Ariel - Capítulo V

Nada funcionava direito na porcaria do R7. Que merda de carro tinha o Hel, chiava que nem um porco em dia de matança, guinava perigosamente nas curvas e, qual cereja no topo do bolo, os piscas não funcionavam. A minha sorte é que de carros de merda percebia eu, nem sempre conduzira o maravilhoso do R6, que agora galgava quilómetro atrás de quilómetro à minha frente. Porque carga de água trocara eu de carro com ele? Fora para me armar, fora para me armar a ele e, sobretudo, a ela. Sempre gostara de mulheres ruivas, desde que me lembrava, mas nunca comera uma, nunca. Agora, lá ia ela, no meu carro, ao lado do sacana do Hel. Caralho, estava com dificuldade em manter os olhos abertos, era o que era, pesavam-me as pálpebras, todo eu era cansaço e sono. Seria a isto que chamam velhice precoce?

Precisava dum gole de álcool, mas sentia instintivamente que não era altura de beber mais nada. Tentei concentrar-me nas luzes traseiras do R6 que me precedia. Raios, o que estava eu a fazer? Se o Hel me fodesse o carro, tinha eu sarilhos à grande.

Teria? Ora, deixá-lo, reflecti, tentando pensar noutras coisas. No trabalho. Nos documentos. No meu pai. Caramba, lindo serviço o meu, Lúcio Ferro, 33 anos, agrónomo da treta colocado no Ministério dos Estrangeiros (?!?) por especial cunha parental. Putanheiro, bêbado, cínico, divorciado. Amigos? Talvez, o Hel, sim, o Hel era um amigo. Aliás, se não fosse o Hel, a sua juventude contagiante, a sua ética imparcial, completamente destituída de falsos pruridos ou das hipocrisias mais ou menos moralizantes que por aí abundam, se não fosse ele, tinha a impressão que há muito teria dado um tiro nos miolos e mandado tudo o resto à puta que pariu. Sim, o Hel era um amigo, como só um verdadeiro amigo pode ser: compreensivo quando é justo sê-lo e implacável quando não há outra possibilidade.

Liguei o rádio, milagre, funcionava! Oceano Pacífico, Oceano Pacífico. Ah, sim, o oceano pacífico, estávamos en route para Cascais, assim é que era, tínhamos deixado o 23 para trás, belo tasco, a vida era bela, a gaja que ia ao lado dele no meu carro também, eu não era novo mas podia ainda vencer; ainda podia vencer na vida. Refeito com este pensamento confortador, desci o vidro, escarrei para o asfalto e acelerei, para não deixar escapar da vista a traseira do R6.

Nisto, quase que perdia a saída da auto-estrada e praguejei ao constatar, mais uma vez, que os piscas do R7 não funcionavam. Fui encadeado pelos máximos dum carro atrás de nós, meti pelo desvio, reduzi e um carro atrás de mim quase que me batia. Marimbei-me no caso, curioso, desta feita nem luzes me haviam dado, como um peixe abri e fechei os olhos, várias vezes, e, com a boca aberta, de língua de fora, fiz brâbrâbrâbrâ múltiplas vezes, a ver se despertava. Funcionou. Ao menos eu funcionava.

Seguíamos para a quinta do Hel. Que bonita procissão. O Hel e a Ariel, aquela ruiva puta ou puta ruiva, no meu carro novinho em folha; eu, no chaço do Hel e, lá mais atrás um carro branco, curioso de novo, aquele porco deveria ir para o mesmo sítio que nós, talvez para Sintra, estranho caminho o dele, era o gajo que não me dera luzes; experimentei uma vaga sensação de perigo, mas até que nem íamos muito depressa e conclui que devia ser ainda a bebedeira, de certeza, tinha de me concentrar no que estava a fazer.

Passámos por Birre a abrir, na rotunda o Hel meteu demasiado depressa em direcção à Ericeira e ao fazê-lo as rodas traseiras do R6 resvalaram perigosamente e ele foi forçado a contra-guinar, quase saindo da estrada; mas o gajo estava doido ou quê? Tive que travar a pé fundo para não lhe bater e por meu turno quase que era abalroado pelo carro branco atrás de nós.

Em fila indiana, seguimos, agora mais devagar, parecia que o pulha do Hel estava a tentar localizar-se (nunca lhe deveria ter oferecido aquela última aguardente). E a Ariel, em que pensaria? Aquela miúda era realmente fora de série. Caramba, pensando melhor nisso, era uma miúda acima até da minha Liga, já não falando da do Hel. Bizarro, este filme todo era bizarro e mais bizarro era não saber qual seria a continuação. Fodê-la-ia eu, ou ele? Faríamos uma menage? Ficaríamos ambos a chuchar no dedo? Hum, muito estranho tudo isto, mas enfim, logo se tirava a prova dos nove.

O pobre do Hel devia estar mesmo mal. Quase que falhava a entrada da quinta e mais uma vez tive de desacelerar bruscamente para não bater na traseira do R6. Mas lá consegui e segui-o. No meu espelho retrovisor, o carro branco passou por nós, devagar, estranhamente devagar. O R6 estacionou um pouco mais à frente. Parei também, voltei o pescoço e olhei para trás. Raios. O camarada do carro branco, aquele carro que topara pela primeira vez à saída da auto-estrada, tinha-se imobilizado uns 50 metros à frente da entrada para a quinta. Estava parado, via-lhe as luzes por entre os pinheiros e, de repente, apagaram-se. Estranho, porra, muito estranho. E a merda dos documentos na bagageira do R6. Estaria eu a ficar paranóico? Hmm.

Voltei a custo a ligar o motor do chaço, avancei e estacionei, mesmo rés-vés, ao lado do R6. Desliguei o rádio. Oceano Pacífico, Oceano Pacífico. Pela janela aberta gritei para o Hel: «Ó, Hel, estás a dormir de olhos abertos, meu? ‘Tás bem?» O Hel não estava bem. Nada bem. Que filha da puta de sorte não me ter fodido o R6 todo. Balbuciou não sei o quê acerca da Ariel. Dormia, a puta, os seus longos cabelos alaranjados espraiavam-se pelo assento de cabedal, uma visão de anjo e ao mesmo tempo de pecado capaz de pôr o membro dum morto de pé. No entanto, havia no ar um perfume a aguardente e a esturro que não me agradou. Seria um incêndio? Não há incêndios no Inverno. E depois havia uma outra coisa. Aquele carro branco que, tinha a certeza, não se fora embora ainda. O Hel continuava meio bêbado, meio menino, a dizer não sei o quê de acordar a ruiva. Mais valia que a violasse assim, enquanto a puta dormia, tonta. Pobre Hel, às vezes era completamente inocente e tentei fazer-lhe ver isso mesmo: «Acorda-a tu, eu tenho de ir ali num instantinho». E tinha, de facto. Antes de tudo, tinha de certificar-me duma coisa
.

Pus-me a mexer sem lhe dar tempo para réplicas. Mexia-me agora velozmente, silencioso, na diagonal, até o sítio onde sabia existir um buraco na vedação da quinta, lembrava-me bem, no Verão anterior numa patuscada comentara com o Hel que era uma pena, que por ali «podiam entrar malfeitores». Na altura ríramos ambos, mas agora não era ocasião para graças. Eu ia com um objectivo; podia até ser que me enganasse, mas podia ser que não, e é pela dúvida que morre o burro, como é costume dizer-se. Lá estava o buraco na vedação, eheheh, nem o Hel nem os seus velhos avós, (O Hel é órfão de mãe e pai, talvez por isso a nossa amizade, eu também era órfão, isto se não contasse com o meu velhote) haviam mandado consertá-lo.

Esgueirei-me como um gato e zás, em três minutos ali estava eu, agachado, mesmo na traseira do carro branco. Sempre tivera razão, alguém nos seguira, a mim, a ele, a ambos, ou, hum, ou se calhar a ela, a Ariel… Porque razão nos haviam seguido? Lentamente, fui torneando a traseira do carro para o lado do condutor. Uma mão pendia da janela. Uma mão feminina, e dos seus dedos um cigarro com sabor a mentol. Com sabor a mentol… Hum… Sabia, ou julgava saber, quem nos tinha seguido. Contudo, só havia uma maneira de descobrir… Se estivesse enganado…

Ergui-me lesto e em dois passos estava junto à janela do condutor. Não me enganara. Trocista, escarninho, berrei-lhe aos ouvidos: «Que fazes aqui? É um bocadinho tarde para andares à caça dos patos gambozinos, não achas Telma?» Ela foi percorrida por um calafrio, dos bicos das unhas dos pés até à ponta dos seus cabelos loiros encaracolados e acho mesmo que se tivesse tomates estes lhe teriam caído ao chão; como não os tinha, foi só o cigarro. Antes mesmo deste chegar ao solo já eu dava uma longa passa e a inquiria, desta feita suavemente, quase melífluo, para ganhar balanço: «Então, amor, que fazes aqui?»

Respondeu da última forma para a qual estaria preparado. Torceu a boca, os olhos brilharam-lhe dementes e desatou num pranto tão inusitado quanto inquestionável, aqui e ali pontuado por desabafos e acusações: «Sim, segui-te, sim, sou uma puta, uma puta sim, mas segui-te porque te amo, até uma puta pode amar, porque te odeio, porque não suporto que tenhas saído com essa ruiva infernal que teu a volta à cabeça!»

Aquilo não estava a convencer-me de todo, já se sabe, de puta loira nem bom casamento nem boa foda mas, entretanto, o choro dela estava a dar-me tesão, senti o pau crescer-me nas boxers e resolvi que por agora acreditaria naquela tolice dela: «Gostas de mim, como assim, como é que podes gostar de mim?» E ela que gostava, que me desejava desde o primeiro momento em que eu entrara no 23, há uns bons seis meses atrás, que ficava fula cada vez que me vira sair com outra, que não percebia porque nunca solicitara os seus serviços… Pois, pois sim, eu sabia, era a tal história de putas loiras e de casamento, ó se sabia.

Finalmente relaxou. Lembrei-me do Hel e da Ariel. Que berbicacho este e agora, que podia eu fazer? Apetecia-me foder esta gaja que lacrimejante me confessa a extensão do seu amor, mas não sabia bem como. Então, lembrei-me da chave do anexo, afastado da casa principal da quinta uns bons 100 metros e que o Hel guardava debaixo do tapete da porta, «para quando chego bêbado e não quero armar estrilho Lúcio, ahahah! Quando quiseres vir cá abancar, ‘tás à vontade, só quando venho muito bêbado é que aqui entro, ahahah!»

O diabo é que naquele preciso momento o Hel estava bêbado, podia muito bem dar-lhe para lá se ir enfiar com a puta da Ariel e depois era uma chatice. E daí, até não; em sendo esse o caso, faríamos um foursome. Contudo, mais uma vez, merecia a pena confirmar as intenções dele, nessa noite não estava numa de partilhas.

A minha mente fervilhava num misto de excitação e de ressaca, Telma soluçava, boa como o milho, bela, vaca, puta, em todo o seu esplendor. Preguei-lhe um magnífico linguado, longo, e saquei-lhe as lágrimas do rosto com a língua. Pareceu animar-se. Tossiquei intencionalmente e disse-lhe, pausado: «Escuta, vês ali a casa?» E ela que sim, acenando. «Bem, daqui a vinte minutos, vês ali aquele anexo?» E ela, outra vez que sim, a fazer beicinho. «Bem, daqui a vinte minutos, vais lá ter comigo, mas não faças barulho, não faças barulho algum senão ‘tás fodida comigo, compreendido?» Acenou outra vez, ainda de beicinho, quase linda, depositei-lhe novo beijo e afastei-me pelo caminho por onde viera.

Ao chegar perto da casa o cenário havia-se transformado substancialmente. O Hel e a ruiva, em amena cavaqueira, que amigos que eles estavam, subiam o carreiro sinuoso. Decidi divertir-me um pouco, saltando-lhes ao caminho, estaquei sardónico e invectivei-os: «Hel, onde pensas tu que vais sem mim?»