Ariel - Capítulo IV

Lúcio bateu com a porta do R6, quiçá mudando de ideias quanto a voltar para o seu carro, e, decidido, encaminhou-se para o meu bólide, pesado e roufenho. Deu à chave e o velho R7 reagiu, rouco, a princípio, regular, depois. Fiquei a observá-lo, por instantes, distraído, constatando que o bate boca entre a miúda e o Lúcio parecera ter ultrapassado a sadia troca de galhardetes e se transformara numa rivalidade acirrada pela susceptibilidade que o álcool instala nos espíritos dos homens. Hm, reflecti. Azar. Conhecia bem o Lúcio e, apesar desta sua tirada com a ruiva, - com Ariel, como fizera questão de frisar, com os olhos faiscando no meio da esclerótica vermelha, - apesar disso, conhecia o meu amigo e sabia que não estava verdadeiramente zangado, não a sério, nem comigo, nem com ela, embora percebesse que uma qualquer dúvida ou frustração se lhe anichara no cérebro, provavelmente, instilada pelo álcool e ainda a fermentar. Tal agressividade denotava uma clara insegurança em relação a esta situação. Seguramente, não lhe agradava o facto de eu, apesar de ser seu amigo de longa data, ter assumido os comandos do R6, considerando que não estava menos bêbedo do que ele. Um longo buzinão despertou-me das minhas reflexões. Que raio!, passara o dia, desde que chegara ao bar, em cogitações supérfluas e de todo desinteressantes. Estava na hora de agir, sim, de agir!

Pelo retrovisor, vi o Lúcio gesticulando com uma das mãos, fazendo-me sinal para arrancar à sua frente. Acenei, dando a entender que percebera, dei à chave e… reparei que Lúcio esquecera a garrafinha do “iced tea” no banco do pendura. Sedento, antes de arrancar, estendi o braço e fechei os dedos sôfregos sobre o vidro frio. Levei a garrafa à boca, mas somente umas míseras gotas esquecidas no fundo saudaram a minha garganta. Desgostoso, engatei a primeira com suavidade e deixei o pé cair, delicado, sobre o acelerador. O carro ronronou de satisfação e deslizou, ligeiro e ágil, sobre o asfalto bruto.

A viagem continuou em silêncio. A ruiva não dava o ar da sua graça e pensei, por fugazes instantes, que tivesse amuado com qualquer coisa. Cedo a sua inércia, no banco de trás do carro, me revelou que fechara os olhos por breves instantes e que caíra num profundo sono passageiro, talvez sem sonhos ou ânsias de nada. O sono escondera o verde frio dos olhos da nossa companheira e o seu cabelo espraiava-se em madeixas de fogo encaracoladas sobre o seu rosto, pintando o banco do R6 em matizes de vermelho, o peito trabalhando lentamente, subindo e descendo, à medida que o ar lhe invadia os pulmões e se escapulia pelos lábios vermelhos. Não estava surpreso; afinal, depois de quase ter despejado a garrafa de um só gole… Melhor assim. Dava-me tempo de pôr a cabeça em ordem. Aquela última aguardente deixara-me de rastos. A última, é sempre a última antes da próxima. Agora, estava na hora de apelar a um último sopro de organização mental, sim, tinha de envidar todos os esforços nesse sentido. Afinal, a minha casa ainda ficava a uns bons quilómetros e a auto-estrada desenrolava-se como uma infindável passadeira negra que me conduzia a um fim indeterminado, engolido pela noite que nos envolvia. Na minha esteira, os faróis do R7 mantinham o seu olhar amarelado em cima de mim, implacável, inalterável, sempre na minha esteira. Liguei o pisca para sair da auto-estrada e espreitei o Lúcio. Apercebi-me de que não seguia o meu exemplo e veio-me à memória, de forma quase involuntária, que tinha um dos piscas avariados, possivelmente aquele contra o qual o Lúcio praguejava neste preciso instante.

O carro galopou os últimos quilómetros num piscar de olhos e cedo me familiarizei com os meus arredores, agora condunzindo quase em piloto automático. Avistei a entrada. Por um momento, julguei que o Lúcio não conseguiria, mas não há mais rijo do que ele e não há aguardente que o derrube. Afinal, parece que o R6, com a sua direcção assistida, travões ABS, GPS e sei lá mais que siglas ocultas, ainda não tinha amolecido o meu amigo, que ainda há poucos anos me levava por essa noite lisboeta, numa carripana em tão mau estado como a minha, a beber copos e a conhecer miúdas. Nostálgico, constatei que a nossa rotina não mudara assim tanto. Hm… talvez não em tão mau estado.

Galguei a pequena estrada de terra que dava para a minha quinta e estacionei, longe de possíveis olhares indiscretos. Virei-me para trás. Ariel dormia profundamente, mas sentia que, ao mínimo encorajamento, o seu cabelo de fogo estaria pronto para dançar para nós… para mim. Até dava pena acordá-la… «Ó, Hel, estás a dormir de olhos abertos, meu? ‘Tás bem?» Lúcio estacionara a meu lado e o barulho que fez ao quase arrancar o travão de mão sobressaltou-me e afastou o meu olhar basbaque do calor que o corpo no banco de trás emanava, numa calma pronta a explodir. «Eu... não, estou bem, é aqui, chegámos. Temos de a acordar.» «Ya… pois tens. Eu tenho de ir ali num instantinho». Mirei o rosto de Lúcio com perplexidade, tentando descortinar na sua expressão o seu verdadeiro intento, sem sucesso, no entanto, já que no meio daquela treva todos os rostos estavam vazios, dando rédea solta aos espíritos para tecerem os mais tenebrosos desígnios, livres de qualquer escrutínio. Ainda bem que o Lúcio era um amigo de longa data. Confiava nos seus desígnios, mesmo nos mais tenebrosos, especialmente nesses. Sem argumentar, e encobrindo um fugaz esgar de satisfação que permiti ao meu rosto assumir, deixei-o afastar-se, a pé, em direcção sabe-se lá de onde e para fazer sabe-se lá o quê, e voltei a concentrar todas as minhas atenções na mulher.

Saí do carro e abri a porta de trás, com o intuito de a acordar. Debrucei-me para a despertar e estaquei, com o rosto quase roçando o dela. Um perfume doce, inexplicavelmente aliciante, insinuou-se pelas narinas e, impossível de reprimir, o meu dedo tocou ao de leve na sua fronte, começando a descer lentamente pela linha do rosto, sedoso, que traçava um pescoço esguio e delineado na perfeição, até desembocar nos ombros despidos. Ajeitei-lhe a alça do vestido e acordou, de repente, assustada, assanhando-se, recuando para o banco mais afastado, o verde gélido perfurando-me inquisitivo e confuso, por momentos sem saber bem onde e com quem estava. Ao olhar para mim, avivou-se-lhe a memória e os seus lábios transfiguraram-se no trejeito de ironia malevolente a que me tinha habituado no decorrer da noite. «Sabes, também cobro quem quer ficar apenas a ver. Tenho a certeza de que o teu amigo não se importa». Deixei que um sorriso plácido se me desenhasse no rosto, o que apenas a provocou, e foi com um certo gáudio que vi os olhos verdes incendiaram-se ainda mais, até ficarem da cor do cabelo. «O que foi?» «Hm… nada, nada». Soergui-me e escancarei a porta do carro, fazendo um gesto redondo com o braço, encorajando-a a sair da toca. Acreditava que já se sentiria picada o suficiente para sair. De um salto, saiu do carro e um observador menos atento nunca diria que aqueles pequenos pés que saltitavam em direcção à minha casa ainda agora enfeitavam, inertes, o banco de trás do R6. Juntei-me a ela para a guiar pelo caminho tortuoso, penetrando no breu, quando o ouvi, trocista, um eco na penumbra, aproximando-se numa marcha rápida: «Hel, onde pensas tu que vais sem mim?»