Ariel - Capítulo IX

«Lúcio, meu, não bebo mais, combinei amanhã de manhã com a Teresa, não posso aparecer todo fodido!», insisti, antecipando como acabaria a nossa incursão no bar, pois já sabia que quando não aguentava a bebida na cabeça, também não a aguentava no estômago, e que a minha noite ficaria arruinada. «Calma, meu, tem calma, deixa lá ‘tar a pequena (pesquei o piscar de olho que Lúcio lançou para a puta ruiva sentada entre nós os dois), bebe mais uma aguardente e repara como é belo o mundo», proferiu, pausado e marcando bem as sílabas, com um largo gesto de mão, abarcando o ambiente em nosso redor.

A ruiva, sem aviso, espetou-me a língua quente no ouvido, apresentando argumentos irrefutáveis a que ficasse sentado no lugar, e uma forte reacção por trás do fecho das calças não se fez esperar, uma saudação à língua dela no meu ouvido, movendo-se em lentos círculos. No entanto, e por muito empenhado que estivesse em continuar fixado no assento, com o corpo quente dela a roçar-se no meu e na companhia da aguardente do Lúcio, saltei da cadeira, «vou à casa de banho, tenho de ir à casa de banho!», amparei-me na mesa com uma das mãos, apoiei o corpo, ainda num equilíbrio hesitante, e, incerto de para onde me devia dirigir, onde raio é a casa de banho!?, pensei, em desespero face à perspectiva de me humilhar no 23, numa passada larga, agarrado ao estômago, lá a encontrei, por trás de uma porta de madeira, pintada de branco, mas já amarelada pelo tempo e pelo tabaco, uma casa de banho suja, porca, a tresandar a mijo e a vómito. Eu seria apenas mais um. Sem cerimónias, ajoelhei-me, prendi as mãos ao mármore e enfiei a cabeça na retrete. Levantei-me lentamente, já mais lúcido, se bem que ainda bêbedo, naquele estado de semi-lucidez ébria (ou semi-loucura sóbria, conforme se seja do tipo meio copo vazio, meio copo cheio), limpei a boca às costas da mão, avancei para o lavatório, abri a torneira, que chiou e se engasgou com o ar, e levei uma concha de água à cara, outra, e ainda mais outra, esfreguei os olhos e mirei-me no espelho. O reflexo retorquia-me os meus olhos raiados de sangue e os meus lábios secos. Apercebi-me de que estava cheio de sede, voltei a abrir a torneira e bebi até o gosto a serradura desaparecer da boca. Já me sentia bem melhor. Não me devia meter nestas merdas, pensei, enquanto observava o espelho manchado e partido num dos cantos. Com um pai ceifado por cirrose e um avô com problemas de úlcera, talvez fosse boa ideia dar um descanso ao meu fígado amargurado.

A propósito, estariam o Lúcio e a ruiva à minha espera, na mesa do bar? O mais provável é que se tivesse escapulido com a miúda. «Nããã», afastei esse pensamento da cabeça, «ele é meu amigo, não me abandonaria à minha sorte num bar mau reputado e num ambiente hostil como este». Ri-me dos meus próprios pensamentos… ambiente hostil… E a ruiva? Teria engraçado com o Lúcio, ou comigo? «Ora, esquece isso rapaz, repara mas é bem naquele traço!», segui a voz do Lúcio em direcção à entrada e, parando o copo a meio, voltei a pousá-lo, mirando-a de alto a baixo, à medida que se aproximava da nossa mesa com passos fulgurantes, emanando sensualidade à sua passagem, capturando olhares e obrigando pescoços a torcerem-se em posições pouco naturais, com os caracóis vermelhos esbatendo qualquer cor que pudesse existir na sala. Vinha com um cigarro comprido no canto dos lábios, parou junto à nossa mesa e, com uma voz suave e hipnotizante, perguntou-nos se tínhamos lume. Olhei em redor, com a claustrofóbica sensação de que todo o bar nos observava, expectante, como a família que se reúne no sofá para ver o desfecho da telenovela da noite. Lúcio e eu ficámos mudos por instantes, respondemos que sim, claro, mas, mais ágil do que ele, lancei a mão ao isqueiro do meu amigo, em cima da mesa, e acendi-o. Inclinou-se e aproximou o rosto do meu; colocou uma mão quente sobre a minha. Levantou os olhos para os meus e vi que eram verdes, intensos, mas estranhamente frios, em contraste com a ponta do cigarro, que via incendiar, por entre a chama do isqueiro, num fulgor vermelho e incandescente. Voltou a erguer-se e libertou o fumo, expirando lenta e longamente, como se entediada. Por baixo da mesa, um peso abateu-se em cheio no meu pé, quase arrancando-me um grito silencioso, quando ouvi o Lúcio, que retirava o sapato pesado de cima do meu, e me instigava, sibilante, «oferece-lhe uma bebida, infeliz!», tossicando, em seguida. Assim fiz, ela aceitou, sentou-se à nossa mesa e o resto decorreu naturalmente: continuámos a beber e observava o meu amigo enquanto delineava os planos para a madrugada que começava a romper. Deixei-o fazer o que sabia fazer melhor, sempre participando deste diálogo a três, nunca me deixando apagar, claro, o Lúcio era um gula, e até suavizando algumas indelicadezas que lhe saiam pela boca, muitas pensadas, outras nem tanto, mas sem atrapalhar o jogo dele, que, no final de contas, acabaria por me beneficiar. A ruiva fora à bola comigo, isso parecera-me óbvio, pelo menos pela forma como roçava o corpo no meu e passeava a mão na minha perna, por debaixo da mesa. Tudo augurava um desfecho favorável para os meus lados, até fraquejar e correr para a casa de banho, merda de estômago doente e fraco! Mas, era estranho, uma miúda tão bonita… bonita de mais para levar a vida que levava. Tinha um magnetismo que não se encontrava por aí em qualquer canto na rua. Aos poucos, monopolizara o espaço e o assunto, e isso não se devera somente ao par de longas pernas esculturais, busto convidativo, cabelo de fogo e lábios vermelhos e insinuantes. Sim, nada de ingenuidades românticas, eram, de facto, atributos que só favoreciam esse magnetismo; porém, havia mais alguma coisa, escondida, como se ela apenas nos tivesse apresentado uma fachada, uma máscara, algo nos seus olhos verdes que absorvera toda a minha atenção, esgotando-me a mente. Já visitara o 23 noutras ocasiões com o Lúcio e, para puta, havia algo que a denunciava na forma de se comportar e falar como pertencendo a uma outra esfera social de putas, daquelas às quais nenhum meco sentado numa cadeira dum bar tem os meios para aceder, mesmo na companhia de um amigo com cartão ministeriável.

A porta batia ruidosamente e parecia querer ceder nas dobradiças. Acordei, abanei a cabeça, voltando a agarrar-me à realidade. Já me sentia melhor. «Ó da casa, ainda demoras muito?» Ouvia os urros de um tipo, pelos vistos em pior estado do que eu. Abri a porta e, sem me dar tempo de sair, abalroou-me, quase tropeçando, e colocou-se na mesma posição e no local exacto que eu ocupara não fazia ainda dez minutos. Saí e fechei a porta, deixando o homem gozar a sua privacidade e entregue aos seus pensamentos, fossem eles quais fossem. Num ápice, de olhos bem arregalados, corri as mesas em busca da ruiva e do Lúcio. Nada. Nem sinal dos dois. «Não é que o sacana me deixou mesmo sozinho?, aqui, a ver navios». Enquanto passava as mesas a pente fino, dei com o tal homem que ocupava a mesa do canto, envolto em penumbra, o tal com quem a velha catatua fora ter depois de tentar a sua sorte comigo. Desta vez, estava acompanhado por outra mulher, bem mais apetecível e agradável aos sentidos, uma loira, a loira. Estava com o rosto quase colado ao do homem e conversavam em sussurros exaltados, cheios de secretismo e suspeitas, ele segurando-a pelo pulso com firmeza. Ela libertou-se com um puxão e o homem pareceu conter um gesto mais violento. A loira recostou-se na cadeira, cruzou a perna coberta pelas meias negras, terminou a bebida e levantou-se. Ia em direcção à saída, aparentemente insatisfeita com alguma coisa, e os seus olhos escondiam uma estranha desilusão. Algo me disse que não seria boa ideia ser apanhado a observar estes dois; dando um passo atrás, recolhi-me na sombra, esperando discretamente que a loira desfilasse por mim. Saí para a luz e tirei o telemóvel do bolso. Tinha de encontrar o Lúcio. «O seu saldo não lhe permite efectuar esta chamada, bla, bla, bla». Não tinha saldo no telemóvel. E agora? «Ó, jovem! Jovem!» Fui acordado pela voz cavernosa do bartender, que acenava e chamava por alguém, um pretenso jovem, que, supostamente, se encontrava na mesma direcção que eu. Era a segunda vez que me acordavam naquele bar. Olhei em volta e como se não descortinasse ninguém tão jovem quanto eu nas imediações, com um ar inquisitivo, virei um dedo para mim próprio. «Sim, sim, você! Venha cá!» Curioso por saber o que quereria o tipo, dirigi-me ao balcão. Teria o Lúcio bazado sem pagar?, ocorreu-me, assim, inesperado e alheio à minha vontade, este pensamento, reflexo, com certeza, da sova que levaria do segurança, consequência de não ter um tusto no bolso para pagar champanhe e aguardente velha. Chegado ao balcão, com ar hesitante, o sujeito (ele, também, um gorila gigante, que mais facilmente passaria por segurança do que por bartender) leu-me os pensamentos, sorriu e disse que não me preocupasse, «eu cá me entendo com o doutor, não se preocupe. Tome». De debaixo do balcão, sacou as chaves do meu carro e entregou-mas, «o doutor deu-mas e pediu-me para lhe dizer que está à sua espera em frente ao governo civil, na rua de cima». Balbuciando um agradecimento, ao qual o fulano replicou com um monocórdico «de nada», rodei nos calcanhares e dirigi-me para a saída. De repente, o meu telemóvel tocou, estridente, mas não o suficiente para se sobrepor à música. Saí em passo apressado, passei pelo segurança sem olhar, vesti o casaco e olhei para o visor luminoso do aparelho, que acusava o nome do Lúcio. Decidi pregar uma partida ao meu caro amigo: «‘Tou?» «Onde estás meu?» «Isso digo eu, sacana, fugiste com o meu amor, fugiste com o amor da minha vida!», gritei, cheio de uma falsa raiva, gozando o prato enquanto sentia um silêncio pesado e desconfortável instalar-se no outro lado da linha. Tapei o bocal, ri em silêncio (reparei que o segurança também sorria, à porta, percebendo o meu esquema) e, em esforço, continuei: «‘Tou, Lúcio, tás aí? Meu, vem buscar-me, ‘tou à porta do 23. Onde ‘tá o carro?» «‘Tá onde o deixaste meu melro, onde querias que estivesse?», retorquiu, revelando-se impaciente para as minhas brincadeiras. Decidi continuar, «Ok... Er... Já vou, melhor ainda, anda cá ter, vem buscar-me!» «Não posso, meu caro, estou ocupado», respondeu. «‘Tá quieta miúda, não toques nisso, entra para dentro do carro!», ouviu-o dizer, longe do bocal. Parecia que a ruiva ainda estava com ele e já dentro do carro. «Hel, meu, vem ter aqui ao governo civil e mexe-te!» «É mesmo ao lado do São Car…» «Sim, mesmo ao lado do São Carlos, mexe-te que tenho um doce para ti!» Lúcio escapulira-se do bar com ela durante o meu breve recolhimento na latrina, mas esperava por mim, afinal de contas, leal aos velhos princípios que regiam a nossa amizade. «Foda-se, Lúcio, tu e as tuas surpresas maradas, estou a caminho». Desliguei e sorri ante a surpresa do Lúcio, que já começava a adivinhar. Deitando para trás das costas responsabilidades e compromissos do dia seguinte, decidi oferecer-me uma festa de natal antecipada. Sem dúvida, esta noite apresentava uma oportunidade única.

Comecei a caminhar na direcção oposta ao governo civil, tinha de ir buscar o R7, tinha de ir buscar a chocolateira. Chegado ao local, enfiei-me no carro, saí do estacionamento e, com o pé pesado no acelerador, ignorando o chiar da embraiagem, galguei os metros que me separavam do governo civil. Quase a chegar, evitei mesmo à justa um enorme buraco, um dos muitos que decoram a baixa, e quase arranquei o espelho a um Volkswagen Miura branco, estacionado uns bons metros atrás do R6 do Lúcio. Travei a fundo ao lado do bólide, uma paragem perfeita enfeitada por um chiar de pneus e temperada com o subtil aroma a borracha queimada, abri o vidro, assomei à janela e espreitei para dentro do carro, «Então, Lúcio, esse doce é para hoje ou para amanhã?», perguntei, num tom meio carregado de ironia, meio carregado de cumplicidade. Sem responder, levou a mão ao bolso do casaco e devolveu-me a carteira, ao mesmo tempo lançando-me aquele olhar cúmplice, um olhar que desenvolveramos entre nós ao longo de muitos anos de convivência, a plantar batatas e a colher couves, um olhar que não queria dizer nada, mas que, ao mesmo tempo, queria dizer tanta, tanta coisa, permitindo-me a janela de tempo necessária para mergulhar nos olhos verdes da ruiva uma vez mais. Ela devolveu o olhar e fixou no meu o verde frio dela, numa luta para ver quem desviava primeiro o olhar. «Ahem, Hel!», Lúcio chamou-me e concedi a vitória à ruiva. «‘Bora, meu?», observei-o com atenção e constatei que, apesar de sempre beber com profissionalismo, o meu amigo estava com os copos. Ainda por cima, já instalara a miúda nos estofos em pele do seu R6 novinho em folha topo de gama. «Lúcio, achas que estás em condições de conduzir?», perguntei, expressando uma preocupação genuína pelo meu amigo. Ripostou, sarcástico, como era por vezes seu apanágio quando respondia a observações que para ele não faziam sentido, que tinha de estar, não é?, que o carro não se ia conduzir sozinho até Cascais! «Claro, meu, claro, estou só a dizer que não devias arriscar, visto que estás com o teu carrinho novo e quê… se bates, é um desastre, o teu pai vai foder-te o juízo, e que és irresponsável, e que és um bêbedo…» Vi o lábio de Lúcio reprimir um trejeito e as sobrancelhas negras fecharem-se sobre os olhos; desencadeara-se no seu espírito uma luta interior. Apercebi-me disso e puxei a corda, «Porque não me deixas levar o teu carro? Levas o meu, também não se perde muito se lhe acontecer alguma coisa». Percebi que a dúvida persistia em roê-lo por dentro. Enquanto reflectia nas minhas palavras, voltei a mirar a ruiva, mas ela parecia absorta no seu próprio mundo. «Ok, Hel, podes experimentar o meu brinquedo novo», cedeu, por fim, «mas cuidado, puto, nem um risco, tu tem cuidado!», avisou, paternalista, como se tivesse tirado a carta há dois dias. «Lúcio, sou eu, estás a falar comigo», comprimiu os lábios, algo que fazia quando concedia a vitória numa discussão, ainda duvidoso da sua derrota e ciente de que saíra a perder da situação. A ruiva não se mexeu para mudar de carro. «Estou mesmo atrás de ti», disse-me. Trocámos as chaves num aperto de mão e metemo-nos nos carros. Eu no R6, o belo do R6, a cheirar a novo, travões ABS, direcção assistida, ar condicionado, estofos em pele e uma mulher deslumbrante sentada neles. Lúcio entrou no meu carro, não sem que a fechadura da porta, da qual só eu conhecia a manha, lhe desse a devida luta, e deu à chave. Por meu lado, podia jurar que o seu rosto espelhava uma certa nostalgia, talvez por voltar a conduzir um carro tão velho. Afinal, antes do R6, nos tempos da faculdade, conduzira uma banheira não muito diferente desta. Deixando reminiscências de lado, virou-se para mim, «Como é, vamos?»