Ariel - Capítulo I

Tinha bebido imenso, bagaço, vinho tinto, aguardente velha, eu sei lá! Sentia-me perdido, sim, um tanto ou quanto fora de mim, confesso; contudo, sabia que a noite não iria morrer assim, não, hoje não, muito obrigado. Tinha encontrado uma mulher que me agradava: ruiva, alta, esguia, uns perfurantes e felinos olhos verdes capazes de me atravessar o corpo e desvendar as torpes e abjectas intenções que se me aconchegavam no espírito. Isso excitava-me. Sem sombra de dúvida, excitava-me. Não só me excitava, como me incitava a pôr freio à bebedeira e me obrigava a manter a consciência intacta, muito embora sentisse que o meu crânio era feito de porcelana, pronto a estilhaçar-se ao primeiro impacto.

O passar do tempo tornava cada vez mais doloroso manter os olhos abertos. Hm… permiti aos músculos descontraírem sobre o assento esponjoso e rasgado da velha carcaça do Hel. C'os diabos! Que fazia eu na carripana do Hel?, sem direcção assistida, estofos rasgados, cheio de fuligem, ar condicionado inexistente, libertando uma chiadeira horripilante sempre que encostava o pé ao travão? Liguei o rádio - na esperança de apanhar uma velha toada que assaltara a rádio nos anos 70 e que ainda hoje perdurava. Como era mesmo? «It’s gonna be a bright, bright sunshiny day»? Uma merda do género. Por alguma razão ao qual era alheio, agradava-me - e, como é óbvio, o menino Hel não cuidara de manter o correcto funcionamento do seu rádio (pelo menos isso, Hel, porra!). Pois, o traste conduzia o meu carro, o meu R6, novo, cheiroso, apetrechado dos mais brilhantes botões e obscuras funções, que eu seguia, de momento. E, no banco de trás, ia a ruiva, beijando-lhe o pescoço, despindo-se para gáudio do espelho retrovisor, acariciando-o. «Hel, meu sacana, és mais esperto do que pareces!» Estranhamente, no lugar da recordação em que decidíramos, pelos vistos, trocar de carro, numa troca em que saíra claramente a perder, encontrava-se o vácuo.

Recapitulei então os eventos dessa noite: o bar, a loira, o Hel, a ruiva, tudo acontecimentos que não eram de somenos importância e todos eles intercalados pela bebida adequada. A minha mente assemelhava-se a um novelo enrodilhado e sentia que só agora começava a desfazer os nós. Ainda assim, havia ainda muitos por desfazer. Que se seguira?, hm… pois… o Hel desaparecera, no bar, deixara-me a sós com a miúda, a ruiva, com os seus lábios vermelhos e apetecíveis, que apetecia ter beijado logo ali, assim mesmo, de chofre, no momento, e as pernas cruzadas, as coxas roçando uma na outra, num convite quase insidioso; saí com ela do bar, em direcção ao R6, o Hel lá apareceu, com o R7 e, com ela, partimos para a casa do meu amigo, perdida num matagal verdejante mesmo na intersecção que dá para a serra de Sintra e agora ali estava eu, numa cama que desconhecia, lençóis de flanela, em casa do Hel, à espera talvez duma sua prima afastada, retida quando a noite não passava duma ilusão feita de sombras estranhas que me enevoavam a razão e ao mesmo tempo me faziam sentir no íntimo que aquela era uma noite de resoluções de vida e de morte, até para prima ausente - à medida que fazia o R7 do Hel galgar quilómetros a fio na auto-estrada de Lisboa para Cascais.

Ariel - Capítulo II

Estacionei o R6 no 24 horas de serviço, puxei o travão de mão, suave, silencioso, e passei os olhos pelo espelho retrovisor como quem não quer a coisa, de forma casual. O meu olhar não se cruzou com o dela. Apanhei-a com os dedos longos a cobrir os lábios, contendo um discreto bocejo. Desviei o olhar ao ouvir a chiadeira típica dos travões do meu R7; às quatro da manhã, na auto-estrada vazia, o som ecoou como unhas a arranhar um quadro numa sala vazia. Lúcio estacionou a meu lado, o escape alucinado de fumo e cheiro a óleo queimado. Saiu do carro e, numa passada larga e confiante, dirigiu-se à estação. Segui-o com o olhar. Ao voltar, assomou à janela do pendura e, tirando o cigarro dos lábios, repreendeu-me, ríspido, mas condescendente, por entre uma nuvem de fumo, com um sorriso trocista nos lábios finos (sabia bem que eu era um teso), que devia tratar melhor o meu carro, que devia «tratá-lo como a uma mulher bonita». Rimos os dois e Lúcio virou o pescoço da janela para o banco de trás, querendo certificar-se do estado de espírito da nossa convidada. Parecia pensativo enquanto a observava. Decidi interromper as suas cogitações perguntando-lhe o que tinha vindo fazer aqui. Refrescos, disse-me, tínhamos de comprar refrescos. Abriu a porta do R6 e sentou-se a meu lado. «Esqueci-me do teu iced tea. Queres que te traga um?», perguntou, mordaz, rindo, desenfreado, e arrastando-me para o seu frenesi de gargalhadas. Às tantas, até a ruiva fora contagiada pelo nosso humor, o seu riso entrelaçando-se com o nosso.

Entre as ilusões e as certezas de que abarrotava o suposto diálogo que com ele mantinha, ao mesmo tempo que o meu pé descansava no acelerador como se a minha existência disso dependesse, entre duas passas num cigarro artesanal enrolado por mim e meia dúzia de conselhos fraternais dele, a conversa, a animação e a camaradagem jorravam como se do R7 imanasse um afluente no rio da nossa parvoíce imberbe mas sincera, como se a rapariga que ele insistira em trazer connosco fizesse também parte de um papel maior no desígnio máximo das coisas; e foi assim que me pisou o pé, abruptamente, fazendo com que o ruído do motor acelerasse toda a estação de serviço até os três de nós nos rirmos como crianças à solta na vida que era aquela estrada até minha casa, onde eu tinha os meus próprios planos para a miúda que se espraiava em tons de preguiça indulgente no banco de trás do R6.

Mal sabia eu que a noite ainda reservava surpresas, sobretudo a maior de todas e não a que apenas acabava de me confrontar com os seus sequiosos lábios vermelhos e os seus grandes olhos verdes, tentadores, brilhando por entre a melena de fogo que lhe afagava o rosto de seda, enquanto o meu grande amigo, na sua demência alcoólica, ainda discursava, crente em fidelidades igrejas e códigos de honra ultrapassados, mas não para todos, talvez.

Quem sabe se não seria a última vez que me encontrava com ele, mas, fosse como fosse, valia a pena. Era ela. Sim, era ela. A ruiva que nos acompanhava. A mulher com quem iria ser feliz. Sim, era com ela. Só tinha de encontrar maneira de me livrar do Lúcio.

Ariel - Capítulo III

Abandonei o devaneio de morte e felicidade em que me lançara na estação de serviço e, arrancado de volta à realidade, com uma mão no estômago e com a outra sobre a boca, soltei um sonoro arroto. Após um silêncio de espanto face à minha repulsiva manifestação estomacal os meus dois companheiros riram-se de novo, ruidosamente, talvez que ruidosamente a mais.
No banco de trás, na minha nuca, a pensar, sabia-o, encontravam-se aqueles dois olhos verdes, despertos e húmidos, acompanhados dum riso subitamente quase que infantil em demasia. Sentia isso perfeitamente. Ria-me também mas algo mudara. Fora como se se tivesse criado, a dado passo da nossa jornada desde Lisboa, um clima diferente, um pouco como se estivéssemos a fingir o nosso real estado de embriaguez, embora eu continuasse bêbado dos pés à cabeça e assim desejasse permanecer, sentia que algo mudara. Fora a miúda da bomba. O café e também o “refrigerante”, com uma acidez um pouco acima de 40 graus, fora isso.
Aquela história começava a assustar-me. Estava muito bêbado e algo não batia certo, a começar na porcaria de chaço que tivera o desprazer de conduzir nos últimos quarenta quilómetros e a terminar naquele parceira bizarra de olhos verdes e cabelo ruivo no banco de trás do meu carro. No banco de trás do meu R6, da minha viatura confortável, segura e imbuída do glamour necessário à prossecução das minhas capacidades no que respeitava ao burocraticamente burlesco das actividades que desempenhava, zelosamente, no Ministério; havia algo naquela rapariga que não batia certo.
O que era? Já sabia. O meu pai não aprovaria. Não falo da bebedeira. Nem sequer da troca do carro. Oferecera-me o carro e jamais admitiria questionar o destino que pudesse dar aos seus presentes. O meu pai era e é assim. Mas não aprovaria. Uma puta estava no meu carro, à frente da bagageira, fria, na minha nuca, à frente dos documentos, não se assumindo como o que era. Sim, de todo o velhote aprovaria. Quanto mais não fosse… Ali havia gata. Dei mais um longo gole na garrafita de que me munira com a menina do balcão, já essa era mais gatinha, a miúda, bem bonita por sinal, mulata, da minha altura, peso aproximado, e fitei o Hel, perpendiculando-me provocatoriamente em relação à ruiva, enquanto aproveitava para lhe cravar lume, arrogante, em tudo displicente no meu gesto silencioso com que o cigarro cortava a atmosfera embaciada do R6 e o chaço do Hel mesmo atrás a fazer sombra. Ela nem tugiu nem mugiu, surripiou um isqueiro de grife da sua maleta, só agora reparava que trazia uma maleta, grená, e sorriu, cúmplice, à medida que me acendia o cigarro. Que linda que era. Linda.
Hmm, reflecti. Dei outro gole ainda mais longo e disse, finalmente, para quebrar o gelo que sentia num outro rosto que se perpendiculava um tudo ou nada torpe, um tudo ou nada resistente, mesmo à minha frente: Bom, menino, acorda rapaz, vamos trocar de carro como deve ser e é de direito?.. O Hel não gostou da sugestão, vi logo que não lhe agradava e, glauco, sem lhe permitir hesitações, passei-lhe a garrafa para as unhas. Tirou-lhe a rolha, bebeu, generoso, sem medo e o acelerador voltou a soar, desta feita um tudo ou nada amantigado, essa era a palavra, sibilando por entre os corredores das bombas de gasolina da estação de serviço até se lhe esmoerem os arroubos de gasolina ao encontro ao vidro da menina do balcão, mulata.
Eu sorri, feliz, arranquei-lhe a garrafa e passeia-a à ruiva, só para ver melhor o filme dela; daquela falsa puta ruiva. Que cabra. Bebe, disse-lhe. Crivou-me os olhos entre o nariz, furiosa, por certo, desarrolhou e enfiou o gargalo na boca, até o Hel ficou tonto, até a garrafa ter sido despejada.
Topei o Securitas ao canto da estação a franzir o sobrolho e gostei ainda menos da maneira como as coisas se estavam a desenrolar. Era o momento de fazer alguma coisa e dei mais um gole: “Mexe-te, anda, vamos trocar de carro, ias batendo lá atrás, lamento, volta para a tua chocolateira."
Então, com um sorrisinho escarninho, entre dentes, acrescentei: “Podes levá-la, isso, leva-a, leva-a contigo, otário!..” confiante de que, pelo menos por enquanto, restabelecera a minha supremacia sobre o esquema geral dos coisas e sobre a minha amizade com o Hel em particular. Afinal de contas, eu e ele éramos amigos, long time, e ser amigo também é não abusar. É como esboçar um não o faças e isso juntava-se à equação do meu novo veículo que o meu pai me oferecera e… Compreendem. Coisas de documentos. Os documentos eram importantes. “Lúcio, porque é que não te calas?” falou a puta.
Miravam-me e ao meu companheiro, promissores e convidativos, os seus olhos verdes, e os seus lábios de púrpura seda sanguinolenta desenhavam-se num sorriso de parvoíce completa, relaxada... Que puta tão bela, estaria embriagada? Talvez não passasse de um desejo inflamado pelo álcool, pelo meu álcool, comprado com o meu dinheiro, nos meus bancos do meu R6 de cabedal; “Dá-me lume amor, dá-me lume”, replicou, no gozo, a gozar o prato como se fosse a primeira vez.
Sim, dou-te. Sim, dás-mo, ele ri-se de ti e do teu carro. Sim, tu ainda te ris mais de nós os três. És um tonto, Lúcio. Sou? Tu é que és uma tonta, uma desvairada, Ariel, cuspi para o Hel, recordando-me do seu nome.
Parecíamos três fedelhos, quando bati com a porta do meu carro e me encaminhei decidido para a deprimente chocolateira dele (céus, como era capaz de conduzir tal desastre), mas eu, pelo menos, desejava algo mais naquela noite, noite de estrelas e de medo, inexoravelmente, involuntariamente, eu queria mais, mais. Queria mais. Queria a mulher, ponto e dei a chave e o motor pegou. Rouco a princípio. Regular, depois. O Hel deu à chave no R6. A ruiva, a tesão rubra que ela me havia provocado, deitou-se fora da visão no banco de trás. E, se bem conhecia o meu caro Hel, não estava sozinho na minha ânsia. Fosse como fosse, decidira que a noite não seria de partilhas, de algum modo, era matar ou morrer, ou melhor, conduzir até à quinta dele.

Ariel - Capítulo IV

Lúcio bateu com a porta do R6, quiçá mudando de ideias quanto a voltar para o seu carro, e, decidido, encaminhou-se para o meu bólide, pesado e roufenho. Deu à chave e o velho R7 reagiu, rouco, a princípio, regular, depois. Fiquei a observá-lo, por instantes, distraído, constatando que o bate boca entre a miúda e o Lúcio parecera ter ultrapassado a sadia troca de galhardetes e se transformara numa rivalidade acirrada pela susceptibilidade que o álcool instala nos espíritos dos homens. Hm, reflecti. Azar. Conhecia bem o Lúcio e, apesar desta sua tirada com a ruiva, - com Ariel, como fizera questão de frisar, com os olhos faiscando no meio da esclerótica vermelha, - apesar disso, conhecia o meu amigo e sabia que não estava verdadeiramente zangado, não a sério, nem comigo, nem com ela, embora percebesse que uma qualquer dúvida ou frustração se lhe anichara no cérebro, provavelmente, instilada pelo álcool e ainda a fermentar. Tal agressividade denotava uma clara insegurança em relação a esta situação. Seguramente, não lhe agradava o facto de eu, apesar de ser seu amigo de longa data, ter assumido os comandos do R6, considerando que não estava menos bêbedo do que ele. Um longo buzinão despertou-me das minhas reflexões. Que raio!, passara o dia, desde que chegara ao bar, em cogitações supérfluas e de todo desinteressantes. Estava na hora de agir, sim, de agir!

Pelo retrovisor, vi o Lúcio gesticulando com uma das mãos, fazendo-me sinal para arrancar à sua frente. Acenei, dando a entender que percebera, dei à chave e… reparei que Lúcio esquecera a garrafinha do “iced tea” no banco do pendura. Sedento, antes de arrancar, estendi o braço e fechei os dedos sôfregos sobre o vidro frio. Levei a garrafa à boca, mas somente umas míseras gotas esquecidas no fundo saudaram a minha garganta. Desgostoso, engatei a primeira com suavidade e deixei o pé cair, delicado, sobre o acelerador. O carro ronronou de satisfação e deslizou, ligeiro e ágil, sobre o asfalto bruto.

A viagem continuou em silêncio. A ruiva não dava o ar da sua graça e pensei, por fugazes instantes, que tivesse amuado com qualquer coisa. Cedo a sua inércia, no banco de trás do carro, me revelou que fechara os olhos por breves instantes e que caíra num profundo sono passageiro, talvez sem sonhos ou ânsias de nada. O sono escondera o verde frio dos olhos da nossa companheira e o seu cabelo espraiava-se em madeixas de fogo encaracoladas sobre o seu rosto, pintando o banco do R6 em matizes de vermelho, o peito trabalhando lentamente, subindo e descendo, à medida que o ar lhe invadia os pulmões e se escapulia pelos lábios vermelhos. Não estava surpreso; afinal, depois de quase ter despejado a garrafa de um só gole… Melhor assim. Dava-me tempo de pôr a cabeça em ordem. Aquela última aguardente deixara-me de rastos. A última, é sempre a última antes da próxima. Agora, estava na hora de apelar a um último sopro de organização mental, sim, tinha de envidar todos os esforços nesse sentido. Afinal, a minha casa ainda ficava a uns bons quilómetros e a auto-estrada desenrolava-se como uma infindável passadeira negra que me conduzia a um fim indeterminado, engolido pela noite que nos envolvia. Na minha esteira, os faróis do R7 mantinham o seu olhar amarelado em cima de mim, implacável, inalterável, sempre na minha esteira. Liguei o pisca para sair da auto-estrada e espreitei o Lúcio. Apercebi-me de que não seguia o meu exemplo e veio-me à memória, de forma quase involuntária, que tinha um dos piscas avariados, possivelmente aquele contra o qual o Lúcio praguejava neste preciso instante.

O carro galopou os últimos quilómetros num piscar de olhos e cedo me familiarizei com os meus arredores, agora condunzindo quase em piloto automático. Avistei a entrada. Por um momento, julguei que o Lúcio não conseguiria, mas não há mais rijo do que ele e não há aguardente que o derrube. Afinal, parece que o R6, com a sua direcção assistida, travões ABS, GPS e sei lá mais que siglas ocultas, ainda não tinha amolecido o meu amigo, que ainda há poucos anos me levava por essa noite lisboeta, numa carripana em tão mau estado como a minha, a beber copos e a conhecer miúdas. Nostálgico, constatei que a nossa rotina não mudara assim tanto. Hm… talvez não em tão mau estado.

Galguei a pequena estrada de terra que dava para a minha quinta e estacionei, longe de possíveis olhares indiscretos. Virei-me para trás. Ariel dormia profundamente, mas sentia que, ao mínimo encorajamento, o seu cabelo de fogo estaria pronto para dançar para nós… para mim. Até dava pena acordá-la… «Ó, Hel, estás a dormir de olhos abertos, meu? ‘Tás bem?» Lúcio estacionara a meu lado e o barulho que fez ao quase arrancar o travão de mão sobressaltou-me e afastou o meu olhar basbaque do calor que o corpo no banco de trás emanava, numa calma pronta a explodir. «Eu... não, estou bem, é aqui, chegámos. Temos de a acordar.» «Ya… pois tens. Eu tenho de ir ali num instantinho». Mirei o rosto de Lúcio com perplexidade, tentando descortinar na sua expressão o seu verdadeiro intento, sem sucesso, no entanto, já que no meio daquela treva todos os rostos estavam vazios, dando rédea solta aos espíritos para tecerem os mais tenebrosos desígnios, livres de qualquer escrutínio. Ainda bem que o Lúcio era um amigo de longa data. Confiava nos seus desígnios, mesmo nos mais tenebrosos, especialmente nesses. Sem argumentar, e encobrindo um fugaz esgar de satisfação que permiti ao meu rosto assumir, deixei-o afastar-se, a pé, em direcção sabe-se lá de onde e para fazer sabe-se lá o quê, e voltei a concentrar todas as minhas atenções na mulher.

Saí do carro e abri a porta de trás, com o intuito de a acordar. Debrucei-me para a despertar e estaquei, com o rosto quase roçando o dela. Um perfume doce, inexplicavelmente aliciante, insinuou-se pelas narinas e, impossível de reprimir, o meu dedo tocou ao de leve na sua fronte, começando a descer lentamente pela linha do rosto, sedoso, que traçava um pescoço esguio e delineado na perfeição, até desembocar nos ombros despidos. Ajeitei-lhe a alça do vestido e acordou, de repente, assustada, assanhando-se, recuando para o banco mais afastado, o verde gélido perfurando-me inquisitivo e confuso, por momentos sem saber bem onde e com quem estava. Ao olhar para mim, avivou-se-lhe a memória e os seus lábios transfiguraram-se no trejeito de ironia malevolente a que me tinha habituado no decorrer da noite. «Sabes, também cobro quem quer ficar apenas a ver. Tenho a certeza de que o teu amigo não se importa». Deixei que um sorriso plácido se me desenhasse no rosto, o que apenas a provocou, e foi com um certo gáudio que vi os olhos verdes incendiaram-se ainda mais, até ficarem da cor do cabelo. «O que foi?» «Hm… nada, nada». Soergui-me e escancarei a porta do carro, fazendo um gesto redondo com o braço, encorajando-a a sair da toca. Acreditava que já se sentiria picada o suficiente para sair. De um salto, saiu do carro e um observador menos atento nunca diria que aqueles pequenos pés que saltitavam em direcção à minha casa ainda agora enfeitavam, inertes, o banco de trás do R6. Juntei-me a ela para a guiar pelo caminho tortuoso, penetrando no breu, quando o ouvi, trocista, um eco na penumbra, aproximando-se numa marcha rápida: «Hel, onde pensas tu que vais sem mim?»

Ariel - Capítulo V

Nada funcionava direito na porcaria do R7. Que merda de carro tinha o Hel, chiava que nem um porco em dia de matança, guinava perigosamente nas curvas e, qual cereja no topo do bolo, os piscas não funcionavam. A minha sorte é que de carros de merda percebia eu, nem sempre conduzira o maravilhoso do R6, que agora galgava quilómetro atrás de quilómetro à minha frente. Porque carga de água trocara eu de carro com ele? Fora para me armar, fora para me armar a ele e, sobretudo, a ela. Sempre gostara de mulheres ruivas, desde que me lembrava, mas nunca comera uma, nunca. Agora, lá ia ela, no meu carro, ao lado do sacana do Hel. Caralho, estava com dificuldade em manter os olhos abertos, era o que era, pesavam-me as pálpebras, todo eu era cansaço e sono. Seria a isto que chamam velhice precoce?

Precisava dum gole de álcool, mas sentia instintivamente que não era altura de beber mais nada. Tentei concentrar-me nas luzes traseiras do R6 que me precedia. Raios, o que estava eu a fazer? Se o Hel me fodesse o carro, tinha eu sarilhos à grande.

Teria? Ora, deixá-lo, reflecti, tentando pensar noutras coisas. No trabalho. Nos documentos. No meu pai. Caramba, lindo serviço o meu, Lúcio Ferro, 33 anos, agrónomo da treta colocado no Ministério dos Estrangeiros (?!?) por especial cunha parental. Putanheiro, bêbado, cínico, divorciado. Amigos? Talvez, o Hel, sim, o Hel era um amigo. Aliás, se não fosse o Hel, a sua juventude contagiante, a sua ética imparcial, completamente destituída de falsos pruridos ou das hipocrisias mais ou menos moralizantes que por aí abundam, se não fosse ele, tinha a impressão que há muito teria dado um tiro nos miolos e mandado tudo o resto à puta que pariu. Sim, o Hel era um amigo, como só um verdadeiro amigo pode ser: compreensivo quando é justo sê-lo e implacável quando não há outra possibilidade.

Liguei o rádio, milagre, funcionava! Oceano Pacífico, Oceano Pacífico. Ah, sim, o oceano pacífico, estávamos en route para Cascais, assim é que era, tínhamos deixado o 23 para trás, belo tasco, a vida era bela, a gaja que ia ao lado dele no meu carro também, eu não era novo mas podia ainda vencer; ainda podia vencer na vida. Refeito com este pensamento confortador, desci o vidro, escarrei para o asfalto e acelerei, para não deixar escapar da vista a traseira do R6.

Nisto, quase que perdia a saída da auto-estrada e praguejei ao constatar, mais uma vez, que os piscas do R7 não funcionavam. Fui encadeado pelos máximos dum carro atrás de nós, meti pelo desvio, reduzi e um carro atrás de mim quase que me batia. Marimbei-me no caso, curioso, desta feita nem luzes me haviam dado, como um peixe abri e fechei os olhos, várias vezes, e, com a boca aberta, de língua de fora, fiz brâbrâbrâbrâ múltiplas vezes, a ver se despertava. Funcionou. Ao menos eu funcionava.

Seguíamos para a quinta do Hel. Que bonita procissão. O Hel e a Ariel, aquela ruiva puta ou puta ruiva, no meu carro novinho em folha; eu, no chaço do Hel e, lá mais atrás um carro branco, curioso de novo, aquele porco deveria ir para o mesmo sítio que nós, talvez para Sintra, estranho caminho o dele, era o gajo que não me dera luzes; experimentei uma vaga sensação de perigo, mas até que nem íamos muito depressa e conclui que devia ser ainda a bebedeira, de certeza, tinha de me concentrar no que estava a fazer.

Passámos por Birre a abrir, na rotunda o Hel meteu demasiado depressa em direcção à Ericeira e ao fazê-lo as rodas traseiras do R6 resvalaram perigosamente e ele foi forçado a contra-guinar, quase saindo da estrada; mas o gajo estava doido ou quê? Tive que travar a pé fundo para não lhe bater e por meu turno quase que era abalroado pelo carro branco atrás de nós.

Em fila indiana, seguimos, agora mais devagar, parecia que o pulha do Hel estava a tentar localizar-se (nunca lhe deveria ter oferecido aquela última aguardente). E a Ariel, em que pensaria? Aquela miúda era realmente fora de série. Caramba, pensando melhor nisso, era uma miúda acima até da minha Liga, já não falando da do Hel. Bizarro, este filme todo era bizarro e mais bizarro era não saber qual seria a continuação. Fodê-la-ia eu, ou ele? Faríamos uma menage? Ficaríamos ambos a chuchar no dedo? Hum, muito estranho tudo isto, mas enfim, logo se tirava a prova dos nove.

O pobre do Hel devia estar mesmo mal. Quase que falhava a entrada da quinta e mais uma vez tive de desacelerar bruscamente para não bater na traseira do R6. Mas lá consegui e segui-o. No meu espelho retrovisor, o carro branco passou por nós, devagar, estranhamente devagar. O R6 estacionou um pouco mais à frente. Parei também, voltei o pescoço e olhei para trás. Raios. O camarada do carro branco, aquele carro que topara pela primeira vez à saída da auto-estrada, tinha-se imobilizado uns 50 metros à frente da entrada para a quinta. Estava parado, via-lhe as luzes por entre os pinheiros e, de repente, apagaram-se. Estranho, porra, muito estranho. E a merda dos documentos na bagageira do R6. Estaria eu a ficar paranóico? Hmm.

Voltei a custo a ligar o motor do chaço, avancei e estacionei, mesmo rés-vés, ao lado do R6. Desliguei o rádio. Oceano Pacífico, Oceano Pacífico. Pela janela aberta gritei para o Hel: «Ó, Hel, estás a dormir de olhos abertos, meu? ‘Tás bem?» O Hel não estava bem. Nada bem. Que filha da puta de sorte não me ter fodido o R6 todo. Balbuciou não sei o quê acerca da Ariel. Dormia, a puta, os seus longos cabelos alaranjados espraiavam-se pelo assento de cabedal, uma visão de anjo e ao mesmo tempo de pecado capaz de pôr o membro dum morto de pé. No entanto, havia no ar um perfume a aguardente e a esturro que não me agradou. Seria um incêndio? Não há incêndios no Inverno. E depois havia uma outra coisa. Aquele carro branco que, tinha a certeza, não se fora embora ainda. O Hel continuava meio bêbado, meio menino, a dizer não sei o quê de acordar a ruiva. Mais valia que a violasse assim, enquanto a puta dormia, tonta. Pobre Hel, às vezes era completamente inocente e tentei fazer-lhe ver isso mesmo: «Acorda-a tu, eu tenho de ir ali num instantinho». E tinha, de facto. Antes de tudo, tinha de certificar-me duma coisa
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Pus-me a mexer sem lhe dar tempo para réplicas. Mexia-me agora velozmente, silencioso, na diagonal, até o sítio onde sabia existir um buraco na vedação da quinta, lembrava-me bem, no Verão anterior numa patuscada comentara com o Hel que era uma pena, que por ali «podiam entrar malfeitores». Na altura ríramos ambos, mas agora não era ocasião para graças. Eu ia com um objectivo; podia até ser que me enganasse, mas podia ser que não, e é pela dúvida que morre o burro, como é costume dizer-se. Lá estava o buraco na vedação, eheheh, nem o Hel nem os seus velhos avós, (O Hel é órfão de mãe e pai, talvez por isso a nossa amizade, eu também era órfão, isto se não contasse com o meu velhote) haviam mandado consertá-lo.

Esgueirei-me como um gato e zás, em três minutos ali estava eu, agachado, mesmo na traseira do carro branco. Sempre tivera razão, alguém nos seguira, a mim, a ele, a ambos, ou, hum, ou se calhar a ela, a Ariel… Porque razão nos haviam seguido? Lentamente, fui torneando a traseira do carro para o lado do condutor. Uma mão pendia da janela. Uma mão feminina, e dos seus dedos um cigarro com sabor a mentol. Com sabor a mentol… Hum… Sabia, ou julgava saber, quem nos tinha seguido. Contudo, só havia uma maneira de descobrir… Se estivesse enganado…

Ergui-me lesto e em dois passos estava junto à janela do condutor. Não me enganara. Trocista, escarninho, berrei-lhe aos ouvidos: «Que fazes aqui? É um bocadinho tarde para andares à caça dos patos gambozinos, não achas Telma?» Ela foi percorrida por um calafrio, dos bicos das unhas dos pés até à ponta dos seus cabelos loiros encaracolados e acho mesmo que se tivesse tomates estes lhe teriam caído ao chão; como não os tinha, foi só o cigarro. Antes mesmo deste chegar ao solo já eu dava uma longa passa e a inquiria, desta feita suavemente, quase melífluo, para ganhar balanço: «Então, amor, que fazes aqui?»

Respondeu da última forma para a qual estaria preparado. Torceu a boca, os olhos brilharam-lhe dementes e desatou num pranto tão inusitado quanto inquestionável, aqui e ali pontuado por desabafos e acusações: «Sim, segui-te, sim, sou uma puta, uma puta sim, mas segui-te porque te amo, até uma puta pode amar, porque te odeio, porque não suporto que tenhas saído com essa ruiva infernal que teu a volta à cabeça!»

Aquilo não estava a convencer-me de todo, já se sabe, de puta loira nem bom casamento nem boa foda mas, entretanto, o choro dela estava a dar-me tesão, senti o pau crescer-me nas boxers e resolvi que por agora acreditaria naquela tolice dela: «Gostas de mim, como assim, como é que podes gostar de mim?» E ela que gostava, que me desejava desde o primeiro momento em que eu entrara no 23, há uns bons seis meses atrás, que ficava fula cada vez que me vira sair com outra, que não percebia porque nunca solicitara os seus serviços… Pois, pois sim, eu sabia, era a tal história de putas loiras e de casamento, ó se sabia.

Finalmente relaxou. Lembrei-me do Hel e da Ariel. Que berbicacho este e agora, que podia eu fazer? Apetecia-me foder esta gaja que lacrimejante me confessa a extensão do seu amor, mas não sabia bem como. Então, lembrei-me da chave do anexo, afastado da casa principal da quinta uns bons 100 metros e que o Hel guardava debaixo do tapete da porta, «para quando chego bêbado e não quero armar estrilho Lúcio, ahahah! Quando quiseres vir cá abancar, ‘tás à vontade, só quando venho muito bêbado é que aqui entro, ahahah!»

O diabo é que naquele preciso momento o Hel estava bêbado, podia muito bem dar-lhe para lá se ir enfiar com a puta da Ariel e depois era uma chatice. E daí, até não; em sendo esse o caso, faríamos um foursome. Contudo, mais uma vez, merecia a pena confirmar as intenções dele, nessa noite não estava numa de partilhas.

A minha mente fervilhava num misto de excitação e de ressaca, Telma soluçava, boa como o milho, bela, vaca, puta, em todo o seu esplendor. Preguei-lhe um magnífico linguado, longo, e saquei-lhe as lágrimas do rosto com a língua. Pareceu animar-se. Tossiquei intencionalmente e disse-lhe, pausado: «Escuta, vês ali a casa?» E ela que sim, acenando. «Bem, daqui a vinte minutos, vês ali aquele anexo?» E ela, outra vez que sim, a fazer beicinho. «Bem, daqui a vinte minutos, vais lá ter comigo, mas não faças barulho, não faças barulho algum senão ‘tás fodida comigo, compreendido?» Acenou outra vez, ainda de beicinho, quase linda, depositei-lhe novo beijo e afastei-me pelo caminho por onde viera.

Ao chegar perto da casa o cenário havia-se transformado substancialmente. O Hel e a ruiva, em amena cavaqueira, que amigos que eles estavam, subiam o carreiro sinuoso. Decidi divertir-me um pouco, saltando-lhes ao caminho, estaquei sardónico e invectivei-os: «Hel, onde pensas tu que vais sem mim?»


Ariel - Capítulo VI

Fechei a porta do carro e ao sentar-me o meu velho e fiel companheiro R7 gemeu num lamento em todas as suas articulações. Dei à chave, pegou, comecei a rodar o volante, preparava-me para arrancar, quando tocou o telefone, raios. «Olá, querida…! Pois, não, não vai dar, é que hoje combinei com o Lúcio de ir beber um copo… Sim, eu sei que ontem também não podia… Bem sei que combinámos hoje de…» E ela desligou. Suspirei, engatei a primeira e, numa tosse roufenha, o R7 lançou-se, já veloz e robusto, para o meio das confusas ruas de Lisboa, espremendo-se por entre os carros, faixa atrás de faixa. Chuviscava. Esta porcaria de atitudes e de discussões por parte dela não vinham melhorar o meu dia. A última coisa de que precisava era de cenas de ciúmes, sobretudo por causa de amigos; se ainda fosse por causa de outra gaja, se, pelo menos, se pelo menos fosse realmente outra gaja! Ora, mulheres.

Já o doutoramento também não me corria de feição. Acabara de receber a notícia, por intermédio da delicodoce voz da minha orientadora, de que me iam «cortar a bolsa, que o projecto deixara de ser viável, que uma praga de Ceratitis capitata devastara os pomares, que a universidade e o departamento começavam a duvidar do meu empenho e interesse em levar o doutoramento a bom porto». Respondi que não, que fazia os possíveis, que já instalara as armadilhas Tephri, que tratara pessoalmente com os fornecedores acerca da compra de FFA, FFP e FFT, que os pomares seriam salvos, que era do meu maior interesse empenhar-me na conclusão do doutoramento. Enfim, a ladainha do costume, verdadeira, desta vez, mas ela não parecia muito convencida, acenando que sim com pequenos movimentos de cabeça, um sorriso amarelo decorando-lhe o rosto enrugado, interrompendo-me a meio para rematar com um céptico «pois, não pense mais nisso, Hel. Desfrute das suas férias e Boas Festas. Envio-lhe um e-mail para nos encontrarmos em Janeiro». Tornara-se dolorosamente óbvio que ia ficar sem bolsa a partir de Janeiro. Que bela maneira de começar 2009.

Pelo menos, tinha combinado este encontro com o Lúcio. Havia muito que não nos víamos. Ele andava ocupado com o seu novo cargo no ministério e eu ainda estava para perceber em que é que as suas funções consistiam exactamente. Na verdade, apesar do fiasco que se revelava, o doutoramento absorvia-me grande parte do meu tempo livre. Tínhamos agora esta pequena nesga de tempo, esta janela de oportunidade, quatro dias antes do Natal, para nos encontrarmos, pensar o futuro, rir do passado e, porque não?, do presente, sobretudo quando se houvesse motivo para brincadeira. O certo é que sempre conseguíamos encontrar motivo para rir, até nas situações mais improváveis.

Enfim, sentidos de humor muito peculiares. Sorri ao recordar-me da sua chamada, umas horas antes: «Vamos ao 23, Hel? Vamos, vamos até lá, bebemos uns copos, conhecemos umas miúdas vá, vá, percebo pela tom do teu silêncio que é isso mesmo de que estás a precisar». Talvez fosse mesmo… daí tivesse encolhido os ombros, esquecido as amarguras e os problemas e me concentrasse em olhar em frente; era preciso, estava um trânsito terrível.

Chegado às imediações do 23 não me poupei a levar o R7 numa passeata à volta dos quarteirões circundantes, desgastando as suspensões sobre os buracos da Baixa, à caça dum lugar, duma nesga de espaço nesta cidade cada vez mais atravancada. Finalmente, depois de quase três quartos de hora a tentar encontrar um pequeno nicho para o mastodôntico R7, lá consegui estacionar. Tirei a carteira do porta-luvas, abri a porta e reflecti, enquanto vestia o casaco, a noite soprava um vento gelado e a chuva caía, miudinha, que um cartão ministeriável devia resolver quase todos os meus problemas automobilísticos quando saía à noite. Pois devia, mas eu não tinha benesses dessas. Enfim, em passo estugado, percorri a calçada, sempre longe da estrada e atento, não fosse alguma besta decidir que precisava de um banho de meia-noite. Avistei a porta do 23. Era muito provável que fosse encontrar o Lúcio fulo da vida, farto de esperar por mim. Parei à porta do bar e o imenso monstro que estava feito cão de guarda à entrada, de cima dos seus quase dois metros, mirou-me de alto a baixo. Por detrás das suas lentes negras e impenetráveis, aparentemente satisfeito com a avaliação que fizera, deu um passo ao lado e deixou-me passar. Desejei as boas noites, fez gala em ignorar-me, e regressou ao seu posto, hirto, colossal. Entrei e avaliei o 23: à minha esquerda, encontrava-se o longo balcão em madeira escura e no lado direito viam-se algumas mesas, as cadeiras estavam ocupadas por pessoas a conversar e a beber. Perscrutei os recantos em busca de Lúcio, lancei o olho aos reservados, locais por natureza inconspícuos, ideais para se beber uns copos e pôr a conversa em dia. Depois de inspirar os cheiros e atmosfera do ambiente, detectei-o ao balcão, para surpresa minha, já acompanhado, tão cedo, de uma loira espampanante. Ela trazia um vestido curto, preto, sapatos de saltos altos e um cabelo loiro, encaracolado, dançando-lhe no rosto e hipnotizando o meu amigo. Desci calmamente o lanço de dois degraus, evitei algumas pessoas que dançavam ao som da música, tirei o casaco e, ao mesmo tempo que me sentava ao balcão, três ou quatro bancos afastado do Lúcio, longe de mim querer invadir o espaço dele, nesse momento, cruzei o meu com o seu olhar, deixei escapar um sorriso discreto, virei-me para o bartender e pedi uma imperial. Pela carantonha, deduzi ele estava interessado em tudo menos no meu pedido, mas ainda assim lá pegou num copo e começou a tirar a bebida.

Nisto, chegou-me ao canto do olho a mão sinuosa da loira, a cair, discreta, na perna de Lúcio, subindo, e este, todo entretido, todo mãos pelo corpo dela, os dois rostos colados, ele só sorrisos e ela a sussurrar, enrolando o cabelo com o indicador. Decidi esperar tranquilamente, degustando o líquido fresco e espumante que me refrescava a garganta. Curiosamente, o bartender parecia, por sua vez, interessado no flirt que se lhe desenrolava à frente, lançando olhares fugazes aos dois, por entre as diligências do balcão. De súbito, Lúcio olhou para mim, disse qualquer coisa à loira que ela pareceu não gostar e veio ao meu encontro, com um andar seguro e exibindo um sorriso visivelmente triunfante, ajeitando o colarinho da camisa. Estendeu-me a mão. Apertei-a, absorto, e disse-lhe, desprendido e seco, mas sem esconder o tom cúmplice: «Sim, maravilha, óptimo Lúcio, old fellow, vejo que te corre bem a vida…» Resmungou não sei o quê, com um gesto largo depreciativo indicou que aquilo, e aquilo era a boazona que ele despachara, não era «nada», «nada» e, sorrindo de novo, pediu também ele uma bebida.

De repente, chegou ao balcão uma mulher desleixada, quase a tropeçar nos próprios pés, de copo na mão, velha. Sentou-se no banco ao meu lado, o corpo apoiado no balcão para não cair, perscrutou-me com olhos ávidos e vidrados, arrotando, de um só jorro, um inusitado convite: «Vamos foder?». Lúcio conteve a muito custo um súbito ataque de riso. Na verdade, e para meu infortúnio, à minha frente encontrava-se, sem sombra de dúvida, a mulher mais desprezível de todo o bar, pelo que, em tom educado, recusei e retomei a minha aprazível tarefa de levar a imperial aos lábios. Ficou absorta por um instante, levantou-se mecanicamente, Lúcio ia gozando o prato com um sorriso escarninho nos lábios; ela ainda esteve para se bater a ele mas, talvez desancorajada por algo nos olhos do meu amigo, de copo vazio na mão, pelos vistos já mais interessada num sujeito que bebia sozinho, numa mesa protegida pela penumbra, afastou-se em sua direcção, cambaleante. Estávamos no 23, seguramente, estávamos no 23 - sem margem para dúvidas.

Ariel - Capítulo VII

A 20 de Dezembro, quatro dias para o Natal, foram-me concedidas as férias pelas quais há muito insistia, o meu chefe apertara-me a mão e dissera-me, roufenho, seco: «Lúcio, faz seis meses que está na casa, não se esqueça do que lhe digo, escute que talvez lhe venha a ser útil, na nossa profissão há muito mais a esconder do que a plantar. Muito menos couves, repolhos, tomates ou pepinos, não se esqueça disso, meu caro engenheiro Ferro, aprecie as suas férias».

Embora não fosse a primeira vez que o chefe me falava não gostei lá muito do que dissera, havia demasiados assuntos particulares em jogo; não me podia dar ao luxo de perder aquele posto e sobretudo não queria arranjar sarilhos com o meu velhote nem, muito menos, colocar em causa o seu próprio prestígio individual junto das altas esferas, pelo que optei por replicar: «Que achou da reunião, senhor director, esta história - dos aviões e das armas - pareceu-lhe a sério?..»

Acusou, como estava certo de que o faria, a estocada, e reiterou-me, como também sabia que o faria, que não era da minha conta, apenas estava ali para informar o «assessor do ministro dos internos». Claro, assenti, não éramos tolos, não fora por acaso que o meu velhote me financiara férias profissionais pagas em Inglaterra (belo do velhote), em parte a suas próprias expensas, ou favores; fora para me treinar para aquele tipo de momento, ou assim o desejava pensar. De vez em quando dava-me para isso. Fora, sim, fora.

Entretanto, a entrevista esmorecera ao ponto da trivialidade de sala. Percebendo-o, perfilei-me, apresentei as minhas saídas e educadamente virei as costas ao chefe. No seu canto, o colega da secretaria de Estado, todo ufanado da burocracia política que o levara ao poder, com um gesto simpático, deu oficialmente por finda a «reunião», também me desejou «uma boa quadra» e conduziu-me à porta. Lisonjeado pela sua deferência rasteira, saudei-o de maneira cortês - à inglesa –, e saí. No fim de contas, já tinha entrado de férias, tinha uma semana só para mim. Evitei o elevador, fui descendo as escadas, ponderando as opções: talvez uma estirada a Castelo de Bode, talvez um bom banho de imersão, talvez outra coisa. Depois logo decidia.

Quando abandonei o edifício da Cidade Judiciária e me encaminhei para o R6 percebi que chuviscava no parque exterior onde estacionara a viatura, uma chuva miúda, chuva molha tolos, o que até me convinha, não tinha pressa alguma e o meu propósito não favorecia testemunhas, inocentes ou não. Contente pela chuva, pela noite, pela semana de férias, abri a bagageira e levantei o tapete. No espaço entre a roda sobresselente e a caixa de transmissão do R6, como quem não quer a coisa, a fazer que olhava para os lados, depositei os documentos, o telemóvel, tendo o cuidado de o desligar. Hesitei, mas acabei também por guardar ali a pistola, esta carregada e no respectivo coldre. Cobri tudo com o tapete, alisei-o, com o comando tranquei a mala. Sentindo as gotas da chuva engrossarem de intensidade apressei-me a entrar no R6; a apreciar plenamente a sensação de conforto e de segurança que o seu habitat proporcionava.

Satisfeito com a minha situação na ordem natural das coisas, encapsulei-me, liguei a aparelhagem, sintonizei Tom Waits e arranquei suavemente da sede do serviço até Lisboa, em ritmo de cruzeiro, bordejando o rio, aqui e ali evitando os escolhos do trânsito. Ia ter com o Hel ao meu bar de eleição, a meio caminho entre a minha casa e o rio, o que me convinha; por outro lado, ia ter com o Hel mas também ia à procura de fêmeas, nem todos os dias é Natal.

Ao entrar na Baixa conduzia ligeiro por entre os buracos que, constava, remontavam à época pombalina. O trânsito intensificara-se, a chuva também. Ainda na noite anterior tinha estacionado o R6 em contra-mão, nas traseiras do ministério, só porque me apetecera e porque ninguém me chateava, pelo menos não chateavam funcionários com cartão ministeriável. Podia usá-lo nesta situação outra vez. Podia, ainda melhor, estacionar na garagem e refazer parte do trajecto a pé; apenas não podia dar nas vistas, o que resumia tudo.

Encontrei um lugar exactamente no sítio que me convinha, parara de chover. Despi a gabardine, saí do carro, tranquei a porta e quedei-me a apreciar o perfume do sucesso novinho em folha, o aço, a borracha molhada do belíssimo R6. Sorri. Tinha sido um presente do meu pai pelo meu último êxito reportado junto dos Estrangeiros (tudo mentira, embora bem orquestrada). Sucedera com a ajuda dum putativo candidato a Presidente da República, deputado, barbudo, conhecido do meu velhote dos anos de luta em Coimbra, enfim, um contacto, um dos notáveis que ele conhecia e que estivera presente na reunião em que se falara da revolta dos professores, outro tema quente do dia. Esbocei um trejeito ao recordar a expressão do primeiro-ministro quando o meu secretário de Estado mencionara “tráfico de armas”, “implicações políticas”, insinuando nas entrelinhas que possuía “inteligência” de que o golpe se efectuava com a colaboração de elementos “doutra nacionalidade”, nomeadamente um tal de Pedro, Pacheco, e ainda Pimentel, ligado aos americanos e do qual eu fingira nada saber, embora isso não viesse para o caso.

«Quanto menos souberes, melhor para ti», esse era o meu mote e raramente dele me desviava, a não ser à noite. A bem dizer, nada do que respeitava ao ministério me dizia um “ui”; estava perto dum clube que me seduzia pelas mulheres e que me agradava pelo companheirismo. E depois, o R6 estava suficientemente longe para não ter de me preocupar com isso, muito menos com os documentos na bagageira.

O que queria mesmo era divertir-me, desligar-me, despossuir-me, esquecer o ministério duma vez. Decidi compartimentar a mente, evitar de todo as intrigas, os jogos, as manhas, os méritos e desméritos do ministério. Em menos de nada, a passo estugado, dera comigo à porta do clube. Tinha chegado, estava no 23.

Ariel - Capítulo VIII

O céu cobrira-se de nuvens espessas e pesadas, ocultando as estrelas, deixando escapar alguns dedos de uma pálida luz lunar. Parecia que ia chover outra vez, desta vez a sério. À minha frente, envolvido pela sombra húmida, o carreiro pela quinta do Hel até sua casa tornava-se cada vez mais íngreme. Sem falar que a obscuridade não me permitia ver um palmo à frente dos olhos. Distinguia vagamente a silhueta alta e magra do meu amigo, caminhando uns passos à frente, liderando o caminho por entre a treva, em piloto automático, como se os pés conhecessem o caminho por instinto. Apercebi-me, então, de que ele, apesar de bêbado, nem devia estar a usar os olhos. Afinal, sempre vivera ali. Já eu, desprovido do mesmo sentido de orientação, incauto e sofrendo ainda de uma ligeira embriaguez, esmaguei a ponta do pé contra um calhau saliente, soltei um uivo de dor, que se repercutiu no vazio, tropecei e a minha mão, num voo instintivo, levou comigo a ruiva pelo ombro, que caminhava alguns centímetros diante de mim, também com dificuldades em evitar as armadilhas do percurso acidentado. Os passos incessantes do Hel estacaram, o seu corpo virou-se (ou pelo menos, julguei que sim) e perguntou-nos se estávamos bem. «Já falta pouco», acrescentou, exortando-nos a ter cuidado, sobretudo à noite. Grunhi um agradecimento entre alguns impropérios, enquanto esfregava o pé que latejava de dor. Aceitei a ajuda da ruiva, que se levantara, leve e ágil, e me estendera a mão muda. Olhei para cima, para o rosto dela, mas se mal via a mão à minha frente, muito menos lhe veria a cara. «O caminho é perigoso; há montes de calhaus e raízes salientes. Não te lembras, Lúcio?», lembrou, expedito e diligente, mas, de mim, não conseguia esconder a leve ironia subjacente que anos de amizade detectavam com facilidade. Sentia-o rir-se da minha figura. «Vá, menino, vá, à minha frente e vê se avisas acerca de perigos iminentes», respondi, seco. Depois de me ajudar a levantar, a ruiva puxou o vestido para baixo, tirou os saltos, adiantou-se uns passos e chegou-se ao Hel, talvez receosa de cair na mesma cilada que eu. Parecia estar a perguntar-lhe se faltava muito. Comecei a sentir alguns chuviscos bater-me na cara e instiguei os meus companheiros a apressar a marcha.

Na verdade, ao contrário do que o comentário do Hel sugeria, tinha boas memórias daquele lugar. No Verão, o meu amigo convidara-me para almoçar, «uns grelhados, uns vinhos, o que dizes?». Aceitei, claro. Nessa altura, além do buraco na vedação refundido por alguma vegetação, reparara que se tratava de uma quinta modesta, mas, ainda assim, com alguns anexos, uma pequena plantação de vegetais e uma videira frondosa que emanava um odor adocicado e encobria o soalheiro pátio de entrada, onde, nesse dia, preparáramos uma bela refeição, regada do bom vinho a que a amizade e a camaradagem instam. Apercebera-me, também na altura, de que alguns dos anexos tinham um ar abandonado, exibiam até uma extensa camada de musgo. Todavia, no meio daquele breu e névoa, todo o espaço se me apresentava ao olhar indecifrável e impenetrável. Lembrei-me também de me ter contado que o avô fora, há algumas décadas, alguém – se bem que não a nadar nele – com papel, desafogado e com negócios próprios. Torrara tudo em bebida e putas. Agora, sobrava-lhes a quinta e só porque a avó conseguira salvar o suficiente para saldar as dívidas e subsistir.

Como sabia que o Hel fazia o que podia para ajudar a manter o sítio, foi com surpresa que constatei, depois de um caminho sem mais incidentes de maior e de atravessar a pesada porta de madeira que dava para o interior do anexo em que vivia, que o traste se munira de um computador topo de gama, uma boa aparelhagem e, imagine-se, um plasma, o que parecia no mínimo suspeito para alguém que alegava ver televisão «apenas quando passam as notícias». Virei a cara com um esgar trocista e comentei que ele nunca me chegara a dizer quanto recebia de bolsa do doutoramento. «Ó, sabes, dá para viver», retorquiu, alheio, como se não fosse nada com ele. Não admira que estivesse tão fulo por lhe irem tirar a bolsa. Pensei como é fácil habituar-nos às benesses que recebemos, já o contrário… Também eu já passara pela minha quota-parte de dificuldades.

«Hel? Vou pôr as chaves da tua lata ao pé do computador. Põe também as minhas aí, que não as quero perdidas, ouviste?» Anuiu com um movimento de cabeça, atirou-me as chaves do R6, que coloquei junto das dele, e regressou à tarefa de desocupar o sofá de algumas roupas, no qual me acomodou e à ruiva; e eu, sentindo-me mais confortável e repousado o suficiente da caminhada, decidi deixar os assuntos seculares de lado e, esfregando as mãos, dedicar-me a assuntos mais, er, espirituais. Lembrei-me da ruiva, que acendia um cigarro, recostada no sofá, e do que nos levara até tão longe, até à casa do Hel, perdida no matagal que atravessáramos. «Meu caro, recorda-me, onde sonegas as bebidas?», perguntei, ávido e impaciente. Nos últimos tempos, Hel vinha-me tantalizando com a sua recém adquirida colecção de bebidas espirituosas. «Ora, ora, e eu lá sou homem de sonegar bebidas aos amigos!», declarou, jovial e prazenteiro, «vem comigo». Deixámos a ruiva estendida no sofá, gozando o seu cigarro, que levava à boca em gestos lentos e pensativos. Não exibia a mínima vontade de nos acompanhar. Era óbvio que precisava de uma bebida para reacender a faísca que, no 23, estivera muito mais fulgurante. Chegados à cozinha, Hel conduziu-me ao seu bar improvisado, abri a porta do armário rasteiro, estiquei o braço e tacteei o vidro frio. Hm, várias garrafas, ainda pesadas. Inclinei a cabeça e espreitei. Soltei uma exclamação de aprovação, satisfeito por perceber que conseguira ensinar ao Hel alguma coisa sobre bebidas de qualidade: gin, whisky, água ardente, alguns licores, muitas destas garrafas ainda por abrir, o que era uma pena. Hel olhava para mim, de pé, com um trejeito de satisfação óbvio. Pedi-lhe copos e servi um Porto, brindámos à noite e degustámos lentamente, em amena cumplicidade silenciosa, a bebida que nos aconchegava num calor que se propagava, primeiro pelo estômago, depois pelo peito e só então cobrindo o corpo. Depois, saquei do whisky e despejei duas doses generosas, passei-lhas para as mãos e disse-lhe que levasse a outra à ruiva. «Eu já vou ter convosco. Antes, quero estudar melhor a tua colecção de garrafas». Afastou-se com os copos, não sem antes me dizer que me sentisse tão à vontade em sua casa quanto ele se sentia na minha. Fiz questão de frisar que assim faria e arranquei-lhe um sorriso rasgado. Instei-o com um gesto de mão a ir e a deixar-me a sós.

Servi-me de uma porção de gin com água tónica, peguei numa garrafa de whisky e saí pela porta das traseiras, que dava da cozinha para um pequeno espaço, que continha apenas um estendal de roupa, duas cadeiras e uma mesa, resguardada por um toldo. Sentei-me numa das cadeiras de plástico, ouvindo a chuva cair, sem vento, mas com uma atmosfera de humidade que começava a enregelar os ossos. Acendi um cigarro. Enquanto bebia, pensava na Telma; já estaria à minha espera no anexo, loira, chorosa e receptiva? O gin evaporara-se num ápice, o que me causou uma sensação de estranheza, já que não estava calor suficiente para que se desse um fenómeno dessa natureza. Decidi servir-me de uma boa medida de whisky (Chivas, muito bem, Hel!). Lembrei-me também da ruiva, deitada no sofá do Hel, com este certamente empregando todas as artimanhas do seu parco conhecimento para lhe saltar em cima. Que pensamento feio, Lúcio, que feio!, e ri em voz alta. Não obstante, devia voltar para junto deles sem perder muito mais tempo. Apesar de tudo, o Hel não era parvo. Temia que se escapulisse com a ruiva para o tal anexo e me deixasse à míngua. Pior, podia dar de caras com a Telma. E daí, talvez não fosse assim tão mau… A noite arrefecia a pique e o ambiente em casa augurava muito mais calor. Levei o copo aos lábios e deixei escorrer as últimas gotas. Hm, o whisky desaparecera misteriosamente. Poderia o copo ter alguma fuga…? Pendurando o cigarro nos lábios, voltei a servir-me do whisky (um último copo antes de regressar) e dei um longo trago. Caiu-me como napalm no estômago, incinerando todos os recantos das minhas vísceras. Soltei um arroto acre, os olhos abriram as torneiras e as minhas papilas torceram-se de indignação com o gosto a vomitado. Veio-me à memória que não tinha comido muito nesse dia, apenas uma sopa ao almoço, uma sandes à tarde e saltara o jantar, desejoso de chegar ao 23 e me encontrar com o Hel. Tentei levantar-me, mas a cabeça pesava-me e uma tontura atirou-me com violência para trás, contra o espaldar da cadeira. Parecia que todas as bebidas que ingerira ao longo dessa noite haviam tomado de assalto a minha cabeça para passar o serão

Regressei à cozinha, com a mão no estômago, olhei pelo corredor que dava para o quarto do Hel e pareceu-me mais longo e sinuoso do que antes, a imagem inclinava-se, desfocada e turva, tentei pousar a garrafa no balcão, mas falhei e foi estilhaçar-se aos meus pés, vidros por todo o lado e o odor do malte a insinuar-se pela casa. Do quarto do Hel, as vozes e risos abafados cessaram ao chinfrim abrupto do Chivas a embater no solo, um silêncio sepulcral e lívido abateu-se sobre a casa quebrado apenas pela voz do meu amigo, que ouvia chamar timidamente o meu nome, ao longe. Tentei encaminhar-me para o quarto, mas o corredor serpenteava e passava de turvo a branco, de branco a turvo, de turvo a branco… e, de repente, num esforço hercúleo, foquei os olhos e vi o Hel estacado à minha frente, também ele turvo, «estás bem?», ouvia a voz distante e envolta num estranho eco enevoado. Segurou-me pelo braço e guiou-me pelo interminável corredor, passo a passo a passo a passo, à medida que ouvia a minha voz trepar-me pela garganta, tropeçando a meio caminho na língua seca e brotando dos lábios como se outro falasse por mim, «eu… não, meu, deixa, deixa… chtou bem, foi zó… hm…uma indispoxição». Entrámos no quarto e a ruiva dardejou-me com o seu desprezo verde. Levantou-se para que o Hel depositasse o meu corpo no sofá, mas este fez-lhe sinal para que se deixasse estar, «na cama tem mais espaço», ouviu-o dizer. «Tu é que sabes», e voltou a sentar-se, levando o whisky aos lábios vermelhos.

Pesado como uma pedra, afundei-me na cama, quente, macia, que me abraçava com o carinho e o desejo que imaginava nos braços da ruiva. Estranha mulher. Conhecera-a hoje, naquele bar, com o Hel, e que incrível atracção exercia sobre mim. Sentiria Hel o mesmo? Aproximara-se de nós, nós dela, como se uma força nos atraísse, um misterioso desígnio e, copo atrás de copo, a conversa prolongara-se até quase ao fecho do bar. Já estava deitado, esparramado na cama. Pensamentos desconexos furavam e corriam os túneis da minha mente unindo-se a sonhos de cabelos de fogo e pele de seda. Seda a arder. Hehe… Ela ajeitou-se no sofá, cruzou as pernas e colocou uma mão sobre o joelho. À sua frente, de pé, Hel servia-lhe outra bebida. Conversavam. O seu riso entrecortado por sussurros cúmplices martelava-me incessante na cabeça. Virei-me de barriga para cima, depois para a esquerda, para a direita, de barriga para baixo, tentando fazer com que o quarto parasse de girar. Os meus olhos voltaram a tentar fixar os dois. Via o Hel, de costas, já sentado ao lado dela. Virou o rosto para trás e disse-me algo: «devias …scansar… um… pou… aposto que n… …este… o dia to…». Voltou a virar-se para a ruiva, num movimento lento e arrastado de cabeça. Ou talvez fosse eu. Vi que ela insinuava a mão branca pela perna do Hel e parecia aproximar o rosto do dele. «Ya, ya…» Pisquei os olhos, uma, duas vezes, tentando focar, lutando contra a torpeza, «talvez devesse…» contra as pálpebras que teimavam em fechar-se a ferros «descansar…». Semicerrei os olhos, por um momento, «só um bocadinho»… as vozes confundiam-se, abafadas por um trovão que ribombava lá ao longe… voltei a abri-los num esforço supremo… mas era demasiado.

Ariel - Capítulo IX

«Lúcio, meu, não bebo mais, combinei amanhã de manhã com a Teresa, não posso aparecer todo fodido!», insisti, antecipando como acabaria a nossa incursão no bar, pois já sabia que quando não aguentava a bebida na cabeça, também não a aguentava no estômago, e que a minha noite ficaria arruinada. «Calma, meu, tem calma, deixa lá ‘tar a pequena (pesquei o piscar de olho que Lúcio lançou para a puta ruiva sentada entre nós os dois), bebe mais uma aguardente e repara como é belo o mundo», proferiu, pausado e marcando bem as sílabas, com um largo gesto de mão, abarcando o ambiente em nosso redor.

A ruiva, sem aviso, espetou-me a língua quente no ouvido, apresentando argumentos irrefutáveis a que ficasse sentado no lugar, e uma forte reacção por trás do fecho das calças não se fez esperar, uma saudação à língua dela no meu ouvido, movendo-se em lentos círculos. No entanto, e por muito empenhado que estivesse em continuar fixado no assento, com o corpo quente dela a roçar-se no meu e na companhia da aguardente do Lúcio, saltei da cadeira, «vou à casa de banho, tenho de ir à casa de banho!», amparei-me na mesa com uma das mãos, apoiei o corpo, ainda num equilíbrio hesitante, e, incerto de para onde me devia dirigir, onde raio é a casa de banho!?, pensei, em desespero face à perspectiva de me humilhar no 23, numa passada larga, agarrado ao estômago, lá a encontrei, por trás de uma porta de madeira, pintada de branco, mas já amarelada pelo tempo e pelo tabaco, uma casa de banho suja, porca, a tresandar a mijo e a vómito. Eu seria apenas mais um. Sem cerimónias, ajoelhei-me, prendi as mãos ao mármore e enfiei a cabeça na retrete. Levantei-me lentamente, já mais lúcido, se bem que ainda bêbedo, naquele estado de semi-lucidez ébria (ou semi-loucura sóbria, conforme se seja do tipo meio copo vazio, meio copo cheio), limpei a boca às costas da mão, avancei para o lavatório, abri a torneira, que chiou e se engasgou com o ar, e levei uma concha de água à cara, outra, e ainda mais outra, esfreguei os olhos e mirei-me no espelho. O reflexo retorquia-me os meus olhos raiados de sangue e os meus lábios secos. Apercebi-me de que estava cheio de sede, voltei a abrir a torneira e bebi até o gosto a serradura desaparecer da boca. Já me sentia bem melhor. Não me devia meter nestas merdas, pensei, enquanto observava o espelho manchado e partido num dos cantos. Com um pai ceifado por cirrose e um avô com problemas de úlcera, talvez fosse boa ideia dar um descanso ao meu fígado amargurado.

A propósito, estariam o Lúcio e a ruiva à minha espera, na mesa do bar? O mais provável é que se tivesse escapulido com a miúda. «Nããã», afastei esse pensamento da cabeça, «ele é meu amigo, não me abandonaria à minha sorte num bar mau reputado e num ambiente hostil como este». Ri-me dos meus próprios pensamentos… ambiente hostil… E a ruiva? Teria engraçado com o Lúcio, ou comigo? «Ora, esquece isso rapaz, repara mas é bem naquele traço!», segui a voz do Lúcio em direcção à entrada e, parando o copo a meio, voltei a pousá-lo, mirando-a de alto a baixo, à medida que se aproximava da nossa mesa com passos fulgurantes, emanando sensualidade à sua passagem, capturando olhares e obrigando pescoços a torcerem-se em posições pouco naturais, com os caracóis vermelhos esbatendo qualquer cor que pudesse existir na sala. Vinha com um cigarro comprido no canto dos lábios, parou junto à nossa mesa e, com uma voz suave e hipnotizante, perguntou-nos se tínhamos lume. Olhei em redor, com a claustrofóbica sensação de que todo o bar nos observava, expectante, como a família que se reúne no sofá para ver o desfecho da telenovela da noite. Lúcio e eu ficámos mudos por instantes, respondemos que sim, claro, mas, mais ágil do que ele, lancei a mão ao isqueiro do meu amigo, em cima da mesa, e acendi-o. Inclinou-se e aproximou o rosto do meu; colocou uma mão quente sobre a minha. Levantou os olhos para os meus e vi que eram verdes, intensos, mas estranhamente frios, em contraste com a ponta do cigarro, que via incendiar, por entre a chama do isqueiro, num fulgor vermelho e incandescente. Voltou a erguer-se e libertou o fumo, expirando lenta e longamente, como se entediada. Por baixo da mesa, um peso abateu-se em cheio no meu pé, quase arrancando-me um grito silencioso, quando ouvi o Lúcio, que retirava o sapato pesado de cima do meu, e me instigava, sibilante, «oferece-lhe uma bebida, infeliz!», tossicando, em seguida. Assim fiz, ela aceitou, sentou-se à nossa mesa e o resto decorreu naturalmente: continuámos a beber e observava o meu amigo enquanto delineava os planos para a madrugada que começava a romper. Deixei-o fazer o que sabia fazer melhor, sempre participando deste diálogo a três, nunca me deixando apagar, claro, o Lúcio era um gula, e até suavizando algumas indelicadezas que lhe saiam pela boca, muitas pensadas, outras nem tanto, mas sem atrapalhar o jogo dele, que, no final de contas, acabaria por me beneficiar. A ruiva fora à bola comigo, isso parecera-me óbvio, pelo menos pela forma como roçava o corpo no meu e passeava a mão na minha perna, por debaixo da mesa. Tudo augurava um desfecho favorável para os meus lados, até fraquejar e correr para a casa de banho, merda de estômago doente e fraco! Mas, era estranho, uma miúda tão bonita… bonita de mais para levar a vida que levava. Tinha um magnetismo que não se encontrava por aí em qualquer canto na rua. Aos poucos, monopolizara o espaço e o assunto, e isso não se devera somente ao par de longas pernas esculturais, busto convidativo, cabelo de fogo e lábios vermelhos e insinuantes. Sim, nada de ingenuidades românticas, eram, de facto, atributos que só favoreciam esse magnetismo; porém, havia mais alguma coisa, escondida, como se ela apenas nos tivesse apresentado uma fachada, uma máscara, algo nos seus olhos verdes que absorvera toda a minha atenção, esgotando-me a mente. Já visitara o 23 noutras ocasiões com o Lúcio e, para puta, havia algo que a denunciava na forma de se comportar e falar como pertencendo a uma outra esfera social de putas, daquelas às quais nenhum meco sentado numa cadeira dum bar tem os meios para aceder, mesmo na companhia de um amigo com cartão ministeriável.

A porta batia ruidosamente e parecia querer ceder nas dobradiças. Acordei, abanei a cabeça, voltando a agarrar-me à realidade. Já me sentia melhor. «Ó da casa, ainda demoras muito?» Ouvia os urros de um tipo, pelos vistos em pior estado do que eu. Abri a porta e, sem me dar tempo de sair, abalroou-me, quase tropeçando, e colocou-se na mesma posição e no local exacto que eu ocupara não fazia ainda dez minutos. Saí e fechei a porta, deixando o homem gozar a sua privacidade e entregue aos seus pensamentos, fossem eles quais fossem. Num ápice, de olhos bem arregalados, corri as mesas em busca da ruiva e do Lúcio. Nada. Nem sinal dos dois. «Não é que o sacana me deixou mesmo sozinho?, aqui, a ver navios». Enquanto passava as mesas a pente fino, dei com o tal homem que ocupava a mesa do canto, envolto em penumbra, o tal com quem a velha catatua fora ter depois de tentar a sua sorte comigo. Desta vez, estava acompanhado por outra mulher, bem mais apetecível e agradável aos sentidos, uma loira, a loira. Estava com o rosto quase colado ao do homem e conversavam em sussurros exaltados, cheios de secretismo e suspeitas, ele segurando-a pelo pulso com firmeza. Ela libertou-se com um puxão e o homem pareceu conter um gesto mais violento. A loira recostou-se na cadeira, cruzou a perna coberta pelas meias negras, terminou a bebida e levantou-se. Ia em direcção à saída, aparentemente insatisfeita com alguma coisa, e os seus olhos escondiam uma estranha desilusão. Algo me disse que não seria boa ideia ser apanhado a observar estes dois; dando um passo atrás, recolhi-me na sombra, esperando discretamente que a loira desfilasse por mim. Saí para a luz e tirei o telemóvel do bolso. Tinha de encontrar o Lúcio. «O seu saldo não lhe permite efectuar esta chamada, bla, bla, bla». Não tinha saldo no telemóvel. E agora? «Ó, jovem! Jovem!» Fui acordado pela voz cavernosa do bartender, que acenava e chamava por alguém, um pretenso jovem, que, supostamente, se encontrava na mesma direcção que eu. Era a segunda vez que me acordavam naquele bar. Olhei em volta e como se não descortinasse ninguém tão jovem quanto eu nas imediações, com um ar inquisitivo, virei um dedo para mim próprio. «Sim, sim, você! Venha cá!» Curioso por saber o que quereria o tipo, dirigi-me ao balcão. Teria o Lúcio bazado sem pagar?, ocorreu-me, assim, inesperado e alheio à minha vontade, este pensamento, reflexo, com certeza, da sova que levaria do segurança, consequência de não ter um tusto no bolso para pagar champanhe e aguardente velha. Chegado ao balcão, com ar hesitante, o sujeito (ele, também, um gorila gigante, que mais facilmente passaria por segurança do que por bartender) leu-me os pensamentos, sorriu e disse que não me preocupasse, «eu cá me entendo com o doutor, não se preocupe. Tome». De debaixo do balcão, sacou as chaves do meu carro e entregou-mas, «o doutor deu-mas e pediu-me para lhe dizer que está à sua espera em frente ao governo civil, na rua de cima». Balbuciando um agradecimento, ao qual o fulano replicou com um monocórdico «de nada», rodei nos calcanhares e dirigi-me para a saída. De repente, o meu telemóvel tocou, estridente, mas não o suficiente para se sobrepor à música. Saí em passo apressado, passei pelo segurança sem olhar, vesti o casaco e olhei para o visor luminoso do aparelho, que acusava o nome do Lúcio. Decidi pregar uma partida ao meu caro amigo: «‘Tou?» «Onde estás meu?» «Isso digo eu, sacana, fugiste com o meu amor, fugiste com o amor da minha vida!», gritei, cheio de uma falsa raiva, gozando o prato enquanto sentia um silêncio pesado e desconfortável instalar-se no outro lado da linha. Tapei o bocal, ri em silêncio (reparei que o segurança também sorria, à porta, percebendo o meu esquema) e, em esforço, continuei: «‘Tou, Lúcio, tás aí? Meu, vem buscar-me, ‘tou à porta do 23. Onde ‘tá o carro?» «‘Tá onde o deixaste meu melro, onde querias que estivesse?», retorquiu, revelando-se impaciente para as minhas brincadeiras. Decidi continuar, «Ok... Er... Já vou, melhor ainda, anda cá ter, vem buscar-me!» «Não posso, meu caro, estou ocupado», respondeu. «‘Tá quieta miúda, não toques nisso, entra para dentro do carro!», ouviu-o dizer, longe do bocal. Parecia que a ruiva ainda estava com ele e já dentro do carro. «Hel, meu, vem ter aqui ao governo civil e mexe-te!» «É mesmo ao lado do São Car…» «Sim, mesmo ao lado do São Carlos, mexe-te que tenho um doce para ti!» Lúcio escapulira-se do bar com ela durante o meu breve recolhimento na latrina, mas esperava por mim, afinal de contas, leal aos velhos princípios que regiam a nossa amizade. «Foda-se, Lúcio, tu e as tuas surpresas maradas, estou a caminho». Desliguei e sorri ante a surpresa do Lúcio, que já começava a adivinhar. Deitando para trás das costas responsabilidades e compromissos do dia seguinte, decidi oferecer-me uma festa de natal antecipada. Sem dúvida, esta noite apresentava uma oportunidade única.

Comecei a caminhar na direcção oposta ao governo civil, tinha de ir buscar o R7, tinha de ir buscar a chocolateira. Chegado ao local, enfiei-me no carro, saí do estacionamento e, com o pé pesado no acelerador, ignorando o chiar da embraiagem, galguei os metros que me separavam do governo civil. Quase a chegar, evitei mesmo à justa um enorme buraco, um dos muitos que decoram a baixa, e quase arranquei o espelho a um Volkswagen Miura branco, estacionado uns bons metros atrás do R6 do Lúcio. Travei a fundo ao lado do bólide, uma paragem perfeita enfeitada por um chiar de pneus e temperada com o subtil aroma a borracha queimada, abri o vidro, assomei à janela e espreitei para dentro do carro, «Então, Lúcio, esse doce é para hoje ou para amanhã?», perguntei, num tom meio carregado de ironia, meio carregado de cumplicidade. Sem responder, levou a mão ao bolso do casaco e devolveu-me a carteira, ao mesmo tempo lançando-me aquele olhar cúmplice, um olhar que desenvolveramos entre nós ao longo de muitos anos de convivência, a plantar batatas e a colher couves, um olhar que não queria dizer nada, mas que, ao mesmo tempo, queria dizer tanta, tanta coisa, permitindo-me a janela de tempo necessária para mergulhar nos olhos verdes da ruiva uma vez mais. Ela devolveu o olhar e fixou no meu o verde frio dela, numa luta para ver quem desviava primeiro o olhar. «Ahem, Hel!», Lúcio chamou-me e concedi a vitória à ruiva. «‘Bora, meu?», observei-o com atenção e constatei que, apesar de sempre beber com profissionalismo, o meu amigo estava com os copos. Ainda por cima, já instalara a miúda nos estofos em pele do seu R6 novinho em folha topo de gama. «Lúcio, achas que estás em condições de conduzir?», perguntei, expressando uma preocupação genuína pelo meu amigo. Ripostou, sarcástico, como era por vezes seu apanágio quando respondia a observações que para ele não faziam sentido, que tinha de estar, não é?, que o carro não se ia conduzir sozinho até Cascais! «Claro, meu, claro, estou só a dizer que não devias arriscar, visto que estás com o teu carrinho novo e quê… se bates, é um desastre, o teu pai vai foder-te o juízo, e que és irresponsável, e que és um bêbedo…» Vi o lábio de Lúcio reprimir um trejeito e as sobrancelhas negras fecharem-se sobre os olhos; desencadeara-se no seu espírito uma luta interior. Apercebi-me disso e puxei a corda, «Porque não me deixas levar o teu carro? Levas o meu, também não se perde muito se lhe acontecer alguma coisa». Percebi que a dúvida persistia em roê-lo por dentro. Enquanto reflectia nas minhas palavras, voltei a mirar a ruiva, mas ela parecia absorta no seu próprio mundo. «Ok, Hel, podes experimentar o meu brinquedo novo», cedeu, por fim, «mas cuidado, puto, nem um risco, tu tem cuidado!», avisou, paternalista, como se tivesse tirado a carta há dois dias. «Lúcio, sou eu, estás a falar comigo», comprimiu os lábios, algo que fazia quando concedia a vitória numa discussão, ainda duvidoso da sua derrota e ciente de que saíra a perder da situação. A ruiva não se mexeu para mudar de carro. «Estou mesmo atrás de ti», disse-me. Trocámos as chaves num aperto de mão e metemo-nos nos carros. Eu no R6, o belo do R6, a cheirar a novo, travões ABS, direcção assistida, ar condicionado, estofos em pele e uma mulher deslumbrante sentada neles. Lúcio entrou no meu carro, não sem que a fechadura da porta, da qual só eu conhecia a manha, lhe desse a devida luta, e deu à chave. Por meu lado, podia jurar que o seu rosto espelhava uma certa nostalgia, talvez por voltar a conduzir um carro tão velho. Afinal, antes do R6, nos tempos da faculdade, conduzira uma banheira não muito diferente desta. Deixando reminiscências de lado, virou-se para mim, «Como é, vamos?»

Capítulo X

Sem mais, como que adivinhando a deixa, a ruiva espetara-lhe a língua no ouvido e o semblante do Hel alterara-se. Muito rapidamente, demasiado rápido para um homem tão embriagado, pôs-se de pé e fugiu: «Vou à casa de banho, tenho de ir à casa de banho», afastou-se, deixando a carteira e as chaves em cima da mesa. Guardei a carteira no bolso do casaco, peguei nas chaves como se fossem minhas, contemplei a ruiva e emborquei mais um balázio de Antíqua. Estava completamente embriagado, a tal ponto que conseguia não o estar; estava tão embriagado que via tudo claro, translúcido, evidente, cristalino.


Era linda a miúda, perfeita. A fazer-se passar por vamp, que tristeza. Por dinheiro, como se não fosse suficiente tudo o resto. A fazer-se passar. Putinha. Linda. Intelectual. Fria, nem parecia o que era. E aquele cabelo, Jesus, aquele cabelo.


«Gostas de dinheiro, linda?», disparei, assim que me vi livre do Hel, muito franco, muito directo. «Gosto pois, vais oferecer-me algum é, lindo?..», replicou, com um gesto rápido da mão acariciando-me o cabelo. Não gostei do «lindo» mas, tudo bem, gostei da carícia, disse que sim com os olhos, e «talvez amor, talvez», com a boca. Dei mais um golo na minha aguardente. A voz dela, o diálogo pseudo-erudito com que nos brindara, o fumo na sala, o álcool, tudo isso me queimou as sinapses e senti-me tonto, senti a sala oscilar no seu eixo e a imagem dela distorcer-se, a mesclar-se com as luzes e os odores, cada vez mais indistinta. Fechei os olhos e respirei fundo. Estava na fronteira da consciência. Quando finalmente os abri a terra já não se mexia. Ariel era real e estava mesmo à minha frente; acendera um cigarro e fumava, parecia quase que alheada, escutava a música, maneava a cabeça, fumava e marcava o ritmo com a ponta das unhas no tampo da mesa.


Reflecti que tinha de dar travão ao álcool. Se o meu estado era aquele, qual não seria o do Hel? Era óbvio que o Hel não estava capaz de beber muito mais, aliás, devia estar a regurgitar, o que até talvez não fosse mau de todo, tudo uma questão de ver como recuperava. Senti sede.

Arrumei a aguardente, sinalizei o bartender e pedi um gin tonic para mim e outro para ela, frisando que pedia «dois gins» e não outra coisa, «nem bebida de colaboradora». Ela, toda altivez, não tugiu nem mugiu, pestanuda, fina, esticando as meias de nylon. Hmm. E o Hel, porque se demoraria tanto?


Levantei-me e, de rés-vés, sorri sardónico para a Telma, os olhos dela chispavam, era só inveja naqueles olhos azuis, mas isso não me dizia respeito, que fosse tomar no cu. Pedi crédito ao bartender, ao mesmo tempo que o subornava discretamente e o ouvia replicar, como que em câmara lenta: «Doutor, é a última vez é a última vez!» - «Pois sim meu caro, faça-me um favor, diga ao meu amigo que estou na rua de cima, mesmo em frente ao governo-civil e, entregue-lhe estas chaves, pode ser?» - «Boa noite doutor, fique descansado.»


A Telma, afastara os olhos dos meus, estava furiosa, aquela loira burra mas entesoante; ainda iria foder aquela gaja, embora não naquela noite. Naquela noite apetecia-me outra coisa, uma coisa vá, mais refinada. Dei a mão a Ariel e saímos porta fora. Cumprimentei o Segurança: «como está o tempo aí em cima, jovem?» O gajo riu, julgo até que gargalhou e desejou-me uma «boa noite, senhor doutor», sem esquecer a devida vénia, à medida que eu e ela saíamos: como era bom ser filhinho do papá, acreditem, era mesmo bom.


Por falar nisso, não podia levar a gaja para minha casa, o velho havia regressado duma «viagem» e aboletava-se em Lisboa por alguns dias. Já sabia, levava-a para Cascais, para a quinta do Hel. Era isso, com sorte, fazíamos uma festinha à maneira e sempre o ajudava.


Fui encaminhando a tipa para o meu carro, tentando caminhar em uníssono com ela, era uma rapariga nova, parecia deslocada no ambiente, demasiado efusiva para o ofício; parecia quase uma principiante, sim, era isso mesmo, era uma puta jovem e emocional e isso convinha-me, tinha que fazer daquela noite de fim de Dezembro, chuvosa, ventosa e triste, um dia memorável. Juntinhos, ela mais alta, sempre de mãos dadas, tic, tac, toe, fomos andando e, em menos de nada, estávamos perto do beco sem luz onde estacionara o R6. O 23 ficara para trás, eu estava de férias e a única coisa que me prendia ali, para além da amizade que me fizera deixar um colega esperto o suficiente para não se desbocar lá atrás, daquela bacana, da ideia de a levar até casa dele e de fazermos uma menage à trois, era ter os documentos na mala do R6; os documentos que no dia seguinte ficara de ir entregar em mãos ao Ministério dos Internos, um último recado antes de, realmente, entrar de férias.


Não me podia esquecer disso. A atmosfera da noite, revitalizando-me, lembrou-me esse facto, incomodativo. Fomos andando, ela a perguntar onde íamos, eu que íamos buscar o meu amigo e «passear» até Cascais, que havia dinheiro para ela… E ela, que sim, «tudo bem, gosto do teu amigo.»


Como a noite evoluíra rapidamente desde que saíra do ministério, após o sermão do chefe. Primeiro a loira. Depois o Hel e agora aquele “monumento”. Eram quase nove da noite quando entrara no 23, a música enchia todos os recantos vazios de pessoas, na altura ainda a noite era miúda e achara por bem ser esse o momento acertado para fazer alguma coisa de modo a esquecer todos os segredos hipócritas do ministério; eventualmente, talvez, mostrar ao Hel que havia mais mulheres no mundo do que a sua banal namoradita sem futuro.


Agora, ali estava a noite, limpa, luarenta, com a ruiva ao meu lado, de mãos dadas, que vontade de caminhar em uníssono com ela, que gozo em caminhar em uníssono com ela, até parecia quase como fora ao princípio com a minha ex-mulher, até parecia.


Ariel, assim dizia a ruiva chamar-se, estudante de «Tradução em Letras», a fazer-se séria, a rir-se, a fazer-se séria, a fazer-me cócegas na palma da mão e eu a fingir que acreditava, embora não batesse certo a história dela ser estudante, uma história demasiado rebuscada. De qualquer maneira, para o que pretendia, pouco me dava se «Ariel» era de facto puta/estudante ou puta/puta. O verniz que demonstrava acabava até por nem ser mal empregue para o objectivo que, lentamente, descendo a rua sem saída, congeminava: um belo dum bacanal, um novo campo a desbravar com o meu amigo, só esperava era que lhe tivessem dado o meu recado e que não se tivesse afogado na sanita, o pobre.


«Lúcio meu, não bebo mais, combinei amanhã de manhã com a Teresa, não posso aparecer todo fodido!», recordei, sorrindo, a onda dele, todo medroso. Como é que Ariel pudera pensar que o Hel seria uma vítima adequada à sua incursão no mundo da noite é que eu não percebia, quanto mais não fosse porque a mim é que ela despertava uma enorme cobiça voluptuosa e já o Hel, enfim, bastaria olhar para a sua camisa vermelha, bico da camisola interior encarnada, calças de ganga verde, para compreender que o rapaz era um teso; jovem e bem-apessoado, não digo que não, mas um teso, um tipo sem eira nem beira, por muito prometedor que aparentasse ser.


Chegámos ao R6 e Ariel, aparentemente espantada, melodiou: «Ena, tens um carro muito bom, isto deve ter-te custado uma pipa de massa!» Agradeci, lisonjeado, abri-lhe a porta do lugar do morto, sentou-se, pôs-se a brincar com a aparelhagem, virei-lhe costas e encaminhei-me para a bagageira. Pesquei o telemóvel por trás do tapete, liguei-o e, impaciente, disquei o número do Hel. «Onde estás meu? Isso digo eu sacana, fugiste com o meu amor, fugiste com o amor da minha vida!»


Mau, o Hel estava mais bêbado do que pensara, tinha de o orientar e daí, quase que me sentia tentado a não o fazer... Ainda há pouco a ruiva insistia com ele, ela insistia, toda carinhos para cima dele, toda mesuras, toda sorrisos e pestanajamentos. Eu alinhara, claro, o puto não percebia nada de engate, era o que era. Ao balcão, a outra, a Telma, deitava-me olhares faiscantes, não percebia se de despeito ou ainda de sedução, não tinha qualquer importância; antes do Hel chegar pagara-lhe dois copos de champanhe, a trinta euros cada e ela, depois de se ter feito toda a princípio, tirara-me o pão da boca sem mais nem menos, só queria fazer conversa da treta, a mostrar-se muito interessada, o que só contribuíra para me sentir ainda mais inquieto: «O que é que fazes na vida?.. Trabalho no Ministério dos Negócios Estrangeiros, não te interessa. Ah, trabalhas no Ministério dos Negócios Estrangeiros, é?.. Deve ser muito interessante, lidas com gente importante?..» E eu, que não tenho paciência para conversa de sala com putas, dissera-lhe isso mesmo, com todas as letrinhas: «Não tenho pachorra para conversa de sala com putas.» Logo ela me presenteou com a resposta, um mutismo frio à palavra «putas», como se sentisse genuinamente ofendida, a vaca. Acariciei-lhe o rosto e para adocicar a pílula disse-lhe que era «linda de mais para esse tipo conversa, só isso…» A hipócrita engoliu em seco e, outra vez só doçuras, apenas doçuras, insistiu na tecla: «Querido, a sério, agradas-me, fala-me mais do teu trabalho… Conta-me...»


Do meu trabalho? Era o que mais faltava, o meu trabalho era de ouro, «esconder é mais importante do que plantar couves». Topando pelo canto do olho a chegada do Hel ao 23, fitei os olhos frios de Telma e, subliminarmente, comuniquei-lhe: «Vai à merda Telma, querida, vai à procura de outro pato que este já era.» A loira gelou, mas não estava minimamente preocupado com isso, afastara-me à patrão e em menos de nada era cumprimentado pelo Hel. Depois dum intróito com uma pobre prostituta, feia, horrível, apontei uma mesa livre a um dos cantos mal iluminados, pedi dois copos de champanhe («um champanhezito Hel, à minha pala?») e logo depois entregávamo-nos ao diálogo habitual, ao jogo de xadrez que sempre se joga entre dois velhos amigos que se conhecem há tempo suficiente para fingirem que se insultam: «Como vão os pomares, paspalho? E o Ministério, energúmeno? Menos mal, e os pomares, imbecil? Mal, seu idiota, muito mal, uma praga, a minha bolsa de estudo está a filoxerizar-se! Ora, ahahah, caga nisso, bebe mais um copo, repara como a vida é bela» casquinei, apontando de largo a velha prostituta que se batera a ele e que entretanto arranjara um novo otário. Sorriu e bebeu. Pedi mais copos de champanhe, (traga a garrafa homem, «doutor Ferro, ainda deve 120 euros da semana passada», fique descansado homem, traga mais uma garrafa!)


O Hel emudecera. Fiz questão de brindar, sondando-o: «Agora a sério rapaz, como vão as coisas na Fac? Mal, muito mal meu, não sei se vou conseguir safar os pomares e acho que me vão cortar a bolsa já para o mês que vem, a doutora Cremilde não o disse com todas as palavras, mas, sabes como são estas merdas…»


«Hum» repliquei, interessado mais em aspectos técnicos que já não me diziam respeito mas que mesmo assim ainda me cativavam: «Já experimentaste enxertos estragénicos? Experimentei tudo, tudo pá, mandei vir anti-fúngicos experimentais da América, armadilhas Thepri da África do Sul, anti-bacteriológicos de espectro alargado da UE, mas nada resulta, nada, Lúcio!» Mau, o Hel estava realmente preocupado e senti compaixão pelo meu amigo mas, também, quem o mandara fazer o doutoramento recorrendo a técnicas de crescimento hortícola ainda no processo de test-trial em países mais avançados do que o nosso, test-trials de resultados - até ver - altamente dúbios?


«Olha lá, pá», resmunguei, meio sério meio na tanga, tentando animá-lo, recorrendo à nossa experiência comum, revisitando o passado, território seguro, ao contrário do presente, em que já não nos conhecíamos como dantes, coisas do ministério e de elementos alheios, estrangeiros, na universidade que ele ainda frequentava, embora não tivesse qualquer tipo de relação com os ditos: «Meu, quando fizemos crescer aquele horto de couves, três semanas antes do prazo, isso é que foi uma delícia, hã? Diz lá, foi ou não foi uma beleza?»


O Hel rira ao recordar os tempos de mestrado, quando ambos nos havíamos destacado de todos os nossos colegas de curso escrevendo um relatório exaustivo sobre os avanços que lográramos obter no crescimento molecular de vegetais para consumo humano, o qual espantara o mundo académico nacional, diga-se, e que chegara até a ter direito a nota de rodapé em programas televisivos sobre o mundo rural: «Dois jovens investigadores da Faculdade de Agronomia de Lisboa descobrem fórmula de crescimento inovadora» mas, logo percebi que ele voltara a cair no seu mutismo nublado. Isso não me conviera, que diabo, estávamos no 23, no Natal, no renascimento, nas minhas férias. Pedi mais um copo, Antíqua, mais uma, sorri-lhe ao sermos servidos como se fossemos nababos e, notando nele alguma abertura de espírito, indaguei, após o primeiro gole: «Então e a Teresa, pá, como que é vão as coisas?» As «coisas» não iam bem, nada bem: «Vai Tudo mal Lúcio, tu sabes que eu não olho para outra mulher que não a Teresa, não sabes?.. Sei?.. Não sei meu, não sei o que fazes com as tuas coleguinhas de doutoramento, ou sei?.. Sabes meu, claro que Sabes!..»


Eu, que até sabia mas que gostava de o provocar, lá lhe fui respondendo: «Essa agora, és uma besta, mas… enfim, sei, gostas da gaja, és parvo, um campónio, estúpido de todo, fiel como o caralho a quatro a uma gaja que não te merece… Mas então, o que é que se passa ao certo?..» Ele serviu de novo os nossos copos, estava a entrar na onda, a embebedar-se comigo, bebeu e avançou que o que se passava é que ela tinha «ciúmes de tudo, de tudo Lúcio; do doutoramento, da Cremilde, a Cremilde da Fac, vê lá tu, do tempo que passo com os meus amigos, do pomar e… imagina, até tem ciúmes de ti! De mim? Essa agora!» Engoli em seco e aguardei que concretizasse. «Pois pá, não é ciúmes de ti por ti, é ciúmes de eu preferir estar aqui a beber copos contigo ao invés de estar com ela», suspirara o Hel afundando-se na cadeira, com cara de cão morto à chapada. Ora, deixá-lo. Havia, sem dúvida, coisas mais importantes para tratar do que o namoro dele, o qual aliás sempre me parecera um pouco forçado, como se ele apenas estivesse com ela para não estar só.

«Hel, meu, vem ter aqui ao governo civil e mexe-te!» Ariel saíra do carro e estava de volta da bagageira. Caramba, não a podia deixar ver a arma, não convinha mesmo nada, era tipa para se assustar, no mínimo. No máximo, adeus bacanal, adeus festança. «‘Tá quieta miúda, não toques nisso, entra para dentro do carro!», ordenei-lhe, furioso comigo próprio por ter deixado tudo à vista, documentos e pistola. Encolheu os ombros e regressou ao seu lugar no carro, aparentemente impassível.


O Hel desligou, sacudi a cabeça, apaguei o telemóvel e voltei a enfiá-lo por baixo do tapete da bagageira do R6. Merda, os papéis estavam todos tombados. Foda-se, não podia misturar o trabalho com a bebedeira, não podia, tinha de me concentrar; com um gesto brusco empurrei tudo para baixo do tapete e fechei a mala.


Fazia frio, caía uma chuva miúda. Tratava-se da realidade. Entrei pelo meu lado do R6. «Olá miúda» murmurei, a fazer-me doce, mas pleno de insinuações perigosas. «Já acabaste de falar com o teu amigo? Já, pois, vem aí ter e vamos fazer uma festa em Cascais, agrada-te?», inquiri à queima-roupa. «Sou toda tua», replicou, enxuta, fria, sem sentimento na voz. Toda minha, ou toda do Hel? Resvalei desastradamente para cima dela à procura daqueles lábios carnudos, só que me escapou, ágil, para o banco de trás. Resolvi mostrar-lhe dinheiro. «Gostas de dinheiro, miúda?» Estranho, regra geral quando fico assim as putas não gostam, mandam-me à merda a mim e ao meu dinheiro, mas esta não: «Gosto, mas ainda gostava mais se fosse a três…» Engoli em seco: «Quanto? Quanto pela noite toda?» E ela fez o seu preço.


Acenei que sim, mas por dentro senti-me agoniado e deu-me uma vontade enorme de pura e simplesmente me ver livre dela; a gaja era problema, podia sentir isso, eu snifava problemas à distância, a tipa não fazia sentido. Tudo estava errado. Ia para falar quando o decrépito R7 do Hel, a chiar a suspensão, se imobilizou ao lado do R6 e, da janela do condutor, o Hel, sacana, me saudou numa vozinha que ressoava ironia e alcoolismo: «Então Lúcio, esse doce, é para hoje ou para amanhã?..» Sem responder, levei a mão ao bolso do casaco, com os olhos fiz-lhe o tal do nosso olhar cúmplice, dando-lhe tempo suficiente para mergulhar nos olhos verdes da ruiva que assolara à janela do R6. Percebi que estava a gostar. Calmamente, de sorrisinho cínico nos lábios, devolvi-lhe a sua própria carteira.

Ariel - Capítulo XI

Larguei o Lúcio com um suspiro de alívio, que se despenhara na minha cama. Não era agora mais do que um peso morto. Debatia-se com o mal-estar, soltava alguns gemidos e a todo o momento mudava de posição, tentando encontrar um nicho confortável para fechar os olhos de vez, pelo menos, durante esta noite. Conhecia-o de ginjeira. Um gajo como o Lúcio não comia, antes se alimentava de tabaco e café, com álcool para a sobremesa. De certeza que não comera nada o dia todo e o resultado estava à vista. Era um estilo de vida que não conseguia acompanhar; a minha incursão no bar era prova viva disso. «Ele vai ficar bem?», perguntou a ruiva, por trás de mim, com um tom de voz, porém, vazio e despojado de emoção sincera. Respondi-lhe que sim, que só precisava talvez de umas horas de sono. Sentei-me ao lado dela e dei um golo no whisky. Saboreei. Felizmente, enchera o meu copo antes de o Lúcio destruir o bom do Chivas. Comecei a pensar: com o Lúcio K.O. e a mulher só para mim, talvez fosse hora de lhe fazer uma visita guiada a um anexo da quinta em que fizera uns arranjos e que reservava para momentos de maior privacidade, «para quando chego bêbado e não quero armar estrilho Lúcio, ahahah!», revelera ao meu amigo, no Verão, enquanto jogávamos um partida de xadrez ao abrigo da sombra fresca da videira, de calções e chinelos, refastelados, ouvindo blues e esticando o braço apenas o suficiente para ir arrancando bagos. A voz do Lúcio arrastando o meu nome pela boca fez-me olhar para trás. Percebi que passava mal, os olhos vítreos incapazes de focar. Que belo bico d’obra em que se meteu. Não gostava nada de ser ele quando acordar. Voltei-me para trás e disse-lhe que descansasse um pouco, que de certeza era por não ter comido nada. Amanhã, «isso já passou». Fechara os olhos antes de ter terminado de falar. De súbito, senti a ruiva colocar a mão sobre a minha perna, deixando-a escorregar pela minha coxa. Agradavelmente surpreendido, e já preparado para empregar todo o meu charme, exibindo um sorriso convidativo e descontraído, voltei o olhar para ela, mas o seu rosto caiu sobre o meu e os longos finos fios de cabelo vermelho explodiram-me no olhar. O seu corpo, porém, parecia mole e não reagia às minhas mãos. Apercebendo-me da intenção dela, segurei-a com mãos firmes e ajudei-a a encostar-se no sofá. Estava pálida e desculpava-se, tinha tido uma tontura. Via-se o cansaço e o excesso de álcool espelhando-se no rosto dela. Mau!, também ela? Via a noite vir por aí abaixo e isso não me agradava. Sem o Lúcio, pronto, a noite ainda tinha solução, tinha a mulher, tinha bebida, tinha privacidade. Agora, sem a miúda e com o Lúcio fora de combate é que a coisa se revelaria um fiasco absoluto. Nada podia fazer pelo meu amigo, senão dar-lhe um tecto para curar a bebedeira, mas, escrupuloso por vezes até de mais, sabia que podia fazer alguma coisa por ela, para evitar que chegasse ao estado do Lúcio. Além disso, só tinha aquela cama e não achei boa ideia acondicioná-los entre os mesmos lençóis. Hm… não, pois não. Talvez a pudesse deixar a dormir no anexo. «Queres deitar-te? Tenho um sítio onde…?» «Não!... Não, eu... não posso e… ainda me vou sentir mal. Só preciso de apanhar ar, mais nada», entabulou, de repente, mais desperta. Olhei pela janela e percebi que a chuva tinha passado, se bem que ainda ventava (sem dúvida, se era ar que ela queria apanhar, teria de sobra), o que, aliado à escuridão que preenchia todos os espaços na quinta, me retirava qualquer vontade de fazer um passeio nocturno. Encarei-a, mas os seus olhos rogavam-me, como uma criança que quer muito alguma coisa e parece que vai desatar a chorar se não o fizermos. E, como uma criança, só lhe faltava saltar de felicidade, quando os olhos brilharam de gratidão, em resposta ao meu consentimento. Pediu-me se podíamos ir de carro. Sabia que eu morava perto do mar e a maresia fazia-a sempre sentir-se melhor. Adorava o mar, confessou, parecendo ganhar um boost de energia. Lancei as mãos às chaves do R7 e ela, mais rápida do que esperava para quem quase desmaiara, colocou a mão sobre a minha, fazendo-a cair como uma pena, deixando-a por instantes, retirando-a depois, raspando a ponta das unhas vermelhas sobre as costas da mão. Estremeci por dentro, mas restringi a emoção. A miúda afectara-me, muito, demasiado. Só me apetecia aproveitar a deixa e levá-la para o anexo, mas, era escrupuloso, demasiado, por vezes. Caralho! «E se levássemos o carro do teu amigo… Hel?» Pronunciara o meu nome com afecto, quase com carinho, a voz ao pronunciar o meu nome escorregou-me pelo ouvido, melíflua, uma sinfonia perfeita. Por um fragmento de segundo, odiei-a. Estava enfeitiçado, raios, enfeitiçado! Noutras condições, se alguém me fizesse um pedido destes – levar o carro novo do meu melhor amigo, o R6!, sem autorização – jamais consentiria. No entanto, naquele momento singular, tentava arranjar argumentos para finalmente pegar nas chaves do R6. Afinal, conhecia bem a zona e a praia não era assim tão longe quanto isso. Além do mais, grande parte da bebedeira escoara-se pelo cano da retrete do 23. Sentia-me leve e desperto. Sem retorquir com palavras, larguei as chaves da minha chocolateira e peguei nas do bólide. O meu inconsciente lançava-me reprimendas severas e, estranhamente, assumia a voz do Lúcio: Se me fodes o carro, puto, se mo fodes…! Não resisti a atirar um soslaio para os lados da cama. Os seus lábios estavam selados, abrindo-se somente para deixar sair um ou outro ronco ocasional. Agarrou-se ao meu braço, satisfeita, e saímos.

Pressionei os comandos do R6 e as portas concederam-me o acesso com um sinal luminoso e um «bipbip». Ela preparou-se para se instalar de imediato nos bancos de trás e gracejou, dizendo-me que não queria ir ao meu lado, não fosse distrair-me e tirar os olhos da estrada, como era meu hábito. Ri e disse que podia fazê-lo na mesma. Abri a porta, mas mudei de ideias. «Vou só ali, já venho». Ela percebeu e disse que não ia a lado nenhum. Pus as chaves no bolso e, apressado, fui procurar um canto. Não mijava desde que saíra da faculdade e apercebera-me dolorosamente desse facto: o álcool acumulara-se-me na bexiga, que inchava, prestes a explodir. «O que é que estás a fazer?», puxei para mim a ruiva pelo braço (ao regressar do meu momento de privacidade), que apanhara a remexer na bagageira, gritou de susto e gaguejou uma justificação, que não era nada… nada disso, tinha reparado que a porta da mala estava mal fechada, estava só a verificar, a fechar melhor. Estudei o interior. Papéis, ferramentas, um colete… Olhei para ela. Estava assustada. Talvez ainda não estivesse tão lúcido quanto isso. Que podia ela querer da bagageira? Não parecia haver coisa alguma de interesse. Comecei a afrouxar os dedos e soltou-se, esfregando o braço. «Desculpa… eu, eu voltei… vi-te a… parecias estar a mexer e…», principiei, envergonhado. «Não faz mal, eu percebo, estavas a olhar pelo teu amigo». Forçou um sorriso e entrou. Sentei-me ao volante e fechei a porta.

Enrolei um cigarro. «Dás-mo?» Passei-lho e principiei o processo. Meteu conversa comigo, disse-me que eu não parecia do tipo que solicitava os serviços de uma mulher como ela. Solucei uma gargalhada, com o filtro entre os lábios, e retorqui, empregando a mesma frieza que ela dispusera comigo ao longo da noite, que, então, era porque ela não parecia uma mulher do género de que ela tanto se esforçava para me convencer. Aliás, tinha a certeza disso. Acendi o cigarro. Virei-me para trás, com um sorriso carinhoso, para lhe dar a entender que brincava. O rosto dela espelhava um misto de confusão e alívio. No fim, rimos os dois, tacticamente. Senti que reconquistara o meu lugar hierárquico nos eventos daquela noite tão invulgar. Dei à chave e senti-me ser repossuído pelo R6. O carro parecia estar imbuído da personalidade do Lúcio e sentia uma dose da confiança dele tomar o controlo sempre que me sentava ao volante daquela máquina. Com um sorriso nos lábios, depois de uma longa passa que me soube pela vida, arranquei rumo à praia, sempre na mecha, mas não muito, não queria foder o carro ao Lúcio, não é? Não me fodas o carro, puto…! Ri em silêncio.

Tagarelámos sobre banalidades, ela tornara-se muito conversadora. Descontraímos e falámos de assuntos inócuos. Revelei-lhe o que fazia, falei-lhe do doutoramento, que estava a ir pelo cano abaixo. Brinquei com a situação. Ela contou-me uma história sobre estudar letras e não estar ainda acostumada à vida da noite. Acreditei, porque não? Em poucos minutos, num avanço suave e sereno pela estrada até à praia, riamos com sinceridade, ela pela primeira vez naquela noite, sem insinuações, sem jogos de poder, no fundo, não interessava: percebera há muito que a noite não passaria dali. Ela revelava uma inteligência aguçada e um humor de uma mordacidade à toda a prova. Era raro encontrar mulheres assim. «Obrigada pela paciência que tiveste comigo, já estou bem melhor». Recostou-se e respirou fundo o ar frio da madrugada. Daí a um par de horas, amanheceria e a vida voltaria à engrenagem habitual. Suspirei. Acabara outra vez por ser o bom da fita.

À medida que devorava os metros ao longo da estrada, começava a ouvir o rugir das ondas negras esmagando-se contra a fortaleza de rochas que coroavam a praia e a inspirar a maresia que se insinuava e se intensificava, enquanto a distância entre o carro e o mar se esbatia. Caláramo-nos e o manto silencioso que nos envolvia era confortável. Aproximávamo-nos da praia. A estrada que a costeava, além de estreita, apenas com espaço suficiente para dois carros, de preferência pequenos e esguios (quantas vezes não ficara preso no trânsito devido a dois autocarros que se cruzavam e insistiam em passar ao mesmo tempo), estava esburacada para além de qualquer remédio, vaticínio de um despiste certo, se o caminho não me fosse já habitual e se não reduzisse para uns confortáveis 50 Km/h. Claro, o facto de ter nas unhas o R6 também me incutia uma maior sensação de segurança. Naquela semi-obscuridade lunar e com a bebedeira a que já me presenteara esta noite, dei graças por não me ter aventurado por aqueles caminhos rolando sobre os pneus quase carecas do R7. Ao desencostar o pé do acelerador, senti dois faróis atrás de mim, distantes, ainda, mas com o olhar luminoso fixo em mim. Reduzi mais um pouco. Reduziu também, preocupado em manter a distância que nos separava. Talvez não passasse de um condutor zeloso, que não conhecia o percurso, senão pela reputação dos inúmeros acidentes que ali tinham lugar, e que não queria aproximar-se. Contudo, sentia-me inquieto, um arrepio trepou-me pela espinha acima. Olhei pelo retrovisor e pisei o pedal com mais convicção; o ponteiro subiu lentamente dos 50 para os 60 quilómetros. Notei que os faróis não se afastavam, antes pareciam determinados em manter sempre o R6 ao alcance da vista. Custava-me a acreditar que estivéssemos a ser perseguidos. Pelo espelho, olhei para a ruiva, que me fitou com olhos emudecidos, com um silêncio tão opressivo como o meu. Houve entre nós um clarão de entendimento. Havia alguém no nosso encalço?, seria possível? «Por acaso…?», comecei; sentia que ela me escondia alguma coisa, que escondera a noite toda alguma coisa, e preparava-me para extrair algumas respostas. Não me agradava ser perseguido por estradas desertas a altas horas da noite. Mas ela interrompeu-me com um abrupto «Acelera!» Como não obedeci com prontidão, com agilidade felina, passou para o lugar do morto e pisou-me o pé contra o acelerador: «Vai, acelera!» «O que se passa? Sabes quem é?», perguntei, enquanto o carro torpedeava noite dentro. «Acho que sei…», respondeu, com a voz a tremer. A estrada era agora feita de buracos e areia, devido ao forte vento que se fazia sentir e que cobria o percurso com um espesso manto arenoso. «Achas?», perguntei, exasperado, quando me vi forçado a travar e a guinar para manter o controlo do carro que resvalara em direcção aos penhascos. «Não me apetece morrer hoje só porque achas que sabes quem está dentro daquele carro!», ripostei, furioso. Voltei a observar o nosso misterioso perseguidor e sentia-o perscrutar-nos por trás da luz, frio e implacável, o carro agora soltando roncos furiosos na tentativa de acompanhar o R6, tarefa, diga-se de passagem, que não era fácil. Naquela estrada e com tão pouca luz, fosse quem fosse, se se conseguia manter na minha peugada, era bom e sabia o que fazia. «É ele, só pode ser ele! Tens de me tirar daqui!», gritou, implorante, agarrando-me o braço. A voz dela, por vezes fria, por vezes convidativa, há pouco tão sincera, tresandava a medo e a pânico. Reparei, pelo canto do olho, que resistia às lágrimas que teimavam em acorrer-lhe aos olhos. «Se o despistares, conto-te tudo, tudo, talvez até possas ajudar, mas acelera mais, acelera!» e o ponteiro subiu para os 110. Boa, era o que me faltava. Um dos meus motes era não me meter nos problemas alheios e, agora, via-me no carro do meu melhor amigo, com uma mulher tão enigmática quanto atraente ao lado, perseguido no escuro por um psicopata qualquer. Não sei que tipo de gajo podia instilar-lhe tanto medo, mas também não planeava ficar nas redondezas para descobrir. Mesmo que me quisesse descartar, se fosse apanhado, levaria por tabela. Respirei fundo e reuni todas as minhas forças para me concentrar. Ela percebeu e lembrou-se de puxar o cinto.

A perseguição durou ainda uns bons dez minutos. O facto de se tratar de um único caminho tornava impossível despistá-lo e obrigava-me a depender somente da velocidade, pelo menos, até que a estrada se desenrolasse em mais percursos. Frenético, com o olhar preso no caminho tenebroso e com as mãos presas no volante, a noite tornava-se um borrão sobre os meus olhos; senti o R6 forçar a caixa para além do limite.

Abri os olhos, incerto do que se passava, e olhei para o lado. A ruiva esfregava o ombro, gemendo, e parecia atordoada. Abri as mãos, que se haviam encrespado em torno do volante, e senti as palmas suadas descolarem da borracha e os nós dos dedos estalarem. Estávamos parados. O carro passara por outra passadeira de areia, desta vez, demasiado depressa; travei, guinei, fiz o jogo de caixa, mas acabámos por derrapar e sair da estrada. Num último sopro de presença de espírito, consegui evitar a morte certa em direcção ao mar, escarpa abaixo, e lançar o carro para a esquerda, em direcção à vegetação, até que, depois de rodar sobre o seu eixo sem parar, estacou, mesmo rente a uma árvore. Por pouco não me esmagara contra o tronco. Constatei que a minha companheira estava bem, apenas assustada e atordoada, e voltei o pescoço para o barulho de motores que cessavam. Estava perto o suficiente da estrada para a ver claramente, quando os dois carros se aproximaram do R6 e travaram. Espera lá! Dois carros? Do carro que nos perseguia, portentoso e robusto, saíram dois vultos. Do outro, mais pequeno, que pelos vistos se ocultara atrás do primeiro, saiu outro. Estavam a poucos metros de nós, juntaram-se, acenderam lanternas e começaram a avançar. Os focos de luz incidiam sobre as nossas caras e percebi, então, sob o brilho dos feixes, a extensão do terror dela, pálida e transida de medo. Estavam agora a pouco menos de três metros, quando estacaram e ouvi uma voz rouca: «Vá, conseguimos vê-los ai dentro. Se saírem a bem, vai ser mais fácil». «Mas, se quiserem sair a mal, tanto melhor». Acrescentou outro e riu, juntando-se à sua gargalhada a do primeiro tipo. Não havia fuga possível, nunca conseguiríamos sair do carro e fugir sem que nos deitassem as patas. Segurei a mão dela, trémula, gélida que nem a morte imaginava tão fria, e tentei tranquilizá-la, «vamos safar-nos desta, Ariel, vamos arranjar maneira…», mas era inútil, a minha voz entrecortada pelos soluços dela e o meu coração descompassado revelavam-lhe a mentira óbvia. Entreolhámo-nos e saímos do carro, postando-nos à frente das três luzes, que me obrigavam a semicerrar os olhos. Sentia o vento frio do mar bater-me na cara, escutava as ondas surdas no seu ataque incessante contra os rochedos, e, misturado com o cheiro a sal, um estranho aroma subiu-me pelas narinas, primeiro desconhecido, em seguida familiar, mas que depois me viria a aperceber de que era mentol. O vulto do segundo carro avançou uns passos, deu uma longa passa no cigarro e dirigiu-se aos outros dois. Uma voz de mulher, corrosiva, chegou-me aos ouvidos: «Vamos, rapazes, nada de violência. Não vêem que eles estão a colaborar, até saíram do carro, como tão educadamente pedimos». Desataram os três a rir, até que, do primeiro carro, outro homem se ergueu, «Tragam a mulher, não temos tempo a perder», tranquilo, com uma voz que, noutras circunstâncias, classificaria como cordial; era ele que claramente puxava os cordelinhos. Que merda!, quantos mais sairão dos carros!?, pensei, sentido calafrios correrem o corpo, dos pés á cabeça, da cabeça pela coluna abaixo, pelos braços, suando em bica, apesar do vento frio, dando comigo a pensar que ainda me ia constipar; engraçados os caminhos por onde a mente nos leva quando o medo é tão opressor que não há outra coisa a fazer senão enfrentá-lo ou escondermo-nos debaixo de uma pedra. A meu lado, Ariel estava petrificada. «Meninos, divirtam-se!», declarou a mulher. Deu uma última passa no cigarro, atirou-o para o chão e foi para junto do quarto elemento. Vi os dois vultos unirem-se na penumbra, sob a lua empalidecida pelas nuvens, como se se beijassem.

«Vou eu ou vais tu?», perguntou um dos homens munidos de lanternas. «Podes ir tu, vê-se que mal te conténs». Ele agradeceu a oferta e avançou para nós. Estacou. Rangi os dentes e fechei os punhos. O bruto fechou a mão simiesca sobre Ariel, puxando-a com tanta força que parecia apenas querer levar-lhe o braço, deixando o resto para trás. «Anda, o chefe está à espera». Instintivamente, lancei a mão ao outro braço e a luta que se seguiu foi de pouca dura. Assobiando o ar, um punho esmagou-se contra o meu estômago, torcendo-o e contorcendo-o, caí de joelhos, dobrado e vomitei tudo, lutando para respirar, até só sair bílis. Olhei para cima e vi que o homem se afastava com Ariel, arrastando-a pelo braço, que se começara a debater como uma louca. Chegada ao chefe, voltou a cair num mutismo lívido. Ouvi o bater de uma mão no rosto; ele desferira-lhe uma chapada e entregara-a à cúmplice. «Amarra-a e enfia-a no carro! Vai contigo», ordenou, impiedoso e resoluto, porém, calmo o suficiente para dar a sensação de que pedia a alguém que pusesse as compras no carro. Queria agir, queria ir lá e partir-lhe a o nariz, os dentes, a cara, os ossos todos, mas os meus pés pareciam ter-se enraizado no solo. «E o outro?», perguntou a mulher desconhecida. «Eu sei que não é ele, mas… não podemos permitir que se vá embora. Matamo-lo?»

Era agora, era o fim, ia morrer, a cortina ia descer, ia morrer sozinho, no escuro, numa estrada abandonada! Ouvi dizer que, nos últimos momentos de vida, esta nos passa diante dos olhos. É mentira. A única coisa que naquele momento me passava diante dos olhos era um grande vazio, de ideias, de reacção, o cérebro cessara o funcionamento, repassado pelas emoções. Por si só, as pernas começaram a recuar uns passos. Ouvi um estalido e parei, em pânico. Vira suficientes filmes de acção para saber como soava uma arma ao ser engatilhada. O manda-chuva aconselhou-me a ficar quietinho no lugar. Asseverou-me que era um bom atirador. Claro, que se eu lhe quisesse dar o gosto de uma fuga, estava à vontade. «Por quem nos tomas, rapaz?», ironizou, divertido. «Não te vamos matar, não te preocupes… não agora, não aqui, hahaha! Temos apenas alguns assuntos pendentes a resolver com a tua amiga, é tudo», declarou, sardónico. «Uma vez que a encontramos na sua excelsa companhia e com um carro que não lhe pertence, como compreenderá, faz agora parte integrante dos nossos negócios, bom senhor». Abriu a porta do carro e estendeu a mão: «Vamos?» Sentia-me estupidificado. Mais um pouco e o tipo convidava-me para jantar; na calha, ainda me oferecia sobremesa e café. «Chefe, podemos só dar-lhe uns tabefes, para o aclimatar à nossa presença?», perguntou um dos gorilas, expectante da resposta, como uma criança traquina e impaciente. «Hm…», o chefe debatia-se com a ideia, «Hm, bom, vá, está bem, agora que o vento corre de feição e que tudo se vai resolver, pode ser, divirtam-se», falou, com bonomia irónica e indulgente. «Mas!...» advertiu, silvando, «Não se deixem levar, quero-o vivo e em condições de falar! Isto vale sobretudo para ti, ouviste, Tubarão?», advertiu o chefe um dos homens, que logo anuiu, asseverando-o de que assim seria. Quem raio tem a alcunha de Tubarão?, pensava, logo descortinando que a resposta não se omitiria durante muito mais tempo.

Engoli em seco. Os dois brutamontes aproximavam-se como se fossem espectros… espectros estalando os punhos do tamanho de bigornas; e nenhum deles era parecido com um tubarão. Num lampejo de lucidez, pensei em ligar ao Lúcio. Se este atendesse e ouvisse o que se estava a passar, talvez conseguisse ajuda, mas, quase no mesmo instante, lembrei-me: merda, não tinha saldo! Mesmo que tivesse, o Lúcio ainda não devia estar refeito da soneca que ficara a fazer na minha cama. Uma enorme vaga de impotência varreu-me a mente. Não restavam soluções e a fuga era impossível. Já estava de pé e à espera, pronto para me defender o melhor que sabia e podia, os dois espectros pairando sobre mim, perto o suficiente para lhes ver os olhos coruscantes.

Capítulo XII

Foi o piscar de olhos mais longo da minha vida, estou convicto, embora não tenha por hábito contar quantas vezes os outros piscam os olhos nas suas vidas, quanto mais agir dessa maneira na minha, mas lá que me marcou, acho, não, não acho, tenho a certeza de que sim, foi um piscar de olhos que me marcou e a prova é que não me esqueci dele: durou o suficiente para constatar, pelo canto do olho, o canhoto, nas entrelinhas do diálogo abafado, sinuoso, que não me chegava do plasma, era certo, a mão de Ariel, subtil, arraposada, ágil, a deslizar pelo entre-pernas do meu amigo.

Esse sim, esse momento, fora a gota no copo da água, ou melhor, nos olhos vidrados de Chivas, Antíqua, Pilsener, Dom Perignon, etcoetara. Pisquei os olhos e fechei-os, mergulhando quase de imediato na inconsciência; quando os voltei a abrir, estava sozinho.

A miúda e o Hel, abandonando-me ao torpor alcoólico da cama onde ele, solícito, me deitara, haviam-me deixado só, completamente, os bastardos, tinham-se pirado sem dizer água vai e sabe-se lá para onde. Ergui a cabeça a custo, sentei-me na borda da cama, mastiguei em seco, a boca a saber-me a papéis de música e acendi um cigarro, mal disposto, carrancudo.

Lá fora, a chuva, miúda, pontuava o ritmo da minha respiração, também ela inconstante. Estava mal, estava acordado, tinha fome, e fora levado, como um principiante. Para além disso, sentia sede; a minha garganta estava mais desértica do que o Saará, nem uma gotinha de saliva, tinha de beber qualquer coisa, tinha mesmo.

Então, pus-me outra vez a mastigar em seco, ainda sentado na borda da cama, apalpando os bolsos, certificando-me de que não faltava nada, tentando organizar as ideias, orientar-me num ambiente que, não me sendo totalmente estranho, também não me era conhecido de todos os dias. Os estupores, reflecti amargamente, erguendo-me, escorregando de novo na borda do leito, procurando avidamente novo cigarro, alguma coisa que me tirasse aquele péssimo hálito, alcoólico, fanado, da boca.

Os estupores, reflecti outra vez, desta feita, com um timbre vingativo. Respirei fundo. O pior de tudo é que não tinha escova de dentes. Bem, poderia usar a do Hel, mas isso até a mim me metia nojo, quanto mais conjecturar sobre o tema. Respiguei o couro cabeludo, fiz caretas, de boca ainda completamente enxuta, abrindo o olho direito, focalizando ambos e procurando racionalizar a situação. Precisava de comida, era o que era.

Pelo menos, alguém se lembrara de deixar uma luz acesa. Já não era mau de todo. Ergui-me, resoluto, dei a volta à cama e passei pela mesa onde o Hel assentara o seu plasma novinho em folha. Sabugo, tantos queixumes e até dava para uma plasma large screen, sabugo.

Uma campainha de alarme saltou e lembrei-me das minhas chaves, onde estariam? Fora ali mesmo, na mesa do plasma, que as pousara, juntamente com as chaves do R7 do Hel; essas, lá estavam mas, das minhas, nem sinal.

Caramba, queriam ver que o Hel, pensei, que o Hel…, refocilei, mais e mais arreliado, sanguinolento, desconfiado, ressacado, vingativo. Por baixo das chaves dele estava um papel, notei, um papel encimado por um título, «Pa ti, Lúcio!». Sacudi a cabeça, peguei no papel e reconheci a caligrafia. Obviamente, fora rascunhado à pressa, obviamente. Pois sim, sabia de alguém que me devia sérias explicações. Aproximei-me do candeeiro e pus-me a decifrar o conteúdo da mensagem: «Meu caro, levei o R6, sorry, “ela” queria ir passear, apanhar ar… Abraço, voltamos antes de ser dia». Pulha, mil vezes pulha, o canalha, aquele sabugo levara-me o carro e, não satisfeito, a miúda também.

Havia de pagá-las, ó se havia, murmurei, enraivecido, sentindo-me tentado a atirar com a porcaria do plasma ao chão; foi uma sorte não o ter feito mas lá me controlei, amarrotei o papel, deitei-o para o chão, enfiei as chaves do R7 no bolso e dirigi-me à cozinha.

Comida. Comida e bebida, precisava de ambos, antes de decidir qual o curso de acção mais adequado a tomar, face àquela traição insofismável. Abri o frigorífico e dei de caras com uns restos de carne assada, com brócolos e batatinhas. Maravilha, alguém iria ficar sem almoço no dia seguinte, mas isso não me dizia respeito, ladrões de engates e de automóveis não me mereciam qualquer consideração. Tirei a travessa do frigorífico, borrifei tudo com maionese, duma gaveta saquei guardanapos e encaminhei-me para a saleta onde o Hel guardava a sua recém-adquirida garrafeira pessoal. O pulha ia pagá-las, ó se ia, e com todos os juros. Abri o armário e pus-me a retirar garrafas; por fim, lá encontrei uma pérola: “Duas Quintas”, tinto, reserva de 74. Mas havia mais, havia mais. A última de todas las botellas era uma surpresa, até para mim: Marquês de Rioja, branco, 1983. Mau, o menino esmerara-se, afinal a bolsa de estudos dele não devia ser má de todo, ou isso, ou andava muito poupadinho: só entre aquelas duas garrafas, por alto, não contaria menos do que um mês de salário no Ministério.

Porreiro, a vingança servia-se a frio; tudo era perfeito, reflecti, casquinando, a única coisa que me faltava era um saca-rolhas. Ávido, enfiei pela garganta uma fatia de carne assada, certificando-me de que deixava escorregar para o chão uma generosa dose de maionese, com o pé fiz questão de a esborratar em várias direcções, fui à cozinha, voltei com um copo e com um saco rolhas, sorri, abri ambas as garrafas, deixei-as respirar, e servi um copo a transbordar: “Duas Quintas”, parecia-me prometedor, para começo de vingança. Sentando-me no chão, dediquei todas as atenções ao meu repasto de carne assada com batatinhas, brócolos e maionese, regando-o profusamente com o “Duas Quintas”. Ah, como era belo o mundo, como era bom o vinho do Hel!

Eles haviam-me deixado, algo que não se fazia, reflecti enquanto mastigava e empurrava com o vinho; haviam-me deixado, completamente amassado e com um peso na cabeça maior do que o cume do Evereste, mas agora estava a recuperar, fruto do calor do “Duas Quintas”, do gostinho das batatinhas e da carne assada, dos brócolos fresquinhos, degustando, recuperando, reflectindo, sentindo-me renovado, outra vez bem-disposto, pronto para mais um round. Ah, iam pagá-las, ó se iam! O vinho era bom, mentira, não era bom, era supimpa, do melhor que me fora dado a provar nos últimos meses!

Satisfeito, emborquei o último resto da garrafa, dei à consideração do estômago o último resto da carne assada, poisei o prato, busquei um cigarro, acendi, inspirei uma longa passa, e senti-me bem, recomposto, feliz, lúcido. A única chatice era que estava todo sujo de maionese; tinha os dedos peganhentos.

Poisei o cigarro directamente no soalho, fazendo figas para que deixasse marca antes de se consumir, e contemplei a garrafa de Marquês de Rioja. A última vez que cobiçara uma daquelas fora em Bordéus, era ainda novo, há uns dez anos, na companhia do meu pai. Por falar nisso, o velhote não andava bem ultimamente.

Estava na minha casa, chegara estafado da viagem ao estrangeiro e viera acoitar-se comigo. Eu não era um bom filho. Desde que ele chegara, passara no máximo dez minutos com ele. Abrira-lhe a porta, três dias antes, indicara-lhe o armário das toalhas e dos lençóis, o quarto que reservara para ele e, praticamente, não o vira mais desde então; sim eu não era um bom filho.

Raios fodessem o velhote, amava-o é certo e ele fazia tudo o que podia por mim, também era certo, mas… Eu não era um bom filho, na volta, nem era um bom diplomata, nem sequer um assessor digno do nome, «que estava ali apenas para servir de elo de ligação com o secretário do Ministério dos Internos»; tão pouco saberia fazer florir um bom horto de couves e, se calhar, nem um bom amigo era.

Senti-me triste. A saleta do Hel estava toda porca e eu todo sujo, todo lambuzado de maionese. Bem, ponderei, que se fodesse. Cá se fazem, cá se pagam: com que direito me levara o carro e a Ariel? Ainda se fosse só a Ariel, vá que vá, não me chatearia tanto, mas o R6! O R6?

No fio condutor desse pensamento lembrei-me duma coisa desagradável. Algo que sempre estivera presente na minha cabeça, mesmo antes de começar a beber. Ainda não estava de férias e na bagageira do R6 tinha coisas que não me podia dar ao luxo de ver extraviadas. Coisas de que necessitava no dia seguinte. Não, de facto, não podia ser assim, tinha de pensar sobre o caso, onde estaria o grandessíssimo filho dum comboio de putas? Peguei no cigarro, levei-o aos lábios e pus-me a mexer de novo para a cozinha, levando comigo a garrafa de «Marquês». Merda, tinha aberto aquela porra e não fazia tenção de a beber. Ao chegar ao lava-loiça resolvi molhar as mãos. Abri a torneira e nada, aparentemente, daquela torneira não escorria gota de água alguma; teria sido cortada? Teria o Hel problemas com a empresa de abastecimento de água de Cascais? Matutei ser impossível saber, encolhi os ombros e ainda tentei forçar a torneira, mas nada, nem uma gota. Paciência, ponderei, já que abrira a garrafa de «Marquês», branco, convinha não ser racista e aproveitá-la.

Sorri: para alguma coisa o velho néctar dos deuses que os espanhóis desde há séculos apuravam serviria. Contemplei a garrafa, o rótulo a torneira sem água e decidi-me. Lavei as mãos, à grande, à aristocrata; era vinho branco pela pia, pelos armários, pelo chão da cozinha. E o cheiro, oh, e o cheiro!

Comecei a senti tonturas, vertigens, pior, a sentir tonturas e vertigens acompanhadas por cãibras nos intestinos. Felizmente, intui o caminho para o quarto de banho. Arreei as calças e sentei-me, aliviado. Ali fiquei, tranquilamente, de novo sóbrio, inspirando, expirando, às escuras, aliviando-me, lentamente.

Assim me encontrava, quase sereno, quando ouvi barulho vindo da porta. Alguém tentava entrar, com pouco talento, já se sabia, o Hel deveria vir bêbado, só podia. Limpei-me, não puxei o autoclismo, puxei as calças e meti-me à escuta, pronto para os surpreender. Diabo, o Hel devia vir mesmo grogue, não atinava com a fechadura nem por nada.

Finalmente, a porta da rua abriu-se e entraram. Mantive-me imóvel, que risota seria quando os surpreendesse… Caminharam ligeiros pela sala de entrada, bateram pelo quarto e pela saleta e estacaram na cozinha. Eu era só risos, deviam estar admirados de não me encontrarem. Sentia-os, pregados na cozinha, e eu, ainda, no quarto de banho, às escuras. Sorri de novo, já iriam ver o gostinho que o fado tinha, eheheh…

Então, ouvi uma voz que não era a do Hel nem, tão pouco, a de Ariel: «Não está ninguém, devem ter ido todos juntos!» Aquela voz masculina não era a do meu amigo, algo estava errado, quem seriam aqueles tipos? Agachando-me, espreitei: da meia luz que vinha da cozinha, descortinei dois homens, dois brutamontes e um deles conhecia-o de ginjeira de outros carnavais: era o “tubarão”, por causa do seu proeminente maxilar, o lava-copos, o adjunto do bartender do 23, que fazia aquele melro ali?

Tive medo e quase dava tudo a perder quando recuei, embatendo quase surdamente na sanita, assustado. Não ouviram, felizmente. Procuravam alguma coisa ou alguém, não percebia nada, aqueles dois eram da pesada, isso percebia, percebia até bem demais. «Que grande farra, olha para isto, é vinho pelas paredes e tachos pelo chão, que grande farra, que grande farra!» grasnou o baixote, guloso, patacoando para aquele que eu conhecia como o «tubarão». Este, bem pelo contrário, continuava imóvel, estacado no centro da cozinha, avaliando as proximidades, snifando, com cara de quem pusera os seus dois únicos neurónios a funcionar, todo ele aspirador, com tromba de elefante enjoado: «Esse cabrão do Lúcio! Enganou-nos, deve ir também no carro, filho da puta! Vamos embora, atrás deles, o chefe já os tem na mira, ‘bora!». Ao comando imperioso do «tubarão», desembestaram os dois, porta fora, a correr, cheios de pica, todos energéticos, todos Vanessa Fernandes. Deixei-me estar, ainda mal refeito, mas com o coração aos saltos. Ergui-me (merda, não fazia outra coisa que não deitar-me e erguer-me e beber e fumar), abeirei-me da porta e topei-os, dois vultos na escuridão, correndo, à Carlos Rosa Lopes Mota, a entrar numa viatura de alta cilindrada, estacionada mesmo ao lado do R7.

O carro deles arrancou, guinando, voando sobre os buracos do caminho da quinta do Hel, afastando-se numa nuvem de pó, visível até naquela noite escura com breu. Sem pensar, também eu corria, tropeçava no carreiro e não parava, entrava no R7, sacava a chave do bolso, dava à ignição e por meu turno fazia a caixa e o acelerador chiarem assustadoramente, na peugada deles. Raios, onde iriam com tanta pressa?, ponderei, mal me vi ao volante. Que história era aquela de eu ser um filho da puta? Os porcos não conheciam a minha mãe, não sabiam nada de nada, quem eram os gajos? E onde iam tão depressa? Encurvei as sobrancelhas, enruguei a testa, tentando compreender o que fazia e para onde conduzia. O R7, calmo, mastodôntico, parecia apontar-me o caminho.

Mesmo assim, tornava-se difícil de manter a perseguição, iam muito velozes, os meninos, muito apressadinhos. Levavam-me, no mínimo, uns 500 metros de avanço, só que eu queria explicações e, inflamado por tudo o que se passara, puxei pelo R7, puxei-o até ao limite: 2300 centímetros cúbicos, 117 cavalos, 1500 quilos, 7500 rotações aos 160, com ou sem pneus carecas, com ou sem tubo de escape roto, sabia muito bem como lidar com o R7, não era um principiante a conduzir mamutes, aqueles porcos pagá-las-iam, pagá-las-iam e a minha intenção não era menos ferina; pagá-las-iam, sobretudo o tal do minorca, o tal do minorca, que eu não conhecia, mas que se rira quando o outro chamara de «puta» à minha mãe.

Ninguém tinha esse direito, só eu e, talvez, o meu pai. Pensamentos desconexos furavam-me o crânio, abrindo ladeiras pela minha mente fora, mais tendenciosas do que se fossem bagaço ou Chivas à mistura com “Duas Quintas”; unindo-se a sonhos de cabelos de fogo e pele de seda. Seda a arder. Cabelos de fogo. Cútis de seda em chamas. Cabelos em labaredas, estradas a arder, Chivas, Duas Quintas e Rioja, hehehe…

Preguei a fundo, perscrutando a névoa, verificando que afinal não se haviam distanciado por aí além. Lá me fui descontraindo, levantando, de tempos a tempos, o sapato do acelerador, só para que não dessem fé de que tinha companhia, afinal, ponderei, merecia a pena ser cauteloso e o R7, simpático, também se prestava a esse papel.

Rolámos, eles à frente, eu refundido, durante uns dez minutos, eles quase fora do meu campo de visão, loucos de todo, era só potência naquele Wolkswagen Miura; mas não era páreo para o R7 do Hel, que belo automóvel. Calmamente, fui controlando a velocidade, mantendo uma distância segura. Passámos por duas rotundas, virámos, sempre à esquerda, e dei por mim a 80 quilómetros horários, numa estrada secundária, em direcção à praia do Abano, sempre atrás dos bacanos, longe, mas seguro do que fazia.

Conhecia bem a praia do Abano; estivera lá com o Hel, no Verão, mais a minha miúda da época e um amiga dele, bem boa, por sinal, que seria feito da Sofia? Subimos, eles a puxar e eu na minha, demasiados buracos e falésias a rondar. Fosse como fosse, a recta logo após era longa e, se bem que um pouco perigosa, de certo modo convidava a reflectir. Lá iam os tipos, agora mais devagar, havia outros automóveis à frente deles. Meti o ponto morto e deixei-me deslizar, não me escapariam, isso, era certo, patente qb para qualquwer otário que aquela hora se lembrasse de se sentar na borda da estrada a observar, e alguém iria pagar, o sacana do «tubarão» ou o minorca, pouco se me dava, alguém iria pagar, não tinha qualquer dúvidas disso mesmo.

Com sorte, ainda apanhava o Hel pelo caminho, afinal, estava no seu território. Também, se apanhasse por tabela, era bem feito: quem o mandara roubar-me o R6?
Ao canto esquerdo da minha visão periférica, lá no topo, o Palácio da Pena proporcionava-me coordenadas conflituantes, onde terminaria o «passeio»? Abri a janela, escarrei, cheirei o ar e senti o aroma da maresia; era curioso como o regresso duma esmagadora bebedeira me aguçava temporariamente os sentidos. Todo eu estava alerta, estava uno com o R7 do Hel, que carro maravilhoso, e pisei ainda mais no acelerador, fazendo saltar o ponteiro para os 90, sem saber muito bem ao que ia, mas sabendo, ferpeitamente, que ia, oh se ia.

No final da recta, no último segundo, travei com a caixa e a desacelerar meti por um caminho de terra batida; foi aí que me senti verdadeiramente feliz: o R7 não me deixara ficar mal, chamem-lhe instinto, mesmo a tempo de não dar de frente com o carro na traseira deles, delicioso às minhas mãos e pés, O R7 havia-se desviado, galgado a estrada, subido um caminho de terra batida e, silencioso pela primeira vez desde que o conduzia, imobilizara-se, num descampado ladeado por pinheiros, de luzes apagadas, sem chiar.

Olhei, para os outros. Também tinham parado atrás da fila indiana. Curioso. Sai do carro, tranquei-o e fui-me aproximando. Lá à frente, imobilizado, em frente a uma árvore, estava o meu carro, o meu carro!, o R6, amolgado na porta de trás, luzes de caras na árvore em que não batera por milagre; estacionados na berma da curva da estrada, outros dois automóveis, haviam desligado as luzes e vi uma série de pessoas saírem das viaturas. Entretanto, rastejando, fui-me aproximando, fazia uma escuridão tramada mas eu quase que parecia ter olhos de infra-vermelhos. Topei os meus «amigos», que tinham parado o seu Miura na linha das outras duas viaturas e que riam, sardonicamente. Por um buraco entre as nuvens, vi a cara do minorca; estampada, carregando consigo um sorriso cruel.

De súbito, julguei reconhecer o Hel e a ruiva. Esfreguei os olhos, não era possível! Ouvi vozes, outra vez o som metálico, deste feita cruel, da voz do «tubarão». Hmmm. No ar, a maresia cheirava de modo estranho, não combinava com o resto, não combinava com nada; cheirava, cheirava a mentol.

Ariel - Capítulo XIII

Sentei-me ao volante do R6, recostei-me no assento, confortável, quente, e regozijei-me com a peculiar sensação que estar ao volante de um carro novinho em folha transmite. Anichei-me e observei o ambiente; à minha volta, tudo brilhava em lampejos reluzentes e a galáxia de botões luminosos, tremeluzindo como estrelas e cujo desígnio não compreendia, confundia-me, quase me ofuscando. Lancei um olhar fugaz para o banco de trás, para o achado da noite, pelo espelho retrovisor. Ela lá estava, sentada direita, a perna cruzada, e com um ar aborrecido, preocupado, não sei, era difícil ler-lhe as linhas do rosto, porém, ao mesmo tempo, absorta nos seus próprios pensamentos. Também, não me interessava por aí além o que poderia ocupar a cabecinha ruiva dela. Eu próprio tinha mais em que pensar: tinha de começar a aterrar, a enxaguar a cabeça da poça de álcool que me ensopava o cérebro, e levar o R6 a bom porto; havia ainda o Lúcio, atravancado no cockpit do R7, que expelia mais fumo do que um dragão, e começava a perguntar-me se fizera bem em trocar de chaves com ele, amolecido pelo conforto rotineiro do R6; finalmente, havia ainda a mulher (como se chamava mesmo...?), enrolando o cabelo em pequenos anéis, insondável, as minhas intenções (e, sem dúvida, as do Lúcio) claras como água, se bem que as dela, pensava, permaneciam um mistério. Não se estaria a arriscar demasiado ao fazer-se à estrada com dois tipos que nunca vira mais gordos, noite dentro, mesmo com o isco do dinheiro com que Lúcio a aliciara? Lancei novo olhar lá para trás, uma garota do calibre dela certamente não teria problemas em arranjar homens que lhe pagassem bem mais sem a levarem para tão longe. Por mais que desse a volta ao miolo, não conseguia descortinar o que no Lúcio e em mim lhe inspirara tanta confiança. Poderia a noite dela estar a correr assim tão mal…? «E daí, pode ser da crise…» «Disseste alguma coisa?» Inadvertidamente, os meus lábios tinham proferido o que me passava pela mente, mexendo-se sem que eu desse por isso. Rouquejei um não, «estava só a pensar alto»; observou-me como se eu não jogasse com o baralho todo. Deixando de ruminar as minhas interrogações, decidi que era hora de colar a atenção na estrada que me preparava para enfrentar. «Como é, vamos?», ouvi a voz do Lúcio, questionando-me com o rosto quando podia pisar o pedal. Ao meu lado, lá fora, o R7 tossia e rangia, desde o eixo até ao encaixe do isqueiro; será uma sorte… «se a polícia não nos mandar parar», a ruiva materializou os meus pensamentos. Concordei em silêncio. Nutrindo um afecto quase paternal pelo R7, olhei para o meu velho companheiro de tantas alegrias e infortúnios e conclui que deveria ter gasto a maior parte do dinheiro da bolsa, que estava prestes a perder, a pô-lo nos trinques. Pensando bem, custava-me admitir, mas a jogada mais acertada seria desfazer-me da velha lata e arranjar um novo. Novo, que é como quem diz… novo, para mim. A bolsa não era má de todo, mas daí a dar para uma bomba como o R6. Alas!, o meu espírito consumista levara a melhor de mim e acabara por esbanjar dinheiro em trivialidades.

Tentei colocar os pensamentos em ordem, cada um no seu compartimento, e a injecção de adrenalina que o meu corpo me administrou, por estar agora a preparar-me para me fazer à estrada, ainda por cima num carro que não era meu, ainda por cima num carro que não podia lixar, ainda por cima o carro novo do Lúcio, prenda do papá, tratou de simplificar o processo, embora não o resolvesse na totalidade, deixando-me, no máximo, sébrio. Arranjei os espelhos, reparei que o Lúcio tinha pendurado um pequeno enfeite esponjoso em forma de Merry Christmas no retrovisor, sorri e olhei para o rosto dele, que denotava uma certa ansiedade, «Feliz Natal para ti também!», desejei, com um sorriso rasgado, pus o pisca e pisei o acelerador com jeitinho, arrancando lenta, suavemente, não sem uma réstia de apreensão. Atrás de mim, o R7 arrastava-se, tonitruante, pesado, sobre o asfalto negro e duro, frio da chuva de Dezembro. O R6 deslizava com firmeza e elegância inigualáveis pela A5, rumo a Cascais. Era uma autêntica Enterprise do alcatrão! Mesmo sabendo que não era carro para me deixar na mão caso surgisse algum aperto, ia atrás do volante apertando-o com os dedos, a conduzir com uma atenção redobrada, mas inflacionada pelo álcool, quando senti uma mão cair, num toque suave e delicado, no ombro. «Pareces nervoso, querido, não gostas de conduzir?» Desceu a mão pelo meu peito e retirou-a, com um risinho infantil. Era a primeira vez que ouvia a voz dela sem ser no bar, entre o delírio do álcool e a promessa de dinheiro e diversão, sussurrando-me ao ouvido, mais aliciante do que antes. Os meus músculos contraíram-se ao toque da mão e da voz dela. Ela sentia-o e jogava com isso. Titubeei que não era nada disso, que tentava apenas concentrar-me no caminho e evitar surpresas, sem encontrar resposta mais original. Tentei acomodar-me melhor no assento e suspirei, sentia os nervos à flor da pele. «Pois, estou a ver», retorquiu, átona, não sei se com ironia, se com compreensão sincera. Olhei pelo retrovisor para tentar captar a emoção que tão bem ocultava com a voz e os nossos olhos cruzaram-se no reflexo. No escuro do banco de trás, percebi que sorria, mas era um sorriso imperscrutável, que não reflectia o que lhe ia pela cabeça, não da forma como o retrovisor me devolvia o verde dos olhos dela, que encobriu rapidamente com um lento cerrar de pálpebras, enclausurando-se numa estranha compenetração.

Continuámos a viagem, eu e ela calados, e comecei a sentir-me incomodado pelo silêncio pesado que preenchia todo o espaço do carro, espraiando-se até aos recantos mais inacessíveis. Resolvi ligar o rádio e pressionei o botão: o ar condicionado começou a gelar ainda mais o ambiente, desliguei-o e carreguei noutra luzinha que, dessa feita, ligou os estofos, desliguei-os, quando, sem aviso, a mão branca dela cortou o ar e, com um dedo seguro e certeiro, ligou o rádio, «é este, tonto!», com o corpo chegado à frente, entre os bancos, a face dela agora colada à minha. Apanhado de surpresa, deixei o volante fugir, mas recuperei o controlo com destreza, sem evitar que os pneus deixassem escapar um silvo perfurante. Olhei pelo retrovisor para me certificar de que o Lúcio ainda aí vinha: os faróis do carro de trás continuavam fixos em nós, projectando uma luz inquisitiva. Bateu ao de leve na buzina e pus o braço de fora, fazendo-o entender que estava bem, que não tinha sido nada. Ela voltou a aproximar-se, suave, envolvente, e senti os lábios roçar-me a orelha em movimentos lentos: «sabes, não tens de estar tão tenso, eu não mordo». Cabra, tratava-me como a um joguete! Recriminei-me pelo meu comportamento imberbe. Parecia aqueles cães que correm atrás das bicicletas: agora que por fim tinha apanhado uma, não sabia o que fazer com ela, mas ela parecia saber bem o que fazer comigo, bem de mais. «Não sou bem o que esperavas, é?» A pergunta dela quebrou o silêncio cujo único oponente era o rumorejar das vozes do rádio (sr. Ministro, que tem a dizer quanto aos rumores sobre a existência de uma fuga de informação na Polícia Judiciária?), mas percebi que era mais uma provocação, que não esperava obter uma resposta. «Deu para perceber, no bar, que não estás habituado a lidar com putas», desferiu, sem perder tempo, cortante. Percebi que estava com vontade de se divertir às minhas custas e talvez achasse que eu seria um alvo mais fácil do que o Lúcio, só que eu não estava para aí virado e decidi cortar-lhe as asas, antes que decidisse voar muito alto. «Tens razão, não estou», respondi num traquejo mecânico, recuperando o sangue frio, «mas não sei até que ponto és puta», respondi, fingindo-me convicto do que afirmava, e rematei, «afinal, até para mim, tão inexperiente, é óbvio que não andas nestas lides assim há tanto tempo quanto isso». Podia estar redondamente enganado, mas os seus olhos muito abertos para o retrovisor, permitindo que o verde transbordasse para o meu olhar, indicaram-me que comprara o meu bluff. Parecia espantada com o comentário, mas logo fechou o rosto numa expressão inescrutável (Posso garantir-lhe que não existe qualquer fuga de informação!). Depois de lhe conceder uns segundos de silêncio, voltei a atacar: «Não te pareces encaixar». Não argumentou. «Nem com o bar, nem com a tua roupa, dás a sensação de que estás tão habituada como eu a lidar com putas», terminei, tentando encurralá-la e provar que teria de fazer melhor se queria encostar-me às cordas. Contudo, logo deu a volta à situação, «Sabes, não sei se essa é a conversa certa para me levares para a cama». Ri com agrado e surpresa face à prontidão da resposta dela, que não vinha sem uma pitada de humor ácido. Ela também ria. Mirei-a pelo retrovisor e percebi que estava perdida de bêbeda, talvez até demasiado. «Foi por isso que gostei de ti, porque não me trataste à cabeça como uma puta, como o teu amigo», declarou, do nada, muito séria de repente, mudando de assunto. «Percebo…», retorqui, secamente. Era uma mulher estranha, parecia não ter pruridos em falar de si como puta, mas revelava-se ofendida pela forma como o Lúcio a tratara. Não percebia onde queria ela chegar com toda aquela conversa, nem o que esperava obter com aquelas atitudes extremas, ora de provocação, ora de sensibilidade. Numa nova investida, voltou a soerguer-se do banco de trás e a colar o rosto ao meu. Preparando-me para o que aí vinha, se bem que curioso, espiei-a pelo rabo do olho, enquanto me voltava a falar ao ouvido. «Achas que a tua namorada vai gostar de saber que andas com mulheres como eu no banco de trás?» A pele do pescoço vibrou num arrepio que se propagou pelo resto do corpo ao sentir o calor da voz; o perfume doce insinuava-se pelas narinas, acentuando o delírio alcoólico em que me encontrava. Relampejou-me pela cabeça a ideia de despistar o Lúcio e fugir com ela no R6, mas… mas sabia que era o álcool a falar e, para todos os efeitos, devia-lhe amizade… Além do mais, não tinha um chavo no bolso para obter serviços daquela natureza. Virei o pescoço para encará-la de frente. «Bem, no que me diz respeito, ainda não aconteceu nada merecedor de reprovação, pois não?», repliquei no mesmo tom cáustico que ela empregara. Os nossos rostos estavam quase colados um no outro e mergulhei nas profundezas daquele verde que me atraía para um poço sem fundo, para o qual ia voluntariamente, sem desejo de resistir. Ela envolvia-me num olhar de lábios imóveis, lábios que pressentia suaves e dos quais me aproximava, milímetro a milímetro, quase sem dar por isso. Os meus lábios roçaram os dela e então… «Hel?... é melhor voltares a pôr os olhos na estrada». Voltei a mim e ouvi o som característico dos pneus a pisar a berma da auto-estrada. Quebrando o encanto, voltei à tarefa de conduzir. Mais um pouco e teria de explicar ao Lúcio porque motivo tinha lançado o seu precioso R6 contra os rails. Divertida com tudo aquilo, deu um salto para trás e deixou-se cair no banco.

No rádio, o ministro continuava a esquivar-se dos disparos da jornalista. Percebendo que estas brincadeiras ainda me iam custar cara a noite, tentei prestar atenção ao que estava a ser debitado e deixar de lado o tête-à-tête com ela (Não passam de comentários infundados, uma campanha suja contra o Governo, que será desmascarada e os seus perpetradores castigados!). «Ena, o ministro está deveras entusiasmado!» Notícias sobre tráfico de armas, drogas, influências entre membros da PJ e perigosos criminosos internacionais eram tudo o que se ouvia e entupiam a rádio, os jornais e, como era já costumeiro, a televisão tratara de tornar o assunto numa autêntica novela, que as pessoas seguiam religiosamente, pelo menos até aparecer uma polémica nova e mais sumarenta. Mais um pouco e descobria-se que até andavam a traficar Sumol, «não achas?», interpelei-a. Apesar de ser notório o seu ar de enfado, disparou e disse que o meu amigo parecia ser um gajo cheio de dinheiro, «as roupas, o carro… Se calhar, anda metido nisso do tráfico». Explodi numa gargalhada e garanti-lhe que não, a limpar com o polegar as lágrimas dos olhos, que me turvavam o caminho, que o Lúcio não era da PJ, se isso a preocupava, muito menos era ministro. Ainda a rir e a lacrimejar, olhei directamente para ela que, apesar de ter dito aquilo em tom sério, permitiu que no rosto se desenhasse um sorriso descontraído, decorado por dentes brancos e perfeitos. «Por que não a convidaste?», perguntou, com ar inocente. A minha expressão modificou-se numa interrogação. «A tua namorada!, seria muito mais divertido a quatro!» Mirei-a com frieza e com ar inquisitivo, mau, qual é a dela?, mas acusei a estocada e forcei os lábios, que resistiam, a formar um sorriso. Riu com vontade e no seu riso transparecia a quantidade de álcool que ingerira. Juntei-me à festa, já pouco me importando com os comentários dela. No seu delírio, parecia empenhada em provocar-me e eu, que até era bom desportista, deixei-me levar na onda. «Hm, não sei se esta será a ideia dela de um tempo bem passado», concedi, divertido. Perguntei-lhe o nome, lembrando-me de que ela ainda não o tinha revelado ou, se o tinha, já não me lembrava. «E porque queres saber como me chamo? O mais provável é que, amanhã, não te lembres». Não pude evitar um sorriso condescendente. O mais provável é que tivesse razão, «mas, pelo menos, saberei como te tratar durante o resto da noite». «E tu? Porquê Hel?» «E porque não?»

Atrás de mim, o Lúcio fazia sinais de luzes e tinha a cabeça e o braço de fora, «Ó, Hel!», gesticulando e apontando. Parecia querer parar na estação de serviço que se aproximava. O meu pisca intermitente informou-o de que percebia a sua intenção. Acalmou-se e voltou para dentro do carro. O meu amigo tinha bebido imenso, bagaço, vinho tinto, aguardente velha e eu sei lá que mais. Comecei a recear que a noite fosse durar menos do que antecipara. Entrei na estação de serviço e estacionei. Para trás, ficara o 23 e no fim da estrada, em minha casa, para ser exacto, estava a promessa de uma noite, no mínimo, interessante. Pensando melhor, essa promessa encontrava-se no banco de trás do R6. Outra vez aquela ideia de fazer o Lúcio morder o pó do R6 e desaparecer com ela faiscou no meu cérebro… E tão depressa resisti e pus de lado a ideia. Já não esperando que o partilhasse, por fim, revelou-me o nome: «Ariel».

Capítulo XIV

Deitado numa poça de lama, fechei e abri os olhos a confirmar se não fora vítima de um pós-choque alcoólico e se não estaria a sonhar vestido e de sapatos calçados, na cama, coisa que se tinha vindo a tornar mais frequente nos últimos tempos, mas não, parecia mesmo que aqueles dois, cercados pelos outros, eram o Hel e a Ariel.

Não podia ter a certeza, mas algo nos gestos deles me fazia intuir isso mesmo. Estavam rodeados por uma série de pessoas, e não parecia que a coisa estivesse a correr de feição; não, não parecia que se tratasse dum encontro casual de velhos e bons amigos, pelo contrário, apesar do orvalho da noite não permitir ver muito, quase que sentia a tensão distender-se do Hel e da Ariel, passando pelos outros, aterrando direitinha na minha poça de lama, em particular.

Arrastando-me, de coração aos pulos, fui-me aproximando, tentando não fazer ruído algum, sustendo, até, a respiração. De súbito, uma voz que reconhecia, de bares inusitados e não só, silvou no ar, metálica, maldosa, mesquinha: «Chefe, podemos só dar-lhe uns tabefes, para o aclimatar à nossa presença?»

Quem assim escarrava era o tipo que eu conhecia por «tubarão» e o homem que ele pretendia «aclimatar» não era outro que não o meu bom amigo Hel, que previa já completamente fodido. Cerrei os dentes na boca e as unhas dos dedos nas palmas das mãos; se eles não fossem tantos, se eu não tivesse deixado a Glock na bagageira do R6, logo aquele bastardo filho dum grande comboio de megalodons veria o que era bom para o «clima», ó se veria, o grande pulha: extingui-lo-ia para junto dos seus irmãos mandibulares em menos dum fósforo, ou melhor, em menos tempo do que leva um asteróide a embater na terra. Ao lado do «tubarão», o baixote, o «minorca», também o reconhecia, só pela sombra, avançava, reptilário, untuoso, ameaçadoramente. O Hel recuava, protegendo com o corpo a Ariel, mas era por demais evidente que a partida estava perdida, não tinham para onde fugir; mais atrás, o homem a quem o «tubarão» se dirigira abraçava uma mulher, só podia ser uma mulher e, quando a Lua, momentaneamente descoberta, iluminou a cena, topei que conhecia a gaja: era a puta da Telma, a vaca-loira do 23 que nos seguira e que poucas horas antes me declarara, chorando, um amor eterno, absoluto! Puta de merda, estava feita com aqueles suínos, só podia, a grande meretriz.

Abafei um grito e aproximei-me, colado ao solo, mantendo uma certa calma, era necessário. O gajo que parecia dirigir as operações – por um instante – fez-se de alarmado, mas lá descontraiu, cuspiu e sacou um cigarro do bolso. Usava um chapéu, um panamá, o traste, um panamá, de noite. Deixei-me ficar, todo mansinho, todo gato pardo, observando e sustendo a respiração.

Então, o homem que abraçava Telma acendeu o cigarro lá se descoseu para o «tubarão», indulgente: «Hmm, bom, vá, está bem, agora que o vento corre de feição e que tudo se vai resolver, pode ser, divirtam-se… Mas» - cuspiu, feroz - «Não se deixem levar, quero-o vivo e em condições de falar! Isto vale sobretudo para ti, ouviste, Tubarão?» O «megalodon» ouvira, por certo que ouvira, em dois passos estava junto do Hel e esbofeteava o meu amigo, uma, duas vezes, gargantuesco, com as costas da mão. Ariel gritou, mas de nada valia, já o «minorca» se ocupava dela, puxando-a para trás, para o chefe, aproveitando para lhe meter uma mão debaixo da saia.

Tudo aquilo me enraivecia só que não podia fazer nada, a minha impotência resvalava-me pela cara, um misto de lama e de lágrimas, não podia fazer nada! Ariel foi empurrada para dentro do R6 pela Telma, que gargalhava, acintosamente. O homem das ordens, que também ele me parecia estranhamente familiar, bracejou para o minorca que se colocasse ao volante do meu carro. Só de pensar naquele patife gorduroso ao volante do R6 ferveu-se-me o sangue e quase que deitava tudo a perder. Contive-me à justa, a realidade abatera-se sob a forma do upper-cut, com que, entretanto, o «tubarão», impecável no gancho, fizera o Hel voar, em slow motion: quando a cabeça dele bateu no chão gelei que nem o planeta Kripton e, sem saber bem porquê, empurrei-me ainda mais na lama, de cabeça, pensado que o Hel não iria ter um despertar agradável e que eu, quase de certeza, se fizesse um gesto que fosse, não teria melhor sorte.

Por fim, empapado, ressacado, porco, ergui o rosto, pus-me à espreita: o «tubarão» pegara no Hel como se manejasse um saco de batatas e fora depositá-lo no banco de trás do carro branco. Olhou para o outro tipo, o alto, o esbelto, o do panamá, o chefe, interrogativamente: «E?..», questionou. Os seus dentes patibulares brilhavam ao luar e os seus olhos então nem saber. O outro meco, indubitavelmente quem mandava, replicou-lhe, numa cadência expositivo-imperativa, de modo a que não restassem dúvidas a nenhuns dos presentes: «Toda a gente atrás do Alfa!, «tubarão», tu, no Miura, pode aparecer alguém, vamos, já perdemos demasiado tempo!..»

Eles despachavam-se, conhecedores das ordens, agora muito mais rapidamente, estava na hora de me pôr também a mexer. Pelo canto do olho observei a cena, o «tubarão» a escapulir-se para o Miura Branco; mais à frente, o que dava as ordens, abrindo a porta do Alfa; o «minorca», a Telma e Ariel no meu R6, que haviam sacado do baldio para onde o Hel o tinha afocinhado, o pobre do animal.

Ligaram os motores e pareciam intentos em fazer inversão de marcha. Era tempo, tinha de me despachar. Furtivamente, como um caranguejo, ou como um dos crustáceos aparentados que caminham de revés, rasteiro, fui-me afastando, regredindo silenciosamente para o R7.

Era tempo, sem dúvida que o era, vi-me livre do grosso da lama, abri a porta do carro, sentei-me ao volante, dei à chave, com medo de que não pegasse, e já eles, na estrada, passavam por mim, imoderadamente velozes. Pigarreei, lá encontrei a ignição, dei à chave uma terceira vez, pegou, mirei o espelho retrovisor, fiz o jogo de caixa - marcha atrás -, recuei, rodei o volante, liguei os mínimos, embraiei a primeira e arranquei, a alta rotação.

Levam-me uns duzentos metros de avanço, a sorte é que não iam muito depressa, pelo que, sacudindo lama dos cabelos, deixei-me ir, igualmente, só com os mínimos ligados, procurando não dar nas vistas. Em que história me viera embrulhar! Que raio se poderia estar a passar? Bom deus, não percebera nada daquilo. Que diabo fariam os melros e a prostituta do 23 neste folhetim sem pés nem cabeça? E o outro tipo, o das ordens, conhecia o gajo de algum lado, só não sabia era de onde. Em que merda me viera enfiar desta vez? Enfim, retrocedíamos, passávamos outra vez pela praia do Abano e metíamos de novo para Birre. Iriam os gajos para casa do Hel? Caralho! Que merda ter deixado o telefone e a Glock na bagageira do R6! Tudo seria mais fácil se tivesse o telefone à mão de semear, já não falando da arma.

Passámos pela casa do Hel e não pararam, seguiram para a rotunda de Birre e meteram pelo IC 15, que dava para a A5. Fixe, ponderei, iam para Lisboa, só podia ser isso, na volta iam de regresso ao 23 e, se assim fosse, de lá poderia facilmente encontrar um telefone e denunciar o caso, ou bem que ao meu velhote, ou bem que à polícia ou ainda a um dos meus “contactos” musculados.

Porreiro, era só manter a calma e segui-los, tranquilamente. Aumentaram a velocidade, 110, 120, 130, 140. Uma luzinha laranja acendeu-se no painel de instrumentos do R7. Aquela luz conhecia-a bem d e outros chaços, era a luz da Gasolina, estava na reserva.

Aproveitei uma descida para ganhar balanço e desengatar e a luz apagou-se; não havia problemas, mal entrara na reserva do R7, reflecti, tinha no mínimo para 80 quilómetros, apenas era necessário acalmar-me. Firme, de olhos fixos na traseira do R6, procurei o botão e liguei o rádio. Uma explosão de som invadiu a carlinga da viatura: «Get it on, bang a gong! Get it on, bang a gong!», T-Rex, a uma hora daquelas, no rádio? Revigorado pela magia dum som absolutamente inesperado às quatro da manhã preguei a fundo atrás deles, fazendo saltar o ponteiro da velocidade, também eu, para os cento e quarenta, cento e cinquenta, não me escapariam, de certeza que não, era só uma questão de me ver com a Glock nas unhas e logo teríamos pano para mais do que uma amena cavaqueira, ó se teríamos.

Então, na saída de Alcabideche, reduziram a marcha e ligaram os respectivos piscas, abandonando a auto-estrada. Eu, como não tinha piscas, limitei-me a reduzir ainda mais e, sempre de mínimos, mantive-me na cola deles. Lá iam, lá iam, mais devagar agora, eu sempre a olhar para o mostrador da gasosa, eles lá à frente, a uns sessenta, setenta, no máximo.

Entráramos na Nacional 9 e um pesado impedia-os de irem mais depressa, pelo que aproveitei para meter a quinta e levantar o pé. Aquela estrada conhecia-a bem, de outros «passeios», era sinuosa, tinha uma série de curvas complicadas de negociar, e reduzi, de novo, tentando manter pelo menos uns 100 metros entre mim e a traseira do R6.

Passámos pelo Hospital do Alcoitão, que desde o séc. XVI tinha como principais objectivos a reabilitação de «diminuídos físicos com incapacidade motora»; ao fundo da recta que bordejava o referido todos os três carros à minha frente se lançaram, numa ultrapassagem doida do camião que os procedia. Engatei a terceira e carreguei outra vez a fundo, sempre atrás deles. A continuarmos assim, com manobras disparatadas destas, em caso de acidente, pelo menos tínhamos a vantagem de estarmos perto do Alcoitão; era para ali que iam muitos gajos vítimas de acidentes rodoviários. Sim, muitos tipos acabavam a «reabilitar» as pernas, os braços e outras partes vitais no Alcoitão, embora, na maior parte das vezes sem grande sucesso.

Tive de engatar a segunda para completar a ultrapassagem, um bacano que vinha em sentido contrário deu-me máximos e travou a fundo, chiando, mas lá logrei meter para a faixa da direita, in extremis. Os outros já se distanciavam, galgando a recta, muito depressa, até parecia que levavam fogo no rabo, ou isso ou alguém estava cheio de tesão, só podia, casquinei para comigo próprio.

Meti a quarta, liguei os médios. O assunto estava a tornar-se perigoso, já levávamos uns bons vinte quilómetros desde que a luz da reserva se fizera notar pela primeira vez, para onde iriam eles? Para Lisboa não era de certeza, reflecti amargamente, essa opção estava fora do baralho, seria para Sintra? A 120 passei a abrir pelo autódromo Fernanda Pires da Silva.

No rádio, Bowie e «Gasoline» haviam substituído T Rex e «Get it on»; consciente da ironia da situação e vendo que os outros não davam mostras de abrandar, calquei o acelerador, fazendo disparar o carburador duplo do R7. Não, assim não iria longe, mas que se fodesse. Enquanto houvesse gota, segui-los-ia, em ficando apeado, confiaria na sorte, faria o melhor que pudesse, improvisaria, convinha que se fosse «pragmático», como diria o ministro dos Internos.

Essa lembrança fez-me doer a cabeça e não voltei a pensar no assunto, sabia que, no mínimo, o R7 tinha combustível que dava e sobrava para chegar a Sintra, talvez até desse para chegar mais longe e, se não fosse esse o caso, logo se veria. Não me apetecia tomar decisões extemporâneas, ao diabo ao Ministério, estava mergulhado num caldo quente demais para pensar em trabalho. E nos documentos, já agora, que viajavam lá à frente.

Desliguei o rádio. Sentira-me tonto e conduzira demasiado depressa. No silêncio da noite, desengatei e deixei-me rolar, felizmente, não me aproximara em demasia da traseira do R6. Eles não me haviam topado, estava confiante disso, e lá fomos, em velocidade de cruzeiro, dando-lhes os costumeiros 100 metros de avanço, para alguma coisa havia de servir o curso de condução defensiva que a DGV me havia patrocinado.

«Get it on, bang a gong», trauteei, sorrindo, relembrando de quando ouvira aquela música pela primeira vez. Fora quando levara a Angélica, a minha namorada «oficial» ao cinema, tínhamos ido ver «Jar Head», um filme sobre magalas americanos e sobre o atoleiro que sempre são as guerras, fora nesse cinema e no decorrer desse filme que a beijara pela primeira vez.

Era tão boa a Angélica, de facto boa, em vários sentidos, muito melhor do que todas aquelas putas a quem actualmente me batia, reflecti a contragosto, antes de abrir o vidro da janela e de escarrar, tentando de algum modo consolar-me do facto de ela me ter posto os cornos e de - por cima - me ter enviado um vídeo porn amador em que era fodida à canzana pelo tipo com quem me colocara os palitos. Sim, a Angélica sempre tivera um sentido de humor muito peculiar mas, para o caso, isso não interessava nada; talvez que, se conseguisse safar-me desta situação imbecil em que me vira envolvido - se - e era um enorme se, talvez que lhe telefonasse, talvez que fizesse as pazes com ela, assinasse um armistício final, a beijasse, a sentisse nos meus braços, os nossos cheiros misturados, corpo a corpo, afago a afago e, finalmente…

«Bobagem», vociferei em voz alta, regressando àquilo que realmente importava: a carlinga do R7, a manete das mudanças, o indicador da gasolina, os pedais, um de cada vez, mais a embraiagem; a porra dos documentos, o telemóvel e a Glock, no R6, que seguia, ligeiro, com uma ruiva assustada, por certo, no banco de trás, à minha frente. Num carro que, por estúpido que pudesse parecer a posteriori, era um automóvel que me pertencia.

«Bobagem», murmurei, pouco ou nada convencido do que repetia a mim próprio; enquanto tratava dos meus assuntos egoístas, particulares, Ariel e o Hel podiam estar, se não o estavam mesmo, em risco de vida. Acalmei-me, tentei concentrar-me na condução, tentei concentrar-me nela, no desdém com que me tratara. Que gata, que gata.

A viagem prosseguia, agora mais devagar, se fosse de dia, quase que teria curtido de largo a paisagem, a bem dizer, estava habituado a isso. Como era de noite, tinha de concentrar-me e deixar-me de brasileirismos. «Bobagem», casquinei entre dentes e voltei a escarrar para noite.

Ao fundo duma recta, do lado direito, entrevi um muro alto, sinistro, encimado por rolos de arame farpado . Que sítio. A abrir, passei por uma placa garrafal onde se podia ler, só para o caso de engano, «Estabelecimento Prisional do Linhó». Sacudiram-se-me todos os nervos e afastaram-se de mim quaisquer vestígios da garrafa de Marques de Rioja com a qual me banhara em casa do Hel.

Involuntariamente, firmei-me no volante e vi ao longo daquele muro, que nunca mais acabava, a vida correr sobre mim num flash-back de arame farpado após arame farpado. Quais fios de arame com que se prendia a minha, aqueles outros, os do Linhó, carcereiros de tantas outras existências, pareciam sorrir-me, cinicamente.


Conhecia um gajo que estivera recluso ali. Aquela prisão não era das boas. Ultimamente, no Ministério, corria à boca fechada que dois «suicídios», noticiados nos jornais, afinal, não passavam de dois «homicídios», mais ou menos tenebrosos, mais ou menos asquerosos. «Bobagem», pensei.

O Olívio, o gajo que eu conhecia e que estivera «dentro» no Linhó, seguramente, teria uma palavra ou duas a dizer sobre o assunto. Sorri. O Olívio era um tipo muito interessante. Cigano, amigo do meu velhote, sob cujo comando fizera a guerra em África. Sim, o José Francisco Olívio, esse sim era um gajo que me daria muito jeito num aperto destes. Na volta, assim que estivesse perto dum telefone, seria a ele a quem ligaria primeiro; o Olívio era gajo para me tirar daquela situação e até homem para me agradecer a «oportunidade» de limpar o sebo ao «megalodon» do 23. Sim, era caso para tanto, estava ao corrente de que, quer o Olívio, quer o «tubarão», não só não eram flores que se cheirassem como não morriam de amores um pelo outro, literalmente.

Bem, reflecti, logo se veria, a procissão de viaturas à minha frente parecia de facto dirigir-se para Sintra, era caso para relaxar e ligar de novo os mínimos, não fosse dar-se a asneira de estarem alerta. A luz laranja no painel de instrumentos agora fazia-se permanente, o carburador duplo do R7, provavelmente, estaria na origem desse facto.

Seria bom que chegássemos ao destino, tão breve quanto fosse possível, ao covil dos que me haviam roubado o carro e o amigo, de preferência, perto duma cabine telefónica. Só por causa das moscas e do Linhó. E da gaja, daquela mulher esbelta e ruiva que nos havia driblado; queria comê-la, queria resolver o caso todo, fazer dela minha mulher e queria, claro, que ela fizesse de mim seu homem.

Ariel - Capítulo XV

As pálpebras subiam com invulgar lentidão, como se estivessem perras, à medida que as gotas caíam uma à uma em cima da minha testa e escorriam pelo rosto, como finas agulhas frias que se espetavam na carne. Arrastei um braço e toquei na cara. Argh! Impelido pela dor, tirei a mão com um ímpeto repentino quando senti o inchaço. Desta vez, com mais cuidado, só com as pontas dos dedos, tacteei a cara que havia perdido os traços habituais, para se revelar, agora, uma massa disforme. O sobrolho inchado e macerado dificultava-me a visão; descendo pela linha do rosto, reprimi um gemido quando toquei no lábio aberto. Tentei recapitular a noite anterior, mas a minha mente recuava, horrorizada, fechando-me as portas e escondendo-se de mim, implorando que a deixasse em paz. Obriguei-me a romper a névoa dos meus pensamentos e recordações desordenados, desconexos e estilhaçados, fazendo um esforço para me lembrar. A cabeça atingia picos de dor lancinantes para logo cair numa estranha dormência tranquilizadora. «Hm...» … … Eu estou bem, Hel… estou bem. Sim… o Lúcio na minha cama, moribundo, abatido pelos excessos da noite. E se fôssemos no R6… Hel? A ruiva, acariciando-me a mão com os dedos longos, destilando o seu veneno melífluo, com promessas na voz ao pronunciar o meu nome, seduzindo-me, a cabra, aliciando-me a levar o R6 no nosso passeio nocturno. Subitamente, o ódio momentâneo que nutrira por ela naquele ponto da noite avolumou-se numa vaga que varreu a minha débil tentativa de raciocinar. Só que a culpa era minha, só minha, por me ter deixado levar por ela, por aqueles cabelos vermelhos e perfume doce, por aqueles olhos verdes e toque quente. Espera…! O R6, a estrada, as ondas a bater com violência nas rochas, aquele cheiro estranho a… a mentol, era isso!, Não te vamos matar, não te preocupes… não agora, não aqui, hahaha! Temos apenas alguns assuntos pendentes a resolver com a tua amiga, é tudo, a voz fria e trocista a ressoar contra as paredes do meu crânio, cortando a noite, ordenando que enfiassem Ariel no carro e que me tratassem da saúde. Quando acabei de montar o puzzle, o cérebro accionou-se num estalido e, como um projector, começou a passar o filme da noite anterior, a perseguição e o momento em que me despistei, por pouco obliterando-me contra a árvore. «Hm…», lembrei-me dos punhos a voar pelo tecido negro da noite e a esmagarem-se contra o meu rosto em baques horripilantes. Lembrei-me dos joelhos a colidirem com as minhas costelas e, por fim, aquele gancho do tal «Tubarão» que me fez ver tudo branco. Que esquerda terrível; se havia forma de saber o que se sente depois de um tanque nos passar a ferro, era aquilo: um uppercut dado por um tubarão. Embora não visse, escutara ainda o burburinho de vozes que não faziam sentido, havia dado conta quando me lançaram, como morto, no banco do carro, ouvira o bater de portas e, depois… o vazio negro da inconsciência.

Fiquei imóvel com os olhos fixos no tecto, sem a mínima vontade de mexer um tendão que fosse. A goteira não cessava e, embora desagradável ao início, era revigorante sentir a água fria lavar-me as feridas da cara e escorrer até desembocar nos lábios secos e gretados, pelos quais passei a língua, com cuidado para não tocar na ferida. Bebi algumas gotículas com sofreguidão, saboreando cada uma como se estivesse perdido no deserto há dias. Deixei-me estar, com o corpo dormente e rígido, sem saber se me doía ou o que me doía. Ainda esgotado pelos acontecimentos recentes, soltei um grunhido e comecei a semicerrar os olhos, devagar, só desejando enclausurar-me nos meus sonhos e esquecer tudo, mas abri-os com violência, contrariando os caprichos da mente, que teimava em querer apagar as luzes e ir dormir. Não, não podia fazer isso, tinha de saber onde estava, tinha de fazer alguma coisa, qualquer coisa, o que fosse. Por cima de mim, o tecto de madeira podre, carcomido pela humidade e pelas térmitas, dava licença à chuva, por entre as frestas, para se infiltrar. Já farto do banho, comecei a erguer-me, massajei as têmporas e gemi, sem saber se gemia da sova, se da ressaca, com os músculos atrofiados e os ossos a ranger e a estalar nas articulações. «Já acordaste!» Sentado em cima de um colchão velho e bafiento, com as molas a despontar pelo tecido roto, arrastei o pescoço em direcção à voz familiar. Tentei focar, mas só via uma figura alta e magra. Parecia uma mulher. «A…Ariel…?», indaguei, confuso, tentando filtrar o nevoeiro e regular a imagem que os olhos me transmitiam. A forma segurava uma cortina e espreitava por uma janela para o exterior. Escutei passos preocupados e assustados avançarem na minha direcção. Gradualmente, a imagem tornou-se mais nítida. Via-a, agora, ajoelhada à beira do colchão. «Hel? Estás bem?» Segurou-me a mão e passou a outra pela minha cara. Gritei quando todos os sensores de dor se activaram, dei um salto, como se o corpo tivesse sido electrocutado, e senti que todos os motores tinham voltado a ficar operacionais, como se só precisassem de alguém para ligar o interruptor. De repente, as pálpebras escancararam-se, a imagem ficou bem mais definida do que HD e os músculos foram infundidos com energia. Ela retirou a mão, sem esconder o sobressalto e a apreensão. «Estou, estou bem, mas não me toques, não na cara, parece que vai explodir de tão inchada… nem nas costelas, nas costelas também não, ai…», soltei uma pequena gargalhada que me fez entrar num ataque de tosse; o diafragma subia e descia, a caixa torácica contraía-se em impulsos rápidos e violentos; não era uma experiência que gostasse de repetir. Ela mexia as mãos em gestos desajeitados e hesitantes, como que me querendo ajudar, mas sem saber bem onde me tocar. Fiz-lhe sinal com a mão de que já estava a passar e observei-a em silêncio. Não era a mesma mulher da noite passada, segura, fria, confiante. Os olhos raiados de sangue revelaram-me que tinha estado a chorar. Segurava os braços com as mãos e estava pálida, desgrenhada; a maquilhagem escorrera-lhe pelas faces em lágrimas negras. Tinha uns arranhões na cara e os braços sarapintados por nódoas negras, mas, fora isso, parecia estar bem, pelo menos o corpo, que tremia de frio e talvez até de medo. Como se não desejasse enfrentar-me, fechou os olhos. Dei-lhe um momento e absorvi o ambiente em meu redor.


Não havia muito para ver. O quarto não passava de um quadrado minúsculo com paredes despidas e alguns objectos volumosos, que supus tratar-se de móveis, cobertos por lençóis rotos e amarelados. Como o tecto, também as paredes eram feitas de madeira apodrecida. Inspirei longamente e o fedor pesado do mofo e da humidade obrigou-me a reprimir os pulmões que se preparavam para iniciar um novo acesso de tosse. À direita do colchão, havia uma pequena janela rectangular. Desentorpeci as pernas e, apoiando-me no ombro dela, ergui o corpo, esticando a coluna, com resmungos de dor. Avancei uns passos cambaleantes até à janela e afastei a cortina velha e poeirenta. Nada. O sol estava prestes a romper, mas ainda era impossível distinguir cores, objectos, fosse o que fosse. Apenas conseguia perceber que estava num sítio elevado, talvez um segundo andar, e que o edifício devia estar embrenhado no mato, isolado, uma vez que as copas altas das árvores recortavam o céu e o horizonte. O vento corria num assobio furioso, fustigado pela chuva intensa de Dezembro, esmagando-se contra a janela como um aríete. Onde estamos? No momento em que pensei, a minha boca proferiu a questão em movimentos automáticos. Ela não respondeu. «Onde estamos?», atropelei-a com um esgar furioso, desejando poder culpá-la de tudo, atirar tudo para os ombros dela, num acesso de egoísmo, «maldita a hora em que te conheci!» Ela levantou-se, conformada com a situação, encaixando os golpes, fazendo um esforço perceptível para recuperar o sangue frio. «Vais dizer-me ond…!?» «Não sei!», explodiu e, inspirando fundo, mais calma, «não sei, está bem?... Não sei». Um sentimento de pena substituiu a raiva que sentia dela. No meio daquela enrascada, parecia tão perdida quanto eu. Contudo, a minha vontade continuava férrea em descobrir em que berbicacho me tinha metido. Calmo e controlado, coloquei um freio na voz, e perguntei-lhe quem eram aquelas bestas e o que queriam. «Não posso, desculpa, não me perguntes, não posso…», começou, fugindo à pergunta. Trilhei a distância que nos separava em duas passadas largas e apertei-lhe os braços. «Diz-me o que se passa! Quem são estes tipos? Quem és tu?» Cingi o aperto e agitei-a. Ela reprimia os gritos, «estás a magoar-me!», implorava que a libertasse. Aterrorizado pela minha atitude e com medo de fazer algo de que me pudesse ainda vir a arrepender, lancei-a para cima do colchão, recuei, ofegante, com o coração descompassado, e encostei-me à parede, deixando-me escorregar até cair sentado. Pus os braços sobre os joelhos e apoiei a testa.


Senti o corpo dela sentar-se ao meu lado. Pousou uma mão periclitante e trémula no meu ombro. Ergui o rosto. Ela tentava tranquilizar-me com um sorriso, mas os olhos não sorriam. Estavam vítreos das lágrimas negras. «Escuta, Hel», o silêncio prolongou-se, «eu sei quem nos trouxe para aqui». Observei-a em silêncio, dando-lhe permissão para continuar. «Sei do que estão atrás. Tu…», suprimiu um soluço, «Tu nem devias estar aqui, nada disto devia ter acontecido assim, correu tudo mal! Tudo mal!», encetara um monólogo delirante, reprovando-se pela situação em que nos encontrávamos. Dei-lhe tempo de se recompor. «Eu sei que tens muitas perguntas que queres ver respondidas, mas não te posso contar nada. É para teu bem, acredita no que te digo», assegurou-me com convicção. «Quanto menos souberes, melhor estarás. …Mesmo que te pusesse a par de tudo… isso, isso não mudaria nada», calou-se, num sussurro de desalento. Percebi que não ia conseguir arrancar nada dela, não sem violência e disso já tinha para o bife. Além disso, arrancar informações de pessoas à pancada não fazia bem o meu género. «Está bem, Ariel, está bem, não te vou perguntar o que se passa», concedi, com compreensão resignada. «Neste momento, não me ajudaria em nada. Sei que estás metida numa embrulhada qualquer e que fui apanhado no meio desta salgalhada. Quem é ele?, um namorado ciumento?», perguntei, escarninho. Fitou-me sem emoção. «Basta que saibas que é um tipo da pesada, muito perigoso e influente. Não é o tipo de homem com quem te queiras cruzar», revelou-me, sombria na voz e ainda mais no olhar. «Ok, ok, aceito a tua resposta», assenti, tranquilizando-a que não insistiria. «Se bem que agora é tarde, já nos cruzámos», rematei, mais amargo do que um limão. «Mas, e agora?», levantei-me, puxando-a para cima. «Temos de pensar numa forma de sair daqui!», tentava despertá-la do torpor. «É preciso fugir, de alguma forma, fugir, chegar à polícia, pedir ajuda!» Porém, no íntimo, sabia que o que dizia não fazia sentido. Se fosse assim tão fácil, ó, se fosse, já ali não estaria. «Em breve será dia, darão pela nossa falta. O Lúcio, sim, o Lúcio fará alguma coisa, vai contactar a polícia e…» «Não percebes?», cortou-me a palavra com um silvo, «estamos aqui presos, sem hipótese de fuga, isolados de tudo». Mirava-a, atónito, enquanto ela esbracejava e desabafava entre soluços que não havia nada que o meu amigo pudesse fazer. A minha única esperança era o Lúcio, mas como poderia ele descobrir-me se nem eu sabia onde e com quem me encontrava? A possibilidade de ela ter razão começava a ganhar uma forma assustadoramente real. Lutei contra a impotência que começava a aflorar. «Não tens um telemóvel, algum meio de contactar quem nos possa ajudar…?» Meneou a cabeça com desalento, «Esquece… Daqui a pouco, virão aqui para nos arrancar informações. Seremos torturados só pela piada, mesmo que já saibam tudo». O meu corpo gelou até ao tutano dos ossos ao som da palavra «tortura». Sentindo o desespero a tomar o controlo, esbaforido, lancei uma mão trémula à janela, numa tentativa de encontrar um meio de a abrir, tacteando a tranca. Puxando e empurrando, forçava com todas as minhas forças, mas não se movia um milímetro que fosse. Ofegante, lancei os olhos alucinados para a porta. «Esquece, está trancada. Achas que não tentei?», estourou, em frustração desolada. Levou as mãos à cara, deixou o corpo encostar-se ao meu e correu a minha cintura com os braços, «desculpa… não devia ter acontecido assim, não devia…» e começou a soluçar. Cingi-a nos braços com um aperto forte e passei-lhe a mão pelo cabelo. Tinha passado a noite a tentar aproximar-me dela e, agora, ali estava ela, nos meus braços; contudo, aquelas não eram de todo as circunstâncias que eu teria escolhido. Deixei-a chorar em silêncio, sem proferir um som, sem a consolar ou dizer que tudo acabaria bem. Também me deixei perder nos braços dela, com a hipótese de um desfecho horripilante cada vez mais premente. E assim ficámos, não sei se um segundo, se uma hora, abraçados num silêncio lúgubre.


De súbito, a porta começou a estalar e a abrir com um lamento de dobradiças, deixando assomar um rosto inquisitivo que nos espiava. Ariel libertou-se dos meus braços com violência, surpreendida, e virou-se para a porta. Quando viu o nariz proeminente farejar o ar e a mão grande e poderosa como a de um gorila escancarar a porta, «Que comovente!, hahahaha!», deu dois passos amedrontados para trás, escondendo-se atrás de mim. Fiquei petrificado, colado ao chão, tinha reconhecido aquela voz grave e ribombante. Chefe, podemos só dar-lhe uns tabefes, para o aclimatar à nossa presença? Com que então, aquele é que era o Tubarão. À luz parca da lâmpada, dava para perceber como conseguira o epíteto. Além de ser maciço, com uns dois metros de altura e quase outros dois de ombros, o tipo encarava-nos com olhinhos de marfim pequenos e redondos fixos no centro das órbitas, quase cobertos pelas espessas sobrancelhas loiras, e com uma expressão de malevolência irónica a acompanhar. Logo abaixo, as narinas sorviam grandes golfadas de ar, tão grandes que temia que esgotassem o oxigénio da pequena divisão. A mandíbula portentosa abria-se e fechava-se numa gargalhada cavernosa, deixando antever, por entre os lábios finos, quase inexistentes, duas fileiras de presas reluzentes e pontiagudas, fileiras que já tinha visto antes, à saída do bar, quando o Lúcio me telefonara a dizer que estava à porta do governo civil com um doce. Tinham sido aqueles dentes massivos que me haviam sorrido quando, para picar o Lúcio, o acusara de me ter levado a mulher, sacana, fugiste com o meu amor, fugiste com o amor da minha vida! Na altura, tinha sido um sorriso cúmplice, mas, agora, os dentes pareciam prontos a despedaçar-me, a arrancar-me os membros um por um, à medida que o maxilar abria e fechava, abria e fechava, ao mesmo tempo que jurava ouvi-lo ranger nas articulações, como um mecanismo mal oleado. Desviei a atenção para a ruiva e os nossos olhos cruzaram-se. Ela sabia bem no que eu estava a pensar e o mamute, ou tubarão, também. Parou de gargalhar como um demente, sacou dos óculos escuros, que colocou sobre o nariz de papagaio, assumiu uma postura direita, como se ainda fosse o guardião impreterível do 23, e vestiu uma expressão de mármore, desempenhando o papel de segurança. «Sou eu, sou! Já vi que te lembras», declarou, cáustico. Tirou os óculos e voltou a guardá-los. «Ainda bem que já estão acordados, meninos. Infelizmente, não temos pequeno-almoço, mas, para passar o tempo, está na hora de ter uma conversa com o chefe», sorria com visível satisfação perante as nossas expressões de confusão e medo, que ele farejava com aquelas ventas salientes. Apelei a todas as minhas forças para fazer ar de mau e perguntei-lhe, de chofre, o que é que queriam de nós. Só consegui arrancar-lhe mais riso e troça. Era a primeira vez que via um tubarão a rir. «Oh, tu tens sangue nas guelras, hahaha!» Resmunguei para mim mesmo que «o único que pode ter guelras aqui és tu». Parou de rir e dardejou-me com olhos assassinos. Nervoso, mexi desajeitadamente o corpo, pronto para encaixar, na medida do possível, uma investida. Pelos vistos, também ouvia tão bem como um tubarão. «Ah, que posso fazer, o nome colou!», gracejou. «Tu! Vem comigo!», regougou, seco e ríspido, apontando um dedo poderoso na nossa direcção. Num conflito de emoções, os meus instintos mais básicos ordenavam-me que me escondesse, nem que fosse debaixo do soalho, dentro de um armário, mas, ao mesmo tempo, tentava proteger Ariel com o corpo dorido. Vislumbrei o punho pesado como uma marreta e recordei-me da noite anterior, do que acontecera quando tinha tentado protegê-la. Num segundo, aqueles punhos de aço tinham-me posto a comer terra e a ser levado para o meio do nada num carro recheado de criminosos. No entanto, era demasiado escrupuloso para a usar como escudo, demasiado para o meu bem. «Ohohoh, queres protegê-la, outra vez?», chutou a pergunta com um misto de desdém e satisfação. Abriu e fechou as manápulas, estalando todos os ossos da mão. Parecia ansioso por libertar tensões acumuladas e, pela veia que pulsava na testa, era mais do que óbvio que o tipo nunca devia relaxar. Deu um passo que fez estremecer o soalho, reverberando pelas paredes, mais outro e mais outro, até se acercar de mim. Levantou uma das bigornas que lhe encimavam o pulso. Ergui os braços desajeitados e aguardei o golpe. Começou a rir e bateu-me com camaradagem no ombro. Desequilibrei-me com a surpresa da atitude e com a força da sua demonstração de fraternidade. «Vem cá!», rodeou-me os ombros com o braço pesado como um tronco; verguei-me sob o peso como uma vara. «Sabes, admiro gajos como tu, palavra, autênticos cavalheiros, sempre prontos a apanhar no focinho por causa das gajas», começou, numa ironia paternalista. «Mas, sabes?, tu não és um cavaleiro e ela, como já deves ter percebido, não é nenhuma princesa; aliás, é bem mais do que parece». Olhou para trás na direcção dela. «Desta vez, não precisas de protegê-la», aproximou-se do meu rosto e senti o cheiro denso e pesado do tabaco de merda que fumava, «sabes porquê?», sorria, quase amistoso. Parecia esperar, sinceramente, uma resposta. Como não a obtivesse, pegou-me pelo colarinho com uma mão e, com um rugido, projectou-me em direcção à entrada. Atravessei o portal e despenhei-me com um eco estrondoso. «Porque tu é que vens comigo, hahahaha!» «Deixa-o, Tubarão!», Ariel interveio, medrosa, mas também ela a tentar dar ares de durona. «Ele não tem nada que vos possa ser útil!». «Psht! Calou!», desferiu-lhe uma chapada com as costas da mão, o que a lançou para o colchão. Em pânico, olhei para dentro do quarto, ainda prostrado. Um golpe daqueles até podia matá-la. Contudo, dando provas de resistência, Ariel mexeu a cabeça e ergueu-se nos cotovelos. Exibia um corte profundo na face, desferido pelo anel que o brutamontes exibia na mão direita. Virou-lhe as costas e veio direito a mim. «Tu é que vens comigo!» Segurou-me pelos ombros e levantou-me, com os membros bamboleando como se fosse um boneco de trapos, colocando-me sobre os pés. Com uma mão nas costas, «Vamos! O chefe quer conhecer-te», empurrou-me para longe da porta. «Mexe-te, à minha frente!», cambaleei, esfregando o ombro, não sem ainda me voltar apenas para vislumbrar a porta fechar-se num lamento e bater com estrondo. Pegou num molho de chaves, trancou a porta e colocou-as dentro do bolso, dando-lhes uma pancadinha. Ariel tinha ficado para trás e, quanto a mim… ia conhecer o chefe.

Capítulo XVI

Quase de imediato desatei à gargalhada, era necessário não perder o sentido de humor, sim era necessário: eu e a Ariel? A Ariel e eu? Ahahah! E que tal ser salvo da enrascada em que me encontrava pelo Pai Natal?.. Sempre seria mais credível e, afinal, até estávamos na época dele dar as caras por essas chaminés demasiado esbeltas fora, gargalhei, efusivamente. Por fim, lá me controlei, limpei a baba dos lábios e assumi de novo uma expressão séria. O caso não era para graças, reflecti, os meus «amigos» continuavam o seu percurso para parte incerta, estava convencido de que seria para Sintra, mas não podia ter a certeza e, mais a mais, cada quilómetro que percorríamos reduzia as minhas opções de forma dramática. Maldição.

O que precisava era dum copo, estava outra vez a doer-me a cabeça, uma moinha que conhecia doutras madrugadas igualmente exasperantes; o pior é que tinha para comigo que a tendência não seria a de melhorar, provavelmente não. Um charro, um charro, só por causa das moscas, já se fumaria, ajudaria, deixar-me-ia mais alerta. Recordei que tinha precisamente o que precisava no bolso da camisa, uma broca que tinha feito há uma data de tempo, enrolara-a com a intenção de a partilhar com o Hel só que, dado tudo o que se passara, esquecera-me por completo. Levei a mão ao bolso da camisa e encontrei o meu cilindro. Estava amarrotado mas, não molhado, fixe, tinha uma broca, era fumá-la e serenar.

Entretanto, os outros seguiam mais devagar, mais calmos, já era tempo, moderei também a velocidade, acendi a ganza, dei duas longas passas (bom stuff, muito bom stuff), e pus-me a pensar. Desde que saíra da quinta do Hel atrás do «tubarão» e do «fuinha», os acontecimentos haviam-se desenrolado de forma completamente imprevista. A história não fazia sentido e dei mais dois longos tragos no meu «impulsionador da razão». Tossiquei. Por certo, recapitulei, estava na presença duma quadrilha, duma associação criminosa e, pelo menos parte dela, se não toda, tinha por base o 23, em Lisboa. Curioso, muito curioso. Dei mais uma passa de encher a caixa torácica até à glote, apaguei o charro no cinzeiro do R7, aguentei uns 30 segundos e lá exalei, quente, recuperado, pronto para nova reflexão.

«Eles», a Telma, o Megalodon, o Fuinha, eram todos do 23, mas não era para lá que se dirigiam. Curioso. Engatei a quinta e lá me deixei ir, suavemente, pela recta fora. O primeiro problema era a Telma. Porque nos seguira? Queria qualquer coisa de nós e, quando a surpreendera, fizera-se de novas, puxando pela carta da paixão. Hm.

O segundo problema eram o Tubarão e o Fuinha. Aqueles dois cromos não se enquadravam no puzzle, parecia estranho terem aparecido, vindos nem se sabia bem de que 31, sem mais. Tinha de pensar nesses dois, sempre me haviam tratado respeitosamente - até então-, mesmo o Fuinha, com o qual não trocara mais do que uma ou duas palavras de circunstância; a bem dizer, não conhecia nem um nem o outro, excepto do 23, onde nem sequer ia todas as noites.

O terceiro problema era o homem, aquele que dera as ordens e que seguia no alfa spider preto que liderava a caravana. Diabos, esse gajo da boquilha e do panamá não me era estranho, sabia que o conhecia de algum lado mas, de onde?

Havia ainda mais um problema: a ruiva, a Ariel, como é que ela se encaixaria no puzzle? Hm. Vendo-os apressarem-se, pisei também no acelerador. Na volta, não se encaixava, tinha sido um mero acaso, não deveria ter nada a ver, ou bem que os tipos tinham assunto comigo, ou bem que tinham assunto com o meu bom Benjamin, o Hel, só podia ser isso, a Ariel estava a levar por tabela, saíra-lhe a fava do bolo-rei, enfim, acontece aos melhores, mesmo no Natal, ou na véspera, bocejei, anotando que faltavam três dias para passar a noite com o velhote, caindo-me a cinza do charuto entre as pernas, escapulindo-se por entre o tecido das calças, aterrando-me no colo; era óbvio que me encontrava comovido.

De súbito, umas palavras que o «tubarão» proferira quando ele e o «fuinha» revistavam a casa do Hel saltaram-me à cabeça, ensurdecedoras: «Esse cabrão do Lúcio! Enganou-nos, deve ir também no carro, filho da puta!»

Pois era, fora isso que dissera aquele escroque e isso só poderia significar que o rapto do Hel e da Ariel não era o objectivo primário daqueles tratantes: era de mim que estavam à procura, o dito carro que o «tubarão» mencionara era o meu carro, o R6 que seguia na estrada - lá à frente! Senti um calafrio percorrer-me o corpo todo, estremeci e involuntariamente pisei ainda mais o acelerador. Respirando fundo, levantei o pé. Tinha a boca seca. Eles andavam atrás de mim e eu, dava agora fezada da cena, andava estúpida e literalmente atrás deles; mais idiota do que isso, não, não podia ser!

Mas, se era de mim que queriam batatinhas, talvez fosse melhor esquecer a perseguição e, ao invés, contactar as autoridades, logo que me fosse possível. Sim, era isso mesmo, quem queriam era a minha pessoa, o Hel e a Ariel não lhes interessavam para nada, por certo, assim que vissem que eles nada sabiam, os deixariam partir…

Por outro lado, estava quase sem gasosa, arriscava-me a ficar apeado no meio de nenhures e a perder um tempo precioso; o mais acertado seria parar mal visse uma estação de serviço ou uma cabine telefónica e contactar as autoridades. Claro! Era a mim que eles queriam, não era nem ao Hel nem a à Ariel, soltá-los-iam assim vissem que eles não lhes podiam dar quaisquer informações sobre o meu paradeiro!

Ou não… Ou não, pois, cavalgaduras como o «tubarão» e o «fuinha», em rilhando os dentes numa vítima, não a desaferrolhavam por dá cá aquela forquilha, sem mais, prestimosos, atenciosos, «faça favor de desculpar, foi um engano, um engano inocente». Nã, não eram bichos para isso, mesmo que, ao avesso de caviar, as «vítimas» lhes soubessem a banha de porco sem glúten; não, não o fariam, pelo contrário, o mais certo seria irem um buscar um saleiro e a pimenta e cozinharem tudo em lume brando, sempre daria um gostinho de consolação à banha e, aqueles dois melros, se é que sabia alguma coisa sobre pássaros, eram criaturas de muito, muito mantimento.

Pois, pois era, isso era mau, assaz mesmo. Abri a janela, senti-me revigorado pelo ar fresco da noite e escarrei, para o asfalto, despejando nele uma boa parte do meu stone. Começara a chuviscar de novo e não era capaz de tomar uma decisão. Deveria parar assim que possível ou continuar a perseguição? Voltei a subir o vidro. Soltei uma imprecação – Raios -, se andavam atrás de mim, teriam de ter um motivo, esse é que era o problema real; porque belzebus andariam atrás de mim?

Quer dizer, sabia bem que era um tipo charmoso, quando queria, encantador, sem rival à altura; crescera fruto de famílias brasonadas com sobrenome, dinheiro (bastante até, dependia do que se entendesse por isso), terra, morgadios e tinha uma carreira promissora no Ministério dos Estrangeiros mas, daí a ser popular junto de figurões como aqueles… Nã, murmurei, ainda se fossem caçadoras de fortuna, putéfias, tipos à procura de cunhas, poderia bem ser; assim, como as coisas se apresentavam é que… Nã, exclamei em voz alta, desconfiado. Liguei o rádio. O locutor anunciava que eram cinco para as quatro e que se previa uma manhã de vento e de chuva; sentia-me exausto, desde as seis da tarde do dia anterior, quando saíra do Ministério, nada me correra bem, nada. O Ministério! Era isso, o caso estava ligado ao Ministério, tinha de estar e, se estava ligado ao Ministério, ponderei, sentindo as velhas engrenagens do cérebro rangerem cada mais depressa, só podia estar ligado aos documentos, aos documentos secretos que deixara na mala do R6, os quais nem sequer me dera ao trabalho de cuscar no dia anterior – sim -, só podia ser isso, andavam atrás dos documentos!

A minha decisão estava tomada: seguiria os escroques que haviam raptado o Hel e de brinde me haviam azougado o R6 e os documentos. A ironia da situação fez-me sorrir, eles tinham, ali, mesmo à mão de semear, o milho que os havia feito adejar sobre nós, como abutres; só que não o tinham topado e agora lá iam, comigo na sua cola. Havia esperança, a madrugada ainda era uma criança, quem sabe, talvez até pudesse reverter o curso normal dos acontecimentos em meu benefício: «Lúcio Ferro, quadro dos Estrangeiros, soluciona conspiração internacional»; «Lúcio Ferro recebe do PR Ordem da Liberdade», na minha euforia já via páginas e páginas de jornais enaltecendo os meus feitos futuros, o meu pai sorrindo, de braço dado no palanque com o eterno candidato, finalmente orgulhoso do seu filho!

Depressa tropecei na realidade, os «outros», após uma curva apertada, viraram à esquerda e meteram para Sintra. Óptimo, quase que gritei, em Sintra, perto do palácio, estaria como se estivesse em casa, de facto, a partida não estava perdida. Se a onda «deles» fosse essa, possuía suficientes recursos para inverter a parada. Mal tinha engatado a terceira quando todas as minhas vãs esperanças se desmoronaram; na rotunda que dava para a vila, como se tivessem desconfiado, haviam tomado a saída da direita, ainda na nacional 9, retomando o percurso para Norte.

Bom deus, onde iriam eles? O pior de tudo era não estar no R6, se estivesse no meu automóvel, o equipamento de GPS rapidamente, ter-me-ia dado as coordenadas de rumo existentes a partir daquele ponto onde me encontrava, só que não era esse o caso, estava no R7 e não tinha GPS, tinha uma luz laranja. Casquinei - tratava-se duma cena à MacGyver.

Puta que parisse a situação; deitava, agora, cada vez mais insistente, olhares quase ou nada furtivos ao mostrador da gasolina. Embraiei a quarta, tentei manter a distância, se me topassem estava tudo acabado, voltei a ligar o rádio, levantei o pé, dei 10 segundos, meti outra vez a terceira, fiz saltar o carburador duplo e, só pela companhia, subi o volume: «De acordo com uma fonte governamental, existem indícios de fugas de informação no Minist»… Desliguei aquela porra.

Tinha de voltar a concentrar-me, tinha de manter a calma, tinha de conduzir, mantendo a distância, o conforto da distância, tinha de estar alerta aos buracos e às curvas, já não falando «deles». Então, curvaram de novo para Leste, afastando-se da via que dava para Sintra, subindo pela direita. Agora, haviam-me fodido, tramado, e bem. Hm. Onde iram? Qual seria a onda deles? Tanto quanto sabia, continuávamos na nacional 9, direcção Norte, isso era um facto, reconhecia os armazéns que ladeavam a estrada. Estávamos na zona industrial do Ral, não gostava daquele sítio, nem de dia me agradava, quanto mais de noite. Só armazéns, naves, negócios import-export manhosos, maquinaria agrícola, adubos, arame farpado, chips, hardware; já de luzes, muito ou muito pouco nada. Caralho - vociferei -, onde iriam «eles»?

Galgávamos quilómetros atrás de quilómetros, estava quilhado, ia ficar apeado no meio de nenhures, só podia, maldita sorte, o que não daria para estar naquele momento na cama da Angélica! Que saudades tinha dela!

Ariel - Capítulo XVII

«Vá, vá, o chefe não gosta de esperar», a montanha de músculos impelia-me, empurrando-me com a mão pesada. Percebendo que não podia oferecer qualquer resistência, não ainda, resignei-me e caminhei à sua frente; seguia-me tão de perto que sentia a respiração pesada arrepiar-me os cabelos do cocuruto. Até a minha sombra tinha dificuldade em arranjar espaço entre nós. Depois de abandonarmos Ariel, seguimos por um corredor ladeado por várias portas. Agora que saíra do quarto, apercebia-me do quão velha a casa era. À medida que caminhávamos, a madeira enegrecida rangia a cada passo e o cheiro a humidade e mofo era de dar a volta ao estômago. Descíamos pé ante pé a escadaria que dava acesso ao andar de baixo quando, de súbito, o pé do brutamontes afundou-se na madeira podre; susteve a respiração com o espanto, abafou um grito e desequilibrou-se sobre mim. Com reflexos felinos, amparei-o com o braço contra o peito e, com a outra mão, crispei o corrimão, evitando o desastre. Senti a coluna estalar sob o peso que se abateu. Antes isso do que se esmagar sobre mim e rolarmos os dois aos trambolhões escadas abaixo. Notando o sangue acorrer-lhe ao focinho de tubarão branco, num misto de embaraço e de fúria, balbuciou uma ordem de avanço. Chegando à base das escadas, passei os olhos com voracidade pelo que me rodeava, numa tentativa de imprimir no cérebro todo o espaço da casa a que tivesse acesso. Alimentava a esperança secreta de me evadir, ainda não sabia como, mas não podia desistir, isso era certo, e todo o conhecimento do terreno que conseguisse obter seria uma ajuda inestimável. Assim que pisei o último degrau, avistei de imediato o pequeno hall e a porta de entrada ou, no meu caso, de saída. À minha direita, havia uma segunda porta, por trás da qual me chegavam vozes abafadas que riam e conversavam animadamente, juntamente com o cheiro a comida. Concluí que ali era a cozinha e, pelo ruído provocado pelas vozes, deviam lá estar dentro uns dois, talvez três homens. Via a minha tarefa cada vez mais dificultada. Sempre instando-me com empurrões nas costas, e eu sempre tentado a abrandar o passo, o Tubarão grunhiu qualquer coisa sobre como me daria um correctivo se continuasse a molengar a passo de lesma. «Por aqui», puxando-me por um braço, afastou-me da porta, circundámos as escadas pela esquerda e entrámos numa sala ampla com largas vidraças. A divisão estava vazia, à excepção dos móveis velhos e bafientos, antigos habitantes daquela casa e testemunhas da sua ruína, semi-cobertos por lençóis amarelecidos pelo tempo. Por todo o lado, ouvia os gemidos e lamentos da casa, dobrando-se sob o seu próprio peso, ameaçando ruir a qualquer momento, como se ela própria implorasse aos ocupantes, numa súplica lúgubre e chorosa, que pusessem cobro ao seu sofrimento.

Envolvido pela atmosfera densa e pelo silêncio sepulcral, estaquei e fiquei a observá-la de costas. Contemplando o exterior, uma mulher com longas cadeias de anéis loiros caindo-lhe sobre os ombros e descendo pelo tronco esguio e elegante levava um cigarro pensativo aos lábios, tragando longas, lentas e angustiadas passas. Decorridos alguns segundos, quando se apercebeu da presença de outras pessoas na mesma divisão, virou-se, esboçou um sorriso malicioso e encurtou o espaço entre nós. Cumprimentou o Tubarão com ar cúmplice, «Acabou-se-me o tabaco. Dás-me um cigarro dos teus, Telma? Hm, Telma… Ajeitou os caracóis loiros, «pensava que não gostavas dos meus, Tubarão» e passou-lhe um cigarro para as mãos. Ele deu-lhe fogo com uma chama gulosa; era agora um tubarão fumegante, «à falta de melhor…», que exalava um intenso odor mentolado. Mentol? Hm… Luzes acenderam-se numa explosão sináptica resplandecente ao inspirar aquele cheiro. Já o sentira antes, não há muito tempo, embora misturado com o cheiro do mar. Onde, onde, onde? Vamos, rapazes, nada de violência. Não vêem que eles estão a colaborar, até saíram do carro, como tão educadamente pedimos. Virou o olhar mordaz para mim e disse-me que, se me portasse bem, tudo acabaria em breve, «além disso…», cedo perdi o interesse nas patacoadas que me dizia e, embora fixo nela, não era o seu rosto pálido que observava. Antes, o meu cérebro mostrava-me imagem atrás de imagem dos acontecimentos da noite passada, como uma sessão de slides. Revivi a minha chegada ao 23, os cheiros, a música, as pessoas. Embora só a tivesse vislumbrado por breves instantes, uma, com o Lúcio, e outra, na mesa com o homem que se ocultava na penumbra, reconheci-a como a loira dessa noite. Lembrei-me de como recuara para a sombra quando, libertando-se do aperto do tal homem que queria permanecer na obscuridade, incógnito, saia do bar, de certeza para me seguir e ao Lúcio. A trama adensava-se. Apesar de ainda não saber quem eram e o que queriam, já começava a fazer sentido de alguns acontecimentos. O facto de o Tubarão e de a mulher estarem no 23 naquela noite, àquela hora, não era uma feliz coincidência; mais, algo cheirava mal no 23: se eles estavam lá, talvez o bar fosse mais do que aparentava à primeira vista, talvez até operassem a partir de lá; mas, o que operavam, não sabia dizer. Além do mais, agora que juntava as peças, invadia-me a sombria sensação de que o homem na penumbra era o chefe desta pandilha, controlando tudo o que se passara nessa noite, resguardado pelas trevas, com os seus olhinhos cintilantes. Como cereja no topo do bolo, Ariel desempenhava, estava convencido, um papel central: ela era o elo de ligação entre esta gente, o 23 e nós, o Lúcio e eu. Porque viera ter connosco? «…não é verdade?», após ter falado durante o que me pareceu horas, Telma interpelou-me, se bem que não tinha ouvido nada de nada. Tinha os olhos vítreos fixos nos dela, mas olhava para o vazio. O Tubarão libertou uma gargalhada sonora que ressoou pela casa, rangendo ainda mais a madeira. Temi que fosse dessa feita que a casa se desmoronasse. «Já viste, Telma, o moço está longe, muito longe. O que o medo não faz a uma pessoa, hã?», e dava asas ao seu gargalhar demente. Telma, porém, perscrutava-me com os seus grandes olhos azuis pestanudos, talhados a gelo, pouco convencida das palavras do cúmplice. Tinha voltado à realidade e enfrentava a sua mirada, porém, tão frio quanto ela, sem querer revelar que começava a apanhar o fio à meada da intriga; vá lá, dava, pelo menos, os primeiros passos. Compreendera que a minha atitude não era alimentada por medo, só que estava na dúvida quanto ao que o meu comportamento significava. Ao contrário do troglodita, Telma tinha dois palmos de testa. Deixei o cérebro em stand-by na Ariel, para retomar o raciocínio mais tarde. Aqueles olhos azuis gelavam-me. Sentia que, se pensasse, ler-me-iam os pensamentos. Foi por isso que não pensei e pedi-lhe, cândido e simples, um cigarro dos seus. Estreitou os olhos num sorriso, apertando os lábios. Reparei que o canto da boca formava uma covinha. Abriu o maço e estendeu-mo, «Vês? Só tenho dezoito, não te posso dar». O outro riu e disse-lhe para não ser má, para dar um ao rapaz, «é bem capaz de ser o último que fuma!», acrescentou, com um laivo de cinismo na voz. Reflectindo um instante, «está bem», tirou um, passou-o lentamente pelo meu rosto até ao canto do lábio e deixou-o lá. Mais rápida do que a própria sombra, sacou de uma pistola minúscula, premiu o gatilho em cheio na minha cara, «bang!», pisquei os olhos, e, com a chama bruxuleante iluminando o olhar azul, aproximou-se e deu-me lume. Ia pegar-lhe na mão para ajeitar a chama às minhas necessidades, mas o Tubarão tratou de me ferrar o pescoço com um calduço, «Psht, não toca!» O cigarro voou da boca. Dobrei as pernas para apanhá-lo, mas Telma esmagou o rolo de menta com o sapato impiedoso. «Chega de fantochadas!» Ainda curvado, olhei para cima. O seu olhar frio revelou-me que não estava de bom humor. «Tubarão, podes ir, ele está à espera». Passou por nós como um foguete; escutei os passos subirem a escada, algumas ofensas ao azelha que havia partido o degrau e o bater furioso de uma porta. «Mulheres! Vá-se lá perceber, não é? Num momento, dão-nos um cigarro e, no outro, tiram-nos o doce da boca». Meneei a cabeça. «Bom!», deu-me mais uma patada nas costas. Fechei os punhos, jurando para mim mesmo que ainda o faria pagar todas aquelas pantufadas. «Vá, anda!» Retomei a marcha, sempre com os dentes do Tubarão nos calcanhares.

Ariel, Ariel, Ariel, os slides continuavam a passar, um por um, à frente dos meus olhos. O que me estava a escapar? O que poderia ela ter, ou eu, ou o Lúcio, que interessasse a estes melros? Reconfigurei. A noite no bar: normal. A viagem até casa: normal (na medida do possível, considerando os excessos da noite). Em minha casa, também não se passara nada de assinalável… infelizmente. Só quando saímos com o carro e chegámos à praia é que… Um momento…! O carro, o R6, sim, claro!, como era mentecapto, um autêntico néscio! O episódio surgiu-me como uma revelação tão óbvia que pouco faltou para bater com a mão na testa. O que é que estás a fazer? Eu tinha razão! Eu… não, nada… nada, reparei que a porta da mala estava mal fechada, estava só a verificar, a fechar melhor... só isso… Antes de sairmos quinta fora no R6, tinha-a apanhado em flagrante delito, remexendo na bagageira. Lembrava-me de ter estudado o interior: papéis espalhados, ferramentas, um colete. Ela estava assustada, muito, demasiado, recordava-me bem, e não se devia à minha agressividade repentina, compreendia isso agora. Procurava algo. O quê? Talvez não, talvez estivesse a esconder alguma coisa, o que não me adiantava muito… Fosse como fosse, uma coisa era certa, Ariel encontrava-se na posse de algo ameaçador o suficiente que justificava darem-se a este trabalho todo para lhe deitarem a unha. Uma vez que ainda estávamos vivos, conclui que não haviam encontrado nada com ela quando a tinham revistado. Logo, o R6 encerrava um segredo a sete chaves e era apenas uma questão de tempo até se aperceberem disso. A minha vida dependia do tempo que conseguisse mantê-los longe do carro. Tinha de ganhar tempo, tinha de enfrentar o interrogatório com o chefe e, de preferência, que fosse uma cavaqueira demorada. Não sabia bem o que esperava alcançar, mas sabia que quanto mais tempo queimasse, mais fácil seria pôr ordem na casa, esfriar as ideias e elaborar um plano de fuga, sim!, fugir, fugir.

Seguro de que tinha descoberto ouro, mas que ainda me faltava um bocado para atingir o filão, deixei de pensar no assunto, reconfortado por, pelo menos, não me encontrar completamente no escuro; ainda assim, não tinha mais por onde continuar. A cabeça começava a latejar outra vez. Apertei as pálpebras sobre os olhos e voltei a subi-las. Tinha fome. Deixei o cérebro adormecer, catatónico, encarregando o Tubarão da tarefa de conduzir o meu corpo até ao destino. Atravessada a divisão ampla, chegámos a uma porta, igual a todas as outras, podre, bafienta e velha. «Queres uma passa antes de entrares?» Peguei no cigarro em silêncio, dei uma, duas longas passas e, a meio da terceira, «Psht, parou! Fumar faz mal», abarbatou-mo das mãos. Abriu a porta com um rangido e, com o pé, «Entra!», empurrou-me para o interior.

Capítulo XVIII

Ora, ao abacaxi com a Angélica, que chatice que era, sentimentalismos pueris como aquele, assaltarem-me sempre nos momentos errados, sempre, tinha mais com que me preocupar, tinha de concentrar-me no presente, o presente, já se afigurava problemático que bastasse, a Angélica que se fodesse, que regressasse ao Ceará, de onde nunca deveria ter saído, decidi. Em simultâneo, ainda de olho no contador da gasosa, suspirei: «ai, ai», a minha brasileirinha, a minha brasileirinha respigada, trigueira, soalheira, temperamental, desbocada, «ai…», estaria melhor na cama dela, sem dúvida que estaria!, contradisse-me. E daí, não, não estaria nada, nada mesmo, estava quase sem gasolina, quilhado de todo, a Angélica, naquela altura do campeonato, era uma asneira, só podia, por que raio me lembrara dela?

«Bobagem, bobagem», desdenhei, trocista, era preciso «me deixar» de brasileirismos, a partir da Angélica, eu próprio o havia assumido depois do vídeo porn que ela me enviara, só passaria pelo meu estreito material luso, quando muito, nórdico, talvez eslavo, indo-europeu, o que fosse, tudo, mas não mais brasileiro, isso é que nunca mais. Puta que parissem as brasileiras, todas as brasileiras não passavam de putas; aliás, todas as mulheres não passavam de putas, menos as nossas mães e as nossas irmãs, essa era a única chatice da coisa. No entanto, como já não tinha nem mãe nem nunca tivera irmãs, do meu lado, a lógica interna do provérbio parecia-me inteiramente válida e lá me consolei da minha alarvidade, retomando o fio do pensamento e procurando deduzir para onde se dirigiam aqueles que eram os responsáveis, não de não estar na cama da Angélica, mas pelo menos e isso era certo de me encontrar ali, madrugada de quinta-feira, três dias pró Natal.

Enquanto serenava, a geografia havia-se alterado e a nacional 9 corria agora por uma recta plana; fiz um rápido cálculo mental e conclui que, se eles seguissem sempre em frente, iriam desembocar, uns trinta quilómetros depois, no nó para a A21. Aí chegados, ponderei, podiam tomar ou a direcção Oeste, para Mafra, Ericeira, ou podiam tomar a direcção Leste, para a Malveira e daí para a A8, para Norte ou, até retroceder para Sul, para Lisboa, completando assim desvio que não me parecia ter cabimento. Fosse como fosse, Oeste ou Leste, nenhuma das duas hipóteses me convinha, ficaria sem sumo, sabia-o, no máximo logo após o nó da A21. Felizmente, rolavam agora em ritmo de cruzeiro e isso adiava-me o problema, embora não por muito tempo, tinha de o admitir.

Entregue às minhas cogitações, fui abruptamente despertado das mesmas quando dois jactos, em voo rasante, passaram na perpendicular à frente «deles» e se foram sumir à direita, desconcertando-me a mim e a «eles» mais ainda, bem feito; de imediato me ocorreu que os dois aviões rasantes não podiam dirigir-se senão para a Base Aérea nº1, nos terrenos da Academia da Força Aérea, ainda nem há dois meses lá estivera, a acompanhar a comitiva do ministro, sim, só podiam ir para a Academia! Desacelerando, verifiquei que, se fizesse um desvio de três, quatro quilómetros, cedendo na perseguição, em menos de cinco minutos estaria aos portões da Base… Só que, mesmo assim, àquela hora seria difícil ter um graduado a quem pudesse explicar o caso em tempo útil, seria quase impossível; contrafeito, coloquei a hipótese de parte. Depois do clarão dos jactos, a noite remetera-se de novo ao seu negrume desolado e continuava sem solução à vista para o meu problema, num beco sem saída, quando topei os outros a fazerem pisca à direita. «Eh lá», refocilei, o caso compunha-se mas, de súbito, vi-me desenganado e levei um dos maiores choques da noite: era uma bomba de gasolina, paravam, eles paravam, para reabastecer, para reabastecer, numa bomba de gasolina!

Não podia estacionar atrás deles naquela estação de serviço, tinha de seguir avante, calquei o pedal e fiz o R7 saltar para frente no seu eixo, se dessem fé do carro… Passei pela bomba e desacelerei de novo, já falhara a saída da Base, aturdido, sem saber o que fazer, rolando a uns 40, 50; se «eles» abasteciam era porque ainda tinham um longo caminho pela frente, ou não, se calhar estavam como eu, na reserva. Porém, ocorreu-me, acalmando-me, que, nesse caso, o destino final daqueles pilantras teria de situar-se para lá do nó da A21 e, pouco antes do nó da A21, tinha a certeza, haveria outra bomba de gasolina… Engatei mudanças em rápida sucessão, terceira, quarta, quinta, 120, 130 140, 150… Liguei os máximos. O rádio, nem que o tivesse planeado me poderia ter instilado mais ânimo: estava sintonizado em Thundestruck, dos AC/DC. Ao fundo da recta passei por uma placa que anunciava encontrar-me em «Cheleiros», seria uma corruptela de «chalaça» - ou de «chaleira» - pouco me importava, para comédia já tinha que me chagasse. A resvalar no macadame fiz ecoar pela dita terriola de casas incaracterísticas o rugido do R7, e, depois, o barulho do choque do lado direito da traseira num marco de correio, ainda a derrapar.

Guinei, contraguinei, reduzi para terceira e preguei a fundo, de novo agarrando o R7 à estrada, fazendo saltar faíscas quando o fundo da carroçaria encontrou os paralelepidos duma lomba; tinha de encontrar uma estação de serviço, não «lhes» levaria mais do que cinco minutos de avanço.

Deixei Cheleiros para trás, vi-me de regresso ao asfalto, meti a quarta, puxei por ela, como se fosse uma gaja, uma das difíceis, puxando-a todinha, e, só então, então fiz saltar a quinta, tric, trac, a esgalhar de fininho. Caramba, contado nem se acredita, quase nem sentia a estrada; nunca me passara pela cabeça que o R7, um carro com 20 anos, ainda pudesse chegar aos 170! Quase de imediato levantei o pé, convinha não abusar, deixei-me ir, a 150, 160. A luz laranja que continuara acesa no indicador do combustível apagou-se, para logo começar a piscar, muito depressa, demasiado depressa. Desengatei e deixei-me ir, a deslizar, sem tracção, aproveitando a quota baixa do caminho e a última longa recta da nacional 9, confiante, sabendo que, em última análise, nunca mais passaria por aquela estrada sem um trejeito de emoção e que, se chegasse a velho, os meus netos por certo apreciariam o episódio. Ao fundo da recta embraiei a quarta, negoceie a curva, passei por uma placa que indicava a aldeia da «Igreja Nova» e, bingo, lá estava ela, que Deus salvasse a rainha! E a British Petroleum! Um pouco antes da rotunda, que dava acesso ao nó da A21, avistara o placard luminoso, verde e amarelo, de uma BP, de uma BP 24 horas!

Ao ralenti, saí da minha faixa e enfiei na da estação de serviço, já o motor do R7 tossicava, soluçando, de forma alarmante; no sítio que me convinha, com um toque no travão, assertivo, imobilizei-o, rodei a chave e silenciei a viatura, seguro de que o meu timmming fora perfeito. Reanimado, soltei o cinto de segurança, saltei para fora do R7, saquei da pistola do diesel, à punhada fiz voar a tampa exterior do depósito da gasosa, rodei a interior, lesto, abri e comecei a despejar quilómetros para dentro do depósito. O pior é que este parecia não ter fundo, embora eu ainda tivesse tempo, ou pelo menos era nisso que desejava acreditar. Virando-me, contemplei a «box» onde se efectuava o pagamento de combustível. No interior, vislumbrei um funcionário da BP, um miúdo, parecia ensonado. Sempre a despejar quilómetros para o depósito do R7, com a mão livre esbracejei na direcção dele, mas nada feito, parecia dormitar. Esbracejei de novo e acompanhei a minha bizarra mímica com uns berros de «Eh, eh pá! Aqui, aqui!, anda cá!, depressa pá!» Por fim, despertou e pôs-se a contemplar-me, do interior da «box», desconfiado. Que aquele tarefeiro de merda se fodesse, cismei, já tinha quarenta litros no depósito, continuava a contar, quando, pelo canto do olho, vi passar, em rápida sucessão, o Alfa Spider, o Miura Branco e o meu R6! Não havia um segundo a perder, tirei a pistola do depósito, cerrei este último, corri para o volante, bati a porta, dei à ignição, tinha de despachar-me. No R6, naquele instante em que passara por mim, no banco de trás, parecera-me topar uma mancha encarnada; só podiam ter sido os cabelos ruivos dela, da Ariel.

Claro que, para chatear, o R7 não pegava, recusava colaborar. O miúdo da BP saíra acicatado da «box» e corria para mim, vociferando, batendo no capôt do R7: «Ei, tem de pagar, tem de pagar!» Com uma última viragem do pulso, acutilante, rodei à chave e num estampido ensurdecedor lá peguei o R7. Engatei a primeira, dei gás, roufenho, mamutesco, fazendo o puto assustar-se e recuar, quase lhe engolindo as pernas com a óptica, que me esquecera de apagar. Vendo-o amerdejado, uma mistura de medo, de amarelo, e de algo de que por certo ele se envergonharia muito em breve, pisei a pé fundo, desengatando, ao mesmo tempo que descia o vidro e o interrogava, abrupto: «Telemóvel, tens telemóvel?» Estacou, atónito, percebi que ia para balbuciar «que não», que «não tinha», mas antecipei-me e, marcando o rodado dos pneus carecas no solo, abri dali para fora, saudando-o, pela fresta da janela: «Feliz Natal, feliz natal, manda a conta à bófia!»

«Do mal o menos», reflecti, assim que me vi na N9, todavia casquinando; nem 50 metros à frente, o R6, no complemento da caravana dos meliantes, negociava a rotunda, tal como previra antes, iam direitinhos para o nó da A21 e eu, ala, na cola deles, depósito quase atestado. E havia mais, havia melhor: o «puto», lá atrás, já deveria estar colado ao telefone da «box», avisando as autoridades, dando-lhes a matrícula do R7, remetendo-as na minha própria peugada, o que, afinal, não deixava de ser conveniente. Negociei por meu turno a rotunda, passei pela placa que dizia Malveira/A8 e só entrei, reduzindo a custo, não fossem eles desenvolverem um sexto sentido despropositado, na segunda virada, direcção Ericeira/Mafra. Com que então os meninos iam para a praia, ou será que iriam antes para o Convento?

Nem dois quilómetros depois, tomaram a saída para Mafra, estava (parcialmente), explicado o mistério, não iam para longe, não iriam para muito mais longe, naquele momento, tratava-se de manter a calma e começar a programar o olhinho para uma cabine telefónica, era o que era. Entrámos na vila, «eles» mais ligeiros, eu mais descontraído, toda a tensão avolumada dera cabo de mim mas ainda conduzia sem falhas. Em menos de nada passávamos pelo Convento, os seus dois imponentes torreões barrocos ladeando a comprida fachada principal, o granito brilhando no reflexo dos faróis rococó. Ali, sabia-o bem, passara muito do essencial da literatura portuguesa do final do séc. XX. Nem mais, passara um memorial, mais do que um convento, passara um memorial e agora passava eu; aliás, recordei, só na Biblioteca do Convento de Mafra repousavam mais de quarenta mil in-fólios, valiosíssimos, com encadernações de couro gravadas a ouro, iluminados, sabedoria a rodos, embora nenhuma que me pudesse ser de utilidade para a circunstância em agravo. Que merda, e eu que sempre gostara de livros, até mesmo dos calhamaços da faculdade de agronomia!

A vila, o convento, a passagem e esses devaneios, entretanto, ficaram para trás. Irredutivelmente, «eles», em cruzeiro, seguiam ainda, desta feita numa estrada secundária, direcção norte, nordeste. Então, o R6 e os outros ligaram o pisca esquerdo, desaceleram e cortaram, devagar, por um caminho de terra batida. Apaguei as luzes, dei 10 segundos e meti atrás deles. Estava escuro, muito. Como pontos de referência apenas tinha as luzes das traseiras «deles», mas não fazia mal, rodavam devagar, a 20, 30, no máximo. O caminho apresentava-se sinuoso, ladeado por uma vegetação frondosa que obscurecia quase tudo; por fim, reparei que estacavam e segui-lhes o exemplo. Porque diabos teriam parado? Ter-me-iam topado? Duvidoso, tomara suficientes precauções. Na penumbra, percebi ao fundo os contornos de um muro e os dum portão, um portão automático, que se abria, lentamente, metódico. Depois, vi os três automóveis que me precediam passarem por ele e o portão a fechar-se, sempre automático, tínhamos chegado ao destino.

Suspirei de alívio, sentindo que do corpo me escorria um enorme peso. Procurei um cigarro, não encontrei e pus o R7 a trabalhar, tentando, sem pressas, decidir o que fazer. Liguei os mínimos, fui deslizando, buraco ante buraco, até passar pelo portão e estacionar 50 metros mais à frente, subindo uma colina baldia onde julgava poder ter uma vista mais abrangente sobre o meu objectivo designado. Desliguei o carro, fui para me erguer, mas já não tinha forças para tanto e voltei a abater-me sobre o assento.

Dei fé de que estava de rastos, de que precisava de descansar; já nem era tensão, era mesmo consumição, fim, interregno, fim, princípio, meio, mulher ruiva, necessitava de descanso, um ‘cadinho que fosse. Só 5 minutos, só 5 minutos, Lúcio, ainda murmurei, nem mais, nem menos, esgotado. A cabeça pendia-me no cabedal do banco do R7, pesada. Fechei os olhos, desliguei o rádio e abençoei o mergulho que dei em direcção à inconsciência.

Ariel - Capítulo XIX

«Entra!» Apanhado de surpresa com o pontapé do famigerado Tubarão, tropecei nos pés e estatelei-me de cara no chão. Uma voz agradeceu e a porta fechou-se atrás de mim com suavidade. Afinal, quando queriam, os tubarões sabiam ter tacto. Saboreei o pó e o mofo, «argh!», o estômago contraiu-se num resmungo grave e deixei-me estar, por momentos, esperando para ver se não havia mais nenhum esperto a querer deitar-me ao tapete quando me tentasse levantar. O silêncio instalou-se. Só a casa se lamentava num gemido compreensivo. Sentei-me no chão, toquei no nariz dorido, até então intacto, verificando se continuava encaixado no sítio, e obriguei as pernas a erguerem o corpo. Olhei em volta e reparei que estava no que parecia ser uma antiga biblioteca ou escritório. Rodando a cabeça da esquerda para a direita, observei que uma das paredes parecia feita só de prateleiras poeirentas que, outrora, deviam ter segurado livros. Continuando a inspeccionar a divisão, vi que as restantes paredes estavam desoladoramente despidas, com frestas aqui e ali. Percebi que deviam usar aquela casa para as suas festas privadas.

Com o pescoço a rodar lentamente como um periscópio, a minha curiosidade embateu num homem… espera… Era antes um bicho estranho… não, tratava-se, de facto, de um homem junto a uma secretária e de costas para a janela, embora o seu aspecto pudesse enganar um observador menos atento. Coçava a barba castanha e hirsuta com um «scratch, scratch» indolente, ignorando de propósito a minha presença, até que, pelo canto do olho, mirou-me com olhinhos maus, pequeninos e brilhantes, parou de raspar as unhas na barba de arame e, com ar de quem foi apanhado na retrete com as calças arreadas, estirou as sobrancelhas espessas e desgrenhadas sobre os olhos, ficando aparentemente tão cego como um cão d’água, se bem que, pelo cheiro que emanava, sobrepondo-se até ao mofo e à humidade, não devia partilhar o mesmo gosto pelo H2O. Por instantes, tive saudades do cheiro a humidade. Percebendo que o avaliava, revelou-se susceptível, resfolegou, mostrou-me os dentinhos de rato, aguçados, salientes, abjectos, e rosnou. Esta não era, sem dúvida, a imagem que pintara na minha cabeça daquela voz fria e calma que, na treva da noite, mandara enfiarem a Ariel no carro e darem-me uns valentes tabefes, «Por favor, perdoe a rudeza do meu empregado». Surpreendido, torci o pescoço para a direita, em direcção ao outro canto da sala. Era a voz, sim, aquela voz! Associada a ela, estava um corpo alto e forte, envergando um fato negro. As mãos robustas, mas delicadas, remexiam num pequeno armário; retirou uma garrafa, despejou o conteúdo num copo e, empregando um tom que pretendia ser caloroso, enquanto enroscava a tampa, voltou a esfriar a sala com a voz, «Carece de alguma subtileza, mas é extremamente eficiente. Só lhe falta ladrar», declarou, casquinando. O outro não tugiu nem mugiu. «Engraçado, estava a pensar no mesmo», concordei, sem reflectir no aperto em que me encontrava, esbugalhando os olhos e levando mentalmente uma mão à boca. E foi uma. O tipo deu uma passada na minha direcção, pelos vistos ofendido e sem poder descarregar no chefe, afilando os incisivos, com as patorras erguidas, mas estacou no mesmo instante em que este aclarou a garganta. «Calma, calma, Jonas». O sabugo retraiu as presas finas e porcas, fitando-me, famélico, com um sorriso trocista, como que me dizendo que a minha hora chegaria. Inspirei fundo e expirei vapor; percebendo que estava gelado, esfreguei os braços. «Sente-se, sente-se, não fique de pé». À ordem do chefe, encaminhei-me, zombificado, expectante do desfecho da minha ‘entrevista’, para a cadeira que estava em frente da secretária, com os dentes a bater como castanholas descontroladas, num misto de medo e frio. Contraí o maxilar até o músculo latejar e pus fim àquele baque-baque. Era o momento de manter uma certa calma.

Ninguém dizia palavra. À minha esquerda, Jonas, já esquecido do agravo, retomara a monótona tarefa de coçar a barba e, sem qualquer discrição, espetou um dedo gorduroso que levou à narina e escarafunchou, retirando dessa actividade um prazer visivelmente enorme, como as sobrancelhas erguidas mo revelavam. Desviei os olhos, enojado. À minha direita, a sinfonia do vidro de garrafas e copos cessou com o bater da porta do armário. O tipo de fato, o chefe, como era óbvio, reconheceria aquela voz em qualquer lado, deu um trago, fez «nham, nham» com os lábios, «Bem!», e rodou sobre os calcanhares, dirigindo-se para a cadeira, muito mais confortável, com estofos almofadados, daquelas giratórias, do outro lado da secretária, num andar elegante e descontraído, exalando confiança a cada um dos seus passos leves sobre os sapatos negros e polidos; em pequenos, lentos, movimentos de pulso, agitava o copo com subtileza, fazendo-o tilintar com as pedras de gelo. Era ele quem dava as ordens por ali e sabia-o bem. A pele de bebé e tez clara contrastavam com a película de surro e a barba negra do roedor imundo. O cabelo impecavelmente penteado, sem um fio fora da linha, denunciava um homem eficiente e metódico. Se não fosse por me encontrar naquela situação, toda aquela cena até teria o seu encanto pitoresco. Tanto foi, que não consegui reprimir uma ligeira tensão dos lábios. Colocou o copo sobre o tampo, ao lado, notei, de um panamá bege, torneado por uma fita azul-escuro. Estranhei o facto. Um panamá? No Inverno? Passou a mão pela gravata, sentou-se, puxando ligeiramente as calças vincadas, e cruzou a perna. Em seguida, molhou os lábios com a bebida (whisky, pareceu-me) e tossicou. Decidido a levar o seu tempo, ajeitou o nó sobre o colarinho da camisa azul clara e verificou se o alfinete de gravata dourado estava no sítio. Uma flor na lapela ficava-lhe a matar, pensei, tentando abstrair-me daquela realidade, fazendo o possível para não transparecer nervosismo. Naquele jogo, sangue frio era essencial. Recostei-me na cadeira, simplesmente à espera. O tabuleiro estava pronto e, uma vez que jogava com as pretas, restava-me preparar a defesa.

«Bem… bem, bem…», repetia, como se pensasse no que dizer, enquanto tirava do bolso do casaco uma longa boquilha branca de marfim; encaixou um cigarro e sacou de um isqueiro prateado. Soltou uma longa baforada, degustando-a. «Dormiu bem? Espero que já esteja recuperado de ontem. Esse olho negro está com péssimo aspecto. Veja só como está inchado», informou-me do facto, simulando um tom admirado e preocupado, ao mesmo tempo que estreitava os olhos, como que para ver melhor. «Sim… sim… Ah!» Levou a mão ao interior do casaco e logo fechei as mãos sobre os joelhos, o corpo todo tenso, uma arma!, mas o tipo só segurava a carteira, a minha carteira, e começou a vasculhar. «Ora, então, deixa lá ver…», falava com os seus botões, mas pretendia desestabilizar-me antes de me tirar nabos da púcara. É sempre mais fácil desenrolar a língua a nabos nervosos. «Cartão multibanco, dum restaurante… sim, sim…», sussurrava apenas o suficiente para ser audível, absorto, enquanto tirava da carteira, um por um, fleumático, estudando-os com curiosidade diletante, os cartões; quando perdia o interesse, com dedos ágeis que terminavam em unhas meticulosamente limadas, lançava-os e passava ao próximo. Demorava-se a observar cada um. Ali estava um homem com todo o tempo do mundo.

O silêncio perdurava há uns minutos, apenas entrecortado pela cavernosa e pontual fungadela do Jonas, que passava a manga do casaco pelo focinho. Em sintonia, o chefe e eu encarámo-lo com o mesmo ar nauseado. Não teria saído melhor se o tivéssemos combinado. Sem me conseguir conter, porém, com um sorriso amarelo, tirei um pacote de lenços do bolso da camisa e estendi-lho. O imbecil passava os olhinhos pequenos e esféricos de mim para o chefe e do chefe para mim com surpresa e hesitação, com cara de quem nunca fora objecto de um gesto de gentileza. Agitando a mão, encorajava-o a aceitar. Compelido pelo chefe, «Aceita, aceita, que já estou farto de te ouvir fungar!», o tipo arrancou-me os lenços com um golpe de mão relutante, mas agressivo, estreitando os dentes esverdeados do tabaco. Queria manter o ascendente sobre mim. «Ena, ena, é sócio do Belenenses?», interpelou-me o outro, de imediato, sem me deixar acumular muita confiança. «Não deve ter muitas razões para festejar», chutou. «Hm… sim, sim», concordei com um aceno de cabeça, à espera de ver como se desenrolaria a situação. «Talvez um dia…» «Sim, sim, talvez um dia… Oh!», exclamou, abrindo os olhos, enternecido, «Que bonitinha!», já focado noutro objecto, uma foto; virou-a para o outro. «É bonita, não é, Jonas?» «É, sim, chefe!», o fuinha seboso concordava com meneios de cabeça curtos e rápidos. «É sua?» Virou o retrato para mim, em que figurava eu e um bebé de três anos. Meio embasbacado por toda aquela cena, respondi que não, que era a minha sobrinha. «Ah, estou a ver, eu também tenho duas sobrinhas. Adoro crianças… Gostas de crianças, Jonas?» «Gosto, sim, chefe!», sempre meneando a cabeça. «Amanhã, fiquei de levá-las ao zoo, adoram a bicharada…», disse, com um sorriso distante, numa voz enlevada de ternura; olhava a fotografia com ar sonhador. «Pois é, pois é… bem!», e retomou a revista dos conteúdos. Observava-o na sua tarefa, sem me distrair, sempre à espera que lançasse as perguntas importantes; ele movimentava as peças como que preparando o xeque-mate. «Ah!, cá está!», exclamou, com um sorriso afável. Segurava a minha carta de condução. «Benjamin Hel Castro Ribeiro». Lançou o lábio inferior para a frente, enrugando o queixo proeminente, e torceu o nariz. «Não que seja da minha conta, mas posso saber de onde desencantou um nome tão curioso?» Inclinou-se do lado de lá da secretária, observando-me com um sorriso e uma expressão de imensa curiosidade. Sem me deixar surpreender pela questão, tão fora de contexto quanto as outras, larguei os joelhos, encostei-me no espaldar de madeira e, colocando os cotovelos sobre os apoios para os braços, cruzei os dedos sobre a barriga. Expliquei-lhe que a minha mãe era inglesa, «Deveras? E o Hel?», e que tinha ascendência árabe. «Ah, curioso, estou a ver, estou a ver». Atirou a carta de condução para cima da mesa com um gesto de mão displicente e prosseguiu. «Então, Benjamin, a razão por que o chamei aqui», tamborilava os dedos pensativos na mesa de madeira, «posso tratá-lo por Benjamin?», perguntou, cortês. Aquiesci, «claro, claro»; embora não gostasse que me tratassem pelo meu nome de baptismo, não estava em posição de lhe negar isso, ou o que quer que fosse. «Benjamin…», retomou, «diga-me, gosta de ir ao cinema?», disparou. Erguendo as sobrancelhas até à linha do cabelo, não consegui esconder a surpresa, «Como?», julgando não ter ouvido bem. Ignorou. «Eu adoro ir ao cinema. Vou todas as segundas, o bilhete é mais barato». Fixei-o sem expressão; corri os olhos, para ser exacto, pelo fatinho Armani que envergava até aos botões de punho em ouro e ónix; todavia, concordei plenamente, comentando, com sarcasmo desdenhoso e irreflectido, que «o cinema está pela hora da morte». E foram duas. Notei a troca de olhares que o canalha do Jonas trocou com o dono, como que perguntando, ávido, «e agora, chefe, posso, posso?», mas, com o mesmo olhar conivente, negou-lhe o gosto de me dar umas bofetadas, pelo menos, por enquanto. Jonas retraiu as dentuças. «Isto está difícil para todos, meu caro, para todos», retorquiu, sorrindo, em ironia descontraída, sempre bom camarada. «Aprecio muito um filme inglês, o… Snatch, com mafiosos do sub mundo londrino. Tem um humor soberbo. Mas não me recordo do título em português». Recostou-se e olhou para o tecto, fazendo um esforço para se lembrar. Reparei que tinha o tique de mexer o lábio inferior em movimentos curtos sempre que pensava. Ou isso, ou não era mais do que o personagem que desempenhava. «Conhece?», virou o olhar para mim. «Não… Não conheço…», forcei o meu tom mais casual, «não sou adepto de mafiosos. Prefiro comédias». «Não conhece?...», escondeu-se por trás do seu sorrisinho cínico e cortês. «Jonas, conheces o filme?» «Conheço, sim, chefe!» «Qual era o título, mesmo?» Espiei o cretino do Jonas pelo canto do olho. Espremendo toda a sua concentração e forçando a testa até ficar mais enrugada do que uma passa de Ano Novo, pensou, e pensou, e pensou, até que, iluminando a cara borbulhenta, explodiu numa exclamação entusiasmada, «é o Porcos e Diamantes, chefe!», contorcendo o rosto numa expressão de orgulho nos seus assombrosos dotes de memória. «Isso!», o chefe estalou os dedos, «Isso, o Porcos e Diamantes!», e voltou a girar a cadeira para mim. «Gosto particularmente de uma passagem do chefe dos bandidos naquele momento em que explica aos três pretos como se devem livrar dum corpo sem deixar pistas». De súbito, o rosto escureceu e fechou-se numa expressão de pedra. Os lábios começaram a recitar: consta que o melhor é cortar um corpo em seis pedaços. Depois, ouvi dizer que se deve dá-los aos porcos. É preciso fazê-los passar fome por uns dias; então, até um cadáver às postas vai lhes parecer um manjar. Têm de rapar a cabeça da vítima e arrancar-lhe os dentes, para não atrapalhar a digestão dos bichinhos. Precisam de pelo menos dezasseis porcos para fazerem o trabalho de uma assentada, por isso, fiquem longe de homens com quintas de porcos. Cortam osso como se fosse manteiga e devoram um corpo com 90 quilos em cerca de oito minutos, o que significa que cada porco consome mais de um quilo de carne crua por minuto; daí a expressão "ganancioso como um porco". Quando terminou, continuava a perscrutar-me com gelo nas órbitas. «É mais ou menos isto, mais porco, menos porco…» Deixando-me afectar, por fim, comecei a sentir-me desconfortável e mexi-me na cadeira. Tinha a garganta seca. Farejando a minha fraqueza com aquele narizinho húmido e ranhoso, o fuinha do Jonas acercou-se de mim e colocou-me uma mão no ombro. Olhei para ela, estremecendo perante aquelas unhas roídas e o cheiro rançoso. Percebendo o meu nervosismo, as linhas do rosto afrouxaram e soltou uma longa gargalhada mais falsa do que Judas, exibindo os dentes brancos e arrumadinhos, incitando-me a descontrair. «Devia ver o ar dos pretos a quem ele diz isto. Olhe, é exactamente a cara que está a fazer agora!», e ria, divertido. Jonas juntava-se a ele, sem saber bem, desconfiava, o motivo da risota. «Para ser sincero consigo, não sei se é verdade, nunca tentei. Sou mais adepto do clássico de enfiá-los num carro e largar-lhes fogo», confessou, ainda rindo, «mas um dia destes, ainda tento», acrescentando que não me preocupasse com isso. «Sim, aqui somos todos amigos, não somos, Jonas?» «Somos, sim, chefe!», papagueou, apertando-me o trapézio. Encolhi. «Enfim, divago, perdoe-me, estou a desperdiçar o seu tempo. Vamos ao que interessa: de onde conhece a mulher?», disparou, sem papas na língua. Apercebendo-se de que durante a arenga do filme o cigarro se consumira, acendeu um de enrolar. Vinquei a fronte numa mirada intrigada, sem conseguir esconder a curiosidade. «Ah!, servi-me do seu tabaco de enrolar. Era o que eu fumava na minha juventude», acrescentou, num trejeito nostálgico, e ajeitou-se no assento. O verdadeiro interrogatório estava prestes a começar.