Ariel - Capítulo XV

As pálpebras subiam com invulgar lentidão, como se estivessem perras, à medida que as gotas caíam uma à uma em cima da minha testa e escorriam pelo rosto, como finas agulhas frias que se espetavam na carne. Arrastei um braço e toquei na cara. Argh! Impelido pela dor, tirei a mão com um ímpeto repentino quando senti o inchaço. Desta vez, com mais cuidado, só com as pontas dos dedos, tacteei a cara que havia perdido os traços habituais, para se revelar, agora, uma massa disforme. O sobrolho inchado e macerado dificultava-me a visão; descendo pela linha do rosto, reprimi um gemido quando toquei no lábio aberto. Tentei recapitular a noite anterior, mas a minha mente recuava, horrorizada, fechando-me as portas e escondendo-se de mim, implorando que a deixasse em paz. Obriguei-me a romper a névoa dos meus pensamentos e recordações desordenados, desconexos e estilhaçados, fazendo um esforço para me lembrar. A cabeça atingia picos de dor lancinantes para logo cair numa estranha dormência tranquilizadora. «Hm...» … … Eu estou bem, Hel… estou bem. Sim… o Lúcio na minha cama, moribundo, abatido pelos excessos da noite. E se fôssemos no R6… Hel? A ruiva, acariciando-me a mão com os dedos longos, destilando o seu veneno melífluo, com promessas na voz ao pronunciar o meu nome, seduzindo-me, a cabra, aliciando-me a levar o R6 no nosso passeio nocturno. Subitamente, o ódio momentâneo que nutrira por ela naquele ponto da noite avolumou-se numa vaga que varreu a minha débil tentativa de raciocinar. Só que a culpa era minha, só minha, por me ter deixado levar por ela, por aqueles cabelos vermelhos e perfume doce, por aqueles olhos verdes e toque quente. Espera…! O R6, a estrada, as ondas a bater com violência nas rochas, aquele cheiro estranho a… a mentol, era isso!, Não te vamos matar, não te preocupes… não agora, não aqui, hahaha! Temos apenas alguns assuntos pendentes a resolver com a tua amiga, é tudo, a voz fria e trocista a ressoar contra as paredes do meu crânio, cortando a noite, ordenando que enfiassem Ariel no carro e que me tratassem da saúde. Quando acabei de montar o puzzle, o cérebro accionou-se num estalido e, como um projector, começou a passar o filme da noite anterior, a perseguição e o momento em que me despistei, por pouco obliterando-me contra a árvore. «Hm…», lembrei-me dos punhos a voar pelo tecido negro da noite e a esmagarem-se contra o meu rosto em baques horripilantes. Lembrei-me dos joelhos a colidirem com as minhas costelas e, por fim, aquele gancho do tal «Tubarão» que me fez ver tudo branco. Que esquerda terrível; se havia forma de saber o que se sente depois de um tanque nos passar a ferro, era aquilo: um uppercut dado por um tubarão. Embora não visse, escutara ainda o burburinho de vozes que não faziam sentido, havia dado conta quando me lançaram, como morto, no banco do carro, ouvira o bater de portas e, depois… o vazio negro da inconsciência.

Fiquei imóvel com os olhos fixos no tecto, sem a mínima vontade de mexer um tendão que fosse. A goteira não cessava e, embora desagradável ao início, era revigorante sentir a água fria lavar-me as feridas da cara e escorrer até desembocar nos lábios secos e gretados, pelos quais passei a língua, com cuidado para não tocar na ferida. Bebi algumas gotículas com sofreguidão, saboreando cada uma como se estivesse perdido no deserto há dias. Deixei-me estar, com o corpo dormente e rígido, sem saber se me doía ou o que me doía. Ainda esgotado pelos acontecimentos recentes, soltei um grunhido e comecei a semicerrar os olhos, devagar, só desejando enclausurar-me nos meus sonhos e esquecer tudo, mas abri-os com violência, contrariando os caprichos da mente, que teimava em querer apagar as luzes e ir dormir. Não, não podia fazer isso, tinha de saber onde estava, tinha de fazer alguma coisa, qualquer coisa, o que fosse. Por cima de mim, o tecto de madeira podre, carcomido pela humidade e pelas térmitas, dava licença à chuva, por entre as frestas, para se infiltrar. Já farto do banho, comecei a erguer-me, massajei as têmporas e gemi, sem saber se gemia da sova, se da ressaca, com os músculos atrofiados e os ossos a ranger e a estalar nas articulações. «Já acordaste!» Sentado em cima de um colchão velho e bafiento, com as molas a despontar pelo tecido roto, arrastei o pescoço em direcção à voz familiar. Tentei focar, mas só via uma figura alta e magra. Parecia uma mulher. «A…Ariel…?», indaguei, confuso, tentando filtrar o nevoeiro e regular a imagem que os olhos me transmitiam. A forma segurava uma cortina e espreitava por uma janela para o exterior. Escutei passos preocupados e assustados avançarem na minha direcção. Gradualmente, a imagem tornou-se mais nítida. Via-a, agora, ajoelhada à beira do colchão. «Hel? Estás bem?» Segurou-me a mão e passou a outra pela minha cara. Gritei quando todos os sensores de dor se activaram, dei um salto, como se o corpo tivesse sido electrocutado, e senti que todos os motores tinham voltado a ficar operacionais, como se só precisassem de alguém para ligar o interruptor. De repente, as pálpebras escancararam-se, a imagem ficou bem mais definida do que HD e os músculos foram infundidos com energia. Ela retirou a mão, sem esconder o sobressalto e a apreensão. «Estou, estou bem, mas não me toques, não na cara, parece que vai explodir de tão inchada… nem nas costelas, nas costelas também não, ai…», soltei uma pequena gargalhada que me fez entrar num ataque de tosse; o diafragma subia e descia, a caixa torácica contraía-se em impulsos rápidos e violentos; não era uma experiência que gostasse de repetir. Ela mexia as mãos em gestos desajeitados e hesitantes, como que me querendo ajudar, mas sem saber bem onde me tocar. Fiz-lhe sinal com a mão de que já estava a passar e observei-a em silêncio. Não era a mesma mulher da noite passada, segura, fria, confiante. Os olhos raiados de sangue revelaram-me que tinha estado a chorar. Segurava os braços com as mãos e estava pálida, desgrenhada; a maquilhagem escorrera-lhe pelas faces em lágrimas negras. Tinha uns arranhões na cara e os braços sarapintados por nódoas negras, mas, fora isso, parecia estar bem, pelo menos o corpo, que tremia de frio e talvez até de medo. Como se não desejasse enfrentar-me, fechou os olhos. Dei-lhe um momento e absorvi o ambiente em meu redor.


Não havia muito para ver. O quarto não passava de um quadrado minúsculo com paredes despidas e alguns objectos volumosos, que supus tratar-se de móveis, cobertos por lençóis rotos e amarelados. Como o tecto, também as paredes eram feitas de madeira apodrecida. Inspirei longamente e o fedor pesado do mofo e da humidade obrigou-me a reprimir os pulmões que se preparavam para iniciar um novo acesso de tosse. À direita do colchão, havia uma pequena janela rectangular. Desentorpeci as pernas e, apoiando-me no ombro dela, ergui o corpo, esticando a coluna, com resmungos de dor. Avancei uns passos cambaleantes até à janela e afastei a cortina velha e poeirenta. Nada. O sol estava prestes a romper, mas ainda era impossível distinguir cores, objectos, fosse o que fosse. Apenas conseguia perceber que estava num sítio elevado, talvez um segundo andar, e que o edifício devia estar embrenhado no mato, isolado, uma vez que as copas altas das árvores recortavam o céu e o horizonte. O vento corria num assobio furioso, fustigado pela chuva intensa de Dezembro, esmagando-se contra a janela como um aríete. Onde estamos? No momento em que pensei, a minha boca proferiu a questão em movimentos automáticos. Ela não respondeu. «Onde estamos?», atropelei-a com um esgar furioso, desejando poder culpá-la de tudo, atirar tudo para os ombros dela, num acesso de egoísmo, «maldita a hora em que te conheci!» Ela levantou-se, conformada com a situação, encaixando os golpes, fazendo um esforço perceptível para recuperar o sangue frio. «Vais dizer-me ond…!?» «Não sei!», explodiu e, inspirando fundo, mais calma, «não sei, está bem?... Não sei». Um sentimento de pena substituiu a raiva que sentia dela. No meio daquela enrascada, parecia tão perdida quanto eu. Contudo, a minha vontade continuava férrea em descobrir em que berbicacho me tinha metido. Calmo e controlado, coloquei um freio na voz, e perguntei-lhe quem eram aquelas bestas e o que queriam. «Não posso, desculpa, não me perguntes, não posso…», começou, fugindo à pergunta. Trilhei a distância que nos separava em duas passadas largas e apertei-lhe os braços. «Diz-me o que se passa! Quem são estes tipos? Quem és tu?» Cingi o aperto e agitei-a. Ela reprimia os gritos, «estás a magoar-me!», implorava que a libertasse. Aterrorizado pela minha atitude e com medo de fazer algo de que me pudesse ainda vir a arrepender, lancei-a para cima do colchão, recuei, ofegante, com o coração descompassado, e encostei-me à parede, deixando-me escorregar até cair sentado. Pus os braços sobre os joelhos e apoiei a testa.


Senti o corpo dela sentar-se ao meu lado. Pousou uma mão periclitante e trémula no meu ombro. Ergui o rosto. Ela tentava tranquilizar-me com um sorriso, mas os olhos não sorriam. Estavam vítreos das lágrimas negras. «Escuta, Hel», o silêncio prolongou-se, «eu sei quem nos trouxe para aqui». Observei-a em silêncio, dando-lhe permissão para continuar. «Sei do que estão atrás. Tu…», suprimiu um soluço, «Tu nem devias estar aqui, nada disto devia ter acontecido assim, correu tudo mal! Tudo mal!», encetara um monólogo delirante, reprovando-se pela situação em que nos encontrávamos. Dei-lhe tempo de se recompor. «Eu sei que tens muitas perguntas que queres ver respondidas, mas não te posso contar nada. É para teu bem, acredita no que te digo», assegurou-me com convicção. «Quanto menos souberes, melhor estarás. …Mesmo que te pusesse a par de tudo… isso, isso não mudaria nada», calou-se, num sussurro de desalento. Percebi que não ia conseguir arrancar nada dela, não sem violência e disso já tinha para o bife. Além disso, arrancar informações de pessoas à pancada não fazia bem o meu género. «Está bem, Ariel, está bem, não te vou perguntar o que se passa», concedi, com compreensão resignada. «Neste momento, não me ajudaria em nada. Sei que estás metida numa embrulhada qualquer e que fui apanhado no meio desta salgalhada. Quem é ele?, um namorado ciumento?», perguntei, escarninho. Fitou-me sem emoção. «Basta que saibas que é um tipo da pesada, muito perigoso e influente. Não é o tipo de homem com quem te queiras cruzar», revelou-me, sombria na voz e ainda mais no olhar. «Ok, ok, aceito a tua resposta», assenti, tranquilizando-a que não insistiria. «Se bem que agora é tarde, já nos cruzámos», rematei, mais amargo do que um limão. «Mas, e agora?», levantei-me, puxando-a para cima. «Temos de pensar numa forma de sair daqui!», tentava despertá-la do torpor. «É preciso fugir, de alguma forma, fugir, chegar à polícia, pedir ajuda!» Porém, no íntimo, sabia que o que dizia não fazia sentido. Se fosse assim tão fácil, ó, se fosse, já ali não estaria. «Em breve será dia, darão pela nossa falta. O Lúcio, sim, o Lúcio fará alguma coisa, vai contactar a polícia e…» «Não percebes?», cortou-me a palavra com um silvo, «estamos aqui presos, sem hipótese de fuga, isolados de tudo». Mirava-a, atónito, enquanto ela esbracejava e desabafava entre soluços que não havia nada que o meu amigo pudesse fazer. A minha única esperança era o Lúcio, mas como poderia ele descobrir-me se nem eu sabia onde e com quem me encontrava? A possibilidade de ela ter razão começava a ganhar uma forma assustadoramente real. Lutei contra a impotência que começava a aflorar. «Não tens um telemóvel, algum meio de contactar quem nos possa ajudar…?» Meneou a cabeça com desalento, «Esquece… Daqui a pouco, virão aqui para nos arrancar informações. Seremos torturados só pela piada, mesmo que já saibam tudo». O meu corpo gelou até ao tutano dos ossos ao som da palavra «tortura». Sentindo o desespero a tomar o controlo, esbaforido, lancei uma mão trémula à janela, numa tentativa de encontrar um meio de a abrir, tacteando a tranca. Puxando e empurrando, forçava com todas as minhas forças, mas não se movia um milímetro que fosse. Ofegante, lancei os olhos alucinados para a porta. «Esquece, está trancada. Achas que não tentei?», estourou, em frustração desolada. Levou as mãos à cara, deixou o corpo encostar-se ao meu e correu a minha cintura com os braços, «desculpa… não devia ter acontecido assim, não devia…» e começou a soluçar. Cingi-a nos braços com um aperto forte e passei-lhe a mão pelo cabelo. Tinha passado a noite a tentar aproximar-me dela e, agora, ali estava ela, nos meus braços; contudo, aquelas não eram de todo as circunstâncias que eu teria escolhido. Deixei-a chorar em silêncio, sem proferir um som, sem a consolar ou dizer que tudo acabaria bem. Também me deixei perder nos braços dela, com a hipótese de um desfecho horripilante cada vez mais premente. E assim ficámos, não sei se um segundo, se uma hora, abraçados num silêncio lúgubre.


De súbito, a porta começou a estalar e a abrir com um lamento de dobradiças, deixando assomar um rosto inquisitivo que nos espiava. Ariel libertou-se dos meus braços com violência, surpreendida, e virou-se para a porta. Quando viu o nariz proeminente farejar o ar e a mão grande e poderosa como a de um gorila escancarar a porta, «Que comovente!, hahahaha!», deu dois passos amedrontados para trás, escondendo-se atrás de mim. Fiquei petrificado, colado ao chão, tinha reconhecido aquela voz grave e ribombante. Chefe, podemos só dar-lhe uns tabefes, para o aclimatar à nossa presença? Com que então, aquele é que era o Tubarão. À luz parca da lâmpada, dava para perceber como conseguira o epíteto. Além de ser maciço, com uns dois metros de altura e quase outros dois de ombros, o tipo encarava-nos com olhinhos de marfim pequenos e redondos fixos no centro das órbitas, quase cobertos pelas espessas sobrancelhas loiras, e com uma expressão de malevolência irónica a acompanhar. Logo abaixo, as narinas sorviam grandes golfadas de ar, tão grandes que temia que esgotassem o oxigénio da pequena divisão. A mandíbula portentosa abria-se e fechava-se numa gargalhada cavernosa, deixando antever, por entre os lábios finos, quase inexistentes, duas fileiras de presas reluzentes e pontiagudas, fileiras que já tinha visto antes, à saída do bar, quando o Lúcio me telefonara a dizer que estava à porta do governo civil com um doce. Tinham sido aqueles dentes massivos que me haviam sorrido quando, para picar o Lúcio, o acusara de me ter levado a mulher, sacana, fugiste com o meu amor, fugiste com o amor da minha vida! Na altura, tinha sido um sorriso cúmplice, mas, agora, os dentes pareciam prontos a despedaçar-me, a arrancar-me os membros um por um, à medida que o maxilar abria e fechava, abria e fechava, ao mesmo tempo que jurava ouvi-lo ranger nas articulações, como um mecanismo mal oleado. Desviei a atenção para a ruiva e os nossos olhos cruzaram-se. Ela sabia bem no que eu estava a pensar e o mamute, ou tubarão, também. Parou de gargalhar como um demente, sacou dos óculos escuros, que colocou sobre o nariz de papagaio, assumiu uma postura direita, como se ainda fosse o guardião impreterível do 23, e vestiu uma expressão de mármore, desempenhando o papel de segurança. «Sou eu, sou! Já vi que te lembras», declarou, cáustico. Tirou os óculos e voltou a guardá-los. «Ainda bem que já estão acordados, meninos. Infelizmente, não temos pequeno-almoço, mas, para passar o tempo, está na hora de ter uma conversa com o chefe», sorria com visível satisfação perante as nossas expressões de confusão e medo, que ele farejava com aquelas ventas salientes. Apelei a todas as minhas forças para fazer ar de mau e perguntei-lhe, de chofre, o que é que queriam de nós. Só consegui arrancar-lhe mais riso e troça. Era a primeira vez que via um tubarão a rir. «Oh, tu tens sangue nas guelras, hahaha!» Resmunguei para mim mesmo que «o único que pode ter guelras aqui és tu». Parou de rir e dardejou-me com olhos assassinos. Nervoso, mexi desajeitadamente o corpo, pronto para encaixar, na medida do possível, uma investida. Pelos vistos, também ouvia tão bem como um tubarão. «Ah, que posso fazer, o nome colou!», gracejou. «Tu! Vem comigo!», regougou, seco e ríspido, apontando um dedo poderoso na nossa direcção. Num conflito de emoções, os meus instintos mais básicos ordenavam-me que me escondesse, nem que fosse debaixo do soalho, dentro de um armário, mas, ao mesmo tempo, tentava proteger Ariel com o corpo dorido. Vislumbrei o punho pesado como uma marreta e recordei-me da noite anterior, do que acontecera quando tinha tentado protegê-la. Num segundo, aqueles punhos de aço tinham-me posto a comer terra e a ser levado para o meio do nada num carro recheado de criminosos. No entanto, era demasiado escrupuloso para a usar como escudo, demasiado para o meu bem. «Ohohoh, queres protegê-la, outra vez?», chutou a pergunta com um misto de desdém e satisfação. Abriu e fechou as manápulas, estalando todos os ossos da mão. Parecia ansioso por libertar tensões acumuladas e, pela veia que pulsava na testa, era mais do que óbvio que o tipo nunca devia relaxar. Deu um passo que fez estremecer o soalho, reverberando pelas paredes, mais outro e mais outro, até se acercar de mim. Levantou uma das bigornas que lhe encimavam o pulso. Ergui os braços desajeitados e aguardei o golpe. Começou a rir e bateu-me com camaradagem no ombro. Desequilibrei-me com a surpresa da atitude e com a força da sua demonstração de fraternidade. «Vem cá!», rodeou-me os ombros com o braço pesado como um tronco; verguei-me sob o peso como uma vara. «Sabes, admiro gajos como tu, palavra, autênticos cavalheiros, sempre prontos a apanhar no focinho por causa das gajas», começou, numa ironia paternalista. «Mas, sabes?, tu não és um cavaleiro e ela, como já deves ter percebido, não é nenhuma princesa; aliás, é bem mais do que parece». Olhou para trás na direcção dela. «Desta vez, não precisas de protegê-la», aproximou-se do meu rosto e senti o cheiro denso e pesado do tabaco de merda que fumava, «sabes porquê?», sorria, quase amistoso. Parecia esperar, sinceramente, uma resposta. Como não a obtivesse, pegou-me pelo colarinho com uma mão e, com um rugido, projectou-me em direcção à entrada. Atravessei o portal e despenhei-me com um eco estrondoso. «Porque tu é que vens comigo, hahahaha!» «Deixa-o, Tubarão!», Ariel interveio, medrosa, mas também ela a tentar dar ares de durona. «Ele não tem nada que vos possa ser útil!». «Psht! Calou!», desferiu-lhe uma chapada com as costas da mão, o que a lançou para o colchão. Em pânico, olhei para dentro do quarto, ainda prostrado. Um golpe daqueles até podia matá-la. Contudo, dando provas de resistência, Ariel mexeu a cabeça e ergueu-se nos cotovelos. Exibia um corte profundo na face, desferido pelo anel que o brutamontes exibia na mão direita. Virou-lhe as costas e veio direito a mim. «Tu é que vens comigo!» Segurou-me pelos ombros e levantou-me, com os membros bamboleando como se fosse um boneco de trapos, colocando-me sobre os pés. Com uma mão nas costas, «Vamos! O chefe quer conhecer-te», empurrou-me para longe da porta. «Mexe-te, à minha frente!», cambaleei, esfregando o ombro, não sem ainda me voltar apenas para vislumbrar a porta fechar-se num lamento e bater com estrondo. Pegou num molho de chaves, trancou a porta e colocou-as dentro do bolso, dando-lhes uma pancadinha. Ariel tinha ficado para trás e, quanto a mim… ia conhecer o chefe.