Ariel - Capítulo XIII

Sentei-me ao volante do R6, recostei-me no assento, confortável, quente, e regozijei-me com a peculiar sensação que estar ao volante de um carro novinho em folha transmite. Anichei-me e observei o ambiente; à minha volta, tudo brilhava em lampejos reluzentes e a galáxia de botões luminosos, tremeluzindo como estrelas e cujo desígnio não compreendia, confundia-me, quase me ofuscando. Lancei um olhar fugaz para o banco de trás, para o achado da noite, pelo espelho retrovisor. Ela lá estava, sentada direita, a perna cruzada, e com um ar aborrecido, preocupado, não sei, era difícil ler-lhe as linhas do rosto, porém, ao mesmo tempo, absorta nos seus próprios pensamentos. Também, não me interessava por aí além o que poderia ocupar a cabecinha ruiva dela. Eu próprio tinha mais em que pensar: tinha de começar a aterrar, a enxaguar a cabeça da poça de álcool que me ensopava o cérebro, e levar o R6 a bom porto; havia ainda o Lúcio, atravancado no cockpit do R7, que expelia mais fumo do que um dragão, e começava a perguntar-me se fizera bem em trocar de chaves com ele, amolecido pelo conforto rotineiro do R6; finalmente, havia ainda a mulher (como se chamava mesmo...?), enrolando o cabelo em pequenos anéis, insondável, as minhas intenções (e, sem dúvida, as do Lúcio) claras como água, se bem que as dela, pensava, permaneciam um mistério. Não se estaria a arriscar demasiado ao fazer-se à estrada com dois tipos que nunca vira mais gordos, noite dentro, mesmo com o isco do dinheiro com que Lúcio a aliciara? Lancei novo olhar lá para trás, uma garota do calibre dela certamente não teria problemas em arranjar homens que lhe pagassem bem mais sem a levarem para tão longe. Por mais que desse a volta ao miolo, não conseguia descortinar o que no Lúcio e em mim lhe inspirara tanta confiança. Poderia a noite dela estar a correr assim tão mal…? «E daí, pode ser da crise…» «Disseste alguma coisa?» Inadvertidamente, os meus lábios tinham proferido o que me passava pela mente, mexendo-se sem que eu desse por isso. Rouquejei um não, «estava só a pensar alto»; observou-me como se eu não jogasse com o baralho todo. Deixando de ruminar as minhas interrogações, decidi que era hora de colar a atenção na estrada que me preparava para enfrentar. «Como é, vamos?», ouvi a voz do Lúcio, questionando-me com o rosto quando podia pisar o pedal. Ao meu lado, lá fora, o R7 tossia e rangia, desde o eixo até ao encaixe do isqueiro; será uma sorte… «se a polícia não nos mandar parar», a ruiva materializou os meus pensamentos. Concordei em silêncio. Nutrindo um afecto quase paternal pelo R7, olhei para o meu velho companheiro de tantas alegrias e infortúnios e conclui que deveria ter gasto a maior parte do dinheiro da bolsa, que estava prestes a perder, a pô-lo nos trinques. Pensando bem, custava-me admitir, mas a jogada mais acertada seria desfazer-me da velha lata e arranjar um novo. Novo, que é como quem diz… novo, para mim. A bolsa não era má de todo, mas daí a dar para uma bomba como o R6. Alas!, o meu espírito consumista levara a melhor de mim e acabara por esbanjar dinheiro em trivialidades.

Tentei colocar os pensamentos em ordem, cada um no seu compartimento, e a injecção de adrenalina que o meu corpo me administrou, por estar agora a preparar-me para me fazer à estrada, ainda por cima num carro que não era meu, ainda por cima num carro que não podia lixar, ainda por cima o carro novo do Lúcio, prenda do papá, tratou de simplificar o processo, embora não o resolvesse na totalidade, deixando-me, no máximo, sébrio. Arranjei os espelhos, reparei que o Lúcio tinha pendurado um pequeno enfeite esponjoso em forma de Merry Christmas no retrovisor, sorri e olhei para o rosto dele, que denotava uma certa ansiedade, «Feliz Natal para ti também!», desejei, com um sorriso rasgado, pus o pisca e pisei o acelerador com jeitinho, arrancando lenta, suavemente, não sem uma réstia de apreensão. Atrás de mim, o R7 arrastava-se, tonitruante, pesado, sobre o asfalto negro e duro, frio da chuva de Dezembro. O R6 deslizava com firmeza e elegância inigualáveis pela A5, rumo a Cascais. Era uma autêntica Enterprise do alcatrão! Mesmo sabendo que não era carro para me deixar na mão caso surgisse algum aperto, ia atrás do volante apertando-o com os dedos, a conduzir com uma atenção redobrada, mas inflacionada pelo álcool, quando senti uma mão cair, num toque suave e delicado, no ombro. «Pareces nervoso, querido, não gostas de conduzir?» Desceu a mão pelo meu peito e retirou-a, com um risinho infantil. Era a primeira vez que ouvia a voz dela sem ser no bar, entre o delírio do álcool e a promessa de dinheiro e diversão, sussurrando-me ao ouvido, mais aliciante do que antes. Os meus músculos contraíram-se ao toque da mão e da voz dela. Ela sentia-o e jogava com isso. Titubeei que não era nada disso, que tentava apenas concentrar-me no caminho e evitar surpresas, sem encontrar resposta mais original. Tentei acomodar-me melhor no assento e suspirei, sentia os nervos à flor da pele. «Pois, estou a ver», retorquiu, átona, não sei se com ironia, se com compreensão sincera. Olhei pelo retrovisor para tentar captar a emoção que tão bem ocultava com a voz e os nossos olhos cruzaram-se no reflexo. No escuro do banco de trás, percebi que sorria, mas era um sorriso imperscrutável, que não reflectia o que lhe ia pela cabeça, não da forma como o retrovisor me devolvia o verde dos olhos dela, que encobriu rapidamente com um lento cerrar de pálpebras, enclausurando-se numa estranha compenetração.

Continuámos a viagem, eu e ela calados, e comecei a sentir-me incomodado pelo silêncio pesado que preenchia todo o espaço do carro, espraiando-se até aos recantos mais inacessíveis. Resolvi ligar o rádio e pressionei o botão: o ar condicionado começou a gelar ainda mais o ambiente, desliguei-o e carreguei noutra luzinha que, dessa feita, ligou os estofos, desliguei-os, quando, sem aviso, a mão branca dela cortou o ar e, com um dedo seguro e certeiro, ligou o rádio, «é este, tonto!», com o corpo chegado à frente, entre os bancos, a face dela agora colada à minha. Apanhado de surpresa, deixei o volante fugir, mas recuperei o controlo com destreza, sem evitar que os pneus deixassem escapar um silvo perfurante. Olhei pelo retrovisor para me certificar de que o Lúcio ainda aí vinha: os faróis do carro de trás continuavam fixos em nós, projectando uma luz inquisitiva. Bateu ao de leve na buzina e pus o braço de fora, fazendo-o entender que estava bem, que não tinha sido nada. Ela voltou a aproximar-se, suave, envolvente, e senti os lábios roçar-me a orelha em movimentos lentos: «sabes, não tens de estar tão tenso, eu não mordo». Cabra, tratava-me como a um joguete! Recriminei-me pelo meu comportamento imberbe. Parecia aqueles cães que correm atrás das bicicletas: agora que por fim tinha apanhado uma, não sabia o que fazer com ela, mas ela parecia saber bem o que fazer comigo, bem de mais. «Não sou bem o que esperavas, é?» A pergunta dela quebrou o silêncio cujo único oponente era o rumorejar das vozes do rádio (sr. Ministro, que tem a dizer quanto aos rumores sobre a existência de uma fuga de informação na Polícia Judiciária?), mas percebi que era mais uma provocação, que não esperava obter uma resposta. «Deu para perceber, no bar, que não estás habituado a lidar com putas», desferiu, sem perder tempo, cortante. Percebi que estava com vontade de se divertir às minhas custas e talvez achasse que eu seria um alvo mais fácil do que o Lúcio, só que eu não estava para aí virado e decidi cortar-lhe as asas, antes que decidisse voar muito alto. «Tens razão, não estou», respondi num traquejo mecânico, recuperando o sangue frio, «mas não sei até que ponto és puta», respondi, fingindo-me convicto do que afirmava, e rematei, «afinal, até para mim, tão inexperiente, é óbvio que não andas nestas lides assim há tanto tempo quanto isso». Podia estar redondamente enganado, mas os seus olhos muito abertos para o retrovisor, permitindo que o verde transbordasse para o meu olhar, indicaram-me que comprara o meu bluff. Parecia espantada com o comentário, mas logo fechou o rosto numa expressão inescrutável (Posso garantir-lhe que não existe qualquer fuga de informação!). Depois de lhe conceder uns segundos de silêncio, voltei a atacar: «Não te pareces encaixar». Não argumentou. «Nem com o bar, nem com a tua roupa, dás a sensação de que estás tão habituada como eu a lidar com putas», terminei, tentando encurralá-la e provar que teria de fazer melhor se queria encostar-me às cordas. Contudo, logo deu a volta à situação, «Sabes, não sei se essa é a conversa certa para me levares para a cama». Ri com agrado e surpresa face à prontidão da resposta dela, que não vinha sem uma pitada de humor ácido. Ela também ria. Mirei-a pelo retrovisor e percebi que estava perdida de bêbeda, talvez até demasiado. «Foi por isso que gostei de ti, porque não me trataste à cabeça como uma puta, como o teu amigo», declarou, do nada, muito séria de repente, mudando de assunto. «Percebo…», retorqui, secamente. Era uma mulher estranha, parecia não ter pruridos em falar de si como puta, mas revelava-se ofendida pela forma como o Lúcio a tratara. Não percebia onde queria ela chegar com toda aquela conversa, nem o que esperava obter com aquelas atitudes extremas, ora de provocação, ora de sensibilidade. Numa nova investida, voltou a soerguer-se do banco de trás e a colar o rosto ao meu. Preparando-me para o que aí vinha, se bem que curioso, espiei-a pelo rabo do olho, enquanto me voltava a falar ao ouvido. «Achas que a tua namorada vai gostar de saber que andas com mulheres como eu no banco de trás?» A pele do pescoço vibrou num arrepio que se propagou pelo resto do corpo ao sentir o calor da voz; o perfume doce insinuava-se pelas narinas, acentuando o delírio alcoólico em que me encontrava. Relampejou-me pela cabeça a ideia de despistar o Lúcio e fugir com ela no R6, mas… mas sabia que era o álcool a falar e, para todos os efeitos, devia-lhe amizade… Além do mais, não tinha um chavo no bolso para obter serviços daquela natureza. Virei o pescoço para encará-la de frente. «Bem, no que me diz respeito, ainda não aconteceu nada merecedor de reprovação, pois não?», repliquei no mesmo tom cáustico que ela empregara. Os nossos rostos estavam quase colados um no outro e mergulhei nas profundezas daquele verde que me atraía para um poço sem fundo, para o qual ia voluntariamente, sem desejo de resistir. Ela envolvia-me num olhar de lábios imóveis, lábios que pressentia suaves e dos quais me aproximava, milímetro a milímetro, quase sem dar por isso. Os meus lábios roçaram os dela e então… «Hel?... é melhor voltares a pôr os olhos na estrada». Voltei a mim e ouvi o som característico dos pneus a pisar a berma da auto-estrada. Quebrando o encanto, voltei à tarefa de conduzir. Mais um pouco e teria de explicar ao Lúcio porque motivo tinha lançado o seu precioso R6 contra os rails. Divertida com tudo aquilo, deu um salto para trás e deixou-se cair no banco.

No rádio, o ministro continuava a esquivar-se dos disparos da jornalista. Percebendo que estas brincadeiras ainda me iam custar cara a noite, tentei prestar atenção ao que estava a ser debitado e deixar de lado o tête-à-tête com ela (Não passam de comentários infundados, uma campanha suja contra o Governo, que será desmascarada e os seus perpetradores castigados!). «Ena, o ministro está deveras entusiasmado!» Notícias sobre tráfico de armas, drogas, influências entre membros da PJ e perigosos criminosos internacionais eram tudo o que se ouvia e entupiam a rádio, os jornais e, como era já costumeiro, a televisão tratara de tornar o assunto numa autêntica novela, que as pessoas seguiam religiosamente, pelo menos até aparecer uma polémica nova e mais sumarenta. Mais um pouco e descobria-se que até andavam a traficar Sumol, «não achas?», interpelei-a. Apesar de ser notório o seu ar de enfado, disparou e disse que o meu amigo parecia ser um gajo cheio de dinheiro, «as roupas, o carro… Se calhar, anda metido nisso do tráfico». Explodi numa gargalhada e garanti-lhe que não, a limpar com o polegar as lágrimas dos olhos, que me turvavam o caminho, que o Lúcio não era da PJ, se isso a preocupava, muito menos era ministro. Ainda a rir e a lacrimejar, olhei directamente para ela que, apesar de ter dito aquilo em tom sério, permitiu que no rosto se desenhasse um sorriso descontraído, decorado por dentes brancos e perfeitos. «Por que não a convidaste?», perguntou, com ar inocente. A minha expressão modificou-se numa interrogação. «A tua namorada!, seria muito mais divertido a quatro!» Mirei-a com frieza e com ar inquisitivo, mau, qual é a dela?, mas acusei a estocada e forcei os lábios, que resistiam, a formar um sorriso. Riu com vontade e no seu riso transparecia a quantidade de álcool que ingerira. Juntei-me à festa, já pouco me importando com os comentários dela. No seu delírio, parecia empenhada em provocar-me e eu, que até era bom desportista, deixei-me levar na onda. «Hm, não sei se esta será a ideia dela de um tempo bem passado», concedi, divertido. Perguntei-lhe o nome, lembrando-me de que ela ainda não o tinha revelado ou, se o tinha, já não me lembrava. «E porque queres saber como me chamo? O mais provável é que, amanhã, não te lembres». Não pude evitar um sorriso condescendente. O mais provável é que tivesse razão, «mas, pelo menos, saberei como te tratar durante o resto da noite». «E tu? Porquê Hel?» «E porque não?»

Atrás de mim, o Lúcio fazia sinais de luzes e tinha a cabeça e o braço de fora, «Ó, Hel!», gesticulando e apontando. Parecia querer parar na estação de serviço que se aproximava. O meu pisca intermitente informou-o de que percebia a sua intenção. Acalmou-se e voltou para dentro do carro. O meu amigo tinha bebido imenso, bagaço, vinho tinto, aguardente velha e eu sei lá que mais. Comecei a recear que a noite fosse durar menos do que antecipara. Entrei na estação de serviço e estacionei. Para trás, ficara o 23 e no fim da estrada, em minha casa, para ser exacto, estava a promessa de uma noite, no mínimo, interessante. Pensando melhor, essa promessa encontrava-se no banco de trás do R6. Outra vez aquela ideia de fazer o Lúcio morder o pó do R6 e desaparecer com ela faiscou no meu cérebro… E tão depressa resisti e pus de lado a ideia. Já não esperando que o partilhasse, por fim, revelou-me o nome: «Ariel».