Capítulo X

Sem mais, como que adivinhando a deixa, a ruiva espetara-lhe a língua no ouvido e o semblante do Hel alterara-se. Muito rapidamente, demasiado rápido para um homem tão embriagado, pôs-se de pé e fugiu: «Vou à casa de banho, tenho de ir à casa de banho», afastou-se, deixando a carteira e as chaves em cima da mesa. Guardei a carteira no bolso do casaco, peguei nas chaves como se fossem minhas, contemplei a ruiva e emborquei mais um balázio de Antíqua. Estava completamente embriagado, a tal ponto que conseguia não o estar; estava tão embriagado que via tudo claro, translúcido, evidente, cristalino.


Era linda a miúda, perfeita. A fazer-se passar por vamp, que tristeza. Por dinheiro, como se não fosse suficiente tudo o resto. A fazer-se passar. Putinha. Linda. Intelectual. Fria, nem parecia o que era. E aquele cabelo, Jesus, aquele cabelo.


«Gostas de dinheiro, linda?», disparei, assim que me vi livre do Hel, muito franco, muito directo. «Gosto pois, vais oferecer-me algum é, lindo?..», replicou, com um gesto rápido da mão acariciando-me o cabelo. Não gostei do «lindo» mas, tudo bem, gostei da carícia, disse que sim com os olhos, e «talvez amor, talvez», com a boca. Dei mais um golo na minha aguardente. A voz dela, o diálogo pseudo-erudito com que nos brindara, o fumo na sala, o álcool, tudo isso me queimou as sinapses e senti-me tonto, senti a sala oscilar no seu eixo e a imagem dela distorcer-se, a mesclar-se com as luzes e os odores, cada vez mais indistinta. Fechei os olhos e respirei fundo. Estava na fronteira da consciência. Quando finalmente os abri a terra já não se mexia. Ariel era real e estava mesmo à minha frente; acendera um cigarro e fumava, parecia quase que alheada, escutava a música, maneava a cabeça, fumava e marcava o ritmo com a ponta das unhas no tampo da mesa.


Reflecti que tinha de dar travão ao álcool. Se o meu estado era aquele, qual não seria o do Hel? Era óbvio que o Hel não estava capaz de beber muito mais, aliás, devia estar a regurgitar, o que até talvez não fosse mau de todo, tudo uma questão de ver como recuperava. Senti sede.

Arrumei a aguardente, sinalizei o bartender e pedi um gin tonic para mim e outro para ela, frisando que pedia «dois gins» e não outra coisa, «nem bebida de colaboradora». Ela, toda altivez, não tugiu nem mugiu, pestanuda, fina, esticando as meias de nylon. Hmm. E o Hel, porque se demoraria tanto?


Levantei-me e, de rés-vés, sorri sardónico para a Telma, os olhos dela chispavam, era só inveja naqueles olhos azuis, mas isso não me dizia respeito, que fosse tomar no cu. Pedi crédito ao bartender, ao mesmo tempo que o subornava discretamente e o ouvia replicar, como que em câmara lenta: «Doutor, é a última vez é a última vez!» - «Pois sim meu caro, faça-me um favor, diga ao meu amigo que estou na rua de cima, mesmo em frente ao governo-civil e, entregue-lhe estas chaves, pode ser?» - «Boa noite doutor, fique descansado.»


A Telma, afastara os olhos dos meus, estava furiosa, aquela loira burra mas entesoante; ainda iria foder aquela gaja, embora não naquela noite. Naquela noite apetecia-me outra coisa, uma coisa vá, mais refinada. Dei a mão a Ariel e saímos porta fora. Cumprimentei o Segurança: «como está o tempo aí em cima, jovem?» O gajo riu, julgo até que gargalhou e desejou-me uma «boa noite, senhor doutor», sem esquecer a devida vénia, à medida que eu e ela saíamos: como era bom ser filhinho do papá, acreditem, era mesmo bom.


Por falar nisso, não podia levar a gaja para minha casa, o velho havia regressado duma «viagem» e aboletava-se em Lisboa por alguns dias. Já sabia, levava-a para Cascais, para a quinta do Hel. Era isso, com sorte, fazíamos uma festinha à maneira e sempre o ajudava.


Fui encaminhando a tipa para o meu carro, tentando caminhar em uníssono com ela, era uma rapariga nova, parecia deslocada no ambiente, demasiado efusiva para o ofício; parecia quase uma principiante, sim, era isso mesmo, era uma puta jovem e emocional e isso convinha-me, tinha que fazer daquela noite de fim de Dezembro, chuvosa, ventosa e triste, um dia memorável. Juntinhos, ela mais alta, sempre de mãos dadas, tic, tac, toe, fomos andando e, em menos de nada, estávamos perto do beco sem luz onde estacionara o R6. O 23 ficara para trás, eu estava de férias e a única coisa que me prendia ali, para além da amizade que me fizera deixar um colega esperto o suficiente para não se desbocar lá atrás, daquela bacana, da ideia de a levar até casa dele e de fazermos uma menage à trois, era ter os documentos na mala do R6; os documentos que no dia seguinte ficara de ir entregar em mãos ao Ministério dos Internos, um último recado antes de, realmente, entrar de férias.


Não me podia esquecer disso. A atmosfera da noite, revitalizando-me, lembrou-me esse facto, incomodativo. Fomos andando, ela a perguntar onde íamos, eu que íamos buscar o meu amigo e «passear» até Cascais, que havia dinheiro para ela… E ela, que sim, «tudo bem, gosto do teu amigo.»


Como a noite evoluíra rapidamente desde que saíra do ministério, após o sermão do chefe. Primeiro a loira. Depois o Hel e agora aquele “monumento”. Eram quase nove da noite quando entrara no 23, a música enchia todos os recantos vazios de pessoas, na altura ainda a noite era miúda e achara por bem ser esse o momento acertado para fazer alguma coisa de modo a esquecer todos os segredos hipócritas do ministério; eventualmente, talvez, mostrar ao Hel que havia mais mulheres no mundo do que a sua banal namoradita sem futuro.


Agora, ali estava a noite, limpa, luarenta, com a ruiva ao meu lado, de mãos dadas, que vontade de caminhar em uníssono com ela, que gozo em caminhar em uníssono com ela, até parecia quase como fora ao princípio com a minha ex-mulher, até parecia.


Ariel, assim dizia a ruiva chamar-se, estudante de «Tradução em Letras», a fazer-se séria, a rir-se, a fazer-se séria, a fazer-me cócegas na palma da mão e eu a fingir que acreditava, embora não batesse certo a história dela ser estudante, uma história demasiado rebuscada. De qualquer maneira, para o que pretendia, pouco me dava se «Ariel» era de facto puta/estudante ou puta/puta. O verniz que demonstrava acabava até por nem ser mal empregue para o objectivo que, lentamente, descendo a rua sem saída, congeminava: um belo dum bacanal, um novo campo a desbravar com o meu amigo, só esperava era que lhe tivessem dado o meu recado e que não se tivesse afogado na sanita, o pobre.


«Lúcio meu, não bebo mais, combinei amanhã de manhã com a Teresa, não posso aparecer todo fodido!», recordei, sorrindo, a onda dele, todo medroso. Como é que Ariel pudera pensar que o Hel seria uma vítima adequada à sua incursão no mundo da noite é que eu não percebia, quanto mais não fosse porque a mim é que ela despertava uma enorme cobiça voluptuosa e já o Hel, enfim, bastaria olhar para a sua camisa vermelha, bico da camisola interior encarnada, calças de ganga verde, para compreender que o rapaz era um teso; jovem e bem-apessoado, não digo que não, mas um teso, um tipo sem eira nem beira, por muito prometedor que aparentasse ser.


Chegámos ao R6 e Ariel, aparentemente espantada, melodiou: «Ena, tens um carro muito bom, isto deve ter-te custado uma pipa de massa!» Agradeci, lisonjeado, abri-lhe a porta do lugar do morto, sentou-se, pôs-se a brincar com a aparelhagem, virei-lhe costas e encaminhei-me para a bagageira. Pesquei o telemóvel por trás do tapete, liguei-o e, impaciente, disquei o número do Hel. «Onde estás meu? Isso digo eu sacana, fugiste com o meu amor, fugiste com o amor da minha vida!»


Mau, o Hel estava mais bêbado do que pensara, tinha de o orientar e daí, quase que me sentia tentado a não o fazer... Ainda há pouco a ruiva insistia com ele, ela insistia, toda carinhos para cima dele, toda mesuras, toda sorrisos e pestanajamentos. Eu alinhara, claro, o puto não percebia nada de engate, era o que era. Ao balcão, a outra, a Telma, deitava-me olhares faiscantes, não percebia se de despeito ou ainda de sedução, não tinha qualquer importância; antes do Hel chegar pagara-lhe dois copos de champanhe, a trinta euros cada e ela, depois de se ter feito toda a princípio, tirara-me o pão da boca sem mais nem menos, só queria fazer conversa da treta, a mostrar-se muito interessada, o que só contribuíra para me sentir ainda mais inquieto: «O que é que fazes na vida?.. Trabalho no Ministério dos Negócios Estrangeiros, não te interessa. Ah, trabalhas no Ministério dos Negócios Estrangeiros, é?.. Deve ser muito interessante, lidas com gente importante?..» E eu, que não tenho paciência para conversa de sala com putas, dissera-lhe isso mesmo, com todas as letrinhas: «Não tenho pachorra para conversa de sala com putas.» Logo ela me presenteou com a resposta, um mutismo frio à palavra «putas», como se sentisse genuinamente ofendida, a vaca. Acariciei-lhe o rosto e para adocicar a pílula disse-lhe que era «linda de mais para esse tipo conversa, só isso…» A hipócrita engoliu em seco e, outra vez só doçuras, apenas doçuras, insistiu na tecla: «Querido, a sério, agradas-me, fala-me mais do teu trabalho… Conta-me...»


Do meu trabalho? Era o que mais faltava, o meu trabalho era de ouro, «esconder é mais importante do que plantar couves». Topando pelo canto do olho a chegada do Hel ao 23, fitei os olhos frios de Telma e, subliminarmente, comuniquei-lhe: «Vai à merda Telma, querida, vai à procura de outro pato que este já era.» A loira gelou, mas não estava minimamente preocupado com isso, afastara-me à patrão e em menos de nada era cumprimentado pelo Hel. Depois dum intróito com uma pobre prostituta, feia, horrível, apontei uma mesa livre a um dos cantos mal iluminados, pedi dois copos de champanhe («um champanhezito Hel, à minha pala?») e logo depois entregávamo-nos ao diálogo habitual, ao jogo de xadrez que sempre se joga entre dois velhos amigos que se conhecem há tempo suficiente para fingirem que se insultam: «Como vão os pomares, paspalho? E o Ministério, energúmeno? Menos mal, e os pomares, imbecil? Mal, seu idiota, muito mal, uma praga, a minha bolsa de estudo está a filoxerizar-se! Ora, ahahah, caga nisso, bebe mais um copo, repara como a vida é bela» casquinei, apontando de largo a velha prostituta que se batera a ele e que entretanto arranjara um novo otário. Sorriu e bebeu. Pedi mais copos de champanhe, (traga a garrafa homem, «doutor Ferro, ainda deve 120 euros da semana passada», fique descansado homem, traga mais uma garrafa!)


O Hel emudecera. Fiz questão de brindar, sondando-o: «Agora a sério rapaz, como vão as coisas na Fac? Mal, muito mal meu, não sei se vou conseguir safar os pomares e acho que me vão cortar a bolsa já para o mês que vem, a doutora Cremilde não o disse com todas as palavras, mas, sabes como são estas merdas…»


«Hum» repliquei, interessado mais em aspectos técnicos que já não me diziam respeito mas que mesmo assim ainda me cativavam: «Já experimentaste enxertos estragénicos? Experimentei tudo, tudo pá, mandei vir anti-fúngicos experimentais da América, armadilhas Thepri da África do Sul, anti-bacteriológicos de espectro alargado da UE, mas nada resulta, nada, Lúcio!» Mau, o Hel estava realmente preocupado e senti compaixão pelo meu amigo mas, também, quem o mandara fazer o doutoramento recorrendo a técnicas de crescimento hortícola ainda no processo de test-trial em países mais avançados do que o nosso, test-trials de resultados - até ver - altamente dúbios?


«Olha lá, pá», resmunguei, meio sério meio na tanga, tentando animá-lo, recorrendo à nossa experiência comum, revisitando o passado, território seguro, ao contrário do presente, em que já não nos conhecíamos como dantes, coisas do ministério e de elementos alheios, estrangeiros, na universidade que ele ainda frequentava, embora não tivesse qualquer tipo de relação com os ditos: «Meu, quando fizemos crescer aquele horto de couves, três semanas antes do prazo, isso é que foi uma delícia, hã? Diz lá, foi ou não foi uma beleza?»


O Hel rira ao recordar os tempos de mestrado, quando ambos nos havíamos destacado de todos os nossos colegas de curso escrevendo um relatório exaustivo sobre os avanços que lográramos obter no crescimento molecular de vegetais para consumo humano, o qual espantara o mundo académico nacional, diga-se, e que chegara até a ter direito a nota de rodapé em programas televisivos sobre o mundo rural: «Dois jovens investigadores da Faculdade de Agronomia de Lisboa descobrem fórmula de crescimento inovadora» mas, logo percebi que ele voltara a cair no seu mutismo nublado. Isso não me conviera, que diabo, estávamos no 23, no Natal, no renascimento, nas minhas férias. Pedi mais um copo, Antíqua, mais uma, sorri-lhe ao sermos servidos como se fossemos nababos e, notando nele alguma abertura de espírito, indaguei, após o primeiro gole: «Então e a Teresa, pá, como que é vão as coisas?» As «coisas» não iam bem, nada bem: «Vai Tudo mal Lúcio, tu sabes que eu não olho para outra mulher que não a Teresa, não sabes?.. Sei?.. Não sei meu, não sei o que fazes com as tuas coleguinhas de doutoramento, ou sei?.. Sabes meu, claro que Sabes!..»


Eu, que até sabia mas que gostava de o provocar, lá lhe fui respondendo: «Essa agora, és uma besta, mas… enfim, sei, gostas da gaja, és parvo, um campónio, estúpido de todo, fiel como o caralho a quatro a uma gaja que não te merece… Mas então, o que é que se passa ao certo?..» Ele serviu de novo os nossos copos, estava a entrar na onda, a embebedar-se comigo, bebeu e avançou que o que se passava é que ela tinha «ciúmes de tudo, de tudo Lúcio; do doutoramento, da Cremilde, a Cremilde da Fac, vê lá tu, do tempo que passo com os meus amigos, do pomar e… imagina, até tem ciúmes de ti! De mim? Essa agora!» Engoli em seco e aguardei que concretizasse. «Pois pá, não é ciúmes de ti por ti, é ciúmes de eu preferir estar aqui a beber copos contigo ao invés de estar com ela», suspirara o Hel afundando-se na cadeira, com cara de cão morto à chapada. Ora, deixá-lo. Havia, sem dúvida, coisas mais importantes para tratar do que o namoro dele, o qual aliás sempre me parecera um pouco forçado, como se ele apenas estivesse com ela para não estar só.

«Hel, meu, vem ter aqui ao governo civil e mexe-te!» Ariel saíra do carro e estava de volta da bagageira. Caramba, não a podia deixar ver a arma, não convinha mesmo nada, era tipa para se assustar, no mínimo. No máximo, adeus bacanal, adeus festança. «‘Tá quieta miúda, não toques nisso, entra para dentro do carro!», ordenei-lhe, furioso comigo próprio por ter deixado tudo à vista, documentos e pistola. Encolheu os ombros e regressou ao seu lugar no carro, aparentemente impassível.


O Hel desligou, sacudi a cabeça, apaguei o telemóvel e voltei a enfiá-lo por baixo do tapete da bagageira do R6. Merda, os papéis estavam todos tombados. Foda-se, não podia misturar o trabalho com a bebedeira, não podia, tinha de me concentrar; com um gesto brusco empurrei tudo para baixo do tapete e fechei a mala.


Fazia frio, caía uma chuva miúda. Tratava-se da realidade. Entrei pelo meu lado do R6. «Olá miúda» murmurei, a fazer-me doce, mas pleno de insinuações perigosas. «Já acabaste de falar com o teu amigo? Já, pois, vem aí ter e vamos fazer uma festa em Cascais, agrada-te?», inquiri à queima-roupa. «Sou toda tua», replicou, enxuta, fria, sem sentimento na voz. Toda minha, ou toda do Hel? Resvalei desastradamente para cima dela à procura daqueles lábios carnudos, só que me escapou, ágil, para o banco de trás. Resolvi mostrar-lhe dinheiro. «Gostas de dinheiro, miúda?» Estranho, regra geral quando fico assim as putas não gostam, mandam-me à merda a mim e ao meu dinheiro, mas esta não: «Gosto, mas ainda gostava mais se fosse a três…» Engoli em seco: «Quanto? Quanto pela noite toda?» E ela fez o seu preço.


Acenei que sim, mas por dentro senti-me agoniado e deu-me uma vontade enorme de pura e simplesmente me ver livre dela; a gaja era problema, podia sentir isso, eu snifava problemas à distância, a tipa não fazia sentido. Tudo estava errado. Ia para falar quando o decrépito R7 do Hel, a chiar a suspensão, se imobilizou ao lado do R6 e, da janela do condutor, o Hel, sacana, me saudou numa vozinha que ressoava ironia e alcoolismo: «Então Lúcio, esse doce, é para hoje ou para amanhã?..» Sem responder, levei a mão ao bolso do casaco, com os olhos fiz-lhe o tal do nosso olhar cúmplice, dando-lhe tempo suficiente para mergulhar nos olhos verdes da ruiva que assolara à janela do R6. Percebi que estava a gostar. Calmamente, de sorrisinho cínico nos lábios, devolvi-lhe a sua própria carteira.