Ariel - Capítulo VIII

O céu cobrira-se de nuvens espessas e pesadas, ocultando as estrelas, deixando escapar alguns dedos de uma pálida luz lunar. Parecia que ia chover outra vez, desta vez a sério. À minha frente, envolvido pela sombra húmida, o carreiro pela quinta do Hel até sua casa tornava-se cada vez mais íngreme. Sem falar que a obscuridade não me permitia ver um palmo à frente dos olhos. Distinguia vagamente a silhueta alta e magra do meu amigo, caminhando uns passos à frente, liderando o caminho por entre a treva, em piloto automático, como se os pés conhecessem o caminho por instinto. Apercebi-me, então, de que ele, apesar de bêbado, nem devia estar a usar os olhos. Afinal, sempre vivera ali. Já eu, desprovido do mesmo sentido de orientação, incauto e sofrendo ainda de uma ligeira embriaguez, esmaguei a ponta do pé contra um calhau saliente, soltei um uivo de dor, que se repercutiu no vazio, tropecei e a minha mão, num voo instintivo, levou comigo a ruiva pelo ombro, que caminhava alguns centímetros diante de mim, também com dificuldades em evitar as armadilhas do percurso acidentado. Os passos incessantes do Hel estacaram, o seu corpo virou-se (ou pelo menos, julguei que sim) e perguntou-nos se estávamos bem. «Já falta pouco», acrescentou, exortando-nos a ter cuidado, sobretudo à noite. Grunhi um agradecimento entre alguns impropérios, enquanto esfregava o pé que latejava de dor. Aceitei a ajuda da ruiva, que se levantara, leve e ágil, e me estendera a mão muda. Olhei para cima, para o rosto dela, mas se mal via a mão à minha frente, muito menos lhe veria a cara. «O caminho é perigoso; há montes de calhaus e raízes salientes. Não te lembras, Lúcio?», lembrou, expedito e diligente, mas, de mim, não conseguia esconder a leve ironia subjacente que anos de amizade detectavam com facilidade. Sentia-o rir-se da minha figura. «Vá, menino, vá, à minha frente e vê se avisas acerca de perigos iminentes», respondi, seco. Depois de me ajudar a levantar, a ruiva puxou o vestido para baixo, tirou os saltos, adiantou-se uns passos e chegou-se ao Hel, talvez receosa de cair na mesma cilada que eu. Parecia estar a perguntar-lhe se faltava muito. Comecei a sentir alguns chuviscos bater-me na cara e instiguei os meus companheiros a apressar a marcha.

Na verdade, ao contrário do que o comentário do Hel sugeria, tinha boas memórias daquele lugar. No Verão, o meu amigo convidara-me para almoçar, «uns grelhados, uns vinhos, o que dizes?». Aceitei, claro. Nessa altura, além do buraco na vedação refundido por alguma vegetação, reparara que se tratava de uma quinta modesta, mas, ainda assim, com alguns anexos, uma pequena plantação de vegetais e uma videira frondosa que emanava um odor adocicado e encobria o soalheiro pátio de entrada, onde, nesse dia, preparáramos uma bela refeição, regada do bom vinho a que a amizade e a camaradagem instam. Apercebera-me, também na altura, de que alguns dos anexos tinham um ar abandonado, exibiam até uma extensa camada de musgo. Todavia, no meio daquele breu e névoa, todo o espaço se me apresentava ao olhar indecifrável e impenetrável. Lembrei-me também de me ter contado que o avô fora, há algumas décadas, alguém – se bem que não a nadar nele – com papel, desafogado e com negócios próprios. Torrara tudo em bebida e putas. Agora, sobrava-lhes a quinta e só porque a avó conseguira salvar o suficiente para saldar as dívidas e subsistir.

Como sabia que o Hel fazia o que podia para ajudar a manter o sítio, foi com surpresa que constatei, depois de um caminho sem mais incidentes de maior e de atravessar a pesada porta de madeira que dava para o interior do anexo em que vivia, que o traste se munira de um computador topo de gama, uma boa aparelhagem e, imagine-se, um plasma, o que parecia no mínimo suspeito para alguém que alegava ver televisão «apenas quando passam as notícias». Virei a cara com um esgar trocista e comentei que ele nunca me chegara a dizer quanto recebia de bolsa do doutoramento. «Ó, sabes, dá para viver», retorquiu, alheio, como se não fosse nada com ele. Não admira que estivesse tão fulo por lhe irem tirar a bolsa. Pensei como é fácil habituar-nos às benesses que recebemos, já o contrário… Também eu já passara pela minha quota-parte de dificuldades.

«Hel? Vou pôr as chaves da tua lata ao pé do computador. Põe também as minhas aí, que não as quero perdidas, ouviste?» Anuiu com um movimento de cabeça, atirou-me as chaves do R6, que coloquei junto das dele, e regressou à tarefa de desocupar o sofá de algumas roupas, no qual me acomodou e à ruiva; e eu, sentindo-me mais confortável e repousado o suficiente da caminhada, decidi deixar os assuntos seculares de lado e, esfregando as mãos, dedicar-me a assuntos mais, er, espirituais. Lembrei-me da ruiva, que acendia um cigarro, recostada no sofá, e do que nos levara até tão longe, até à casa do Hel, perdida no matagal que atravessáramos. «Meu caro, recorda-me, onde sonegas as bebidas?», perguntei, ávido e impaciente. Nos últimos tempos, Hel vinha-me tantalizando com a sua recém adquirida colecção de bebidas espirituosas. «Ora, ora, e eu lá sou homem de sonegar bebidas aos amigos!», declarou, jovial e prazenteiro, «vem comigo». Deixámos a ruiva estendida no sofá, gozando o seu cigarro, que levava à boca em gestos lentos e pensativos. Não exibia a mínima vontade de nos acompanhar. Era óbvio que precisava de uma bebida para reacender a faísca que, no 23, estivera muito mais fulgurante. Chegados à cozinha, Hel conduziu-me ao seu bar improvisado, abri a porta do armário rasteiro, estiquei o braço e tacteei o vidro frio. Hm, várias garrafas, ainda pesadas. Inclinei a cabeça e espreitei. Soltei uma exclamação de aprovação, satisfeito por perceber que conseguira ensinar ao Hel alguma coisa sobre bebidas de qualidade: gin, whisky, água ardente, alguns licores, muitas destas garrafas ainda por abrir, o que era uma pena. Hel olhava para mim, de pé, com um trejeito de satisfação óbvio. Pedi-lhe copos e servi um Porto, brindámos à noite e degustámos lentamente, em amena cumplicidade silenciosa, a bebida que nos aconchegava num calor que se propagava, primeiro pelo estômago, depois pelo peito e só então cobrindo o corpo. Depois, saquei do whisky e despejei duas doses generosas, passei-lhas para as mãos e disse-lhe que levasse a outra à ruiva. «Eu já vou ter convosco. Antes, quero estudar melhor a tua colecção de garrafas». Afastou-se com os copos, não sem antes me dizer que me sentisse tão à vontade em sua casa quanto ele se sentia na minha. Fiz questão de frisar que assim faria e arranquei-lhe um sorriso rasgado. Instei-o com um gesto de mão a ir e a deixar-me a sós.

Servi-me de uma porção de gin com água tónica, peguei numa garrafa de whisky e saí pela porta das traseiras, que dava da cozinha para um pequeno espaço, que continha apenas um estendal de roupa, duas cadeiras e uma mesa, resguardada por um toldo. Sentei-me numa das cadeiras de plástico, ouvindo a chuva cair, sem vento, mas com uma atmosfera de humidade que começava a enregelar os ossos. Acendi um cigarro. Enquanto bebia, pensava na Telma; já estaria à minha espera no anexo, loira, chorosa e receptiva? O gin evaporara-se num ápice, o que me causou uma sensação de estranheza, já que não estava calor suficiente para que se desse um fenómeno dessa natureza. Decidi servir-me de uma boa medida de whisky (Chivas, muito bem, Hel!). Lembrei-me também da ruiva, deitada no sofá do Hel, com este certamente empregando todas as artimanhas do seu parco conhecimento para lhe saltar em cima. Que pensamento feio, Lúcio, que feio!, e ri em voz alta. Não obstante, devia voltar para junto deles sem perder muito mais tempo. Apesar de tudo, o Hel não era parvo. Temia que se escapulisse com a ruiva para o tal anexo e me deixasse à míngua. Pior, podia dar de caras com a Telma. E daí, talvez não fosse assim tão mau… A noite arrefecia a pique e o ambiente em casa augurava muito mais calor. Levei o copo aos lábios e deixei escorrer as últimas gotas. Hm, o whisky desaparecera misteriosamente. Poderia o copo ter alguma fuga…? Pendurando o cigarro nos lábios, voltei a servir-me do whisky (um último copo antes de regressar) e dei um longo trago. Caiu-me como napalm no estômago, incinerando todos os recantos das minhas vísceras. Soltei um arroto acre, os olhos abriram as torneiras e as minhas papilas torceram-se de indignação com o gosto a vomitado. Veio-me à memória que não tinha comido muito nesse dia, apenas uma sopa ao almoço, uma sandes à tarde e saltara o jantar, desejoso de chegar ao 23 e me encontrar com o Hel. Tentei levantar-me, mas a cabeça pesava-me e uma tontura atirou-me com violência para trás, contra o espaldar da cadeira. Parecia que todas as bebidas que ingerira ao longo dessa noite haviam tomado de assalto a minha cabeça para passar o serão

Regressei à cozinha, com a mão no estômago, olhei pelo corredor que dava para o quarto do Hel e pareceu-me mais longo e sinuoso do que antes, a imagem inclinava-se, desfocada e turva, tentei pousar a garrafa no balcão, mas falhei e foi estilhaçar-se aos meus pés, vidros por todo o lado e o odor do malte a insinuar-se pela casa. Do quarto do Hel, as vozes e risos abafados cessaram ao chinfrim abrupto do Chivas a embater no solo, um silêncio sepulcral e lívido abateu-se sobre a casa quebrado apenas pela voz do meu amigo, que ouvia chamar timidamente o meu nome, ao longe. Tentei encaminhar-me para o quarto, mas o corredor serpenteava e passava de turvo a branco, de branco a turvo, de turvo a branco… e, de repente, num esforço hercúleo, foquei os olhos e vi o Hel estacado à minha frente, também ele turvo, «estás bem?», ouvia a voz distante e envolta num estranho eco enevoado. Segurou-me pelo braço e guiou-me pelo interminável corredor, passo a passo a passo a passo, à medida que ouvia a minha voz trepar-me pela garganta, tropeçando a meio caminho na língua seca e brotando dos lábios como se outro falasse por mim, «eu… não, meu, deixa, deixa… chtou bem, foi zó… hm…uma indispoxição». Entrámos no quarto e a ruiva dardejou-me com o seu desprezo verde. Levantou-se para que o Hel depositasse o meu corpo no sofá, mas este fez-lhe sinal para que se deixasse estar, «na cama tem mais espaço», ouviu-o dizer. «Tu é que sabes», e voltou a sentar-se, levando o whisky aos lábios vermelhos.

Pesado como uma pedra, afundei-me na cama, quente, macia, que me abraçava com o carinho e o desejo que imaginava nos braços da ruiva. Estranha mulher. Conhecera-a hoje, naquele bar, com o Hel, e que incrível atracção exercia sobre mim. Sentiria Hel o mesmo? Aproximara-se de nós, nós dela, como se uma força nos atraísse, um misterioso desígnio e, copo atrás de copo, a conversa prolongara-se até quase ao fecho do bar. Já estava deitado, esparramado na cama. Pensamentos desconexos furavam e corriam os túneis da minha mente unindo-se a sonhos de cabelos de fogo e pele de seda. Seda a arder. Hehe… Ela ajeitou-se no sofá, cruzou as pernas e colocou uma mão sobre o joelho. À sua frente, de pé, Hel servia-lhe outra bebida. Conversavam. O seu riso entrecortado por sussurros cúmplices martelava-me incessante na cabeça. Virei-me de barriga para cima, depois para a esquerda, para a direita, de barriga para baixo, tentando fazer com que o quarto parasse de girar. Os meus olhos voltaram a tentar fixar os dois. Via o Hel, de costas, já sentado ao lado dela. Virou o rosto para trás e disse-me algo: «devias …scansar… um… pou… aposto que n… …este… o dia to…». Voltou a virar-se para a ruiva, num movimento lento e arrastado de cabeça. Ou talvez fosse eu. Vi que ela insinuava a mão branca pela perna do Hel e parecia aproximar o rosto do dele. «Ya, ya…» Pisquei os olhos, uma, duas vezes, tentando focar, lutando contra a torpeza, «talvez devesse…» contra as pálpebras que teimavam em fechar-se a ferros «descansar…». Semicerrei os olhos, por um momento, «só um bocadinho»… as vozes confundiam-se, abafadas por um trovão que ribombava lá ao longe… voltei a abri-los num esforço supremo… mas era demasiado.