Ariel - Capítulo VI

Fechei a porta do carro e ao sentar-me o meu velho e fiel companheiro R7 gemeu num lamento em todas as suas articulações. Dei à chave, pegou, comecei a rodar o volante, preparava-me para arrancar, quando tocou o telefone, raios. «Olá, querida…! Pois, não, não vai dar, é que hoje combinei com o Lúcio de ir beber um copo… Sim, eu sei que ontem também não podia… Bem sei que combinámos hoje de…» E ela desligou. Suspirei, engatei a primeira e, numa tosse roufenha, o R7 lançou-se, já veloz e robusto, para o meio das confusas ruas de Lisboa, espremendo-se por entre os carros, faixa atrás de faixa. Chuviscava. Esta porcaria de atitudes e de discussões por parte dela não vinham melhorar o meu dia. A última coisa de que precisava era de cenas de ciúmes, sobretudo por causa de amigos; se ainda fosse por causa de outra gaja, se, pelo menos, se pelo menos fosse realmente outra gaja! Ora, mulheres.

Já o doutoramento também não me corria de feição. Acabara de receber a notícia, por intermédio da delicodoce voz da minha orientadora, de que me iam «cortar a bolsa, que o projecto deixara de ser viável, que uma praga de Ceratitis capitata devastara os pomares, que a universidade e o departamento começavam a duvidar do meu empenho e interesse em levar o doutoramento a bom porto». Respondi que não, que fazia os possíveis, que já instalara as armadilhas Tephri, que tratara pessoalmente com os fornecedores acerca da compra de FFA, FFP e FFT, que os pomares seriam salvos, que era do meu maior interesse empenhar-me na conclusão do doutoramento. Enfim, a ladainha do costume, verdadeira, desta vez, mas ela não parecia muito convencida, acenando que sim com pequenos movimentos de cabeça, um sorriso amarelo decorando-lhe o rosto enrugado, interrompendo-me a meio para rematar com um céptico «pois, não pense mais nisso, Hel. Desfrute das suas férias e Boas Festas. Envio-lhe um e-mail para nos encontrarmos em Janeiro». Tornara-se dolorosamente óbvio que ia ficar sem bolsa a partir de Janeiro. Que bela maneira de começar 2009.

Pelo menos, tinha combinado este encontro com o Lúcio. Havia muito que não nos víamos. Ele andava ocupado com o seu novo cargo no ministério e eu ainda estava para perceber em que é que as suas funções consistiam exactamente. Na verdade, apesar do fiasco que se revelava, o doutoramento absorvia-me grande parte do meu tempo livre. Tínhamos agora esta pequena nesga de tempo, esta janela de oportunidade, quatro dias antes do Natal, para nos encontrarmos, pensar o futuro, rir do passado e, porque não?, do presente, sobretudo quando se houvesse motivo para brincadeira. O certo é que sempre conseguíamos encontrar motivo para rir, até nas situações mais improváveis.

Enfim, sentidos de humor muito peculiares. Sorri ao recordar-me da sua chamada, umas horas antes: «Vamos ao 23, Hel? Vamos, vamos até lá, bebemos uns copos, conhecemos umas miúdas vá, vá, percebo pela tom do teu silêncio que é isso mesmo de que estás a precisar». Talvez fosse mesmo… daí tivesse encolhido os ombros, esquecido as amarguras e os problemas e me concentrasse em olhar em frente; era preciso, estava um trânsito terrível.

Chegado às imediações do 23 não me poupei a levar o R7 numa passeata à volta dos quarteirões circundantes, desgastando as suspensões sobre os buracos da Baixa, à caça dum lugar, duma nesga de espaço nesta cidade cada vez mais atravancada. Finalmente, depois de quase três quartos de hora a tentar encontrar um pequeno nicho para o mastodôntico R7, lá consegui estacionar. Tirei a carteira do porta-luvas, abri a porta e reflecti, enquanto vestia o casaco, a noite soprava um vento gelado e a chuva caía, miudinha, que um cartão ministeriável devia resolver quase todos os meus problemas automobilísticos quando saía à noite. Pois devia, mas eu não tinha benesses dessas. Enfim, em passo estugado, percorri a calçada, sempre longe da estrada e atento, não fosse alguma besta decidir que precisava de um banho de meia-noite. Avistei a porta do 23. Era muito provável que fosse encontrar o Lúcio fulo da vida, farto de esperar por mim. Parei à porta do bar e o imenso monstro que estava feito cão de guarda à entrada, de cima dos seus quase dois metros, mirou-me de alto a baixo. Por detrás das suas lentes negras e impenetráveis, aparentemente satisfeito com a avaliação que fizera, deu um passo ao lado e deixou-me passar. Desejei as boas noites, fez gala em ignorar-me, e regressou ao seu posto, hirto, colossal. Entrei e avaliei o 23: à minha esquerda, encontrava-se o longo balcão em madeira escura e no lado direito viam-se algumas mesas, as cadeiras estavam ocupadas por pessoas a conversar e a beber. Perscrutei os recantos em busca de Lúcio, lancei o olho aos reservados, locais por natureza inconspícuos, ideais para se beber uns copos e pôr a conversa em dia. Depois de inspirar os cheiros e atmosfera do ambiente, detectei-o ao balcão, para surpresa minha, já acompanhado, tão cedo, de uma loira espampanante. Ela trazia um vestido curto, preto, sapatos de saltos altos e um cabelo loiro, encaracolado, dançando-lhe no rosto e hipnotizando o meu amigo. Desci calmamente o lanço de dois degraus, evitei algumas pessoas que dançavam ao som da música, tirei o casaco e, ao mesmo tempo que me sentava ao balcão, três ou quatro bancos afastado do Lúcio, longe de mim querer invadir o espaço dele, nesse momento, cruzei o meu com o seu olhar, deixei escapar um sorriso discreto, virei-me para o bartender e pedi uma imperial. Pela carantonha, deduzi ele estava interessado em tudo menos no meu pedido, mas ainda assim lá pegou num copo e começou a tirar a bebida.

Nisto, chegou-me ao canto do olho a mão sinuosa da loira, a cair, discreta, na perna de Lúcio, subindo, e este, todo entretido, todo mãos pelo corpo dela, os dois rostos colados, ele só sorrisos e ela a sussurrar, enrolando o cabelo com o indicador. Decidi esperar tranquilamente, degustando o líquido fresco e espumante que me refrescava a garganta. Curiosamente, o bartender parecia, por sua vez, interessado no flirt que se lhe desenrolava à frente, lançando olhares fugazes aos dois, por entre as diligências do balcão. De súbito, Lúcio olhou para mim, disse qualquer coisa à loira que ela pareceu não gostar e veio ao meu encontro, com um andar seguro e exibindo um sorriso visivelmente triunfante, ajeitando o colarinho da camisa. Estendeu-me a mão. Apertei-a, absorto, e disse-lhe, desprendido e seco, mas sem esconder o tom cúmplice: «Sim, maravilha, óptimo Lúcio, old fellow, vejo que te corre bem a vida…» Resmungou não sei o quê, com um gesto largo depreciativo indicou que aquilo, e aquilo era a boazona que ele despachara, não era «nada», «nada» e, sorrindo de novo, pediu também ele uma bebida.

De repente, chegou ao balcão uma mulher desleixada, quase a tropeçar nos próprios pés, de copo na mão, velha. Sentou-se no banco ao meu lado, o corpo apoiado no balcão para não cair, perscrutou-me com olhos ávidos e vidrados, arrotando, de um só jorro, um inusitado convite: «Vamos foder?». Lúcio conteve a muito custo um súbito ataque de riso. Na verdade, e para meu infortúnio, à minha frente encontrava-se, sem sombra de dúvida, a mulher mais desprezível de todo o bar, pelo que, em tom educado, recusei e retomei a minha aprazível tarefa de levar a imperial aos lábios. Ficou absorta por um instante, levantou-se mecanicamente, Lúcio ia gozando o prato com um sorriso escarninho nos lábios; ela ainda esteve para se bater a ele mas, talvez desancorajada por algo nos olhos do meu amigo, de copo vazio na mão, pelos vistos já mais interessada num sujeito que bebia sozinho, numa mesa protegida pela penumbra, afastou-se em sua direcção, cambaleante. Estávamos no 23, seguramente, estávamos no 23 - sem margem para dúvidas.