Ariel - Capítulo XI

Larguei o Lúcio com um suspiro de alívio, que se despenhara na minha cama. Não era agora mais do que um peso morto. Debatia-se com o mal-estar, soltava alguns gemidos e a todo o momento mudava de posição, tentando encontrar um nicho confortável para fechar os olhos de vez, pelo menos, durante esta noite. Conhecia-o de ginjeira. Um gajo como o Lúcio não comia, antes se alimentava de tabaco e café, com álcool para a sobremesa. De certeza que não comera nada o dia todo e o resultado estava à vista. Era um estilo de vida que não conseguia acompanhar; a minha incursão no bar era prova viva disso. «Ele vai ficar bem?», perguntou a ruiva, por trás de mim, com um tom de voz, porém, vazio e despojado de emoção sincera. Respondi-lhe que sim, que só precisava talvez de umas horas de sono. Sentei-me ao lado dela e dei um golo no whisky. Saboreei. Felizmente, enchera o meu copo antes de o Lúcio destruir o bom do Chivas. Comecei a pensar: com o Lúcio K.O. e a mulher só para mim, talvez fosse hora de lhe fazer uma visita guiada a um anexo da quinta em que fizera uns arranjos e que reservava para momentos de maior privacidade, «para quando chego bêbado e não quero armar estrilho Lúcio, ahahah!», revelera ao meu amigo, no Verão, enquanto jogávamos um partida de xadrez ao abrigo da sombra fresca da videira, de calções e chinelos, refastelados, ouvindo blues e esticando o braço apenas o suficiente para ir arrancando bagos. A voz do Lúcio arrastando o meu nome pela boca fez-me olhar para trás. Percebi que passava mal, os olhos vítreos incapazes de focar. Que belo bico d’obra em que se meteu. Não gostava nada de ser ele quando acordar. Voltei-me para trás e disse-lhe que descansasse um pouco, que de certeza era por não ter comido nada. Amanhã, «isso já passou». Fechara os olhos antes de ter terminado de falar. De súbito, senti a ruiva colocar a mão sobre a minha perna, deixando-a escorregar pela minha coxa. Agradavelmente surpreendido, e já preparado para empregar todo o meu charme, exibindo um sorriso convidativo e descontraído, voltei o olhar para ela, mas o seu rosto caiu sobre o meu e os longos finos fios de cabelo vermelho explodiram-me no olhar. O seu corpo, porém, parecia mole e não reagia às minhas mãos. Apercebendo-me da intenção dela, segurei-a com mãos firmes e ajudei-a a encostar-se no sofá. Estava pálida e desculpava-se, tinha tido uma tontura. Via-se o cansaço e o excesso de álcool espelhando-se no rosto dela. Mau!, também ela? Via a noite vir por aí abaixo e isso não me agradava. Sem o Lúcio, pronto, a noite ainda tinha solução, tinha a mulher, tinha bebida, tinha privacidade. Agora, sem a miúda e com o Lúcio fora de combate é que a coisa se revelaria um fiasco absoluto. Nada podia fazer pelo meu amigo, senão dar-lhe um tecto para curar a bebedeira, mas, escrupuloso por vezes até de mais, sabia que podia fazer alguma coisa por ela, para evitar que chegasse ao estado do Lúcio. Além disso, só tinha aquela cama e não achei boa ideia acondicioná-los entre os mesmos lençóis. Hm… não, pois não. Talvez a pudesse deixar a dormir no anexo. «Queres deitar-te? Tenho um sítio onde…?» «Não!... Não, eu... não posso e… ainda me vou sentir mal. Só preciso de apanhar ar, mais nada», entabulou, de repente, mais desperta. Olhei pela janela e percebi que a chuva tinha passado, se bem que ainda ventava (sem dúvida, se era ar que ela queria apanhar, teria de sobra), o que, aliado à escuridão que preenchia todos os espaços na quinta, me retirava qualquer vontade de fazer um passeio nocturno. Encarei-a, mas os seus olhos rogavam-me, como uma criança que quer muito alguma coisa e parece que vai desatar a chorar se não o fizermos. E, como uma criança, só lhe faltava saltar de felicidade, quando os olhos brilharam de gratidão, em resposta ao meu consentimento. Pediu-me se podíamos ir de carro. Sabia que eu morava perto do mar e a maresia fazia-a sempre sentir-se melhor. Adorava o mar, confessou, parecendo ganhar um boost de energia. Lancei as mãos às chaves do R7 e ela, mais rápida do que esperava para quem quase desmaiara, colocou a mão sobre a minha, fazendo-a cair como uma pena, deixando-a por instantes, retirando-a depois, raspando a ponta das unhas vermelhas sobre as costas da mão. Estremeci por dentro, mas restringi a emoção. A miúda afectara-me, muito, demasiado. Só me apetecia aproveitar a deixa e levá-la para o anexo, mas, era escrupuloso, demasiado, por vezes. Caralho! «E se levássemos o carro do teu amigo… Hel?» Pronunciara o meu nome com afecto, quase com carinho, a voz ao pronunciar o meu nome escorregou-me pelo ouvido, melíflua, uma sinfonia perfeita. Por um fragmento de segundo, odiei-a. Estava enfeitiçado, raios, enfeitiçado! Noutras condições, se alguém me fizesse um pedido destes – levar o carro novo do meu melhor amigo, o R6!, sem autorização – jamais consentiria. No entanto, naquele momento singular, tentava arranjar argumentos para finalmente pegar nas chaves do R6. Afinal, conhecia bem a zona e a praia não era assim tão longe quanto isso. Além do mais, grande parte da bebedeira escoara-se pelo cano da retrete do 23. Sentia-me leve e desperto. Sem retorquir com palavras, larguei as chaves da minha chocolateira e peguei nas do bólide. O meu inconsciente lançava-me reprimendas severas e, estranhamente, assumia a voz do Lúcio: Se me fodes o carro, puto, se mo fodes…! Não resisti a atirar um soslaio para os lados da cama. Os seus lábios estavam selados, abrindo-se somente para deixar sair um ou outro ronco ocasional. Agarrou-se ao meu braço, satisfeita, e saímos.

Pressionei os comandos do R6 e as portas concederam-me o acesso com um sinal luminoso e um «bipbip». Ela preparou-se para se instalar de imediato nos bancos de trás e gracejou, dizendo-me que não queria ir ao meu lado, não fosse distrair-me e tirar os olhos da estrada, como era meu hábito. Ri e disse que podia fazê-lo na mesma. Abri a porta, mas mudei de ideias. «Vou só ali, já venho». Ela percebeu e disse que não ia a lado nenhum. Pus as chaves no bolso e, apressado, fui procurar um canto. Não mijava desde que saíra da faculdade e apercebera-me dolorosamente desse facto: o álcool acumulara-se-me na bexiga, que inchava, prestes a explodir. «O que é que estás a fazer?», puxei para mim a ruiva pelo braço (ao regressar do meu momento de privacidade), que apanhara a remexer na bagageira, gritou de susto e gaguejou uma justificação, que não era nada… nada disso, tinha reparado que a porta da mala estava mal fechada, estava só a verificar, a fechar melhor. Estudei o interior. Papéis, ferramentas, um colete… Olhei para ela. Estava assustada. Talvez ainda não estivesse tão lúcido quanto isso. Que podia ela querer da bagageira? Não parecia haver coisa alguma de interesse. Comecei a afrouxar os dedos e soltou-se, esfregando o braço. «Desculpa… eu, eu voltei… vi-te a… parecias estar a mexer e…», principiei, envergonhado. «Não faz mal, eu percebo, estavas a olhar pelo teu amigo». Forçou um sorriso e entrou. Sentei-me ao volante e fechei a porta.

Enrolei um cigarro. «Dás-mo?» Passei-lho e principiei o processo. Meteu conversa comigo, disse-me que eu não parecia do tipo que solicitava os serviços de uma mulher como ela. Solucei uma gargalhada, com o filtro entre os lábios, e retorqui, empregando a mesma frieza que ela dispusera comigo ao longo da noite, que, então, era porque ela não parecia uma mulher do género de que ela tanto se esforçava para me convencer. Aliás, tinha a certeza disso. Acendi o cigarro. Virei-me para trás, com um sorriso carinhoso, para lhe dar a entender que brincava. O rosto dela espelhava um misto de confusão e alívio. No fim, rimos os dois, tacticamente. Senti que reconquistara o meu lugar hierárquico nos eventos daquela noite tão invulgar. Dei à chave e senti-me ser repossuído pelo R6. O carro parecia estar imbuído da personalidade do Lúcio e sentia uma dose da confiança dele tomar o controlo sempre que me sentava ao volante daquela máquina. Com um sorriso nos lábios, depois de uma longa passa que me soube pela vida, arranquei rumo à praia, sempre na mecha, mas não muito, não queria foder o carro ao Lúcio, não é? Não me fodas o carro, puto…! Ri em silêncio.

Tagarelámos sobre banalidades, ela tornara-se muito conversadora. Descontraímos e falámos de assuntos inócuos. Revelei-lhe o que fazia, falei-lhe do doutoramento, que estava a ir pelo cano abaixo. Brinquei com a situação. Ela contou-me uma história sobre estudar letras e não estar ainda acostumada à vida da noite. Acreditei, porque não? Em poucos minutos, num avanço suave e sereno pela estrada até à praia, riamos com sinceridade, ela pela primeira vez naquela noite, sem insinuações, sem jogos de poder, no fundo, não interessava: percebera há muito que a noite não passaria dali. Ela revelava uma inteligência aguçada e um humor de uma mordacidade à toda a prova. Era raro encontrar mulheres assim. «Obrigada pela paciência que tiveste comigo, já estou bem melhor». Recostou-se e respirou fundo o ar frio da madrugada. Daí a um par de horas, amanheceria e a vida voltaria à engrenagem habitual. Suspirei. Acabara outra vez por ser o bom da fita.

À medida que devorava os metros ao longo da estrada, começava a ouvir o rugir das ondas negras esmagando-se contra a fortaleza de rochas que coroavam a praia e a inspirar a maresia que se insinuava e se intensificava, enquanto a distância entre o carro e o mar se esbatia. Caláramo-nos e o manto silencioso que nos envolvia era confortável. Aproximávamo-nos da praia. A estrada que a costeava, além de estreita, apenas com espaço suficiente para dois carros, de preferência pequenos e esguios (quantas vezes não ficara preso no trânsito devido a dois autocarros que se cruzavam e insistiam em passar ao mesmo tempo), estava esburacada para além de qualquer remédio, vaticínio de um despiste certo, se o caminho não me fosse já habitual e se não reduzisse para uns confortáveis 50 Km/h. Claro, o facto de ter nas unhas o R6 também me incutia uma maior sensação de segurança. Naquela semi-obscuridade lunar e com a bebedeira a que já me presenteara esta noite, dei graças por não me ter aventurado por aqueles caminhos rolando sobre os pneus quase carecas do R7. Ao desencostar o pé do acelerador, senti dois faróis atrás de mim, distantes, ainda, mas com o olhar luminoso fixo em mim. Reduzi mais um pouco. Reduziu também, preocupado em manter a distância que nos separava. Talvez não passasse de um condutor zeloso, que não conhecia o percurso, senão pela reputação dos inúmeros acidentes que ali tinham lugar, e que não queria aproximar-se. Contudo, sentia-me inquieto, um arrepio trepou-me pela espinha acima. Olhei pelo retrovisor e pisei o pedal com mais convicção; o ponteiro subiu lentamente dos 50 para os 60 quilómetros. Notei que os faróis não se afastavam, antes pareciam determinados em manter sempre o R6 ao alcance da vista. Custava-me a acreditar que estivéssemos a ser perseguidos. Pelo espelho, olhei para a ruiva, que me fitou com olhos emudecidos, com um silêncio tão opressivo como o meu. Houve entre nós um clarão de entendimento. Havia alguém no nosso encalço?, seria possível? «Por acaso…?», comecei; sentia que ela me escondia alguma coisa, que escondera a noite toda alguma coisa, e preparava-me para extrair algumas respostas. Não me agradava ser perseguido por estradas desertas a altas horas da noite. Mas ela interrompeu-me com um abrupto «Acelera!» Como não obedeci com prontidão, com agilidade felina, passou para o lugar do morto e pisou-me o pé contra o acelerador: «Vai, acelera!» «O que se passa? Sabes quem é?», perguntei, enquanto o carro torpedeava noite dentro. «Acho que sei…», respondeu, com a voz a tremer. A estrada era agora feita de buracos e areia, devido ao forte vento que se fazia sentir e que cobria o percurso com um espesso manto arenoso. «Achas?», perguntei, exasperado, quando me vi forçado a travar e a guinar para manter o controlo do carro que resvalara em direcção aos penhascos. «Não me apetece morrer hoje só porque achas que sabes quem está dentro daquele carro!», ripostei, furioso. Voltei a observar o nosso misterioso perseguidor e sentia-o perscrutar-nos por trás da luz, frio e implacável, o carro agora soltando roncos furiosos na tentativa de acompanhar o R6, tarefa, diga-se de passagem, que não era fácil. Naquela estrada e com tão pouca luz, fosse quem fosse, se se conseguia manter na minha peugada, era bom e sabia o que fazia. «É ele, só pode ser ele! Tens de me tirar daqui!», gritou, implorante, agarrando-me o braço. A voz dela, por vezes fria, por vezes convidativa, há pouco tão sincera, tresandava a medo e a pânico. Reparei, pelo canto do olho, que resistia às lágrimas que teimavam em acorrer-lhe aos olhos. «Se o despistares, conto-te tudo, tudo, talvez até possas ajudar, mas acelera mais, acelera!» e o ponteiro subiu para os 110. Boa, era o que me faltava. Um dos meus motes era não me meter nos problemas alheios e, agora, via-me no carro do meu melhor amigo, com uma mulher tão enigmática quanto atraente ao lado, perseguido no escuro por um psicopata qualquer. Não sei que tipo de gajo podia instilar-lhe tanto medo, mas também não planeava ficar nas redondezas para descobrir. Mesmo que me quisesse descartar, se fosse apanhado, levaria por tabela. Respirei fundo e reuni todas as minhas forças para me concentrar. Ela percebeu e lembrou-se de puxar o cinto.

A perseguição durou ainda uns bons dez minutos. O facto de se tratar de um único caminho tornava impossível despistá-lo e obrigava-me a depender somente da velocidade, pelo menos, até que a estrada se desenrolasse em mais percursos. Frenético, com o olhar preso no caminho tenebroso e com as mãos presas no volante, a noite tornava-se um borrão sobre os meus olhos; senti o R6 forçar a caixa para além do limite.

Abri os olhos, incerto do que se passava, e olhei para o lado. A ruiva esfregava o ombro, gemendo, e parecia atordoada. Abri as mãos, que se haviam encrespado em torno do volante, e senti as palmas suadas descolarem da borracha e os nós dos dedos estalarem. Estávamos parados. O carro passara por outra passadeira de areia, desta vez, demasiado depressa; travei, guinei, fiz o jogo de caixa, mas acabámos por derrapar e sair da estrada. Num último sopro de presença de espírito, consegui evitar a morte certa em direcção ao mar, escarpa abaixo, e lançar o carro para a esquerda, em direcção à vegetação, até que, depois de rodar sobre o seu eixo sem parar, estacou, mesmo rente a uma árvore. Por pouco não me esmagara contra o tronco. Constatei que a minha companheira estava bem, apenas assustada e atordoada, e voltei o pescoço para o barulho de motores que cessavam. Estava perto o suficiente da estrada para a ver claramente, quando os dois carros se aproximaram do R6 e travaram. Espera lá! Dois carros? Do carro que nos perseguia, portentoso e robusto, saíram dois vultos. Do outro, mais pequeno, que pelos vistos se ocultara atrás do primeiro, saiu outro. Estavam a poucos metros de nós, juntaram-se, acenderam lanternas e começaram a avançar. Os focos de luz incidiam sobre as nossas caras e percebi, então, sob o brilho dos feixes, a extensão do terror dela, pálida e transida de medo. Estavam agora a pouco menos de três metros, quando estacaram e ouvi uma voz rouca: «Vá, conseguimos vê-los ai dentro. Se saírem a bem, vai ser mais fácil». «Mas, se quiserem sair a mal, tanto melhor». Acrescentou outro e riu, juntando-se à sua gargalhada a do primeiro tipo. Não havia fuga possível, nunca conseguiríamos sair do carro e fugir sem que nos deitassem as patas. Segurei a mão dela, trémula, gélida que nem a morte imaginava tão fria, e tentei tranquilizá-la, «vamos safar-nos desta, Ariel, vamos arranjar maneira…», mas era inútil, a minha voz entrecortada pelos soluços dela e o meu coração descompassado revelavam-lhe a mentira óbvia. Entreolhámo-nos e saímos do carro, postando-nos à frente das três luzes, que me obrigavam a semicerrar os olhos. Sentia o vento frio do mar bater-me na cara, escutava as ondas surdas no seu ataque incessante contra os rochedos, e, misturado com o cheiro a sal, um estranho aroma subiu-me pelas narinas, primeiro desconhecido, em seguida familiar, mas que depois me viria a aperceber de que era mentol. O vulto do segundo carro avançou uns passos, deu uma longa passa no cigarro e dirigiu-se aos outros dois. Uma voz de mulher, corrosiva, chegou-me aos ouvidos: «Vamos, rapazes, nada de violência. Não vêem que eles estão a colaborar, até saíram do carro, como tão educadamente pedimos». Desataram os três a rir, até que, do primeiro carro, outro homem se ergueu, «Tragam a mulher, não temos tempo a perder», tranquilo, com uma voz que, noutras circunstâncias, classificaria como cordial; era ele que claramente puxava os cordelinhos. Que merda!, quantos mais sairão dos carros!?, pensei, sentido calafrios correrem o corpo, dos pés á cabeça, da cabeça pela coluna abaixo, pelos braços, suando em bica, apesar do vento frio, dando comigo a pensar que ainda me ia constipar; engraçados os caminhos por onde a mente nos leva quando o medo é tão opressor que não há outra coisa a fazer senão enfrentá-lo ou escondermo-nos debaixo de uma pedra. A meu lado, Ariel estava petrificada. «Meninos, divirtam-se!», declarou a mulher. Deu uma última passa no cigarro, atirou-o para o chão e foi para junto do quarto elemento. Vi os dois vultos unirem-se na penumbra, sob a lua empalidecida pelas nuvens, como se se beijassem.

«Vou eu ou vais tu?», perguntou um dos homens munidos de lanternas. «Podes ir tu, vê-se que mal te conténs». Ele agradeceu a oferta e avançou para nós. Estacou. Rangi os dentes e fechei os punhos. O bruto fechou a mão simiesca sobre Ariel, puxando-a com tanta força que parecia apenas querer levar-lhe o braço, deixando o resto para trás. «Anda, o chefe está à espera». Instintivamente, lancei a mão ao outro braço e a luta que se seguiu foi de pouca dura. Assobiando o ar, um punho esmagou-se contra o meu estômago, torcendo-o e contorcendo-o, caí de joelhos, dobrado e vomitei tudo, lutando para respirar, até só sair bílis. Olhei para cima e vi que o homem se afastava com Ariel, arrastando-a pelo braço, que se começara a debater como uma louca. Chegada ao chefe, voltou a cair num mutismo lívido. Ouvi o bater de uma mão no rosto; ele desferira-lhe uma chapada e entregara-a à cúmplice. «Amarra-a e enfia-a no carro! Vai contigo», ordenou, impiedoso e resoluto, porém, calmo o suficiente para dar a sensação de que pedia a alguém que pusesse as compras no carro. Queria agir, queria ir lá e partir-lhe a o nariz, os dentes, a cara, os ossos todos, mas os meus pés pareciam ter-se enraizado no solo. «E o outro?», perguntou a mulher desconhecida. «Eu sei que não é ele, mas… não podemos permitir que se vá embora. Matamo-lo?»

Era agora, era o fim, ia morrer, a cortina ia descer, ia morrer sozinho, no escuro, numa estrada abandonada! Ouvi dizer que, nos últimos momentos de vida, esta nos passa diante dos olhos. É mentira. A única coisa que naquele momento me passava diante dos olhos era um grande vazio, de ideias, de reacção, o cérebro cessara o funcionamento, repassado pelas emoções. Por si só, as pernas começaram a recuar uns passos. Ouvi um estalido e parei, em pânico. Vira suficientes filmes de acção para saber como soava uma arma ao ser engatilhada. O manda-chuva aconselhou-me a ficar quietinho no lugar. Asseverou-me que era um bom atirador. Claro, que se eu lhe quisesse dar o gosto de uma fuga, estava à vontade. «Por quem nos tomas, rapaz?», ironizou, divertido. «Não te vamos matar, não te preocupes… não agora, não aqui, hahaha! Temos apenas alguns assuntos pendentes a resolver com a tua amiga, é tudo», declarou, sardónico. «Uma vez que a encontramos na sua excelsa companhia e com um carro que não lhe pertence, como compreenderá, faz agora parte integrante dos nossos negócios, bom senhor». Abriu a porta do carro e estendeu a mão: «Vamos?» Sentia-me estupidificado. Mais um pouco e o tipo convidava-me para jantar; na calha, ainda me oferecia sobremesa e café. «Chefe, podemos só dar-lhe uns tabefes, para o aclimatar à nossa presença?», perguntou um dos gorilas, expectante da resposta, como uma criança traquina e impaciente. «Hm…», o chefe debatia-se com a ideia, «Hm, bom, vá, está bem, agora que o vento corre de feição e que tudo se vai resolver, pode ser, divirtam-se», falou, com bonomia irónica e indulgente. «Mas!...» advertiu, silvando, «Não se deixem levar, quero-o vivo e em condições de falar! Isto vale sobretudo para ti, ouviste, Tubarão?», advertiu o chefe um dos homens, que logo anuiu, asseverando-o de que assim seria. Quem raio tem a alcunha de Tubarão?, pensava, logo descortinando que a resposta não se omitiria durante muito mais tempo.

Engoli em seco. Os dois brutamontes aproximavam-se como se fossem espectros… espectros estalando os punhos do tamanho de bigornas; e nenhum deles era parecido com um tubarão. Num lampejo de lucidez, pensei em ligar ao Lúcio. Se este atendesse e ouvisse o que se estava a passar, talvez conseguisse ajuda, mas, quase no mesmo instante, lembrei-me: merda, não tinha saldo! Mesmo que tivesse, o Lúcio ainda não devia estar refeito da soneca que ficara a fazer na minha cama. Uma enorme vaga de impotência varreu-me a mente. Não restavam soluções e a fuga era impossível. Já estava de pé e à espera, pronto para me defender o melhor que sabia e podia, os dois espectros pairando sobre mim, perto o suficiente para lhes ver os olhos coruscantes.