Ariel - Capítulo III

Abandonei o devaneio de morte e felicidade em que me lançara na estação de serviço e, arrancado de volta à realidade, com uma mão no estômago e com a outra sobre a boca, soltei um sonoro arroto. Após um silêncio de espanto face à minha repulsiva manifestação estomacal os meus dois companheiros riram-se de novo, ruidosamente, talvez que ruidosamente a mais.
No banco de trás, na minha nuca, a pensar, sabia-o, encontravam-se aqueles dois olhos verdes, despertos e húmidos, acompanhados dum riso subitamente quase que infantil em demasia. Sentia isso perfeitamente. Ria-me também mas algo mudara. Fora como se se tivesse criado, a dado passo da nossa jornada desde Lisboa, um clima diferente, um pouco como se estivéssemos a fingir o nosso real estado de embriaguez, embora eu continuasse bêbado dos pés à cabeça e assim desejasse permanecer, sentia que algo mudara. Fora a miúda da bomba. O café e também o “refrigerante”, com uma acidez um pouco acima de 40 graus, fora isso.
Aquela história começava a assustar-me. Estava muito bêbado e algo não batia certo, a começar na porcaria de chaço que tivera o desprazer de conduzir nos últimos quarenta quilómetros e a terminar naquele parceira bizarra de olhos verdes e cabelo ruivo no banco de trás do meu carro. No banco de trás do meu R6, da minha viatura confortável, segura e imbuída do glamour necessário à prossecução das minhas capacidades no que respeitava ao burocraticamente burlesco das actividades que desempenhava, zelosamente, no Ministério; havia algo naquela rapariga que não batia certo.
O que era? Já sabia. O meu pai não aprovaria. Não falo da bebedeira. Nem sequer da troca do carro. Oferecera-me o carro e jamais admitiria questionar o destino que pudesse dar aos seus presentes. O meu pai era e é assim. Mas não aprovaria. Uma puta estava no meu carro, à frente da bagageira, fria, na minha nuca, à frente dos documentos, não se assumindo como o que era. Sim, de todo o velhote aprovaria. Quanto mais não fosse… Ali havia gata. Dei mais um longo gole na garrafita de que me munira com a menina do balcão, já essa era mais gatinha, a miúda, bem bonita por sinal, mulata, da minha altura, peso aproximado, e fitei o Hel, perpendiculando-me provocatoriamente em relação à ruiva, enquanto aproveitava para lhe cravar lume, arrogante, em tudo displicente no meu gesto silencioso com que o cigarro cortava a atmosfera embaciada do R6 e o chaço do Hel mesmo atrás a fazer sombra. Ela nem tugiu nem mugiu, surripiou um isqueiro de grife da sua maleta, só agora reparava que trazia uma maleta, grená, e sorriu, cúmplice, à medida que me acendia o cigarro. Que linda que era. Linda.
Hmm, reflecti. Dei outro gole ainda mais longo e disse, finalmente, para quebrar o gelo que sentia num outro rosto que se perpendiculava um tudo ou nada torpe, um tudo ou nada resistente, mesmo à minha frente: Bom, menino, acorda rapaz, vamos trocar de carro como deve ser e é de direito?.. O Hel não gostou da sugestão, vi logo que não lhe agradava e, glauco, sem lhe permitir hesitações, passei-lhe a garrafa para as unhas. Tirou-lhe a rolha, bebeu, generoso, sem medo e o acelerador voltou a soar, desta feita um tudo ou nada amantigado, essa era a palavra, sibilando por entre os corredores das bombas de gasolina da estação de serviço até se lhe esmoerem os arroubos de gasolina ao encontro ao vidro da menina do balcão, mulata.
Eu sorri, feliz, arranquei-lhe a garrafa e passeia-a à ruiva, só para ver melhor o filme dela; daquela falsa puta ruiva. Que cabra. Bebe, disse-lhe. Crivou-me os olhos entre o nariz, furiosa, por certo, desarrolhou e enfiou o gargalo na boca, até o Hel ficou tonto, até a garrafa ter sido despejada.
Topei o Securitas ao canto da estação a franzir o sobrolho e gostei ainda menos da maneira como as coisas se estavam a desenrolar. Era o momento de fazer alguma coisa e dei mais um gole: “Mexe-te, anda, vamos trocar de carro, ias batendo lá atrás, lamento, volta para a tua chocolateira."
Então, com um sorrisinho escarninho, entre dentes, acrescentei: “Podes levá-la, isso, leva-a, leva-a contigo, otário!..” confiante de que, pelo menos por enquanto, restabelecera a minha supremacia sobre o esquema geral dos coisas e sobre a minha amizade com o Hel em particular. Afinal de contas, eu e ele éramos amigos, long time, e ser amigo também é não abusar. É como esboçar um não o faças e isso juntava-se à equação do meu novo veículo que o meu pai me oferecera e… Compreendem. Coisas de documentos. Os documentos eram importantes. “Lúcio, porque é que não te calas?” falou a puta.
Miravam-me e ao meu companheiro, promissores e convidativos, os seus olhos verdes, e os seus lábios de púrpura seda sanguinolenta desenhavam-se num sorriso de parvoíce completa, relaxada... Que puta tão bela, estaria embriagada? Talvez não passasse de um desejo inflamado pelo álcool, pelo meu álcool, comprado com o meu dinheiro, nos meus bancos do meu R6 de cabedal; “Dá-me lume amor, dá-me lume”, replicou, no gozo, a gozar o prato como se fosse a primeira vez.
Sim, dou-te. Sim, dás-mo, ele ri-se de ti e do teu carro. Sim, tu ainda te ris mais de nós os três. És um tonto, Lúcio. Sou? Tu é que és uma tonta, uma desvairada, Ariel, cuspi para o Hel, recordando-me do seu nome.
Parecíamos três fedelhos, quando bati com a porta do meu carro e me encaminhei decidido para a deprimente chocolateira dele (céus, como era capaz de conduzir tal desastre), mas eu, pelo menos, desejava algo mais naquela noite, noite de estrelas e de medo, inexoravelmente, involuntariamente, eu queria mais, mais. Queria mais. Queria a mulher, ponto e dei a chave e o motor pegou. Rouco a princípio. Regular, depois. O Hel deu à chave no R6. A ruiva, a tesão rubra que ela me havia provocado, deitou-se fora da visão no banco de trás. E, se bem conhecia o meu caro Hel, não estava sozinho na minha ânsia. Fosse como fosse, decidira que a noite não seria de partilhas, de algum modo, era matar ou morrer, ou melhor, conduzir até à quinta dele.