Ariel - Capítulo II

Estacionei o R6 no 24 horas de serviço, puxei o travão de mão, suave, silencioso, e passei os olhos pelo espelho retrovisor como quem não quer a coisa, de forma casual. O meu olhar não se cruzou com o dela. Apanhei-a com os dedos longos a cobrir os lábios, contendo um discreto bocejo. Desviei o olhar ao ouvir a chiadeira típica dos travões do meu R7; às quatro da manhã, na auto-estrada vazia, o som ecoou como unhas a arranhar um quadro numa sala vazia. Lúcio estacionou a meu lado, o escape alucinado de fumo e cheiro a óleo queimado. Saiu do carro e, numa passada larga e confiante, dirigiu-se à estação. Segui-o com o olhar. Ao voltar, assomou à janela do pendura e, tirando o cigarro dos lábios, repreendeu-me, ríspido, mas condescendente, por entre uma nuvem de fumo, com um sorriso trocista nos lábios finos (sabia bem que eu era um teso), que devia tratar melhor o meu carro, que devia «tratá-lo como a uma mulher bonita». Rimos os dois e Lúcio virou o pescoço da janela para o banco de trás, querendo certificar-se do estado de espírito da nossa convidada. Parecia pensativo enquanto a observava. Decidi interromper as suas cogitações perguntando-lhe o que tinha vindo fazer aqui. Refrescos, disse-me, tínhamos de comprar refrescos. Abriu a porta do R6 e sentou-se a meu lado. «Esqueci-me do teu iced tea. Queres que te traga um?», perguntou, mordaz, rindo, desenfreado, e arrastando-me para o seu frenesi de gargalhadas. Às tantas, até a ruiva fora contagiada pelo nosso humor, o seu riso entrelaçando-se com o nosso.

Entre as ilusões e as certezas de que abarrotava o suposto diálogo que com ele mantinha, ao mesmo tempo que o meu pé descansava no acelerador como se a minha existência disso dependesse, entre duas passas num cigarro artesanal enrolado por mim e meia dúzia de conselhos fraternais dele, a conversa, a animação e a camaradagem jorravam como se do R7 imanasse um afluente no rio da nossa parvoíce imberbe mas sincera, como se a rapariga que ele insistira em trazer connosco fizesse também parte de um papel maior no desígnio máximo das coisas; e foi assim que me pisou o pé, abruptamente, fazendo com que o ruído do motor acelerasse toda a estação de serviço até os três de nós nos rirmos como crianças à solta na vida que era aquela estrada até minha casa, onde eu tinha os meus próprios planos para a miúda que se espraiava em tons de preguiça indulgente no banco de trás do R6.

Mal sabia eu que a noite ainda reservava surpresas, sobretudo a maior de todas e não a que apenas acabava de me confrontar com os seus sequiosos lábios vermelhos e os seus grandes olhos verdes, tentadores, brilhando por entre a melena de fogo que lhe afagava o rosto de seda, enquanto o meu grande amigo, na sua demência alcoólica, ainda discursava, crente em fidelidades igrejas e códigos de honra ultrapassados, mas não para todos, talvez.

Quem sabe se não seria a última vez que me encontrava com ele, mas, fosse como fosse, valia a pena. Era ela. Sim, era ela. A ruiva que nos acompanhava. A mulher com quem iria ser feliz. Sim, era com ela. Só tinha de encontrar maneira de me livrar do Lúcio.