha vontade, este pensamento, reflexo, com certeza, da sova que levaria do segurança, consequência de não ter um tusto no bolso para pagar champanhe e aguardente velha. Chegado ao balcão, com ar hesitante, o sujeito (ele, também, um gorila gigante, que mais facilmente passaria por segurança do que por bartender) leu-me os pensamentos, sorriu e disse que não me preocupasse, «eu cá me entendo com o doutor, não se preocupe. Tome». De debaixo do balcão, sacou as chaves do meu carro e entregou-mas, «o doutor deu-mas e pediu-me para lhe dizer que está à sua espera em frente ao governo civil, na rua de cima». Balbuciando um agradecimento, ao qual o fulano replicou com um monocórdico «de nada», rodei nos calcanhares e dirigi-me para a saída. De repente, o meu telemóvel tocou, estridente, mas não o suficiente para se sobrepor à música. Saí em passo apressado, passei pelo segurança sem olhar, vesti o casaco e olhei para o visor luminoso do aparelho, que acusava o nome do Lúcio. Decidi pregar uma partida ao meu caro amigo: «‘Tou?» «Onde estás meu?» «Isso digo eu, sacana, fugiste com o meu amor, fugiste com o amor da minha vida!», gritei, cheio de uma falsa raiva, gozando o prato enquanto sentia um silêncio pesado e desconfortável instalar-se no outro lado da linha. Tapei o bocal, ri em silêncio (reparei que o segurança também sorria, à porta, percebendo o meu esquema) e, em esforço, continuei: «‘Tou, Lúcio, tás aí? Meu, vem buscar-me, ‘tou à porta do 23. Onde ‘tá o carro?» «‘Tá onde o deixaste meu melro, onde querias que estivesse?», retorquiu, revelando-se impaciente para as minhas brincadeiras. Decidi continuar, «Ok... Er... Já vou, melhor ainda, anda cá ter, vem buscar-me!» «Não posso, meu caro, estou ocupado», respondeu. «‘Tá quieta miúda, não toques nisso, entra para dentro do carro!», ouviu-o dizer, longe do bocal. Parecia que a ruiva ainda estava com ele e já dentro do carro. «Hel, meu, vem ter aqui ao governo civil e mexe-te!» «É mesmo ao lado do São Car…» «Sim, mesmo ao lado do São Carlos, mexe-te que tenho um doce para ti!» Lúcio escapulira-se do bar com ela durante o meu breve recolhimento na latrina, mas esperava por mim, afinal de contas, leal aos velhos princípios que regiam a nossa amizade. «Foda-se, Lúcio, tu e as tuas surpresas maradas, estou a caminho». Desliguei e sorri ante a surpresa do Lúcio, que já começava a adivinhar. Deitando para trás das costas responsabilidades e compromissos do dia seguinte, decidi oferecer-me uma festa de natal antecipada. Sem dúvida, esta noite apresentava uma oportunidade única.

Comecei a caminhar na direcção oposta ao governo civil, tinha de ir buscar o R7, tinha de ir buscar a chocolateira. Chegado ao local, enfiei-me no carro, saí do estacionamento e, com o pé pesado no acelerador, ignorando o chiar da embraiagem, galguei os metros que me separavam do governo civil. Quase a chegar, evitei mesmo à justa um enorme buraco, um dos muitos que decoram a baixa, e quase arranquei o espelho a um Volkswagen Miura branco, estacionado uns bons metros atrás do R6 do Lúcio. Travei a fundo ao lado do bólide, uma paragem perfeita enfeitada por um chiar de pneus e temperada com o subtil aroma a borracha queimada, abri o vidro, assomei à janela e espreitei para dentro do carro, «Então, Lúcio, esse doce é para hoje ou para amanhã?», perguntei, num tom meio carregado de ironia, meio carregado de cumplicidade. Sem responder, levou a mão ao bolso do casaco e devolveu-me a carteira, ao mesmo tempo lançando-me aquele olhar cúmplice, um olhar que desenvolveramos entre nós ao longo de muitos anos de convivência, a plantar batatas e a colher couves, um olhar que não queria dizer nada, mas que, ao mesmo tempo, queria dizer tanta, tanta coisa, permitindo-me a janela de tempo necessária para mergulhar nos olhos verdes da ruiva uma vez mais. Ela devolveu o olhar e fixou no meu o verde frio dela, numa luta para ver quem desviava primeiro o olhar. «Ahem, Hel!», Lúcio chamou-me e concedi a vitória à ruiva. «‘Bora, meu?», observei-o com atenção e constatei que, apesar de sempre beber com profissionalismo, o meu amigo estava com os copos. Ainda por cima, já instalara a miúda nos estofos em pele do seu R6 novinho em folha topo de gama. «Lúcio, achas que estás em condições de conduzir?», perguntei, expressando uma preocupação genuína pelo meu amigo. Ripostou, sarcástico, como era por vezes seu apanágio quando respondia a observações que para ele não faziam sentido, que tinha de estar, não é?, que o carro não se ia conduzir sozinho até Cascais! «Claro, meu, claro, estou só a dizer que não devias arriscar, visto que estás com o teu carrinho novo e quê… se bates, é um desastre, o teu pai vai foder-te o juízo, e que és irresponsável, e que és um bêbedo…» Vi o lábio de Lúcio reprimir um trejeito e as sobrancelhas negras fecharem-se sobre os olhos; desencadeara-se no seu espírito uma luta interior. Apercebi-me disso e puxei a corda, «Porque não me deixas levar o teu carro? Levas o meu, também não se perde muito se lhe acontecer alguma coisa». Percebi que a dúvida persistia em roê-lo por dentro. Enquanto reflectia nas minhas palavras, voltei a mirar a ruiva, mas ela parecia absorta no seu próprio mundo. «Ok, Hel, podes experimentar o meu brinquedo novo», cedeu, por fim, «mas cuidado, puto, nem um risco, tu tem cuidado!», avisou, paternalista, como se tivesse tirado a carta há dois dias. «Lúcio, sou eu, estás a falar comigo», comprimiu os lábios, algo que fazia quando concedia a vitória numa discussão, ainda duvidoso da sua derrota e ciente de que saíra a perder da situação. A ruiva não se mexeu para mudar de carro. «Estou mesmo atrás de ti», disse-me. Trocámos as chaves num aperto de mão e metemo-nos nos carros. Eu no R6, o belo do R6, a cheirar a novo, travões ABS, direcção assistida, ar condicionado, estofos em pele e uma mulher deslumbrante sentada neles. Lúcio entrou no meu carro, não sem que a fechadura da porta, da qual só eu conhecia a manha, lhe desse a devida luta, e deu à chave. Por meu lado, podia jurar que o seu rosto espelhava uma certa nostalgia, talvez por voltar a conduzir um carro tão velho. Afinal, antes do R6, nos tempos da faculdade, conduzira uma banheira não muito diferente desta. Deixando reminiscências de lado, virou-se para mim, «Como é, vamos?»

Capítulo X

Sem mais, como que adivinhando a deixa, a ruiva espetara-lhe a língua no ouvido e o semblante do Hel alterara-se. Muito rapidamente, demasiado rápido para um homem tão embriagado, pôs-se de pé e fugiu: «Vou à casa de banho, tenho de ir à casa de banho», afastou-se, deixando a carteira e as chaves em cima da mesa. Guardei a carteira no bolso do casaco, peguei nas chaves como se fossem minhas, contemplei a ruiva e emborquei mais um balázio de Antíqua. Estava completamente embriagado, a tal ponto que conseguia não o estar; estava tão embriagado que via tudo claro, translúcido, evidente, cristalino.


Era linda a miúda, perfeita. A fazer-se passar por vamp, que tristeza. Por dinheiro, como se não fosse suficiente tudo o resto. A fazer-se passar. Putinha. Linda. Intelectual. Fria, nem parecia o que era. E aquele cabelo, Jesus, aquele cabelo.


«Gostas de dinheiro, linda?», disparei, assim que me vi livre do Hel, muito franco, muito directo. «Gosto pois, vais oferecer-me algum é, lindo?..», replicou, com um gesto rápido da mão acariciando-me o cabelo. Não gostei do «lindo» mas, tudo bem, gostei da carícia, disse que sim com os olhos, e «talvez amor, talvez», com a boca. Dei mais um golo na minha aguardente. A voz dela, o diálogo pseudo-erudito com que nos brindara, o fumo na sala, o álcool, tudo isso me queimou as sinapses e senti-me tonto, senti a sala oscilar no seu eixo e a imagem dela distorcer-se, a mesclar-se com as luzes e os odores, cada vez mais indistinta. Fechei os olhos e respirei fundo. Estava na fronteira da consciência. Quando finalmente os abri a terra já não se mexia. Ariel era real e estava mesmo à minha frente; acendera um cigarro e fumava, parecia quase que alheada, escutava a música, maneava a cabeça, fumava e marcava o ritmo com a ponta das unhas no tampo da mesa.


Reflecti que tinha de dar travão ao álcool. Se o meu estado era aquele, qual não seria o do Hel? Era óbvio que o Hel não estava capaz de beber muito mais, aliás, devia estar a regurgitar, o que até talvez não fosse mau de todo, tudo uma questão de ver como recuperava. Senti sede.

Arrumei a aguardente, sinalizei o bartender e pedi um gin tonic para mim e outro para ela, frisando que pedia «dois gins» e não outra coisa, «nem bebida de colaboradora». Ela, toda altivez, não tugiu nem mugiu, pestanuda, fina, esticando as meias de nylon. Hmm. E o Hel, porque se demoraria tanto?


Levantei-me e, de rés-vés, sorri sardónico para a Telma, os olhos dela chispavam, era só inveja naqueles olhos azuis, mas isso não me dizia respeito, que fosse tomar no cu. Pedi crédito ao bartender, ao mesmo tempo que o subornava discretamente e o ouvia replicar, como que em câmara lenta: «Doutor, é a última vez é a última vez!» - «Pois sim meu caro, faça-me um favor, diga ao meu amigo que estou na rua de cima, mesmo em frente ao governo-civil e, entregue-lhe estas chaves, pode ser?» - «Boa noite doutor, fique descansado.»


A Telma, afastara os olhos dos meus, estava furiosa, aquela loira burra mas entesoante; ainda iria foder aquela gaja, embora não naquela noite. Naquela noite apetecia-me outra coisa, uma coisa vá, mais refinada. Dei a mão a Ariel e saímos porta fora. Cumprimentei o Segurança: «como está o tempo aí em cima, jovem?» O gajo riu, julgo até que gargalhou e desejou-me uma «boa noite, senhor doutor», sem esquecer a devida vénia, à medida que eu e ela saíamos: como era bom ser filhinho do papá, acreditem, era mesmo bom.


Por falar nisso, não podia levar a gaja para minha casa, o velho havia regressado duma «viagem» e aboletava-se em Lisboa por alguns dias. Já sabia, levava-a para Cascais, para a quinta do Hel. Era isso, com sorte, fazíamos uma festinha à maneira e sempre o ajudava.


Fui encaminhando a tipa para o meu carro, tentando caminhar em uníssono com ela, era uma rapariga nova, parecia deslocada no ambiente, demasiado efusiva para o ofício; parecia quase uma principiante, sim, era isso mesmo, era uma puta jovem e emocional e isso convinha-me, tinha que fazer daquela noite de fim de Dezembro, chuvosa, ventosa e triste, um dia memorável. Juntinhos, ela mais alta, sempre de mãos dadas, tic, tac, toe, fomos andando e, em menos de nada, estávamos perto do beco sem luz onde estacionara o R6. O 23 ficara para trás, eu estava de férias e a única coisa que me prendia ali, para além da amizade que me fizera deixar um colega esperto o suficiente para não se desbocar lá atrás, daquela bacana, da ideia de a levar até casa dele e de fazermos uma menage à trois, era ter os documentos na mala do R6; os documentos que no dia seguinte ficara de ir entregar em mãos ao Ministério dos Internos, um último recado antes de, realmente, entrar de férias.


Não me podia esquecer disso. A atmosfera da noite, revitalizando-me, lembrou-me esse facto, incomodativo. Fomos andando, ela a perguntar onde íamos, eu que íamos buscar o meu amigo e «passear» até Cascais, que havia dinheiro para ela… E ela, que sim, «tudo bem, gosto do teu amigo.»


Como a noite evoluíra rapidamente desde que saíra do ministério, após o sermão do chefe. Primeiro a loira. Depois o Hel e agora aquele “monumento”. Eram quase nove da noite quando entrara no 23, a música enchia todos os recantos vazios de pessoas, na altura ainda a noite era miúda e achara por bem ser esse o momento acertado para fazer alguma coisa de modo a esquecer todos os segredos hipócritas do ministério; eventualmente, talvez, mostrar ao Hel que havia mais mulheres no mundo do que a sua banal namoradita sem futuro.


Agora, ali estava a noite, limpa, luarenta, com a ruiva ao meu lado, de mãos dadas, que vontade de caminhar em uníssono com ela, que gozo em caminhar em uníssono com ela, até parecia quase como fora ao princípio com a minha ex-mulher, até parecia.


Ariel, assim dizia a ruiva chamar-se, estudante de «Tradução em Letras», a fazer-se séria, a rir-se, a fazer-se séria, a fazer-me cócegas na palma da mão e eu a fingir que acreditava, embora não batesse certo a história dela ser estudante, uma história demasiado rebuscada. De qualquer maneira, para o que pretendia, pouco me dava se «Ariel» era de facto puta/estudante ou puta/puta. O verniz que demonstrava acabava até por nem ser mal empregue para o objectivo que, lentamente, descendo a rua sem saída, congeminava: um belo dum bacanal, um novo campo a desbravar com o meu amigo, só esperava era que lhe tivessem dado o meu recado e que não se tivesse afogado na sanita, o pobre.


«Lúcio meu, não bebo mais, combinei amanhã de manhã com a Teresa, não posso aparecer todo fodido!», recordei, sorrindo, a onda dele, todo medroso. Como é que Ariel pudera pensar que o Hel seria uma vítima adequada à sua incursão no mundo da noite é que eu não percebia, quanto mais não fosse porque a mim é que ela despertava uma enorme cobiça voluptuosa e já o Hel, enfim, bastaria olhar para a sua camisa vermelha, bico da camisola interior encarnada, calças de ganga verde, para compreender que o rapaz era um teso; jovem e bem-apessoado, não digo que não, mas um teso, um tipo sem eira nem beira, por muito prometedor que aparentasse ser.


Chegámos ao R6 e Ariel, aparentemente espantada, melodiou: «Ena, tens um carro muito bom, isto deve ter-te custado uma pipa de massa!» Agradeci, lisonjeado, abri-lhe a porta do lugar do morto, sentou-se, pôs-se a brincar com a aparelhagem, virei-lhe costas e encaminhei-me para a bagageira. Pesquei o telemóvel por trás do tapete, liguei-o e, impaciente, disquei o número do Hel. «Onde estás meu? Isso digo eu sacana, fugiste com o meu amor, fugiste com o amor da minha vida!»


Mau, o Hel estava mais bêbado do que pensara, tinha de o orientar e daí, quase que me sentia tentado a não o fazer... Ainda há pouco a ruiva insistia com ele, ela insistia, toda carinhos para cima dele, toda mesuras, toda sorrisos e pestanajamentos. Eu alinhara, claro, o puto não percebia nada de engate, era o que era. Ao balcão, a outra, a Telma, deitava-me olhares faiscantes, não percebia se de despeito ou ainda de sedução, não tinha qualquer importância; antes do Hel chegar pagara-lhe dois copos de champanhe, a trinta euros cada e ela, depois de se ter feito toda a princípio, tirara-me o pão da boca sem mais nem menos, só queria fazer conversa da treta, a mostrar-se muito interessada, o que só contribuíra para me sentir ainda mais inquieto: «O que é que fazes na vida?.. Trabalho no Ministério dos Negócios Estrangeiros, não te interessa. Ah, trabalhas no Ministério dos Negócios Estrangeiros, é?.. Deve ser muito interessante, lidas com gente importante?..» E eu, que não tenho paciência para conversa de sala com putas, dissera-lhe isso mesmo, com todas as letrinhas: «Não tenho pachorra para conversa de sala com putas.» Logo ela me presenteou com a resposta, um mutismo frio à palavra «putas», como se sentisse genuinamente ofendida, a vaca. Acariciei-lhe o rosto e para adocicar a pílula disse-lhe que era «linda de mais para esse tipo conversa, só isso…» A hipócrita engoliu em seco e, outra vez só doçuras, apenas doçuras, insistiu na tecla: «Querido, a sério, agradas-me, fala-me mais do teu trabalho… Conta-me...»


Do meu trabalho? Era o que mais faltava, o meu trabalho era de ouro, «esconder é mais importante do que plantar couves». Topando pelo canto do olho a chegada do Hel ao 23, fitei os olhos frios de Telma e, subliminarmente, comuniquei-lhe: «Vai à merda Telma, querida, vai à procura de outro pato que este já era.» A loira gelou, mas não estava minimamente preocupado com isso, afastara-me à patrão e em menos de nada era cumprimentado pelo Hel. Depois dum intróito com uma pobre prostituta, feia, horrível, apontei uma mesa livre a um dos cantos mal iluminados, pedi dois copos de champanhe («um champanhezito Hel, à minha pala?») e logo depois entregávamo-nos ao diálogo habitual, ao jogo de xadrez que sempre se joga entre dois velhos amigos que se conhecem há tempo suficiente para fingirem que se insultam: «Como vão os pomares, paspalho? E o Ministério, energúmeno? Menos mal, e os pomares, imbecil? Mal, seu idiota, muito mal, uma praga, a minha bolsa de estudo está a filoxerizar-se! Ora, ahahah, caga nisso, bebe mais um copo, repara como a vida é bela» casquinei, apontando de largo a velha prostituta que se batera a ele e que entretanto arranjara um novo otário. Sorriu e bebeu. Pedi mais copos de champanhe, (traga a garrafa homem, «doutor Ferro, ainda deve 120 euros da semana passada», fique descansado homem, traga mais uma garrafa!)


O Hel emudecera. Fiz questão de brindar, sondando-o: «Agora a sério rapaz, como vão as coisas na Fac? Mal, muito mal meu, não sei se vou conseguir safar os pomares e acho que me vão cortar a bolsa já para o mês que vem, a doutora Cremilde não o disse com todas as palavras, mas, sabes como são estas merdas…»


«Hum» repliquei, interessado mais em aspectos técnicos que já não me diziam respeito mas que mesmo assim ainda me cativavam: «Já experimentaste enxertos estragénicos? Experimentei tudo, tudo pá, mandei vir anti-fúngicos experimentais da América, armadilhas Thepri da África do Sul, anti-bacteriológicos de espectro alargado da UE, mas nada resulta, nada, Lúcio!» Mau, o Hel estava realmente preocupado e senti compaixão pelo meu amigo mas, também, quem o mandara fazer o doutoramento recorrendo a técnicas de crescimento hortícola ainda no processo de test-trial em países mais avançados do que o nosso, test-trials de resultados - até ver - altamente dúbios?


«Olha lá, pá», resmunguei, meio sério meio na tanga, tentando animá-lo, recorrendo à nossa experiência comum, revisitando o passado, território seguro, ao contrário do presente, em que já não nos conhecíamos como dantes, coisas do ministério e de elementos alheios, estrangeiros, na universidade que ele ainda frequentava, embora não tivesse qualquer tipo de relação com os ditos: «Meu, quando fizemos crescer aquele horto de couves, três semanas antes do prazo, isso é que foi uma delícia, hã? Diz lá, foi ou não foi uma beleza?»


O Hel rira ao recordar os tempos de mestrado, quando ambos nos havíamos destacado de todos os nossos colegas de curso escrevendo um relatório exaustivo sobre os avanços que lográramos obter no crescimento molecular de vegetais para consumo humano, o qual espantara o mundo académico nacional, diga-se, e que chegara até a ter direito a nota de rodapé em programas televisivos sobre o mundo rural: «Dois jovens investigadores da Faculdade de Agronomia de Lisboa descobrem fórmula de crescimento inovadora» mas, logo percebi que ele voltara a cair no seu mutismo nublado. Isso não me conviera, que diabo, estávamos no 23, no Natal, no renascimento, nas minhas férias. Pedi mais um copo, Antíqua, mais uma, sorri-lhe ao sermos servidos como se fossemos nababos e, notando nele alguma abertura de espírito, indaguei, após o primeiro gole: «Então e a Teresa, pá, como que é vão as coisas?» As «coisas» não iam bem, nada bem: «Vai Tudo mal Lúcio, tu sabes que eu não olho para outra mulher que não a Teresa, não sabes?.. Sei?.. Não sei meu, não sei o que fazes com as tuas coleguinhas de doutoramento, ou sei?.. Sabes meu, claro que Sabes!..»


Eu, que até sabia mas que gostava de o provocar, lá lhe fui respondendo: «Essa agora, és uma besta, mas… enfim, sei, gostas da gaja, és parvo, um campónio, estúpido de todo, fiel como o caralho a quatro a uma gaja que não te merece… Mas então, o que é que se passa ao certo?..» Ele serviu de novo os nossos copos, estava a entrar na onda, a embebedar-se comigo, bebeu e avançou que o que se passava é que ela tinha «ciúmes de tudo, de tudo Lúcio; do doutoramento, da Cremilde, a Cremilde da Fac, vê lá tu, do tempo que passo com os meus amigos, do pomar e… imagina, até tem ciúmes de ti! De mim? Essa agora!» Engoli em seco e aguardei que concretizasse. «Pois pá, não é ciúmes de ti por ti, é ciúmes de eu preferir estar aqui a beber copos contigo ao invés de estar com ela», suspirara o Hel afundando-se na cadeira, com cara de cão morto à chapada. Ora, deixá-lo. Havia, sem dúvida, coisas mais importantes para tratar do que o namoro dele, o qual aliás sempre me parecera um pouco forçado, como se ele apenas estivesse com ela para não estar só.

«Hel, meu, vem ter aqui ao governo civil e mexe-te!» Ariel saíra do carro e estava de volta da bagageira. Caramba, não a podia deixar ver a arma, não convinha mesmo nada, era tipa para se assustar, no mínimo. No máximo, adeus bacanal, adeus festança. «‘Tá quieta miúda, não toques nisso, entra para dentro do carro!», ordenei-lhe, furioso comigo próprio por ter deixado tudo à vista, documentos e pistola. Encolheu os ombros e regressou ao seu lugar no carro, aparentemente impassível.


O Hel desligou, sacudi a cabeça, apaguei o telemóvel e voltei a enfiá-lo por baixo do tapete da bagageira do R6. Merda, os papéis estavam todos tombados. Foda-se, não podia misturar o trabalho com a bebedeira, não podia, tinha de me concentrar; com um gesto brusco empurrei tudo para baixo do tapete e fechei a mala.


Fazia frio, caía uma chuva miúda. Tratava-se da realidade. Entrei pelo meu lado do R6. «Olá miúda» murmurei, a fazer-me doce, mas pleno de insinuações perigosas. «Já acabaste de falar com o teu amigo? Já, pois, vem aí ter e vamos fazer uma festa em Cascais, agrada-te?», inquiri à queima-roupa. «Sou toda tua», replicou, enxuta, fria, sem sentimento na voz. Toda minha, ou toda do Hel? Resvalei desastradamente para cima dela à procura daqueles lábios carnudos, só que me escapou, ágil, para o banco de trás. Resolvi mostrar-lhe dinheiro. «Gostas de dinheiro, miúda?» Estranho, regra geral quando fico assim as putas não gostam, mandam-me à merda a mim e ao meu dinheiro, mas esta não: «Gosto, mas ainda gostava mais se fosse a três…» Engoli em seco: «Quanto? Quanto pela noite toda?» E ela fez o seu preço.


Acenei que sim, mas por dentro senti-me agoniado e deu-me uma vontade enorme de pura e simplesmente me ver livre dela; a gaja era problema, podia sentir isso, eu snifava problemas à distância, a tipa não fazia sentido. Tudo estava errado. Ia para falar quando o decrépito R7 do Hel, a chiar a suspensão, se imobilizou ao lado do R6 e, da janela do condutor, o Hel, sacana, me saudou numa vozinha que ressoava ironia e alcoolismo: «Então Lúcio, esse doce, é para hoje ou para amanhã?..» Sem responder, levei a mão ao bolso do casaco, com os olhos fiz-lhe o tal do nosso olhar cúmplice, dando-lhe tempo suficiente para mergulhar nos olhos verdes da ruiva que assolara à janela do R6. Percebi que estava a gostar. Calmamente, de sorrisinho cínico nos lábios, devolvi-lhe a sua própria carteira.

Ariel - Capítulo XI

Larguei o Lúcio com um suspiro de alívio, que se despenhara na minha cama. Não era agora mais do que um peso morto. Debatia-se com o mal-estar, soltava alguns gemidos e a todo o momento mudava de posição, tentando encontrar um nicho confortável para fechar os olhos de vez, pelo menos, durante esta noite. Conhecia-o de ginjeira. Um gajo como o Lúcio não comia, antes se alimentava de tabaco e café, com álcool para a sobremesa. De certeza que não comera nada o dia todo e o resultado estava à vista. Era um estilo de vida que não conseguia acompanhar; a minha incursão no bar era prova viva disso. «Ele vai ficar bem?», perguntou a ruiva, por trás de mim, com um tom de voz, porém, vazio e despojado de emoção sincera. Respondi-lhe que sim, que só precisava talvez de umas horas de sono. Sentei-me ao lado dela e dei um golo no whisky. Saboreei. Felizmente, enchera o meu copo antes de o Lúcio destruir o bom do Chivas. Comecei a pensar: com o Lúcio K.O. e a mulher só para mim, talvez fosse hora de lhe fazer uma visita guiada a um anexo da quinta em que fizera uns arranjos e que reservava para momentos de maior privacidade, «para quando chego bêbado e não quero armar estrilho Lúcio, ahahah!», revelera ao meu amigo, no Verão, enquanto jogávamos um partida de xadrez ao abrigo da sombra fresca da videira, de calções e chinelos, refastelados, ouvindo blues e esticando o braço apenas o suficiente para ir arrancando bagos. A voz do Lúcio arrastando o meu nome pela boca fez-me olhar para trás. Percebi que passava mal, os olhos vítreos incapazes de focar. Que belo bico d’obra em que se meteu. Não gostava nada de ser ele quando acordar. Voltei-me para trás e disse-lhe que descansasse um pouco, que de certeza era por não ter comido nada. Amanhã, «isso já passou». Fechara os olhos antes de ter terminado de falar. De súbito, senti a ruiva colocar a mão sobre a minha perna, deixando-a escorregar pela minha coxa. Agradavelmente surpreendido, e já preparado para empregar todo o meu charme, exibindo um sorriso convidativo e descontraído, voltei o olhar para ela, mas o seu rosto caiu sobre o meu e os longos finos fios de cabelo vermelho explodiram-me no olhar. O seu corpo, porém, parecia mole e não reagia às minhas mãos. Apercebendo-me da intenção dela, segurei-a com mãos firmes e ajudei-a a encostar-se no sofá. Estava pálida e desculpava-se, tinha tido uma tontura. Via-se o cansaço e o excesso de álcool espelhando-se no rosto dela. Mau!, também ela? Via a noite vir por aí abaixo e isso não me agradava. Sem o Lúcio, pronto, a noite ainda tinha solução, tinha a mulher, tinha bebida, tinha privacidade. Agora, sem a miúda e com o Lúcio fora de combate é que a coisa se revelaria um fiasco absoluto. Nada podia fazer pelo meu amigo, senão dar-lhe um tecto para curar a bebedeira, mas, escrupuloso por vezes até de mais, sabia que podia fazer alguma coisa por ela, para evitar que chegasse ao estado do Lúcio. Além disso, só tinha aquela cama e não achei boa ideia acondicioná-los entre os mesmos lençóis. Hm… não, pois não. Talvez a pudesse deixar a dormir no anexo. «Queres deitar-te? Tenho um sítio onde…?» «Não!... Não, eu... não posso e… ainda me vou sentir mal. Só preciso de apanhar ar, mais nada», entabulou, de repente, mais desperta. Olhei pela janela e percebi que a chuva tinha passado, se bem que ainda ventava (sem dúvida, se era ar que ela queria apanhar, teria de sobra), o que, aliado à escuridão que preenchia todos os espaços na quinta, me retirava qualquer vontade de fazer um passeio nocturno. Encarei-a, mas os seus olhos rogavam-me, como uma criança que quer muito alguma coisa e parece que vai desatar a chorar se não o fizermos. E, como uma criança, só lhe faltava saltar de felicidade, quando os olhos brilharam de gratidão, em resposta ao meu consentimento. Pediu-me se podíamos ir de carro. Sabia que eu morava perto do mar e a maresia fazia-a sempre sentir-se melhor. Adorava o mar, confessou, parecendo ganhar um boost de energia. Lancei as mãos às chaves do R7 e ela, mais rápida do que esperava para quem quase desmaiara, colocou a mão sobre a minha, fazendo-a cair como uma pena, deixando-a por instantes, retirando-a depois, raspando a ponta das unhas vermelhas sobre as costas da mão. Estremeci por dentro, mas restringi a emoção. A miúda afectara-me, muito, demasiado. Só me apetecia aproveitar a deixa e levá-la para o anexo, mas, era escrupuloso, demasiado, por vezes. Caralho! «E se levássemos o carro do teu amigo… Hel?» Pronunciara o meu nome com afecto, quase com carinho, a voz ao pronunciar o meu nome escorregou-me pelo ouvido, melíflua, uma sinfonia perfeita. Por um fragmento de segundo, odiei-a. Estava enfeitiçado, raios, enfeitiçado! Noutras condições, se alguém me fizesse um pedido destes – levar o carro novo do meu melhor amigo, o R6!, sem autorização – jamais consentiria. No entanto, naquele momento singular, tentava arranjar argumentos para finalmente pegar nas chaves do R6. Afinal, conhecia bem a zona e a praia não era assim tão longe quanto isso. Além do mais, grande parte da bebedeira escoara-se pelo cano da retrete do 23. Sentia-me leve e desperto. Sem retorquir com palavras, larguei as chaves da minha chocolateira e peguei nas do bólide. O meu inconsciente lançava-me reprimendas severas e, estranhamente, assumia a voz do Lúcio: Se me fodes o carro, puto, se mo fodes…! Não resisti a atirar um soslaio para os lados da cama. Os seus lábios estavam selados, abrindo-se somente para deixar sair um ou outro ronco ocasional. Agarrou-se ao meu braço, satisfeita, e saímos.

Pressionei os comandos do R6 e as portas concederam-me o acesso com um sinal luminoso e um «bipbip». Ela preparou-se para se instalar de imediato nos bancos de trás e gracejou, dizendo-me que não queria ir ao meu lado, não fosse distrair-me e tirar os olhos da estrada, como era meu hábito. Ri e disse que podia fazê-lo na mesma. Abri a porta, mas mudei de ideias. «Vou só ali, já venho». Ela percebeu e disse que não ia a lado nenhum. Pus as chaves no bolso e, apressado, fui procurar um canto. Não mijava desde que saíra da faculdade e apercebera-me dolorosamente desse facto: o álcool acumulara-se-me na bexiga, que inchava, prestes a explodir. «O que é que estás a fazer?», puxei para mim a ruiva pelo braço (ao regressar do meu momento de privacidade), que apanhara a remexer na bagageira, gritou de susto e gaguejou uma justificação, que não era nada… nada disso, tinha reparado que a porta da mala estava mal fechada, estava só a verificar, a fechar melhor. Estudei o interior. Papéis, ferramentas, um colete… Olhei para ela. Estava assustada. Talvez ainda não estivesse tão lúcido quanto isso. Que podia ela querer da bagageira? Não parecia haver coisa alguma de interesse. Comecei a afrouxar os dedos e soltou-se, esfregando o braço. «Desculpa… eu, eu voltei… vi-te a… parecias estar a mexer e…», principiei, envergonhado. «Não faz mal, eu percebo, estavas a olhar pelo teu amigo». Forçou um sorriso e entrou. Sentei-me ao volante e fechei a porta.

Enrolei um cigarro. «Dás-mo?» Passei-lho e principiei o processo. Meteu conversa comigo, disse-me que eu não parecia do tipo que solicitava os serviços de uma mulher como ela. Solucei uma gargalhada, com o filtro entre os lábios, e retorqui, empregando a mesma frieza que ela dispusera comigo ao longo da noite, que, então, era porque ela não parecia uma mulher do género de que ela tanto se esforçava para me convencer. Aliás, tinha a certeza disso. Acendi o cigarro. Virei-me para trás, com um sorriso carinhoso, para lhe dar a entender que brincava. O rosto dela espelhava um misto de confusão e alívio. No fim, rimos os dois, tacticamente. Senti que reconquistara o meu lugar hierárquico nos eventos daquela noite tão invulgar. Dei à chave e senti-me ser repossuído pelo R6. O carro parecia estar imbuído da personalidade do Lúcio e sentia uma dose da confiança dele tomar o controlo sempre que me sentava ao volante daquela máquina. Com um sorriso nos lábios, depois de uma longa passa que me soube pela vida, arranquei rumo à praia, sempre na mecha, mas não muito, não queria foder o carro ao Lúcio, não é? Não me fodas o carro, puto…! Ri em silêncio.

Tagarelámos sobre banalidades, ela tornara-se muito conversadora. Descontraímos e falámos de assuntos inócuos. Revelei-lhe o que fazia, falei-lhe do doutoramento, que estava a ir pelo cano abaixo. Brinquei com a situação. Ela contou-me uma história sobre estudar letras e não estar ainda acostumada à vida da noite. Acreditei, porque não? Em poucos minutos, num avanço suave e sereno pela estrada até à praia, riamos com sinceridade, ela pela primeira vez naquela noite, sem insinuações, sem jogos de poder, no fundo, não interessava: percebera há muito que a noite não passaria dali. Ela revelava uma inteligência aguçada e um humor de uma mordacidade à toda a prova. Era raro encontrar mulheres assim. «Obrigada pela paciência que tiveste comigo, já estou bem melhor». Recostou-se e respirou fundo o ar frio da madrugada. Daí a um par de horas, amanheceria e a vida voltaria à engrenagem habitual. Suspirei. Acabara outra vez por ser o bom da fita.

À medida que devorava os metros ao longo da estrada, começava a ouvir o rugir das ondas negras esmagando-se contra a fortaleza de rochas que coroavam a praia e a inspirar a maresia que se insinuava e se intensificava, enquanto a distância entre o carro e o mar se esbatia. Caláramo-nos e o manto silencioso que nos envolvia era confortável. Aproximávamo-nos da praia. A estrada que a costeava, além de estreita, apenas com espaço suficiente para dois carros, de preferência pequenos e esguios (quantas vezes não ficara preso no trânsito devido a dois autocarros que se cruzavam e insistiam em passar ao mesmo tempo), estava esburacada para além de qualquer remédio, vaticínio de um despiste certo, se o caminho não me fosse já habitual e se não reduzisse para uns confortáveis 50 Km/h. Claro, o facto de ter nas unhas o R6 também me incutia uma maior sensação de segurança. Naquela semi-obscuridade lunar e com a bebedeira a que já me presenteara esta noite, dei graças por não me ter aventurado por aqueles caminhos rolando sobre os pneus quase carecas do R7. Ao desencostar o pé do acelerador, senti dois faróis atrás de mim, distantes, ainda, mas com o olhar luminoso fixo em mim. Reduzi mais um pouco. Reduziu também, preocupado em manter a distância que nos separava. Talvez não passasse de um condutor zeloso, que não conhecia o percurso, senão pela reputação dos inúmeros acidentes que ali tinham lugar, e que não queria aproximar-se. Contudo, sentia-me inquieto, um arrepio trepou-me pela espinha acima. Olhei pelo retrovisor e pisei o pedal com mais convicção; o ponteiro subiu lentamente dos 50 para os 60 quilómetros. Notei que os faróis não se afastavam, antes pareciam determinados em manter sempre o R6 ao alcance da vista. Custava-me a acreditar que estivéssemos a ser perseguidos. Pelo espelho, olhei para a ruiva, que me fitou com olhos emudecidos, com um silêncio tão opressivo como o meu. Houve entre nós um clarão de entendimento. Havia alguém no nosso encalço?, seria possível? «Por acaso…?», comecei; sentia que ela me escondia alguma coisa, que escondera a noite toda alguma coisa, e preparava-me para extrair algumas respostas. Não me agradava ser perseguido por estradas desertas a altas horas da noite. Mas ela interrompeu-me com um abrupto «Acelera!» Como não obedeci com prontidão, com agilidade felina, passou para o lugar do morto e pisou-me o pé contra o acelerador: «Vai, acelera!» «O que se passa? Sabes quem é?», perguntei, enquanto o carro torpedeava noite dentro. «Acho que sei…», respondeu, com a voz a tremer. A estrada era agora feita de buracos e areia, devido ao forte vento que se fazia sentir e que cobria o percurso com um espesso manto arenoso. «Achas?», perguntei, exasperado, quando me vi forçado a travar e a guinar para manter o controlo do carro que resvalara em direcção aos penhascos. «Não me apetece morrer hoje só porque achas que sabes quem está dentro daquele carro!», ripostei, furioso. Voltei a observar o nosso misterioso perseguidor e sentia-o perscrutar-nos por trás da luz, frio e implacável, o carro agora soltando roncos furiosos na tentativa de acompanhar o R6, tarefa, diga-se de passagem, que não era fácil. Naquela estrada e com tão pouca luz, fosse quem fosse, se se conseguia manter na minha peugada, era bom e sabia o que fazia. «É ele, só pode ser ele! Tens de me tirar daqui!», gritou, implorante, agarrando-me o braço. A voz dela, por vezes fria, por vezes convidativa, há pouco tão sincera, tresandava a medo e a pânico. Reparei, pelo canto do olho, que resistia às lágrimas que teimavam em acorrer-lhe aos olhos. «Se o despistares, conto-te tudo, tudo, talvez até possas ajudar, mas acelera mais, acelera!» e o ponteiro subiu para os 110. Boa, era o que me faltava. Um dos meus motes era não me meter nos problemas alheios e, agora, via-me no carro do meu melhor amigo, com uma mulher tão enigmática quanto atraente ao lado, perseguido no escuro por um psicopata qualquer. Não sei que tipo de gajo podia instilar-lhe tanto medo, mas também não planeava ficar nas redondezas para descobrir. Mesmo que me quisesse descartar, se fosse apanhado, levaria por tabela. Respirei fundo e reuni todas as minhas forças para me concentrar. Ela percebeu e lembrou-se de puxar o cinto.

A perseguição durou ainda uns bons dez minutos. O facto de se tratar de um único caminho tornava impossível despistá-lo e obrigava-me a depender somente da velocidade, pelo menos, até que a estrada se desenrolasse em mais percursos. Frenético, com o olhar preso no caminho tenebroso e com as mãos presas no volante, a noite tornava-se um borrão sobre os meus olhos; senti o R6 forçar a caixa para além do limite.

Abri os olhos, incerto do que se passava, e olhei para o lado. A ruiva esfregava o ombro, gemendo, e parecia atordoada. Abri as mãos, que se haviam encrespado em torno do volante, e senti as palmas suadas descolarem da borracha e os nós dos dedos estalarem. Estávamos parados. O carro passara por outra passadeira de areia, desta vez, demasiado depressa; travei, guinei, fiz o jogo de caixa, mas acabámos por derrapar e sair da estrada. Num último sopro de presença de espírito, consegui evitar a morte certa em direcção ao mar, escarpa abaixo, e lançar o carro para a esquerda, em direcção à vegetação, até que, depois de rodar sobre o seu eixo sem parar, estacou, mesmo rente a uma árvore. Por pouco não me esmagara contra o tronco. Constatei que a minha companheira estava bem, apenas assustada e atordoada, e voltei o pescoço para o barulho de motores que cessavam. Estava perto o suficiente da estrada para a ver claramente, quando os dois carros se aproximaram do R6 e travaram. Espera lá! Dois carros? Do carro que nos perseguia, portentoso e robusto, saíram dois vultos. Do outro, mais pequeno, que pelos vistos se ocultara atrás do primeiro, saiu outro. Estavam a poucos metros de nós, juntaram-se, acenderam lanternas e começaram a avançar. Os focos de luz incidiam sobre as nossas caras e percebi, então, sob o brilho dos feixes, a extensão do terror dela, pálida e transida de medo. Estavam agora a pouco menos de três metros, quando estacaram e ouvi uma voz rouca: «Vá, conseguimos vê-los ai dentro. Se saírem a bem, vai ser mais fácil». «Mas, se quiserem sair a mal, tanto melhor». Acrescentou outro e riu, juntando-se à sua gargalhada a do primeiro tipo. Não havia fuga possível, nunca conseguiríamos sair do carro e fugir sem que nos deitassem as patas. Segurei a mão dela, trémula, gélida que nem a morte imaginava tão fria, e tentei tranquilizá-la, «vamos safar-nos desta, Ariel, vamos arranjar maneira…», mas era inútil, a minha voz entrecortada pelos soluços dela e o meu coração descompassado revelavam-lhe a mentira óbvia. Entreolhámo-nos e saímos do carro, postando-nos à frente das três luzes, que me obrigavam a semicerrar os olhos. Sentia o vento frio do mar bater-me na cara, escutava as ondas surdas no seu ataque incessante contra os rochedos, e, misturado com o cheiro a sal, um estranho aroma subiu-me pelas narinas, primeiro desconhecido, em seguida familiar, mas que depois me viria a aperceber de que era mentol. O vulto do segundo carro avançou uns passos, deu uma longa passa no cigarro e dirigiu-se aos outros dois. Uma voz de mulher, corrosiva, chegou-me aos ouvidos: «Vamos, rapazes, nada de violência. Não vêem que eles estão a colaborar, até saíram do carro, como tão educadamente pedimos». Desataram os três a rir, até que, do primeiro carro, outro homem se ergueu, «Tragam a mulher, não temos tempo a perder», tranquilo, com uma voz que, noutras circunstâncias, classificaria como cordial; era ele que claramente puxava os cordelinhos. Que merda!, quantos mais sairão dos carros!?, pensei, sentido calafrios correrem o corpo, dos pés á cabeça, da cabeça pela coluna abaixo, pelos braços, suando em bica, apesar do vento frio, dando comigo a pensar que ainda me ia constipar; engraçados os caminhos por onde a mente nos leva quando o medo é tão opressor que não há outra coisa a fazer senão enfrentá-lo ou escondermo-nos debaixo de uma pedra. A meu lado, Ariel estava petrificada. «Meninos, divirtam-se!», declarou a mulher. Deu uma última passa no cigarro, atirou-o para o chão e foi para junto do quarto elemento. Vi os dois vultos unirem-se na penumbra, sob a lua empalidecida pelas nuvens, como se se beijassem.

«Vou eu ou vais tu?», perguntou um dos homens munidos de lanternas. «Podes ir tu, vê-se que mal te conténs». Ele agradeceu a oferta e avançou para nós. Estacou. Rangi os dentes e fechei os punhos. O bruto fechou a mão simiesca sobre Ariel, puxando-a com tanta força que parecia apenas querer levar-lhe o braço, deixando o resto para trás. «Anda, o chefe está à espera». Instintivamente, lancei a mão ao outro braço e a luta que se seguiu foi de pouca dura. Assobiando o ar, um punho esmagou-se contra o meu estômago, torcendo-o e contorcendo-o, caí de joelhos, dobrado e vomitei tudo, lutando para respirar, até só sair bílis. Olhei para cima e vi que o homem se afastava com Ariel, arrastando-a pelo braço, que se começara a debater como uma louca. Chegada ao chefe, voltou a cair num mutismo lívido. Ouvi o bater de uma mão no rosto; ele desferira-lhe uma chapada e entregara-a à cúmplice. «Amarra-a e enfia-a no carro! Vai contigo», ordenou, impiedoso e resoluto, porém, calmo o suficiente para dar a sensação de que pedia a alguém que pusesse as compras no carro. Queria agir, queria ir lá e partir-lhe a o nariz, os dentes, a cara, os ossos todos, mas os meus pés pareciam ter-se enraizado no solo. «E o outro?», perguntou a mulher desconhecida. «Eu sei que não é ele, mas… não podemos permitir que se vá embora. Matamo-lo?»

Era agora, era o fim, ia morrer, a cortina ia descer, ia morrer sozinho, no escuro, numa estrada abandonada! Ouvi dizer que, nos últimos momentos de vida, esta nos passa diante dos olhos. É mentira. A única coisa que naquele momento me passava diante dos olhos era um grande vazio, de ideias, de reacção, o cérebro cessara o funcionamento, repassado pelas emoções. Por si só, as pernas começaram a recuar uns passos. Ouvi um estalido e parei, em pânico. Vira suficientes filmes de acção para saber como soava uma arma ao ser engatilhada. O manda-chuva aconselhou-me a ficar quietinho no lugar. Asseverou-me que era um bom atirador. Claro, que se eu lhe quisesse dar o gosto de uma fuga, estava à vontade. «Por quem nos tomas, rapaz?», ironizou, divertido. «Não te vamos matar, não te preocupes… não agora, não aqui, hahaha! Temos apenas alguns assuntos pendentes a resolver com a tua amiga, é tudo», declarou, sardónico. «Uma vez que a encontramos na sua excelsa companhia e com um carro que não lhe pertence, como compreenderá, faz agora parte integrante dos nossos negócios, bom senhor». Abriu a porta do carro e estendeu a mão: «Vamos?» Sentia-me estupidificado. Mais um pouco e o tipo convidava-me para jantar; na calha, ainda me oferecia sobremesa e café. «Chefe, podemos só dar-lhe uns tabefes, para o aclimatar à nossa presença?», perguntou um dos gorilas, expectante da resposta, como uma criança traquina e impaciente. «Hm…», o chefe debatia-se com a ideia, «Hm, bom, vá, está bem, agora que o vento corre de feição e que tudo se vai resolver, pode ser, divirtam-se», falou, com bonomia irónica e indulgente. «Mas!...» advertiu, silvando, «Não se deixem levar, quero-o vivo e em condições de falar! Isto vale sobretudo para ti, ouviste, Tubarão?», advertiu o chefe um dos homens, que logo anuiu, asseverando-o de que assim seria. Quem raio tem a alcunha de Tubarão?, pensava, logo descortinando que a resposta não se omitiria durante muito mais tempo.

Engoli em seco. Os dois brutamontes aproximavam-se como se fossem espectros… espectros estalando os punhos do tamanho de bigornas; e nenhum deles era parecido com um tubarão. Num lampejo de lucidez, pensei em ligar ao Lúcio. Se este atendesse e ouvisse o que se estava a passar, talvez conseguisse ajuda, mas, quase no mesmo instante, lembrei-me: merda, não tinha saldo! Mesmo que tivesse, o Lúcio ainda não devia estar refeito da soneca que ficara a fazer na minha cama. Uma enorme vaga de impotência varreu-me a mente. Não restavam soluções e a fuga era impossível. Já estava de pé e à espera, pronto para me defender o melhor que sabia e podia, os dois espectros pairando sobre mim, perto o suficiente para lhes ver os olhos coruscantes.