Capítulo XVI

Quase de imediato desatei à gargalhada, era necessário não perder o sentido de humor, sim era necessário: eu e a Ariel? A Ariel e eu? Ahahah! E que tal ser salvo da enrascada em que me encontrava pelo Pai Natal?.. Sempre seria mais credível e, afinal, até estávamos na época dele dar as caras por essas chaminés demasiado esbeltas fora, gargalhei, efusivamente. Por fim, lá me controlei, limpei a baba dos lábios e assumi de novo uma expressão séria. O caso não era para graças, reflecti, os meus «amigos» continuavam o seu percurso para parte incerta, estava convencido de que seria para Sintra, mas não podia ter a certeza e, mais a mais, cada quilómetro que percorríamos reduzia as minhas opções de forma dramática. Maldição.

O que precisava era dum copo, estava outra vez a doer-me a cabeça, uma moinha que conhecia doutras madrugadas igualmente exasperantes; o pior é que tinha para comigo que a tendência não seria a de melhorar, provavelmente não. Um charro, um charro, só por causa das moscas, já se fumaria, ajudaria, deixar-me-ia mais alerta. Recordei que tinha precisamente o que precisava no bolso da camisa, uma broca que tinha feito há uma data de tempo, enrolara-a com a intenção de a partilhar com o Hel só que, dado tudo o que se passara, esquecera-me por completo. Levei a mão ao bolso da camisa e encontrei o meu cilindro. Estava amarrotado mas, não molhado, fixe, tinha uma broca, era fumá-la e serenar.

Entretanto, os outros seguiam mais devagar, mais calmos, já era tempo, moderei também a velocidade, acendi a ganza, dei duas longas passas (bom stuff, muito bom stuff), e pus-me a pensar. Desde que saíra da quinta do Hel atrás do «tubarão» e do «fuinha», os acontecimentos haviam-se desenrolado de forma completamente imprevista. A história não fazia sentido e dei mais dois longos tragos no meu «impulsionador da razão». Tossiquei. Por certo, recapitulei, estava na presença duma quadrilha, duma associação criminosa e, pelo menos parte dela, se não toda, tinha por base o 23, em Lisboa. Curioso, muito curioso. Dei mais uma passa de encher a caixa torácica até à glote, apaguei o charro no cinzeiro do R7, aguentei uns 30 segundos e lá exalei, quente, recuperado, pronto para nova reflexão.

«Eles», a Telma, o Megalodon, o Fuinha, eram todos do 23, mas não era para lá que se dirigiam. Curioso. Engatei a quinta e lá me deixei ir, suavemente, pela recta fora. O primeiro problema era a Telma. Porque nos seguira? Queria qualquer coisa de nós e, quando a surpreendera, fizera-se de novas, puxando pela carta da paixão. Hm.

O segundo problema eram o Tubarão e o Fuinha. Aqueles dois cromos não se enquadravam no puzzle, parecia estranho terem aparecido, vindos nem se sabia bem de que 31, sem mais. Tinha de pensar nesses dois, sempre me haviam tratado respeitosamente - até então-, mesmo o Fuinha, com o qual não trocara mais do que uma ou duas palavras de circunstância; a bem dizer, não conhecia nem um nem o outro, excepto do 23, onde nem sequer ia todas as noites.

O terceiro problema era o homem, aquele que dera as ordens e que seguia no alfa spider preto que liderava a caravana. Diabos, esse gajo da boquilha e do panamá não me era estranho, sabia que o conhecia de algum lado mas, de onde?

Havia ainda mais um problema: a ruiva, a Ariel, como é que ela se encaixaria no puzzle? Hm. Vendo-os apressarem-se, pisei também no acelerador. Na volta, não se encaixava, tinha sido um mero acaso, não deveria ter nada a ver, ou bem que os tipos tinham assunto comigo, ou bem que tinham assunto com o meu bom Benjamin, o Hel, só podia ser isso, a Ariel estava a levar por tabela, saíra-lhe a fava do bolo-rei, enfim, acontece aos melhores, mesmo no Natal, ou na véspera, bocejei, anotando que faltavam três dias para passar a noite com o velhote, caindo-me a cinza do charuto entre as pernas, escapulindo-se por entre o tecido das calças, aterrando-me no colo; era óbvio que me encontrava comovido.

De súbito, umas palavras que o «tubarão» proferira quando ele e o «fuinha» revistavam a casa do Hel saltaram-me à cabeça, ensurdecedoras: «Esse cabrão do Lúcio! Enganou-nos, deve ir também no carro, filho da puta!»

Pois era, fora isso que dissera aquele escroque e isso só poderia significar que o rapto do Hel e da Ariel não era o objectivo primário daqueles tratantes: era de mim que estavam à procura, o dito carro que o «tubarão» mencionara era o meu carro, o R6 que seguia na estrada - lá à frente! Senti um calafrio percorrer-me o corpo todo, estremeci e involuntariamente pisei ainda mais o acelerador. Respirando fundo, levantei o pé. Tinha a boca seca. Eles andavam atrás de mim e eu, dava agora fezada da cena, andava estúpida e literalmente atrás deles; mais idiota do que isso, não, não podia ser!

Mas, se era de mim que queriam batatinhas, talvez fosse melhor esquecer a perseguição e, ao invés, contactar as autoridades, logo que me fosse possível. Sim, era isso mesmo, quem queriam era a minha pessoa, o Hel e a Ariel não lhes interessavam para nada, por certo, assim que vissem que eles nada sabiam, os deixariam partir…

Por outro lado, estava quase sem gasosa, arriscava-me a ficar apeado no meio de nenhures e a perder um tempo precioso; o mais acertado seria parar mal visse uma estação de serviço ou uma cabine telefónica e contactar as autoridades. Claro! Era a mim que eles queriam, não era nem ao Hel nem a à Ariel, soltá-los-iam assim vissem que eles não lhes podiam dar quaisquer informações sobre o meu paradeiro!

Ou não… Ou não, pois, cavalgaduras como o «tubarão» e o «fuinha», em rilhando os dentes numa vítima, não a desaferrolhavam por dá cá aquela forquilha, sem mais, prestimosos, atenciosos, «faça favor de desculpar, foi um engano, um engano inocente». Nã, não eram bichos para isso, mesmo que, ao avesso de caviar, as «vítimas» lhes soubessem a banha de porco sem glúten; não, não o fariam, pelo contrário, o mais certo seria irem um buscar um saleiro e a pimenta e cozinharem tudo em lume brando, sempre daria um gostinho de consolação à banha e, aqueles dois melros, se é que sabia alguma coisa sobre pássaros, eram criaturas de muito, muito mantimento.

Pois, pois era, isso era mau, assaz mesmo. Abri a janela, senti-me revigorado pelo ar fresco da noite e escarrei, para o asfalto, despejando nele uma boa parte do meu stone. Começara a chuviscar de novo e não era capaz de tomar uma decisão. Deveria parar assim que possível ou continuar a perseguição? Voltei a subir o vidro. Soltei uma imprecação – Raios -, se andavam atrás de mim, teriam de ter um motivo, esse é que era o problema real; porque belzebus andariam atrás de mim?

Quer dizer, sabia bem que era um tipo charmoso, quando queria, encantador, sem rival à altura; crescera fruto de famílias brasonadas com sobrenome, dinheiro (bastante até, dependia do que se entendesse por isso), terra, morgadios e tinha uma carreira promissora no Ministério dos Estrangeiros mas, daí a ser popular junto de figurões como aqueles… Nã, murmurei, ainda se fossem caçadoras de fortuna, putéfias, tipos à procura de cunhas, poderia bem ser; assim, como as coisas se apresentavam é que… Nã, exclamei em voz alta, desconfiado. Liguei o rádio. O locutor anunciava que eram cinco para as quatro e que se previa uma manhã de vento e de chuva; sentia-me exausto, desde as seis da tarde do dia anterior, quando saíra do Ministério, nada me correra bem, nada. O Ministério! Era isso, o caso estava ligado ao Ministério, tinha de estar e, se estava ligado ao Ministério, ponderei, sentindo as velhas engrenagens do cérebro rangerem cada mais depressa, só podia estar ligado aos documentos, aos documentos secretos que deixara na mala do R6, os quais nem sequer me dera ao trabalho de cuscar no dia anterior – sim -, só podia ser isso, andavam atrás dos documentos!

A minha decisão estava tomada: seguiria os escroques que haviam raptado o Hel e de brinde me haviam azougado o R6 e os documentos. A ironia da situação fez-me sorrir, eles tinham, ali, mesmo à mão de semear, o milho que os havia feito adejar sobre nós, como abutres; só que não o tinham topado e agora lá iam, comigo na sua cola. Havia esperança, a madrugada ainda era uma criança, quem sabe, talvez até pudesse reverter o curso normal dos acontecimentos em meu benefício: «Lúcio Ferro, quadro dos Estrangeiros, soluciona conspiração internacional»; «Lúcio Ferro recebe do PR Ordem da Liberdade», na minha euforia já via páginas e páginas de jornais enaltecendo os meus feitos futuros, o meu pai sorrindo, de braço dado no palanque com o eterno candidato, finalmente orgulhoso do seu filho!

Depressa tropecei na realidade, os «outros», após uma curva apertada, viraram à esquerda e meteram para Sintra. Óptimo, quase que gritei, em Sintra, perto do palácio, estaria como se estivesse em casa, de facto, a partida não estava perdida. Se a onda «deles» fosse essa, possuía suficientes recursos para inverter a parada. Mal tinha engatado a terceira quando todas as minhas vãs esperanças se desmoronaram; na rotunda que dava para a vila, como se tivessem desconfiado, haviam tomado a saída da direita, ainda na nacional 9, retomando o percurso para Norte.

Bom deus, onde iriam eles? O pior de tudo era não estar no R6, se estivesse no meu automóvel, o equipamento de GPS rapidamente, ter-me-ia dado as coordenadas de rumo existentes a partir daquele ponto onde me encontrava, só que não era esse o caso, estava no R7 e não tinha GPS, tinha uma luz laranja. Casquinei - tratava-se duma cena à MacGyver.

Puta que parisse a situação; deitava, agora, cada vez mais insistente, olhares quase ou nada furtivos ao mostrador da gasolina. Embraiei a quarta, tentei manter a distância, se me topassem estava tudo acabado, voltei a ligar o rádio, levantei o pé, dei 10 segundos, meti outra vez a terceira, fiz saltar o carburador duplo e, só pela companhia, subi o volume: «De acordo com uma fonte governamental, existem indícios de fugas de informação no Minist»… Desliguei aquela porra.

Tinha de voltar a concentrar-me, tinha de manter a calma, tinha de conduzir, mantendo a distância, o conforto da distância, tinha de estar alerta aos buracos e às curvas, já não falando «deles». Então, curvaram de novo para Leste, afastando-se da via que dava para Sintra, subindo pela direita. Agora, haviam-me fodido, tramado, e bem. Hm. Onde iram? Qual seria a onda deles? Tanto quanto sabia, continuávamos na nacional 9, direcção Norte, isso era um facto, reconhecia os armazéns que ladeavam a estrada. Estávamos na zona industrial do Ral, não gostava daquele sítio, nem de dia me agradava, quanto mais de noite. Só armazéns, naves, negócios import-export manhosos, maquinaria agrícola, adubos, arame farpado, chips, hardware; já de luzes, muito ou muito pouco nada. Caralho - vociferei -, onde iriam «eles»?

Galgávamos quilómetros atrás de quilómetros, estava quilhado, ia ficar apeado no meio de nenhures, só podia, maldita sorte, o que não daria para estar naquele momento na cama da Angélica! Que saudades tinha dela!