Capítulo XIV

Deitado numa poça de lama, fechei e abri os olhos a confirmar se não fora vítima de um pós-choque alcoólico e se não estaria a sonhar vestido e de sapatos calçados, na cama, coisa que se tinha vindo a tornar mais frequente nos últimos tempos, mas não, parecia mesmo que aqueles dois, cercados pelos outros, eram o Hel e a Ariel.

Não podia ter a certeza, mas algo nos gestos deles me fazia intuir isso mesmo. Estavam rodeados por uma série de pessoas, e não parecia que a coisa estivesse a correr de feição; não, não parecia que se tratasse dum encontro casual de velhos e bons amigos, pelo contrário, apesar do orvalho da noite não permitir ver muito, quase que sentia a tensão distender-se do Hel e da Ariel, passando pelos outros, aterrando direitinha na minha poça de lama, em particular.

Arrastando-me, de coração aos pulos, fui-me aproximando, tentando não fazer ruído algum, sustendo, até, a respiração. De súbito, uma voz que reconhecia, de bares inusitados e não só, silvou no ar, metálica, maldosa, mesquinha: «Chefe, podemos só dar-lhe uns tabefes, para o aclimatar à nossa presença?»

Quem assim escarrava era o tipo que eu conhecia por «tubarão» e o homem que ele pretendia «aclimatar» não era outro que não o meu bom amigo Hel, que previa já completamente fodido. Cerrei os dentes na boca e as unhas dos dedos nas palmas das mãos; se eles não fossem tantos, se eu não tivesse deixado a Glock na bagageira do R6, logo aquele bastardo filho dum grande comboio de megalodons veria o que era bom para o «clima», ó se veria, o grande pulha: extingui-lo-ia para junto dos seus irmãos mandibulares em menos dum fósforo, ou melhor, em menos tempo do que leva um asteróide a embater na terra. Ao lado do «tubarão», o baixote, o «minorca», também o reconhecia, só pela sombra, avançava, reptilário, untuoso, ameaçadoramente. O Hel recuava, protegendo com o corpo a Ariel, mas era por demais evidente que a partida estava perdida, não tinham para onde fugir; mais atrás, o homem a quem o «tubarão» se dirigira abraçava uma mulher, só podia ser uma mulher e, quando a Lua, momentaneamente descoberta, iluminou a cena, topei que conhecia a gaja: era a puta da Telma, a vaca-loira do 23 que nos seguira e que poucas horas antes me declarara, chorando, um amor eterno, absoluto! Puta de merda, estava feita com aqueles suínos, só podia, a grande meretriz.

Abafei um grito e aproximei-me, colado ao solo, mantendo uma certa calma, era necessário. O gajo que parecia dirigir as operações – por um instante – fez-se de alarmado, mas lá descontraiu, cuspiu e sacou um cigarro do bolso. Usava um chapéu, um panamá, o traste, um panamá, de noite. Deixei-me ficar, todo mansinho, todo gato pardo, observando e sustendo a respiração.

Então, o homem que abraçava Telma acendeu o cigarro lá se descoseu para o «tubarão», indulgente: «Hmm, bom, vá, está bem, agora que o vento corre de feição e que tudo se vai resolver, pode ser, divirtam-se… Mas» - cuspiu, feroz - «Não se deixem levar, quero-o vivo e em condições de falar! Isto vale sobretudo para ti, ouviste, Tubarão?» O «megalodon» ouvira, por certo que ouvira, em dois passos estava junto do Hel e esbofeteava o meu amigo, uma, duas vezes, gargantuesco, com as costas da mão. Ariel gritou, mas de nada valia, já o «minorca» se ocupava dela, puxando-a para trás, para o chefe, aproveitando para lhe meter uma mão debaixo da saia.

Tudo aquilo me enraivecia só que não podia fazer nada, a minha impotência resvalava-me pela cara, um misto de lama e de lágrimas, não podia fazer nada! Ariel foi empurrada para dentro do R6 pela Telma, que gargalhava, acintosamente. O homem das ordens, que também ele me parecia estranhamente familiar, bracejou para o minorca que se colocasse ao volante do meu carro. Só de pensar naquele patife gorduroso ao volante do R6 ferveu-se-me o sangue e quase que deitava tudo a perder. Contive-me à justa, a realidade abatera-se sob a forma do upper-cut, com que, entretanto, o «tubarão», impecável no gancho, fizera o Hel voar, em slow motion: quando a cabeça dele bateu no chão gelei que nem o planeta Kripton e, sem saber bem porquê, empurrei-me ainda mais na lama, de cabeça, pensado que o Hel não iria ter um despertar agradável e que eu, quase de certeza, se fizesse um gesto que fosse, não teria melhor sorte.

Por fim, empapado, ressacado, porco, ergui o rosto, pus-me à espreita: o «tubarão» pegara no Hel como se manejasse um saco de batatas e fora depositá-lo no banco de trás do carro branco. Olhou para o outro tipo, o alto, o esbelto, o do panamá, o chefe, interrogativamente: «E?..», questionou. Os seus dentes patibulares brilhavam ao luar e os seus olhos então nem saber. O outro meco, indubitavelmente quem mandava, replicou-lhe, numa cadência expositivo-imperativa, de modo a que não restassem dúvidas a nenhuns dos presentes: «Toda a gente atrás do Alfa!, «tubarão», tu, no Miura, pode aparecer alguém, vamos, já perdemos demasiado tempo!..»

Eles despachavam-se, conhecedores das ordens, agora muito mais rapidamente, estava na hora de me pôr também a mexer. Pelo canto do olho observei a cena, o «tubarão» a escapulir-se para o Miura Branco; mais à frente, o que dava as ordens, abrindo a porta do Alfa; o «minorca», a Telma e Ariel no meu R6, que haviam sacado do baldio para onde o Hel o tinha afocinhado, o pobre do animal.

Ligaram os motores e pareciam intentos em fazer inversão de marcha. Era tempo, tinha de me despachar. Furtivamente, como um caranguejo, ou como um dos crustáceos aparentados que caminham de revés, rasteiro, fui-me afastando, regredindo silenciosamente para o R7.

Era tempo, sem dúvida que o era, vi-me livre do grosso da lama, abri a porta do carro, sentei-me ao volante, dei à chave, com medo de que não pegasse, e já eles, na estrada, passavam por mim, imoderadamente velozes. Pigarreei, lá encontrei a ignição, dei à chave uma terceira vez, pegou, mirei o espelho retrovisor, fiz o jogo de caixa - marcha atrás -, recuei, rodei o volante, liguei os mínimos, embraiei a primeira e arranquei, a alta rotação.

Levam-me uns duzentos metros de avanço, a sorte é que não iam muito depressa, pelo que, sacudindo lama dos cabelos, deixei-me ir, igualmente, só com os mínimos ligados, procurando não dar nas vistas. Em que história me viera embrulhar! Que raio se poderia estar a passar? Bom deus, não percebera nada daquilo. Que diabo fariam os melros e a prostituta do 23 neste folhetim sem pés nem cabeça? E o outro tipo, o das ordens, conhecia o gajo de algum lado, só não sabia era de onde. Em que merda me viera enfiar desta vez? Enfim, retrocedíamos, passávamos outra vez pela praia do Abano e metíamos de novo para Birre. Iriam os gajos para casa do Hel? Caralho! Que merda ter deixado o telefone e a Glock na bagageira do R6! Tudo seria mais fácil se tivesse o telefone à mão de semear, já não falando da arma.

Passámos pela casa do Hel e não pararam, seguiram para a rotunda de Birre e meteram pelo IC 15, que dava para a A5. Fixe, ponderei, iam para Lisboa, só podia ser isso, na volta iam de regresso ao 23 e, se assim fosse, de lá poderia facilmente encontrar um telefone e denunciar o caso, ou bem que ao meu velhote, ou bem que à polícia ou ainda a um dos meus “contactos” musculados.

Porreiro, era só manter a calma e segui-los, tranquilamente. Aumentaram a velocidade, 110, 120, 130, 140. Uma luzinha laranja acendeu-se no painel de instrumentos do R7. Aquela luz conhecia-a bem d e outros chaços, era a luz da Gasolina, estava na reserva.

Aproveitei uma descida para ganhar balanço e desengatar e a luz apagou-se; não havia problemas, mal entrara na reserva do R7, reflecti, tinha no mínimo para 80 quilómetros, apenas era necessário acalmar-me. Firme, de olhos fixos na traseira do R6, procurei o botão e liguei o rádio. Uma explosão de som invadiu a carlinga da viatura: «Get it on, bang a gong! Get it on, bang a gong!», T-Rex, a uma hora daquelas, no rádio? Revigorado pela magia dum som absolutamente inesperado às quatro da manhã preguei a fundo atrás deles, fazendo saltar o ponteiro da velocidade, também eu, para os cento e quarenta, cento e cinquenta, não me escapariam, de certeza que não, era só uma questão de me ver com a Glock nas unhas e logo teríamos pano para mais do que uma amena cavaqueira, ó se teríamos.

Então, na saída de Alcabideche, reduziram a marcha e ligaram os respectivos piscas, abandonando a auto-estrada. Eu, como não tinha piscas, limitei-me a reduzir ainda mais e, sempre de mínimos, mantive-me na cola deles. Lá iam, lá iam, mais devagar agora, eu sempre a olhar para o mostrador da gasosa, eles lá à frente, a uns sessenta, setenta, no máximo.

Entráramos na Nacional 9 e um pesado impedia-os de irem mais depressa, pelo que aproveitei para meter a quinta e levantar o pé. Aquela estrada conhecia-a bem, de outros «passeios», era sinuosa, tinha uma série de curvas complicadas de negociar, e reduzi, de novo, tentando manter pelo menos uns 100 metros entre mim e a traseira do R6.

Passámos pelo Hospital do Alcoitão, que desde o séc. XVI tinha como principais objectivos a reabilitação de «diminuídos físicos com incapacidade motora»; ao fundo da recta que bordejava o referido todos os três carros à minha frente se lançaram, numa ultrapassagem doida do camião que os procedia. Engatei a terceira e carreguei outra vez a fundo, sempre atrás deles. A continuarmos assim, com manobras disparatadas destas, em caso de acidente, pelo menos tínhamos a vantagem de estarmos perto do Alcoitão; era para ali que iam muitos gajos vítimas de acidentes rodoviários. Sim, muitos tipos acabavam a «reabilitar» as pernas, os braços e outras partes vitais no Alcoitão, embora, na maior parte das vezes sem grande sucesso.

Tive de engatar a segunda para completar a ultrapassagem, um bacano que vinha em sentido contrário deu-me máximos e travou a fundo, chiando, mas lá logrei meter para a faixa da direita, in extremis. Os outros já se distanciavam, galgando a recta, muito depressa, até parecia que levavam fogo no rabo, ou isso ou alguém estava cheio de tesão, só podia, casquinei para comigo próprio.

Meti a quarta, liguei os médios. O assunto estava a tornar-se perigoso, já levávamos uns bons vinte quilómetros desde que a luz da reserva se fizera notar pela primeira vez, para onde iriam eles? Para Lisboa não era de certeza, reflecti amargamente, essa opção estava fora do baralho, seria para Sintra? A 120 passei a abrir pelo autódromo Fernanda Pires da Silva.

No rádio, Bowie e «Gasoline» haviam substituído T Rex e «Get it on»; consciente da ironia da situação e vendo que os outros não davam mostras de abrandar, calquei o acelerador, fazendo disparar o carburador duplo do R7. Não, assim não iria longe, mas que se fodesse. Enquanto houvesse gota, segui-los-ia, em ficando apeado, confiaria na sorte, faria o melhor que pudesse, improvisaria, convinha que se fosse «pragmático», como diria o ministro dos Internos.

Essa lembrança fez-me doer a cabeça e não voltei a pensar no assunto, sabia que, no mínimo, o R7 tinha combustível que dava e sobrava para chegar a Sintra, talvez até desse para chegar mais longe e, se não fosse esse o caso, logo se veria. Não me apetecia tomar decisões extemporâneas, ao diabo ao Ministério, estava mergulhado num caldo quente demais para pensar em trabalho. E nos documentos, já agora, que viajavam lá à frente.

Desliguei o rádio. Sentira-me tonto e conduzira demasiado depressa. No silêncio da noite, desengatei e deixei-me rolar, felizmente, não me aproximara em demasia da traseira do R6. Eles não me haviam topado, estava confiante disso, e lá fomos, em velocidade de cruzeiro, dando-lhes os costumeiros 100 metros de avanço, para alguma coisa havia de servir o curso de condução defensiva que a DGV me havia patrocinado.

«Get it on, bang a gong», trauteei, sorrindo, relembrando de quando ouvira aquela música pela primeira vez. Fora quando levara a Angélica, a minha namorada «oficial» ao cinema, tínhamos ido ver «Jar Head», um filme sobre magalas americanos e sobre o atoleiro que sempre são as guerras, fora nesse cinema e no decorrer desse filme que a beijara pela primeira vez.

Era tão boa a Angélica, de facto boa, em vários sentidos, muito melhor do que todas aquelas putas a quem actualmente me batia, reflecti a contragosto, antes de abrir o vidro da janela e de escarrar, tentando de algum modo consolar-me do facto de ela me ter posto os cornos e de - por cima - me ter enviado um vídeo porn amador em que era fodida à canzana pelo tipo com quem me colocara os palitos. Sim, a Angélica sempre tivera um sentido de humor muito peculiar mas, para o caso, isso não interessava nada; talvez que, se conseguisse safar-me desta situação imbecil em que me vira envolvido - se - e era um enorme se, talvez que lhe telefonasse, talvez que fizesse as pazes com ela, assinasse um armistício final, a beijasse, a sentisse nos meus braços, os nossos cheiros misturados, corpo a corpo, afago a afago e, finalmente…

«Bobagem», vociferei em voz alta, regressando àquilo que realmente importava: a carlinga do R7, a manete das mudanças, o indicador da gasolina, os pedais, um de cada vez, mais a embraiagem; a porra dos documentos, o telemóvel e a Glock, no R6, que seguia, ligeiro, com uma ruiva assustada, por certo, no banco de trás, à minha frente. Num carro que, por estúpido que pudesse parecer a posteriori, era um automóvel que me pertencia.

«Bobagem», murmurei, pouco ou nada convencido do que repetia a mim próprio; enquanto tratava dos meus assuntos egoístas, particulares, Ariel e o Hel podiam estar, se não o estavam mesmo, em risco de vida. Acalmei-me, tentei concentrar-me na condução, tentei concentrar-me nela, no desdém com que me tratara. Que gata, que gata.

A viagem prosseguia, agora mais devagar, se fosse de dia, quase que teria curtido de largo a paisagem, a bem dizer, estava habituado a isso. Como era de noite, tinha de concentrar-me e deixar-me de brasileirismos. «Bobagem», casquinei entre dentes e voltei a escarrar para noite.

Ao fundo duma recta, do lado direito, entrevi um muro alto, sinistro, encimado por rolos de arame farpado . Que sítio. A abrir, passei por uma placa garrafal onde se podia ler, só para o caso de engano, «Estabelecimento Prisional do Linhó». Sacudiram-se-me todos os nervos e afastaram-se de mim quaisquer vestígios da garrafa de Marques de Rioja com a qual me banhara em casa do Hel.

Involuntariamente, firmei-me no volante e vi ao longo daquele muro, que nunca mais acabava, a vida correr sobre mim num flash-back de arame farpado após arame farpado. Quais fios de arame com que se prendia a minha, aqueles outros, os do Linhó, carcereiros de tantas outras existências, pareciam sorrir-me, cinicamente.


Conhecia um gajo que estivera recluso ali. Aquela prisão não era das boas. Ultimamente, no Ministério, corria à boca fechada que dois «suicídios», noticiados nos jornais, afinal, não passavam de dois «homicídios», mais ou menos tenebrosos, mais ou menos asquerosos. «Bobagem», pensei.

O Olívio, o gajo que eu conhecia e que estivera «dentro» no Linhó, seguramente, teria uma palavra ou duas a dizer sobre o assunto. Sorri. O Olívio era um tipo muito interessante. Cigano, amigo do meu velhote, sob cujo comando fizera a guerra em África. Sim, o José Francisco Olívio, esse sim era um gajo que me daria muito jeito num aperto destes. Na volta, assim que estivesse perto dum telefone, seria a ele a quem ligaria primeiro; o Olívio era gajo para me tirar daquela situação e até homem para me agradecer a «oportunidade» de limpar o sebo ao «megalodon» do 23. Sim, era caso para tanto, estava ao corrente de que, quer o Olívio, quer o «tubarão», não só não eram flores que se cheirassem como não morriam de amores um pelo outro, literalmente.

Bem, reflecti, logo se veria, a procissão de viaturas à minha frente parecia de facto dirigir-se para Sintra, era caso para relaxar e ligar de novo os mínimos, não fosse dar-se a asneira de estarem alerta. A luz laranja no painel de instrumentos agora fazia-se permanente, o carburador duplo do R7, provavelmente, estaria na origem desse facto.

Seria bom que chegássemos ao destino, tão breve quanto fosse possível, ao covil dos que me haviam roubado o carro e o amigo, de preferência, perto duma cabine telefónica. Só por causa das moscas e do Linhó. E da gaja, daquela mulher esbelta e ruiva que nos havia driblado; queria comê-la, queria resolver o caso todo, fazer dela minha mulher e queria, claro, que ela fizesse de mim seu homem.