Ariel - Capítulo I

Tinha bebido imenso, bagaço, vinho tinto, aguardente velha, eu sei lá! Sentia-me perdido, sim, um tanto ou quanto fora de mim, confesso; contudo, sabia que a noite não iria morrer assim, não, hoje não, muito obrigado. Tinha encontrado uma mulher que me agradava: ruiva, alta, esguia, uns perfurantes e felinos olhos verdes capazes de me atravessar o corpo e desvendar as torpes e abjectas intenções que se me aconchegavam no espírito. Isso excitava-me. Sem sombra de dúvida, excitava-me. Não só me excitava, como me incitava a pôr freio à bebedeira e me obrigava a manter a consciência intacta, muito embora sentisse que o meu crânio era feito de porcelana, pronto a estilhaçar-se ao primeiro impacto.

O passar do tempo tornava cada vez mais doloroso manter os olhos abertos. Hm… permiti aos músculos descontraírem sobre o assento esponjoso e rasgado da velha carcaça do Hel. C'os diabos! Que fazia eu na carripana do Hel?, sem direcção assistida, estofos rasgados, cheio de fuligem, ar condicionado inexistente, libertando uma chiadeira horripilante sempre que encostava o pé ao travão? Liguei o rádio - na esperança de apanhar uma velha toada que assaltara a rádio nos anos 70 e que ainda hoje perdurava. Como era mesmo? «It’s gonna be a bright, bright sunshiny day»? Uma merda do género. Por alguma razão ao qual era alheio, agradava-me - e, como é óbvio, o menino Hel não cuidara de manter o correcto funcionamento do seu rádio (pelo menos isso, Hel, porra!). Pois, o traste conduzia o meu carro, o meu R6, novo, cheiroso, apetrechado dos mais brilhantes botões e obscuras funções, que eu seguia, de momento. E, no banco de trás, ia a ruiva, beijando-lhe o pescoço, despindo-se para gáudio do espelho retrovisor, acariciando-o. «Hel, meu sacana, és mais esperto do que pareces!» Estranhamente, no lugar da recordação em que decidíramos, pelos vistos, trocar de carro, numa troca em que saíra claramente a perder, encontrava-se o vácuo.

Recapitulei então os eventos dessa noite: o bar, a loira, o Hel, a ruiva, tudo acontecimentos que não eram de somenos importância e todos eles intercalados pela bebida adequada. A minha mente assemelhava-se a um novelo enrodilhado e sentia que só agora começava a desfazer os nós. Ainda assim, havia ainda muitos por desfazer. Que se seguira?, hm… pois… o Hel desaparecera, no bar, deixara-me a sós com a miúda, a ruiva, com os seus lábios vermelhos e apetecíveis, que apetecia ter beijado logo ali, assim mesmo, de chofre, no momento, e as pernas cruzadas, as coxas roçando uma na outra, num convite quase insidioso; saí com ela do bar, em direcção ao R6, o Hel lá apareceu, com o R7 e, com ela, partimos para a casa do meu amigo, perdida num matagal verdejante mesmo na intersecção que dá para a serra de Sintra e agora ali estava eu, numa cama que desconhecia, lençóis de flanela, em casa do Hel, à espera talvez duma sua prima afastada, retida quando a noite não passava duma ilusão feita de sombras estranhas que me enevoavam a razão e ao mesmo tempo me faziam sentir no íntimo que aquela era uma noite de resoluções de vida e de morte, até para prima ausente - à medida que fazia o R7 do Hel galgar quilómetros a fio na auto-estrada de Lisboa para Cascais.